Um Estranho No Natal Follow story

damngirl01 YMM Zaidan

Um Vampiro de outro mundo, um Mediador londrino. Quando Christian Randall achava que tinha visto de tudo, eis que o destino ainda lhe surpreende. E em meio a uma caçada por um fantasma maligno em um shopping, nosso mediador e sua amada fantasma/quase namorada Jaynet Becker, esbarraram em um genuíno caçador. Richard Wyndon não é do tipo que você gostaria de cruzar em uma viela escura. Silencioso e letal, o Vampiro centenário perseguia seus inimigos nos limites da capital Whaskar, quando as florestas tornaram-se exageradamente mais claras e o chão, estranhamente mais liso. Richard de repente se vê perdido em meio a um mundo totalmente diferente do seu: Um estranho reino gelado, com irritantes luzes piscantes e canções que idolatram um velhinho de vermelho e.... sua carruagem voadora?!


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##Violência ##Morte ##Sangue ##Vampiros ##Sobrenatural ##Natal ##Festa
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É Natal? (Christian)

Londres, 24 de dezembro de 2016.

   Percorri o acesso ao shopping com passos rápidos, embora cautelosos, pela fina camada de gelo que cobria o chão. Em meio a rua, eram possível ver as luzes excessivas penduradas na parede concreto, piscando incessantemente, e ainda algumas henas e papais-noéis, imagens de crianças juntos a produtos e desenhos de flocos de neve. Pessoas perambulavam em grupo com seus livros de canções pelas ruas londrinas, pedindo dinheiro para os menos desafortunados em troca dos tradicionais coretos de Natal.

- É mesmo natal! – Encarei minha acompanhante com um olhar divertido. - Como passou rápido!

   As minhas atividades como Mediador me tomaram tanto tempo, que o ano passara literalmente voando. Foram tantos fantasmas requisitando contato com parentes, violações de tumbas e coisas mais bobas que se não fosse por Jaynet, eu não saberia como administrar minha vida dupla.

   Fora o período de coma que passei por conta de um fantasma verdadeiramente raivoso, Marcus, o qual me fizera o desfavor de me jogar do terceiro andar de um prédio e que me desperdiçara incríveis três meses de vida.

   Quando dei por mim as provas finais tinham acabado, as aulas tinham acabado, meu namoro tinham acabado... Tudo que me restava era a linda moça loira que fitava o coreto com, eu podia jurar, um certo brilho fantasmagórico no olhar. Por ela, depositei uma nota de cem euros na cestinha natalina. Os integrantes do coreto imediatamente aumentaram o volume de sua cantiga, com o incentivo extra de minha generosidade. Precisava distrair minha fantasma favorita do nervosismo pré ritual que ela vinha passando.

- Que lindo! – Jaynet abriu um sorriso iluminado, balançando a cabeça satisfeita ao ritmo da cantoria. – Adoro o natal, Christian!

   Dentro de cinco dias viajaríamos para a Escócia afim de tentar sequestrar seu corpo e trazê-la de volta à vida. Dentre toda a loucura do ano, de começar a ver espíritos e exorcizá-los, este seria o último trabalho, o ponto alto que; ou me mataria, ou me enviaria de uma vez por todas ao hospício. Eu tentava não demonstrar meu próprio nervosismo com o que faríamos, escondendo minhas mãos quando elas, mesmo em tempo frio, suavam, ou quando davam sinais de tremedeira. Quando minha respiração falhava, ou mesmo quando eu não conseguia dormir à noite e ela me observava em minha cama. Queria ser confiante, contudo um erro nosso e tudo seria terrivelmente fatal.

   Balancei a cabeça, expurgando esses pensamentos. Hoje era um dia de festa, por mais que eu não estivesse no Westfield London Shopping realmente à passeio.

- É realmente, tudo é muito lindo no natal... – Sussurrei em resposta a ela, usando de um tom de voz extremamente baixo, para que os outros à minha volta não me considerassem um maluco ou drogado. Conversar com fantasmas em público é o mesmo que falar sozinho, e por vezes quando era inexperiente fui MUITO mal interpretado. – Mas você se esqueceu pelo que viemos aqui?!

- Não!! Claro que não, Chris. Eu só me distraí. - Ela deu de ombros dando as costas ao coreto. - Há três anos não vejo nada relacionado ao natal. Esqueceu que eu estava trancafiada naquela casa? – Ela bufou e voltou a andar, seguindo os outros pedestres rumo a porta automática. – Vamos logo Milorde, Senhor Mediador das almas desamparadas. Estou aqui agora, inteiramente ao seu dispor.

   Desaforada! Pensei enquanto percorria o hall de entrada junto dela e de uma verdadeira multidão.

   Bastou um segundo dentro do Shopping para que Jaynet desaparecesse em meio as lojas e vitrines. Até tentei encontrá-la, mas haviam pessoas demais para que eu sequer me movesse com agilidade. Outros fantasmas dividiam espaço com os vivos, contemplando a decoração natalina e se entretendo com a pista de patinação, de forma que aos meus olhos, o espaço estava lotado além do triplo da capacidade.

   Suspirei, me acomodando em banco e dispersando minha atenção por cada pessoa etérea, cada corpo com um brilho diferenciado, qualquer sinal que os distinguissem dos vivos.

   E eram muitos fantasmas, mais do que eu vi durante todo o ano. Seria difícil achar um espírito assassino em meio a tantos deles, teria de passar o dia inteiro no lugar para não confundir um fantasma bom de um ruim, para não cometer uma injustiça com aqueles que só queriam relembrar o tempo em que passavam a data festiva com seus parentes.

- Paciência, Christian. – Disse a mim mesmo. – Paciência.

   Para infortúnio de todos, os noticiários vem relatando acidentes neste shopping há cerca de uma semana. Começou com um caso isolado, mas logo os estranhos acontecimentos tomaram uma maior frequência. Era uma queda de escada ali, um incêndio de loja lá, produtos desaparecendo, carros destruídos, pessoas feridas... tudo sem qualquer tipo plausível de explicação, ao menos para os que não eram como eu.

   Para mim todos esses acidentes cheiravam a um fantasma raivoso que, por enquanto estava inofensivo, mas que infelizmente é um espírito assassino em potencial. E se algo não fosse feito, os ataques aumentariam de proporção até que haveria uma verdadeira tragédia.

   Eu poderia deixar que outro mediador cuidasse disso, mas como não conheço nenhum, sobrou para mim mesmo.

   As horas se arrastaram e quando estava preste a terminar um livro de Doctor Who que comprei em uma livraria próxima, fui surpreendido por Jaynet, que finalmente se materializou no banco ao meu lado, fazendo meu coração disparar não de amores, mas sim com o susto. Fuzilei minha fantasma favorita com o olhar, batendo o livro com força enquanto ela ria exageradamente de minha reação.

- Calma, sou a fantasma do bem. – Jaynet voltou seu olhar para a pista de patinação no gelo, e seu semblante tomou um ar mais sério. – Nada ainda?

- Não. – Grunhi, guardando o livro em minha mochila. – Seria mais fácil se alguém que eu conheço me ajudasse.

- Mas eu estou ajudando!!! – Ela ergueu as mãos em frente ao peito, de modo defensivo. – Olhei nesse shopping inteiro, tem muitos fantasmas por sinal. Vamos ficar aqui até meia noite, e...

- Me engana que eu gosto, Jaynet! Você olhou sim, as lojas de todos os andares.

   Um longo silêncio cortante permaneceu entre a gente, até que Jaynet caiu na gargalhada mais uma vez. Nem negar ela conseguia, essa consumista. E quando dei por mim, estava rindo também. Ela tinha esta habilidade, de me fazer rir mesmo quando estava zangado.

- Desculpa!! Eu juro que não olho mais nenhuma vitrine, nem entro em loja alguma, nem mesmo a da Dior, mas não anule seu natal por causa de um fantasma que você nunca...

   Sua frase foi interrompida por um grito histérico vindo da escada rolante. Uma mulher caiu bem a nossa frente, aparentemente sem qualquer razão, levando consigo todos os que estavam atrás de si. A cena, que muito se assemelhava aos pinos de boliche quando derrubados pela bola, seria ridiculamente cômica, não fosse pelo fantasma plantado no topo.

   O garoto moreno de cabelos compridos e traços indianos fitava a senhora caída com um semblante carregado de ódio. Seu rosto jovem se contorceu numa careta diabólica, enquanto ele estendia as mãos e empurrava uma segunda pessoa, que rolou até o térreo sem grandes ferimentos.

   Isso claro, não o satisfez. O fantasma de aparentemente vinte e três anos mudou de direção e segui seu olhar até uma jovem que se debruçava no parapeito, sentindo suas intenções através das íris negras e ameaçadoras.

   Imediatamente peguei a mochila e a passei em minhas costas, correndo em direção as escadas rolantes, enquanto vigiava seus movimentos.

- Christian!! Christian! O que houve?! - A voz de Jaynet foi se distanciando conforme eu aumentava a velocidade. Não tinha tempo para explicações.

   O fantasma movimentou a boca de maneira trêmula, sussurrando palavras de ódio a menina que permanecia fitando a confusão no andar de baixo, totalmente alheia a verdadeira ameaça que a permeava. Com um movimento rápido, pousei a mão no encosto de um banco e me impulsionei para frente, saltando por cima do objeto e desviando da multidão que lutava para se aproximar do acontecido.

   Alcancei a base da escada rolante, agora desligada, e empurrei as pessoas que se aglomeravam ali, pulando a senhora que caíra primeiro e continuava deitada no chão.

- Babaca!!! – Ouvi alguém gritar para mim. – Pirralho escroto de merda.

   Ignorei seus comentários e sob xingamentos de mais pessoas que não entendiam o que aconteceria, continuei a abrir caminho dentre os degraus da escada. O fantasma agora tinha o cenho franzido em minha direção e, enquanto eu me esforçava para abrir mais a passagem no sentido contrário, Jaynet passou por mim, flutuando com facilidade do lado direito da escada. Ela baixou a cabeça, me lançando um sorriso e uma piscadela.

- Deixa comigo, Chris!

   Mal tive tempo de pensar em uma resposta. O fantasma indiano percebendo que eu o enxergava, abriu um sorriso e empurrou a moça do parapeito. Sua queda foi seguida por mais histeria, e mesmo por cima dos gritos desesperados, ouvi o baque surdo do impacto causado pelo atrito do corpo com o chão. A moça permaneceu inerte e uma poça de sangue escarlate se emoldurou ao seu redor.

   Um alvoroço maior surgiu por parte das pessoas que, antes se esforçavam para abrir caminho na direção da escada e olhar o que estava acontecendo, mas que agora corriam para o caminho oposto, empurrando umas as outras, tentando se afastar do corpo.

   O maldito ainda me lançou último olhar triunfante antes de disparar em meio ao tumulto, transpassando os vivos e se enfiando pelo corredor de serviço.

   No entanto Jaynet flutuou em seu encalço, planando de forma majestosa e ameaçadora rente ao piso. Os seguranças pediram passagem em meio as escadas rolantes, finalmente liberando o caminho. Aproveitei a oportunidade e enquanto eles desciam, terminei de subir os poucos degraus que faltavam, indo em direção ao corredor deserto e abrindo as misteriosas portas duplas, restritas sempre aos funcionários.

   Durante muitos anos de minha infância eu imaginei o que escondiam por trás das lojas. Me imaginava esperando escondido o shopping fechar e invadindo o local, brincando com tudo que o consumismo exagerado oferecia. Mas agora, ouvindo os gritos agudos de Jaynet, eu mal me importava com as caixas e mais caixas empilhadas em meio aos contêineres, tudo que eu queria e precisava era ir em seu socorro e ver o que acontecia com ela.

   Me esgueirei pelo labirinto que era o estoque, desviando das empilhadeiras desligadas, correndo em ziguezague pelos setores dispostos em ordem alfabética. O depósito parecia não ter fim, e a cada passo, meu coração galopava em meu peito. Minha pernas começavam a dar os primeiros sinais de cansaço, quando um vulto loiro foi lançado ao ar.

- Jaynet! – Gritei desesperado ao vê-la voando em direção a parede.

   Parte de mim sabia que ela não poderia se machucar, mas a parte irracional, - que sempre prevalecia quando o assunto era Jaynet - fez com que eu entrasse na frente do fantasma e lhe segurasse pelo braço, interrompendo-o quando ele estava prestes a puxa-la do chão em que despencara.

- Que diabos!! - – Ele arfou surpreso, como todos sempre faziam quando assimilavam o que eu era. - Você pode mesmo me ver!?

- Posso, e não gosto nada do que vejo.

   Antes que ele pudesse protestar Jaynet o abraçou por trás, mantendo-o firme em seu aperto e imobilizando seus braços. Pela forma como ele se debatia era novo e ainda não sabia da desmaterialização, e agradeci aos céus pela pequena vantagem. Seria muito ruim se ele soubesse que poderia simplesmente desaparecer no ar sem deixar qualquer vestígio.

- O que quer de mim? – Resmungou com uma carranca estampada em sua face.

- Eu que lhe pergunto... O que você quer, machucando todas aquelas pessoas? – Rompi o curto espaço entre nós e fechei as mãos em punho, deferindo um soco em sua face quando ele permaneceu irritantemente calado. – Desebucha!

   Ao voltar o rosto para a frente, sua face era uma mistura perfeita de ódio mesclado com nojo. Ele cerrou os dentes e chutou o ar em minha direção.

- Malditos londrinos! – Sua voz grossa para a sua idade trovejou carregada por um sotaque que deduzi ser mesmo indiano, enquanto ele vociferava todo tipo de palavrão. – Eu devia explodir o shopping inteiro... – Sua boca moldou um meio sorriso. – Seria meio irônico, visto as circunstâncias de minha morte.

   Fitei Jaynet por trás do indiano, preocupado. Ela lutava para mantê-lo sob seu controle aparentando estar ficando esgotada, entretanto ainda assim, no auge da sua curiosidade ela reuniu forças e perguntou num tom não tão neutro:

- Que circunstâncias? Conta a história toda!!!

- Eu fui acusado de terrorismo por vocês, vermes amaldiçoados! Eles atiraram em mim, eu sequer sou de um país em conflito! - Ele se libertou dos braços de Jaynet e me pegou pego colarinho, gritando em meu rosto. – Eu tenho cara de terrorista para você?!! Responde!

- Eu não sou policial para determinar isso, sou só um estudante que vê gente morta! - Empurrei ele para trás ajeitando minha gola polo. - Atingir um cívil ou dois, não fará nada por você..

   Percebi imediatamente a merda que tinha dito, quando um sorriso malicioso brilhou por sua face.

- Tem razão britânico nojento, vou destruir esse shopping inteiro. E outro, e mais outro... Até pararem de tratar os imigrantes como lixo!

   Jaynet tentou segurá-lo e foi, novamente, arremessada contra a parede. Eu então resolvi tentar lhe acertar um chute, que acabou prontamente por ele desviado. O fantasma aproveitou minha guarda baixa e acertou-me um soco. A dor veio instantaneamente, se espalhando ao redor de meu olho esquerdo e arrancando-me um gemido. Contudo antes que ele repetisse o golpe, segurei-o pelo braço, girando-o com força e atirando-o em cima de uma fileira de caixas pequenas. Os objetos caíram de forma desordenada, ultrapassando seu corpo etéreo e repousando desordenadamente no chão. Jaynet aproveitou que ele estava caído e já recuperada, o pegou pelo braço volátil, torcendo-o com força atrás das costas.

   Sem uma outra alternativa, deixei minha mochila cair sobre o chão, abri o zíper e, retirando o velho livro em latim que eu roubara da biblioteca pública há alguns meses, lancei um olhar significativo para minha assistente que logo assentiu compreendendo minha intenção.

    Suspirei e, ao notar o olhar de Jaynet por sobre os ombros, o fantasma entrou em pânico, lutando com ela e chutando inutilmente o ar, enquanto era o mantido mais uma vez em suas mãos.

- O que ele vai fazer?! – Vendo que Jaynet não o respondia, ele aumentou seu tom de voz. – O que ele vai fazer, vadia londrina?

   Tomado por uma raiva repentina, rompi o espaço entre nós e acertei um soco em seu estômago. O fantasma se contorceu, baixando o corpo por um momento e finalmente pude voltar minha atenção para a bolsa, retirando desta vez um pedaço de giz branco para desenhar o círculo que eu precisava, um que roubei do quadro da escola.

- Eu devia te dar uma surra por insultá-la assim. – Abri um sorriso amargo, deixando que ele vesse o ódio travado em minha garganta. - Mas acho que para onde vai, será castigado o suficiente.

   O fantasma entrou em pânico enquanto Jaynet o arrastava para os intermédios do círculo, certificando-se de seus pés não adentrarem as limitações. A primeira e última vez em que fizemos isso, foi com o fantasma que me derrubara do terceiro andar. Mas agora era novamente necessário e torci secretamente para que dessa vez eu não me machucasse (Ou pelo menos não ficasse de coma).

   Com uma faca de pão roubada da cozinha, efetuei um corte pela extensão de minha palma, deixando o sangue fluir para dentro do círculo e, limpando o excesso no jeans da calça, me reergui. Folheei o livro, abrindo página que eu precisava e pronunciando as excêntricas e ainda nada familiares palavras em latim.

   Sequer sabia se as pronunciava direito mas, assim como da primeira vez meses atrás, os traçados do círculo brilharam e o chão rachou em pequenas fendas em seu interior. Faltava pouco para que ele se fosse, e pudéssemos ter um Natal de paz.

   Assim espero.

   Este poderia ser tanto o primeiro, quanto o último natal com Jaynet. Tudo dependia do resultado do maldito ritual que a traria de volta à vida, e queria desfrutar o máximo possível de sua presença enquanto eu pudesse.

   O espírito revolto começou a se debater e gritar, no entanto antes que eu pudesse terminar de ler a última linha e finalizar meu "serviço", um estrondo semelhante a um trovão ecoou pelo teto do depósito inteiro, e algo grande e escuro atingiu Jaynet, arrastando-a por alguns metros e esmagando-a contra o chão.

.

CONTINUA


Amados fantasminhas e vampiros, espero que estejam gostando do conto! Como são poucos capítulos e, tenho o compromisso de postar duas histórias (uma aos Domingos e outra na segunda)!

March 3, 2018, 3:44 a.m. 0 Report Embed 0
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