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insaneboo Boo Alouca

Eu apenas entrei num ônibus um belo dia. Chuvoso, cinzento, comum... Chato. Aquele era pra ter sido só mais um ciclo de rotina, como outro qualquer. Não deveria ter nada de especial. Mas teve.


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#morte #cotidiano #reflexão #Original
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Capítulo único

Eu apenas entrei no ônibus.

Era só mais um dia, como outro qualquer. Não havia nada de especial. Não deveria haver.

Chuvoso, cinzento, comum... Chato.

Mal dava pra ver o que se passava lá fora. O clima frio das ruas, contrastava com o abafado do transporte público, causando aquele peculiar embaçamento nas janelas.

Peculiar. Poético para alguns, depressivo para outros.

Indiferente pra mim.

Eu mal notei tudo isso, para falar a verdade.

Eu subi no ônibus quase me esquecendo de checar se era o certo, falava ao telefone e me atrapalhava com a enorme mochila mal equilibrada em apenas um de meus ombros – Porque apesar de incomodada com o peso, eu achava que era importante parecer "mais legal". Não era. – além de segurar alguns outros itens avulsos em minha mão livre.

Modéstia dizer "livre", não acham?

Os itens eram uma espécie de lanche improvisado. Desses que a gente sempre compra dizendo que isso não vai se repetir e que escolheremos opções mais saudáveis da próxima vez.

E fazemos tudo de novo, o mesmo erro, na primeira oportunidade. Por que sempre vai haver o amanhã para tentar de novo, certo?

Bom, não posso falar por todo mundo, porém eu admito, escorreguei o quanto pude em cada um desses pequenos pecados do dia a dia. Agora não vejo mais problema nenhum em assumir isso, agora não acho que importe mais, fingir nada pra ninguém.

Paguei a passagem numa mistura peculiar de malabares com contorcionismo, que apenas a correria urbana consegue compreender. Ignorei os olhares mal humorados e muxoxos resmungados dos pretensos passageiros atrás de mim, que aguardavam sua vez de passar.

Por que costumamos achar que isso tudo é tão importante? Por que nos irritamos tão fácil?

O fato é que eu quase nem notei.

Eu estava muito imersa em meus próprios dilemas. Na contida discussão que mantinha ao telefone. Contida, porque ninguém quer deixar-se expor em público dessa maneira em sã consciência. Eu pensava nas questões que arrastei comigo até ali, nas que sabia que iria encontrar quando saísse...

Tudo me importava com muita intensidade. Tudo. Vivia afogada num mar de futilidades, ansiedades e queixas. Talvez pudesse parecer que ao menos eu vivesse o presente, o momento, mas isso era algo que ficava só na ilusão, na teoria.

A rotina de quem cultivava dias frenéticos, me impedia de realmente enxergar essas verdades. Sentir e dar atenção às pequenas coisas, essas que são o real sabor e talvez até o sentido, da vida.

Vivia num cansaço enorme, sempre matando e nunca apreciando verdadeiramente o tempo. Sempre esperando por um dia seguinte, uma semana, um mês, um ano seguinte em que tudo ia melhorar, tudo ia se encaixar e o desgaste sofrido, todo o esforço do agora, faria sentido.

Como se o futuro fosse previsível, como se a vida fosse algo que eu pudesse controlar.

Tudo ao meu redor era aleatório, pouco digno da minha atenção, plano de fundo. Eu não tinha tempo para o transitório.

Eu dizia isso, mas passava meus dias torcendo para que todos os acontecimentos passassem logo.

Eu era hipócrita.

Eu achava que não valia uma mera olhada de análise, os passageiros ao meu redor e seus pequenos conflitos cotidianos evidentes. Eu não achava que valia a pena reparar, na idosa que mal pisou no ônibus e já causou um silencioso estresse sobre quem iria lhe ceder o lugar. Na mãe que tentava com afinco controlar os ânimos de seus filhos pequenos ou nos jovens agitados que pareciam voltar de alguma saída divertida e teciam uma mini algazarra sobre dois dos amigos, que não admitiam estarem supostamente apaixonados.

Não reparei em quem estava com roupa de passeio ou social. Não reparei em quem estava lendo e quem preferia ouvir música. Não reparei no título dos livros que estavam sendo lidos, ou em quem optou pelos jornais.

Não reparei em nada.

Eu achava que talvez não fosse me importar, se o amanhã por acaso não chegasse, porque às vezes quando batia a cabeça no travesseiro, não conseguia evitar de sentir certa melancolia. Porque apesar de frenética, minha vida também era essencialmente vazia na verdade.

Porque eu me importei com as coisas erradas.

Porque me importei com padrões e ilusões da sociedade.

No entanto, é claro que eu só pensava isso, porque tinha convicção de que dificilmente aconteceria.

Dificilmente não quer dizer impossível.

O acaso existindo ou não, coisas ruins acontecem.

Eu tinha na mochila e por via das dúvidas também no celular, que ainda esquentava minha orelha naquela conversa tensa, agendas com semanas inteiras, minimamente planejadas.

Mas não se pode controlar o futuro. Não importa o que você faça.

E eu devia saber que também era aleatória para os outros, porém não era certo que fosse. As pessoas deviam se importar mais com o entorno, esse egoísmo solitário é o que destrói a sanidade e a qualidade da vida.

É verdade que o amanhã sempre vai chegar, só que talvez não pra você.

Você nunca vai saber quando pode simplesmente não ser o seu dia de sorte.

E aquele não foi o meu.

E nem das pessoas que estavam ali comigo.

Eu nunca saí daquele ônibus.

Eu estava tão distraída, que devo ter sido a última a ver o anúncio da tragédia. Minha atenção foi chamada pelos gritos de medo dos passageiros mais a frente, que tiveram uma melhor vista da situação crítica que poderia "evoluir mal", em termos sutis.

O motorista virou uma espécie de Deus naqueles longos segundos, em que todos quiseram acreditar que ele podia fazer alguma coisa para evitar.

Mas ele não pôde. Não era menos humano do que todos nós afinal. E por fim, ele também gritou de medo.

Foi naquele instante, ainda que eu não soubesse explicar como e tampouco isso importasse, que minha mente destrancou essas tais memórias de plano de fundo que eu ignorei e as pessoas ao redor se iluminaram pra mim.

Foi tudo muito rápido, entretanto não demorou para que percebêssemos a inevitabilidade do acidente. Foi um mero segundo de constatação, porém o suficiente para que a mãe tivesse o instinto de abraçar e tentar proteger seus filhos. Observei sem escolha, o pânico crescer e liberar a adrenalina máxima em cada um dos presente, criando as mais variadas e até inusitadas reações instintivas.

Houve quem chorasse, quem ficasse em choque, quem gritasse como se quisesse explodir os pulmões e as cordas vocais, quem tentasse se agarrar em algo, quem tentasse se agarrar em alguém... Quem tentasse ser o mártir e usar o próprio corpo de escudo para outra pessoa...

Houve quem rezasse.

Sim... Houveram muitas orações.

E assim percebi que ninguém de verdade, quer morrer. As pessoas só querem que suas dores passem. As pessoas querem ser felizes.

Elas querem o que o amanhã chegue, para que possam terminar todas as coisas que protelaram e juraram fazer.

A visão que eu tinha da proximidade com a morte, era totalmente diferente daquilo.

Não havia nada de romântico num acidente de automóvel, não foi nada parecido com o que se vê em diversas fontes do entretenimento. Não houve nada de romântico, em ver todos os itens que eu defendi com tanto esforço quando cheguei ali, voarem longe, pra onde nem sei.

Me mostrando que nunca importaram tanto assim.

Da mesma forma que a minha discussão deixou de me parecer relevante e se tornou instantaneamente fútil. Principalmente porque o celular também me escapou das mãos e foi arremessado pelo primeiro impacto.

Eu voei para longe. Porém não antes de me chocar contra o banco da frente.

Não fui capaz de prestar atenção em muita coisa a partir daí, especialmente enquanto capotávamos. Tudo virou apenas uma grande e nauseante sequência de "flashes".

Os gritos se misturando num lamento doloroso e mórbido, o desespero de cada um e o meu, se tornando um só.

E havia dor. E havia poeira. Vidro se quebrando. Muito provavelmente alguns ossos também.

Não havia a mítica luz branca. Não houve silêncio. Não houve um filme com trilha sonora melosa das partes mais marcantes da minha vida, passando em frente aos meus olhos.

Não sei para os outros, mas pra mim, não houve.

E quando finalmente o chacoalhar parou, eu não sabia discernir quem estava morto ou apenas desmaiado. Eu não sabia dizer as fontes de todo o sangue espalhado aqui e acolá, não sabia pela primeira vez em muito tempo, o que viria a seguir, o que esperar.

E então entendi a grande besteira que foi, perder tanto tempo tentando controlar a vida ao invés de vivê-la.

E então entendi com o que deveria realmente ter me importado, quando olhei pra mim e percebi que não teria a chance de consertar nada disso.

Algumas pessoas de certo sairiam dali, renovadas pela experiência trágica. Ainda que não todas, apesar do trauma, era um fato que algumas pessoas tirariam lições disso e as usariam para melhorar suas vidas.

Eu não teria essa oportunidade.

O que me deu essa certeza, foi perceber que duas ferragens transpassaram partes do meu corpo, que não precisava ser nenhum especialista para adivinhar que não tinha nada que pudesse ser feito pra reparar.

Eu não sabia por quanto tempo resistiria. Quantos últimos instantes tinha. Mas foram o suficiente para me esclarecer, que aquilo que eu realmente devia ter me importado esse tempo todo, eram as pessoas por trás da ligação que fazia quando entrei ali.

Porque nelas foram meu último pensamento. Porque ao ver seus rostos em minha mente, me ocorreu da forma mais sincera possível, de um jeito que só a sombra da morte consegue produzir, que tudo o que eu mais queria se pudesse fazer um último pedido, era ver aqueles que estava deixando pra trás.

E me desculpar por não ter sido melhor por eles enquanto pude.

Dizer que enfim entendi o que eles tentaram me mostrar o tempo todo. Que entendi que estava olhando na direção errada e que nenhuma das futilidades que me atentei ao longo da vida, era o que pensava naquele momento que iria sentir falta.

Ali eu só sabia lamentar as vidas que seguiriam sem mim e que provavelmente me superariam muito rápido, porque eu não me fiz marcante o suficiente para ser lembrada além da missa de sétimo dia.

Eu até vi um telefone. Não era o meu, mas talvez me servisse. Só que estava ironicamente, longe demais, e eu não conseguia me mover de onde estava presa.

Eu sabia não ia dar em nada, a probabilidade maior era de que eu morresse na tentativa, no entanto, mesmo assim resolvi forçar o quanto pude para me desvencilhar das ferragens.

A dor era excruciante, porém era minha forma de dizer que ao menos uma vez em vida, eu me esforcei pelo que era de verdade válido.

Mas dizer a quem?

Se existe um destino, ele não está aqui pra facilitar ninguém. Eu não seria uma exceção. Novamente, não houve uma resolução heroica nem poética nisso.

Que tenha sido nobre o meu último intento. Não importou. Ninguém viu, não significou nada. Eu falhei.

Não alcancei o celular, não consegui dizer nada a ninguém.

E o esforço simplesmente me fez morrer mais rápido.

Minha dor ficou perdida naquele desastre, minhas lágrimas, meu lamento... Eram como silêncio no Universo. Porque não atingiram lugar algum.

E foi como terminou.

Me desculpe se você esperava mais. Me desculpe se você esperava grandes reviravoltas e poesia.

A realidade não permitiu isso. Ela nunca permite. A continuação pertence aos vivos, o que se deixa pra trás, a beleza de ter existido, no fim é como você os marca.

E eu fiz isso mal.

Se existe uma verdade no fim das contas, é a de que recebemos de fato aquilo que merecemos.

E não importa quem eu seja. Se eu sou homem ou mulher, quantos anos eu tinha quando isso aconteceu, qual o meu nome...

A verdade que não mais “sou”. Agora eu “era”. E por isso não importo mais.

Também não importa se a pessoa com quem eu estava falando era meu marido ou minha esposa, namorado ou namorada. Um amigo, mãe, pai...

Nada disso importa. A morte não se importa com quem você seja.

Eu podia muito bem ser você. Creio que minha história se encaixe fácil a grande maioria...

Mas eu realmente espero que você seja uma exceção e que não se encaixe no meu lugar. E eu espero que os achados da sua vida, lhe sejam menos cruéis.

Não vou lhe dar nenhum conselho, os vivos não são bons em segui-los afinal. Apenas vou pedir que relembre a minha história e use o que concluir como melhor aprouver.

Eu apenas entrei num ônibus um belo dia. Chuvoso, cinzento, comum... Chato.

Aquele era pra ter sido só mais um ciclo de rotina, como outro qualquer. Não deveria ter nada de especial.

Mas teve.

Eu nunca saí daquele ônibus.

E se você está se perguntando, como eu posso estar te contando essa história... Bom, eu apenas espero que você não tenha que descobrir tão cedo.

Ainda que inevitavelmente em algum momento, você vá.  

March 2, 2018, 11:52 p.m. 2 Report Embed 1
The End

Meet the author

Boo Alouca Paciência... Autora em construção.

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Kaline Bogard Kaline Bogard
Wow Que história. Me envolvi pelo desenrolar, reconhecendo detalhes do cotidiano: também pego onibus todos os dias, sei como é essa luta. A possibilidade de um acidente é muito real. E muito distante. Porque é aquilo que acontece com os outros. Sempre com os outros. Nunca com a gente. Até que acontece. Cada segundo da descrição foi arrebatador. Eu não conseguia parar de ler, tentando descobrir o que iria acontecer, apesar de já ter uma ideia... Todas as reflexões que a personagem faz, foram ótimas. Bem pontuadas e pertinentes ao momento. A realidade não é um filme da sessão da tarde, que nos tira algumas lágrimas, com ótimas trilhas, maquiagem perfeita e figurino encantador. A realidade está aí para ser enfrentada, por todo mundo, mais cedo ou mais tarde. A questão é que a gente sempre espera que seja mais tarde... Parabens pela ótima história!
May 7, 2018, 1:24 p.m.

  • Boo Alouca Boo Alouca
    Eu fico MUITO, MUITO, TREMENDAMENTE feliz, de saber que você gostou e que a história te causou justamente o impacto que eu almejava quando escrevi e que eu também senti, no momento em que me inspirei. Peço um milhão de perdões, apesar de saber que isso não é o suficiente, por ter demorado 84 anos pra te responder essa review. Que por sinal, não podia ser mais perfeita e incrível, quem dera todos os autores tivessem a sorte de se deparar com comentários tão acalentadores e construtivos quanto o seu. Sério, ler isso me fez e sentir que cada segundo do meu esforço pra escrever e postar, valeu a pena. Muito obrigada mesmo. Estou plena e realizada que a minha pequena reflexão sobre as tragédias do cotidiano, tenha sido bem aceita. Paz e beijos de luz ✌️ May 23, 2018, 11:12 p.m.
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