Mjölnir - Uma História Viking Follow story

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Os trovões e a chuva ainda estavam fortes, não parariam tão cedo, mas Temari respirou fundo e, com um passo de cada vez, foi andando. Os pingos da chuva embaçavam sua visão, mas ela conhecia aquele caminho como a palma da mão. Fechou os olhos e seguiu reto, sabia exatamente o ponto que pararia. Colocou algumas runas que levara consigo fazendo um círculo em volta de si, no chão. Sentou-se, respirou mais profundamente. Deu o maior grito que poderia dar. Gritou mais alto que o próprio trovão que Thor descarregou ali perto.


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Capítulo 1

Noruega - Reino de Thyra

Chovia há alguns dias. Os trovões eram fortes e o calor já não era mais sentido por ali, no entanto, não havia neve e o inverno estava longe de chegar.

A escudeira olhava as gotas grossas escorrerem pela palha do teto e perfurar o solo com sua inabalável insistência, seus olhos pareciam frias pedras de jade e seu rosto mármore, mas seu coração pulsava em preocupação.

Vestiu seu casaco grande de pele e saiu. Seu irmão, Kankuro, não teve nem tempo de perguntar o que houve e escutou a porta bater.

A ansiedade a consumia e não era um sentimento recente. Foi andando embaixo da chuva até uma estrada enlameada que daria para a montanha de Trolltunga. Temari tomava esse caminho todas as vezes que a insegurança pulsava e precisava da resposta de Thor. Era ali que se sentia mais próxima a ele. Era ali que ela sentia que ele podia ouvir seu clamor.

A chuva não dava trégua, batendo violentamente nas partes descobertas pelo grosso casaco e jogando as tranças loiras em seu rosto como chicotes finos e dolorosos, o vento parecia cortar sua pele e forçavam suas pernas a seguir adiante, como se fosse a primeira provação para chegar perto do deus do trovão. Por vezes era demasiado difícil pensar no que fazer ou olhar por onde andava, mas Temari não tinha medo. Não conhecia aquele sentimento desde que decidira ser uma escudeira e proteger seus irmãos mais novos. Desde que segurara uma espada pela primeira vez.

Temari era destemida, corajosa, fiel ao seu povo e audaciosa. Já havia algum tempo que seu Rei, Naruto, a havia confiado um barco só de mulheres. Ela as treinava e tinha o respeito de todas por ser uma figura imponente e habilidosa, uma boa líder e tão devota aos deuses. Ela estava onde queria chegar, lutava com seu coração e sua espada servia fielmente os deuses e seu rei, entretanto nada disso tinha sentido com Naruto perto da morte.

Vikings não temem a morte, esse não era o real problema, mas o que deixava aquela escudeira angustiada era saber que haviam terras a serem exploradas mais ao longe e não poderia fazer absolutamente nada, afinal, seu rei precisava de todos ali mais do que nunca.

Naruto não curava de sua febre e suas feridas não se fechavam e expeliam um grosso e fétido líquido amarelo. O povo de Thyra estremeciam e clamavam aos deuses para que dessem uma morte mais honrada ao amado rei, ainda mais agora que que sua espada havia conquistado mais um reinado. Na última batalha que tiveram, Naruto lutou contra o Rei da Dinamarca.

Era para ser uma reunião que faria os povos da Dinamarca e Noruega se unirem e expandirem suas terras para além mar, mas o rei Zetsu da Dinamarca mostrou-se uma víbora traiçoeira. Ele convidou todos até ele para uma confraternização e ofereceu a mesma hospitalidade que daria ao pior dos inimigos, levantando espadas e gritando os brados de guerra enquanto encurralava o pequeno e praticamente desarmado exército norueguês.

Naruto e seu povo venceram a batalha depois de uma sangrenta e quase invencível luta, os méritos iam para seus bravos e bem treinados guerreiros e ao amado rei que perfurou, mesmo que as peles que formavam seu manto real estivessem gotejando sangue, o peito do rei Zetsu o matando em seu próprio trono. Assim, Naruto tomou conta dos dois reinos, mas as feridas não se fecharam e a febre ameaçava sua vida. Para a maioria, Naruto havia sido envenenado, mesmo que os curandeiros não conseguissem encontrar vestígios disso, então apenas restava a esperança de que o rei pudesse alcançar Valhalla como um guerreiro e ser carregado por uma bela Valquíria, não como um moribundo.

Temari, como outros fieis ao rei e fortes de admiração, acreditavam que Naruto sairia de sua cama e fecharia os próprios cortes com aço quente, brindaria por sua força com o melhor vinho e o céu se abria com seu sorriso tão brilhante quanto o sol, então ele comandaria os navios para além mar. Seria um grande marco na história, pois nenhum viking havia mudado sua rota de navegação para aqueles lados.

Temari inutilmente tentou enxugar as gotas que embaçavam sua visão e corria para subir o mais rápido possível pela grande montanha de Trolltunga. Seus pés deslizavam algumas vezes pelas pedras lisas com a água da chuva, mas ela não desistia, se segurando em ramos e galhos finos e forçando seu corpo a ser tão forte quanto sua determinação.

Era uma subida íngreme, difícil, mas ela precisava conversar com Thor. Ele parecia muito nervoso esses dias, e quanto mais alto subia, mas Temari tinha certeza que precisava conversar com ele.

A escuridão era mais uma provação dos deuses, ela não enxergava com nitidez e a chuva batia cada vez mais forte, mais dolorosa. Suas pernas tremiam de frio molhadas e fracas, suas mãos sangravam tentando se segurar até mesmo em espinhos para não cair. Mas ela continuava, ela precisava, enquanto não conseguisse, não pararia.

Quando Thor se enfurecia e os céus ficavam negros, a noite parecia maior que o dia e Temari apertava os dentes pensando que outro dia poderia ter nascido depois de tanto tempo subindo, mas não havia sinal de sol ou que a tempestade passaria. Forçou seus pulmões a aspirarem uma quantidade grande de ar e balançou a cabeça diante do mal presságio que aquilo parecia.

Seus lábios tremiam, assim como suas mãos e pernas. Seu corpo já quase não a obedecia e se mantinha ainda em pé com uma força sobrenatural, mas seus olhos verdes se destacavam brilhantes naquela tempestade angustiante quando se viu no topo. Abriu os braços sorvendo o ar gélido como se ele purificasse sua alma e revitalizasse seu corpo. A sua frente estava a grande pedra de sacrifícios na beira do abismo. Fechou os olhos e seguiu reto, contra o vento ainda mais forte e a chuva mais cortante, sabia exatamente o ponto que pararia.

Organizou com cuidado as runas que levara consigo fazendo um círculo em volta de si, no chão. Sentou-se sem mostrar a dor que sentia, respirou mais profundamente e despejou todo o seu clamor, toda a sua fúria e angústia num grito que reverberou alto no apogeu da grandiosa Trolltunga.

Gritou mais alto que o próprio trovão que Thor lançou perto de si.

⚭⚭

Temari sentiu uma forte dor em todo o seu corpo e desconforto com a luz brilhante que penetrava por suas pálpebras e as abriu de forma sôfrega até que seu cérebro cansado compreendesse que aquela luz era o sol e que havia adormecido em uma estranha posição perto da pedra de sacrifícios. Ignorando os protestos de seu corpo, ela se ergueu rapidamente e com uma felicidade lancinante percebeu que as runas haviam desaparecido.

Agora não mais gritava, mas sim ria. Gargalhava tão alto que sua barriga e maxilar doíam. Em pé, passou a mão ainda suja pelo rosto, coçou os olhos inchados e rodou no mesmo lugar com os olhos passando por todo o cume verde. Tentava achar suas runas, mas não estavam mais ali. Não era mentira, Thor ouvira ela naquela noite, ele aceitou suas runas e as pegou.

Ajoelhou-se perante aos raios de sol no horizonte e agradeceu a seu deus, Temari agradecia com as mãos para alto rindo e sentindo a esperança aquecer seu coração.

As pedras ainda estavam um pouco escorregadias na descida, mas o sol estava ali. Correu em direção ao vilarejo, o mais rápido que podia, escorregou algumas vezes, mas não caiu. Era como se Valquírias segurassem seu corpo e não deixasse que caísse. Tinha de ver como Naruto estava, se fosse tudo conforme o esperado, ele estaria melhor, quem sabe até Thor teria misericórdia e o tivesse curado.

Corria floresta adentro pulando pedras e riachos, desviando de galhos pequenos e armadilhas quebradas, sentindo o ar ameno de um dia caloroso em sua face. Alcançou a orla da floresta e não parou de correr quando avistou as casas cobertas de madeira e palha e as pessoas que se apressavam para fora.

― Temari? ― O construtor de barcos a gritou surpreso quando ela apareceu correndo e suja até os ossos. ― Onde esteve? Seus irmãos estão procurando...

― Yamato! Estou de passagem. ― Respondeu afoita sem parar.

― Ei, espere! Os deuses ouviram nossas preces! – Ela parou e se virou aturdida. – Coloque a mão nos troncos das árvores.

Temari fez o que foi pedido, mas não entendeu.

― O que há?

― Estão secos. Olhe. ― Yamato disse segurando um tronco que acabara de cortar. ― Fazem 4 dias que chove sem parar, como pode estarem secos assim?

Temari arregalou os olhos e começou a gargalhar.

― Foram os deuses... Os deuses estão querendo que você construa nossos barcos o mais rápido possível. Você não sente?

Yamato começou a rir e se encher de esperanças. A madeira parecia estar ótima para ser trabalhada, realmente parecia que os deuses estavam querendo que Yamato construísse os melhores barcos que ele já construiu em sua vida, e assim ele o faria.

Temari voltou a correr em direção a casa do rei com as esperanças se renovando cada passo mais. Thor tinha mesmo ouvido seus pedidos, até mesmo além do esperado.

Assim que chegou na grande casa de madeira, viu algumas escravas cochichando algo que não era entendível, mas as ignorou por ora, foi adentrando aos poucos a casa de madeira e seguiu para o simples quarto onde ele estava entre a vida e a morte e viu que Naruto não estava mais deitado. Estava agora apoiado em uma de suas escravas que o ajudava a andar.

Naruto, ainda com muitos hematomas no peito dourado e curativos limpos nas feridas antes abertas, andava vagarosamente, mas havia um sorriso enorme em seu rosto. Os olhos de Temari brilharam e seus pés cravaram-se no chão ao ver o que estava acontecendo ali.

― Ora, quem veio me visitar. – Disse Naruto a Temari que ainda estava longe. Seu sorriso era grande no rosto corado.

Temari correu e caiu aos pés de seu rei. Ela ria, não conseguia conter.

― Levante-se, sabe que não precisa disso. – Naruto disse com seu sorriso mais simpático e tentando se inclinar para levantá-la.

Temari levantou-se apressadamente antes que ele fizesse um esforço desnecessário ainda com um sorriso enorme estampado em seu rosto. Naruto passava um olhar meio inquisitivo e meio divertido pelas roupas sujas e o rosto coberto de lama de sua escudeira mais valente.

― Ele atendeu meu pedido. ― Ela disse arrumando sua roupa.

― Seu pedido? Quem atendeu? ― Naruto enrugou as sobrancelhas e inclinou a cabeça para um lado indo com apoio até seu trono no outro cômodo.

― Thor!

― Você foi até Trolltunga outra vez?

― Sim. – Temari disse enquanto Naruto sentava com dificuldade em seu trono já um pouco envelhecido, mas seu sorriso não saia do rosto. ― Veja, ele me escuta! Você está bem, parou de chover... Yamato disse que as árvores estão secas, estão ótimas para começar a construir os barcos...

― Thor escuta a todos, mas só atende os pedidos que merecem pelo clamor de seu nome. ― Naruto a interrompeu relaxando os ombros e olhando com sapiência e um tanto de respeito para a loira.

― Nós merecemos, merecemos conquistar novos horizontes! Os Deuses querem!

― Temari, é muito arriscado levar homens para águas desconhecidas, ainda mais agora que Itachi e Shisui estão com alguns homens na Dinamarca em meu nome... – Naruto colocou sua mão em um dos ferimentos e fez uma careta de dor. Uma de suas escravas se adiantou rápido, mas ele acenou para que ela não fizesse nada, então apontou para sua capa de couro batido e expressou mais dor quando a vestiu com ajuda. Temari assistiu em silêncio, sua postura tão firme quanto sua convicção.

Esperou que ele se restabelecesse para retrucar.

― Arriscado será ficarmos aqui o resto de nossas vidas esperando que tentem tomar nosso reino. As pessoas sabem que você está fraco.

― Sempre tão direta quanto o fio de sua espada. ― Naruto relaxou novamente em seu trono e olhou Temari em silêncio por um minuto inteiro antes de suspirar e olhos fechados e continuar ― Se eu sair, poderão invadir também.

― Podemos deixar pessoas de confiança aqui, montar uma estratégia...

― Preciso pensar, Temari. Vá para casa limpar-se e se alimente. ― Ergueu uma mão a calando e pousou-a em sua cabeça expressando dor. Temari já ia recomeçar percebendo que a conversa terminaria ali, mas Naruto abriu um olho extremamente azul na direção dela e sorriu ― Mas antes, peça a Yamato que faça os barcos, quero estar pronto para tudo.

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Inglaterra - Northumberland

Shikamaru escutava burburinhos de seus pais na cozinha, mas ainda continuava com preguiça, deitado em sua desconfortável cama de palha improvisada. Sua mãe já havia o chamado algumas vezes, mas ele preferia continuar ali, fingindo que ainda dormia. Até que a cortina que separava seu pequeno quarto do restante da casa foi aberta com violência e sua mãe pisou duro. O rapaz escondeu a careta por baixo do cobertor.

― Shikamaru, eu não vou falar de novo! ― Ele abriu só um olho para olhar sua mãe com suas roupas gastas e uma trança despenteada jogada por cima do ombro. ― Seu pai precisa levar algumas espadas para o rei e você terá de ir junto.

O rapaz resmungou, mas se sentou na cama. Prendeu metade do seu cabelo para que não o atrapalhasse, bocejou pesadamente e esfregou os olhos. O sol aparecia de mansinho já pela pequena janela na parede de barro. Shikamaru levantou-se devagar estralando os músculos preguiçosos de seu corpo, pegou a roupa que sua mãe havia deixado no quarto, se vestiu e calçou suas botas. Sua mãe deixava toda manhã uma chaleira com uma bacia em uma pequena mesa para que lavasse o rosto, e assim Shikamaru fez. Resmungou mais um pouco com a água já fria e sentou-se em uma cadeira no cômodo que sua mãe preparava um cozido.

― Toma, coma este pão no caminho. ― Shikamaru o abocanhou e ficou observando sua mãe que não parava um minuto. ― Seu pai já está aprontando tudo, encontre-o lá na ferraria.

― Que saco. ― Shikamaru resmungou. ― Não posso nem comer em paz?

― Se tivesse acordado quando lhe chamei a primeira vez, poderia. ― Yoshino bateu nos ombros de Shikamaru e ele revirou os olhos. ― Vamos, vá logo.

Shikamaru saiu de sua casa resmungando e com o pão mordido na boca. Arrumou os cintos que ainda não tinha fechado porque escutou as ofensas de alguém que passou na rua e o chamou de pervertido.

― Tsc, mal coloquei o pé para fora de casa e já isso.

Foi andando até a ferraria, não era muito longe, mas sabia que iria se atrasar mais se não se apressasse. Quando finalmente chegou na porta, seu pai já estava o esperando com as espadas devidamente embrulhadas em couro e tecido para não perderem o corte. Os dois cavalos já estavam prontos para a partida.

― Pensei que não fosse chegar hoje. ― Havia um sorriso cordial no rosto o pai.

― Que exagero, velho. ― Shikamaru bocejou ainda terminando de mastigar seu último pedaço de pão. ― Já vamos?

― Shikamaru! Oiii! ― Chouji acenou ao fundo da ferraria do rei, seu rosto redondo já estava suado e sujo de fuligem, na mão que acenava estava a grossa luva de couro.

Shikamaru acenou de volta e subiu em um dos cavalos. Ele sentiu, naquele momento, um raro sentimento de arrependimento por perder tempo para levantar e não poder falar com o melhor amigo.

― Quando eu voltar, nos falamos. ― Prometeu para Chouji que sorriu.

Shikamaru e seu pai cavalgaram até uma grande estrada de tijolos rodeada por árvores de raízes fortes e troncos grossos, o castelo do rei Hiashi ficava logo ao longe. Havia guardas do rei em toda parte, Shikamaru ficava apreensivo sempre que percorria por aquele caminho, parecia que se fizesse algum movimento em falso, sua cabeça seria decepada sem dó por uma das espadas que ele mesmo poderia ter feito, uma morte irônica.

Mas se por um acaso maluco fosse atacado injustamente, provavelmente ele não retrucaria. Por mais que soubesse lutar com espadas e ali ter algumas de suas criações, ele não gostaria de lutar, não era de sua índole provocar brigas e tão pouco continuar com elas. Shikamaru só queria sossego em sua vida. Então preferiu não olhar diretamente nos olhos de ninguém, evitaria isso.

Seu pai, Shikaku, falou com um dos guardas do rei que pediu que eles aguardassem até obterem autorização para entrarem, Shikamaru fez o que sempre fazia quando paravam ali, olhou as pedras disformes dos paredões que protegiam o castelo e reuniu mais dez pontos fracos na defesa do mesmo em suas anotações mentais.

Assim que o guarda de cara emburrada voltou, os inspecionou e os autorizou a entrar, mas com escolta de dois outros guardas de cara emburrada, eram todos tão parecidos que Shikamaru já cogitara terem sido feitos com magia. Todos fardados, com suas espadas ao lado, cabelos pretos, lisos e olhos quase brancos. Eram olhos iguais do rei e da princesa. Shikamaru não parava de imaginar coisas absurdas sobre todos serem extremamente parecidos. Será que ali naquele castelo havia algum bruxo muito poderoso? Será que eles eram cegos? Mas o rei não era cego. Era extremamente estranho, mas Shikamaru não conseguia parar de pensar sobre isso enquanto andava por ali.

Os guardas pediram para que eles aguardassem em uma sala e fecharam a porta grande de madeira maciça com violência, mas continuaram ao lado da porta com aquelas caras fechadas. O ambiente era bem grande, mas não muito claro, as paredes eram bem altas e grossas e em cada pilastra havia um escudo diferente pregado, provavelmente eram de guerras passadas. Um grande tapete vermelho pegava todo o centro da grande sala e ia até o trono do rei, que entrou vagarosamente por uma outra porta ao fundo da sala.

Hiashi Hyuuga era rei da Inglaterra há muitos anos, era um bom governante, mas extremamente sério. Os Hyuugas reinavam na Inglaterra há milênios, casavam-se entre primos, irmãos e até mesmo entre tios e sobrinhas, em últimos casos. Shikamaru começou a pensar sobre isso, sobre o incesto que a família Hyuuga cometia para que o sangue fosse sempre puro e seu estômago embrulhou.

O rei caminhou com calma até seu trono e Shikaku e Shikamaru foram ao seu encontro em passos pausados e lentos. Carregavam duas espadas cada um. Ajoelharam-se diante do rei e Hiashi os concedeu a permissão para se levantarem.

― Vossa Majestade, suas encomendas prioritárias. ― Disse Shikaku desembrulhando espada por espada e colocando aos pés do rei.

― Hmm! Bom... Sempre prontas antes do prazo. ― O rei olhava as espadas feliz com o que via. ― Você sempre me surpreende, Shikaku, com sua eficiência.

― Fico feliz e agradeço o elogio, Vossa Majestade. – Shikaku abaixou a cabeça humildemente e prendeu as duas mãos em frente ao corpo.

― Este é seu filho? ― Perguntou o rei a Shikaku apontando para Shikamaru. ― Trabalha tão bem quanto o pai?

Shikamaru sobressaltou-se quando ouviu ser mencionado, manteve-se de cabeça baixa querendo se fundir com as sombras.

― Sim, melhor que eu Vossa Alteza. ― Shikaku falou com um tom de orgulho e Shikamaru acenou com a cabeça para o rei. ― Meu filho está aprendendo tudo que sei e é extremamente inteligente.

― E a ferraria como está? – Hiashi perguntou, afinal a ferraria era só para o rei e sua coleção de espadas, escudos e armas em geral. ― Chouza está bem? Soube que adoeceu recentemente.

― Não há o que reclamar da ferraria. Vossa Majestade é muito generoso com esses ferreiros. – Disse Shikaku, mas foi cortado antes de continuar.

― Quando precisar de algo, não ouse em pedir, você sabe como amo armas e a ferraria é algo que prezo muito.

Shikaku concordou com um aceno de cabeça e voltou a falar.

― Chouza melhorou rápido. Ouso em dizer que o que lhe fez mal foi comer demais. ― Assim que Shikaku terminou de falar, o rei desabou em risos.

Todos acharam estranho, Hiashi nunca abria um sorriso, devia estar feliz por algo que não faziam ideia. Shikamaru também nunca havia visto aquela peculiar cena, não se conteve e riu, mas prendeu o riso logo pela cara que seu pai fez ao ver que o filho ria mais da gargalhada do rei do que do que tinha acontecido com Chouza.

― Vossa Majestade, se nos permite... partiremos. ― Disse Shikaku sem mostrar sua insegurança.

― Oh sim, imagino que ainda tenham muito o que fazer pois encomendei muitas coisas, sim? ― Hiashi controlava-se e gesticulava bem-humorado com uma mão cheia de anéis.

― Exatamente, Majestade.

― Dispensados, então.

Reverenciaram perante ao rei novamente e saíram daquela grande sala com os guardas abrindo as portas enormes e continuando com a escolta até que estivessem do lado de fora das muralhas. Shikaku censurava Shikamaru por seu comportamento, mas o garoto ignorava olhando de canto para as paredes irregulares e os pontos cegos na defesa dos Hyuuga.

⚭⚭

Tenten soltou o suspiro preso em seu peito quando encontrou a princesa que todos os criados procuravam angustiados e temerosos pelo castelo. Era certo que ela não havia sido raptada ou fugido, mas havia se escondido tão bem que todos temiam a fúria do rei se descobrisse.

Não foi surpresa, entretanto, para a criada encontrar a princesa Hinata encolhida entre as raízes de uma árvore milenar em um dos jardins. No entanto, Tenten não teve coragem de se aproximar. Ela fechou os olhos e encostou-se na parede por um momento, seus olhos ardiam e seu coração doía. Mesmo não sabendo com certeza o teor da séria conversa que o rei tivera com sua filha mais cedo, Tenten sentia o que poderia ser a causa das lágrimas da princesa.

Apertou os olhos e a mão perto de seu peito e balançou a cabeça com força para tirar aqueles pensamentos. Respirou fundo e engoliu o gosto amargo que permanecia em sua boca. A princesa precisava dela naquele momento, muito mais do que ela mesma.

Desencostou da parede e rumou puxando a saia de seu vestido puído para não sujar na terra fofa pronta para plantio.

― Alteza? Hinata?

E só ela poderia chamar a princesa daquela forma íntima. As duas haviam sido criadas juntas desde pequenas, herdando de suas mães a amizade que existia entre elas. A rainha, mãe de Hinata, havia morrido quando dera à luz à segunda filha, Hanabi. Diziam que a mãe de Tenten tinha tanto amor pela rainha que caiu numa grande depressão após sua morte e acabou morrendo de tristeza.

Hinata e Tenten se agarraram uma à outra desde então, tendo uma a outra como âncora e como uma lembrança bonita de suas progenitoras.

Tenten agachou-se perto de Hinata e viu a situação deplorável do vestido de seda todo sujo de barro e manchado de lágrimas. Forçou suas próprias para o fundo da garganta e passou a mão pelo cabelo liso que caia solto e impróprio.

― Hinata, minha princesa, o que está fazendo aqui? Te procurei o dia todo. ― Tenten sussurrou gentil, erguendo o rosto vermelho de Hinata para que olhasse em seus olhos.

― Tenten... – Hinata soluçava ― O que farei, minha irmã?

― Me conte tudo, princesa. Não aguento vê-la nessa angústia. Parte meu coração em pedaços.

Tenten sentou-se ao lado de Hinata e apertou as mãos da graciosa e sempre obediente princesa. Os olhos claros de Hinata se destacavam nos vermelhos de tanto chorar, ali havia um brilho gélido e melancólico que fez o coração de Tenten saltar.

― Ele... ele vai me casar. O dia chegou. ― Disse Hinata com dificuldade. ― Eu não quero casar.

― Entendo. ― Sua voz já entregava o maldito sentimento que queria sair em forma de lágrimas. ― E quem seu pai escolheu? ― Tenten perguntou já com as mãos trêmulas.

Hinata respirou fundo como se o nome pudesse causar alguma dor, e causou.

― Neji.

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Neji movia os braços rapidamente com sua espada para se defender das ofensivas de Kiba, aquilo certamente não era um simples treinamento entre amigos, Kiba estava transtornado. Neji também não parecia ser a pessoa mais sensata naquele momento, ainda mais depois da conversa com Hiashi. Mas, ainda assim, precisava manter a postura.

Kiba ia para cima de Neji cada vez mais nervoso e violento, seus dentes estavam apertados como se quisessem morder com força alguém. Como se Neji fosse um inimigo em meio a uma grande guerra decisiva.

Seus olhos vermelhos deixavam cair, vez ou outra, lágrimas gordas e ousadas que ele lutava em conter, mas Neji estava preocupado, de verdade, com a raiva do amigo.

― Kiba! ― Neji o chamava, mas o criado do castelo parecia não o escutar. ― Kiba...

Neji o chamou mais uma vez e Kiba desabou perante ao Hyuuga. Caiu com os joelhos sobre o gramado um pouco enlameado e derrubou sua espada como se esta fosse um fardo que ele carregava.

As lágrimas que saíram de seus olhos eram doloridas, assim como o sentimento que estava em seu coração ao saber que a sua amada princesa se casaria com outro, e este outro era alguém que ele não teria coragem de matar.

― Eu não aguento isso, Neji! Eu não aguento. ― Kiba chorava agora sem se conter.

Neji compartilhava da mesma dor, mas o Hyuuga já imaginava que este seria seu fardo. Apesar de ser apaixonado e ter um relacionamento secreto com a criada de sua futura esposa, ele também tinha esperanças que, um dia, seus destinos seriam outro.

O Hyuuga abaixou-se e abraçou o amigo, deixando que o mesmo chorasse em seus ombros.

Eram bons amigos desde muito novos. A família de Kiba sempre trabalhou no castelo do rei cuidando dos cavalos e dos cães de caça dos Hyuuga. Kiba trabalhava desde muito novo e acabou fazendo amizade com Neji, pois eram da mesma idade, e acabou apaixonando-se pela princesa.

Kiba e Hinata acabaram namorando, mas sempre em segredo, afinal a Hyuuga sabia como seu pai era severo e não era bem visto uma princesa de namoricos com o criado do rei, por mais puro que este amor fosse. Decidiram então que Kiba treinaria com a ajuda de Neji e seria um grande guerreiro da Inglaterra e conseguiria a mão da princesa por ser alguém importante para seu povo. Mas, pelo visto, o rei tinha outros planos para sua filha.

― O que eu faço agora, Neji? Eu sou só mais um dos milhares de criados neste castelo. ― Kiba levantou sua cabeça e olhou para Neji, olho no olho. ― Hinata disse que se eu me tornasse um grande guerreiro seu pai poderia aprovar nosso relacionamento, mas veja o que ele fez com nossas vidas?

Neji olhava para o amigo sem saber muito o que dizer, abaixou os olhos e começou a pensar em Tenten, também estava angustiado com tudo isso, mas não conseguia se expressar como Kiba. Então, pegou a espada de Kiba e devolveu ao amigo.

― Me casarei com Hinata mesmo sem amá-la. Também compartilho de sua dor. O mundo é cruel, meu amigo, mas saiba, que nunca tocarei em um fio de cabelo de sua princesa.

― Anos e anos treinando todos os dias para ser um guerreiro reconhecido por Hiashi, para nada. ― Disse Kiba olhando para a espada que estava em sua mão. Forçava-se a não imaginar a cena que o guerreiro a sua frente jurava não acontecer.

― Não pense assim, Kiba. Hinata o ama de todo coração. - Neji falou ajudando o amigo a levantar. ― Isso importa mais do que tudo.

A chuva começara aos poucos molhando os dois ali, Kiba abraçou Neji que o retribuiu. O coração dos dois pulsava por tristeza e angústia por aquela situação, era como se seus destinos tivessem sido amaldiçoados. Mas, pelo menos, ainda tinham um ao outro.

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O vento frio soprava mais forte naquela noite e Shikamaru sentia seu coração palpitar sem saber o porquê, se o perguntassem depois ele diria que era uma sensação mística. Sua mãe colocara um pouco de chá para ele em uma caneca de alumínio e Shikamaru bebericava aos poucos.

Havia chegado há muito tempo, mas algo o fez demorar para ir se deitar e perder a noção do tempo que passou sentado. Olhava fixamente para a pequena janela da cozinha, ali estava um corvo preto que o olhava fixamente também há um tempo.

Shikamaru estava quieto, com os olhos fixos e a postura enrijecida. Entrara em um transe profundo.

Olhando nos olhos daquele corvo pôde ver uma mulher com roupas de couro e peles de animal em seus ombros, o cabelo dela era loiro com mechas trançadas e tinha os olhos mais misteriosos e fascinantes que já vira. Ela era nítida, sentada em um banco de madeira enquanto bebia vinho em um chifre.

Aquela mulher falava com mais outras tantas mulheres que apareciam disformes ao redor, mas ela parecia ser a chefe delas. Todas ali também bebiam, tanto ou até mais que os homens ingleses. Elas comiam com a mão e falavam alto num idioma que ele não reconhecia. Shikamaru podia sentir o cheiro de carne de porco assada que elas comiam. Podia sentir o gosto do vinho que a loira de cabelo trançado bebia e até se sentia tonto com isso. Podia sentir a intensidade daqueles olhos quando olhou em sua direção.

O corvo piscou fazendo com que Shikamaru despertasse de seu transe. Ele balançou a cabeça, esfregou bem os olhos, respirou fundo e tomou mais um gole de seu chá. Aquilo era sono, havia dormido de olhos abertos mais uma vez e sonhado com uma deusa pagã, insistia em pensar quando voltou ao seu normal. Mas ao tocar o chá em seus lábios percebeu que aquilo, definitivamente, não era chá. Era o mesmo gosto do vinho que a loira bebia dentro do chifre.

Shikamaru largou o seu copo assustado em cima da mesa e olhou de novo para a janela com a respiração presa em seu peito, mas não havia nenhum corvo ali. Olhou para os lados e se viu sozinho na noite avançada. Teve medo e levou aquele sentimento consigo para a sua cama de palha. Tirou a camisa marrom e deitou-se de costas para a janela. Pela primeira vez, Shikamaru teve receio em fechar seus olhos.

March 20, 2018, 5:14 p.m. 1 Report Embed 3
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Karimy Karimy
Nossa! Estou muito feliz por ter encontrado sua história! Escrita maravilhosa e com um tema místico e medieval que amo demais! O Shikamaru foi o que mais me deixou intrigada até o momento, estou louca para saber o motivo de Odin ter permitido que ele visse Temari através do corvo, que é o animal representativo do deus. Quanto a Temari, a dedicação dela para com seu rei e os deuses é quase que palpável, consegui imaginá-la real, e isso foi muito gostoso! Caramba, depois de ver o Kiba daquele jeito eu não consigo tirar da minha cabeça que a Hinata e ele deveriam mesmo ficarem juntos! Gente, nunca torci para esses dois antes, mas estou fazendo agora! rsrsrs A Tenten também está em uma posição difícil, deu para perceber a devoção dela para com a princesa. Ela, Kiba, Neji e Hinata estão em uma situação extremamente complicada! Estou doida para ver o desenrolar dessa história! Parabéns, autora, está uma delícia de se ler!
April 29, 2018, 12:01 p.m.
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