Ne me quitte pas Follow story

insaneboo Boo Alouca

Ele partiu. Ele se foi e eu agarrei-me em meu orgulho, mas este não era forte o suficiente para me sustentar no fim das contas. E agora parecia que o céu e o chão desabariam me levando consigo.


Fanfiction For over 21 (adults) only. © O Universo e seus personagens pertencem a Masashi Kishimoto. História feita de fã pra fã, sem fins lucrativos.

#Romance #Yaoi #Lemon #GaaLee #FanficsNaruto #Gaara/RockLee #NarutoPósGuerra
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Capítulo único

N/A: ALGUÉM ME PARA QUE EU TÔ MUITO LOUCA NAS SONGFICS! Sim, vocês não estão loucos... Eu resolvi mesmo me arriscar a pisar, ainda que de mansinho, na terra do lemon. Minhas outras fics, as longas, logo vão me cobrar isso e já que numa bela noite em que resolvi ouvir Maysa, a inspiração me acertou nessa música, achei melhor não deixar passar. rsrs Espero que gostem, boa leitura! ♥


***


“Não me abandone”

O pensamento ecoava em minha mente, me torturando com as palavras que eu queria, devia ter dito. Mas não disse. E então ele fez.

Ele partiu.

Ele se foi e eu agarrei-me em meu orgulho, mas este não era forte o suficiente para me sustentar no fim das contas. E agora parecia que o céu e o chão desabariam me levando consigo.

E eu não me importava afinal.

O cair da noite trazia sua falta e tornava o frio do deserto ainda mais cruel.

Que fosse extremamente estrelado e bonito o firmamento de Suna àquela hora. Que a Lua e seu brilho insistissem que era uma bela noite. Eu só conseguia enxergar a escuridão do meu quarto. Mergulhava ou era engolido por ela, não sabia dizer.

Também não me importava com isso.

Ali era escuro como a cor dos cabelos dele. Escuro como a forma com que deixou meu coração. E o que mais me assustava na escuridão dessa noite, era que trazia lembranças de horas iguais àquelas, mas que dividimos juntos.

Isso devia ter me confortado um pouco sobre o vazio que ele deixara ao meu lado na cama, no entanto, tais pensamentos só fizeram tornar intensamente dolorosa a experiência de sua ausência.

“Precisamos esquecer

Tudo pode ser esquecido

Que já tenha passado”

Não que estivéssemos desacostumados à distância, tampouco desabituados de qualquer tipo de crise. Não, não éramos iniciantes. Já arrastávamos alguns anos nessa relação.

Mas nunca uma despedida havia terminado com um “adeus”.

Era sempre “até logo” ou uma outra variação do tipo que exprimisse bem o sentimento de “o mais rápido possível”.

Só que, dessa vez, ele me disse adeus.

Sorrindo, porém num adeus.

Não, nós não brigamos. Ao menos, ele não quis brigar. Eu até tentei discutir, porque isso me parecia melhor do que simplesmente aceitar sua proposta.

Ele não deixou que eu me estendesse, é claro. Pois, até para decretar um fim, ele era gentil.

Duas pessoas só discutem se ambas quiserem participar. E, assim como em tudo conosco, quando ele se absteve, minha sede pelo embate também cessou.

Sim, a meu ver, ele era a pessoa mais gentil que já havia pisado sobre a face dessa Terra, e eu arriscaria minha vida sem pensar mais do que dois segundos a respeito na defesa dessa tese.

Porém, o problema talvez fosse justamente esse. Ele não quis se justificar, porque sabia que eu refutaria e, provavelmente, também tinha consciência de que jamais conseguia me vencer em uma argumentação.

Todos esses anos e eu sempre o convenci de tudo com larga facilidade, mas, agora, parecia que ele havia se cansado de ceder.

Eu não duvidava em nada de seu amor. E isso só fazia doer mais. Seja o que for que passou por sua mente e embasou suas decisões, eu sabia que ele havia acreditado ser o melhor para mim.

Pra mim, porque muitas vezes ele se esquecia de si mesmo quando ao meu lado.

E seguindo essa linha de raciocínio, recordando os acontecimentos que ele presenciou em sua última estada em Suna, eu não precisava realmente que ele respondesse ou explicasse nada.

Eu já sabia. Era só mais do mesmo. Talvez ele só tenha se cansado de torcer para que eu sempre conseguisse escapar pela tangente de um ou outro dilema político. Talvez tenha chegado ao seu limite em se esforçar tanto, apenas para esperar num canto que eu tirasse o manto de Kazekage e fosse me refugiar com ele nas sombras que eram o nosso casamento.

E, claro que chamávamos assim por pura força de vontade.

Porque isso tínhamos de sobra. Ele principalmente.

Foi, inclusive, por isso que eu me senti pego de surpresa quando ele tomou a iniciativa de se afastar.

Já havíamos construído tanto nas nossas sombras... Eu só queria que ele esquecesse todos pesares. Que fizesse como eu e deixasse todos os fardos trancados na sala do Kazekage, junto com aquela persona que eu mantinha ali e que só existia para suportar.

Suportar toda a sorte de responsabilidade, pesos e conflitos possíveis.

Aquela era inegavelmente uma parte da minha vida que era importante, no entanto, também muito distinta do que tínhamos longe dela.

“Esquecer os tempos

De mau-entendidos

E o tempo perdido

Tentando entender”

Eu só queria que ele esquecesse a política, os jogo de palavras, as constituições de leis, as rusgas parlamentares, as dificuldades... Tudo o que era ou, ao menos, devia ser assunto só meu.

Queria que ele parasse de tentar entender, de procurar algo que devesse fazer, quando nada daquelas aflições cabia a ele. Eram todos meus aqueles fantasmas, ele não devia ficar assustado.

Queria que ele apenas esquecesse as implicações que eles traziam.

Desejava, de todo o meu ser, que voltássemos a somente nos preocupar em ter saudade, pelo tempo que os obstáculos constantemente nos faziam perder. Porém, que usássemos esse sentimento para alimentar a chama que se erguia em nós toda vez que a distância tornava a se encurtar para apenas alguns metros.

Toda vez que conseguíamos um momento livre, num cômodo fechado...

Talvez eu estivesse sendo egoísta, por querer ignorar toda a dor que obviamente havia contida num relacionamento de tantas dificuldades.

Mas eu nunca quis ser racional sobre ele. Eu nunca consegui ser. Isso também era uma nuance que eu deixava de lado, junto de toda a pose de líder, toda vez que nos tocávamos ou simplesmente nos víamos.

Com ele eu sequer me via shinobi. Eu só via o quanto o amava e o quanto faria todo o possível para permanecer desfrutando o calor de sua pele.

Naquela noite eu só queria de volta a certeza de que poderia continuar a aguardar seus retornos. De que ainda haviam motivos para cultivar amor, pois ele iria vir para recebê-lo em algum momento.

“Esquecer essas horas

Que às vezes matavam

Com golpes de “porquê?”

O coração de felicidade”

As horas passavam enquanto eu amargava em minha insônia. A dor de uma ferida fatal, mas que parecia querer se estender para sempre, pois a morte nunca chegava.

Só havia a própria aflição e os ecos que os soluços do meu sofrimento produziam numa agonia crescente, a cada instante em que eu me perguntava porque ele resolveu tentar matar a melhor parte de toda a minha existência.

E eis que a imersão em minhas tristezas foi quebrada por uma sequência conhecida de batidas na porta.

Eu sabia que só havia uma pessoa que batia daquele jeito.

Infelizmente, não a que eu esperava.

Só espremi mais os olhos já inchados e me encolhi nas cobertas, revirando até acabar de lado, de costas para a porta. Como se tentar ir mais fundo na escuridão fosse afastar o inconveniente visitante.

Entendendo no meu silêncio a recusa, meu irmão escolheu simplesmente usar suas habilidades, destrancou a fechadura com suas sutis linhas de chakra e entrou, dispensando a necessidade de um convite.

Apesar de saber que eu não estava dormindo, fechou a porta atrás de si com delicadeza e seguiu da mesma forma até se sentar na ponta da cama.

Suspirou com pesar, antes de enfim dizer alguma coisa.

— Você não precisa ir trabalhar amanhã.

Pus-me sentado de imediato, passando uma das mãos no rosto para secá-lo e tentando assumir alguma postura.

— O que você disse e a quem disse? Seja como for, vai retirar e dar um jeito nisso. Eu não estou doente, mas tenho o direito de ficar triste por uma noite. Vou estar no escritório amanhã no horário de sempre. E por favor, pare de me olhar assim. Eu não preciso da sua pena. – Retruquei amargo, falhando em fingir que minha voz não estava uma desgraça, de tão embargada.

A única coisa que ele pareceu ter escolhido ouvir do que eu disse, foi ajeitar a expressão. Transformou a pena em autoridade. E naquele instante, chegou a ser assustador, o quanto ele se pareceu com a lembrança que eu tinha do meu pai.

Talvez fosse de fato isso que ele estava querendo representar. Alguém que poria ordem no caos, porque eu certamente não estava no meu habitual juízo perfeito.

Mas o caso era que ele ignorou todo o resto, se pôs de pé e foi até o meu armário, abrindo-o e sentenciando:

— Eu já arrumei minhas coisas. Levanta daí e arruma as suas. Ainda te chamam de “Gaara do Deserto”, não é? Então acho que não vai ser exatamente um problema se sairmos agora e ganharmos um tempo a mais.

— Como é? – Devolvi confuso.

Ele revirou os olhos como se eu tivesse feito uma pergunta estúpida, ou como se sentisse que eu estava desperdiçando segundos preciosos.

— Eu te consegui uma brecha de uma semana. Convenci Baki a te substituir por aqui nesse tempo. Não me pergunte como. Vamos gastar seis dias em viagem, três pra ir e três pra voltar, o que te dá um dia inteiro para se resolver com ele. Eu sei que não é muito, mas espero que seja suficiente. – Explicou com rapidez.

— Mas não tem o que resolver, Kankuro! Ele me disse adeus e não quis sequer explicar o porquê. O que você quer que eu faça? – Me exaltei ao deixar, sem querer, as palavras soarem com o peso da mágoa que sentia.

Kankuro não se abalou nem por um segundo antes de responder. Parecia até que estava esperando pela oportunidade de dizer aquilo.

— Como se precisasse de uma explicação formal. Queria que ele te batesse um relatório do quanto você tem sido babaca? Quero que engula seu orgulho e desfaça esse patético papel de vítima! Quero que se levante, vista a capa de viagem, pare de se sabotar e lute pra algo além de ser o shinobi que todo mundo precisa. Ao menos por uma semana, seja o homem que você mesmo precisa! Corra atrás da própria felicidade uma vez na vida!

Engoli em seco, porém rebati num esforço para não demonstrar o quanto titubeei e fui atingido por suas palavras.

— Quer que eu vá implorar? – Minha voz fez soar como se a hipótese fosse ridícula.

Mas não era.

Era o que eu sentia genuinamente vontade de fazer, desde o início.

Talvez Kankuro tivesse razão sobre meu orgulho. No fundo eu sabia que sim.

E também ele fez questão de reforçar ao me responder, em posse da postura de quem estava totalmente disposto a me enfrentar.

Ironicamente, ele estava me defendendo de mim mesmo.

— E por que não? Acha que justo ele, não vale o seu esforço? Quantas vezes ao longo do seu trabalho como Kage não teve que implorar? Aquele seu discurso para Aliança Shinobi não foi basicamente isso? O que faz toda semana frente ao conselho? Vive dizendo a ele que não é com o Kazekage que ele dorme, e que essa versão sua não devia atrapalhar em nada, mas a verdade é que passa todo o tempo se escondendo atrás dela! Ele vive fazendo o impossível e se contendo para estar o máximo que pode com você e o que tem feito em retorno? Quantas vezes tentou arrumar uma desculpa para ir pra lá, ao invés de simplesmente esperar que ele viesse aqui? Tudo o que ele faz, esse tempo todo, é pensar em como as coisas ficariam melhor pra você e na primeira vez que ele experimenta se afastar, ainda assim não pensando em ti, o que você faz? Chora! Porém não move um dedo pra correr atrás dele!

A essa altura, eu já estava fragilizado demais para não conseguir erguer nenhum tipo de máscara ou armadura figurativa. Pela primeira vez, em muitos anos, não soube como fingir, sequer minha habitual indiferença.

E se não soubesse muito bem como e aonde me acertar, Kankuro não teria sobrevivido tão próximo de mim por tanto tempo.

Não soube o que dizer, não consegui continuar sustentando minha cabeça erguida, deixei-a pender pesada, encostando o queixo no peito. Concentrei minhas energias em tentar engolir o amargo nó que só fazia aumentar em minha garganta.

E eis que meu irmão não esperava mesmo que eu dissesse nada. Ele apenas reergueu meu rosto, amparando-o em suas mãos quando se abaixou a minha frente e me forçou a olhá-lo, para que eu pudesse com toda minha atenção, ouvi-lo arrematar.

— Ele fez uma jogada diferente. Palmas pra ele, alguém tinha mesmo que sacudir essa zona de conforto, eu já estava começando a sentir sono só de olhar pra vocês. Se quer um resultado melhor do que esse que está sentindo, também não pode manter seus atos iguais. Se o quer de volta, dessa vez deveria ir buscar. Do que está com medo exatamente, se nunca achou que a política lhes fosse um obstáculo intransponível? Acha que não merece ser amado e por isso vai ficar se punindo? Porque se for isso, eu vou te levar obrigado! Nossa mãe não eternizou o chakra dela em ser sua defesa absoluta, pra você crescer e agir desse jeito.

Kankuro não tinha receio de usar golpes baixos ou apelativos. Em nenhuma área de sua vida afinal.

“Os fins justificam os meios”, devia ser consagrado um lema de família.

Ele não precisou me obrigar, mas há um processo em ceder. E eu só precisava de mais uma segurança.

— O Shinki. Não posso fazê-lo cruzar o deserto a essa hora, ele ainda é muito novo. – Argumentei.

— Acha que eu não pensei no meu sobrinho? Matsuri está mais do que grata em servir de babá uma semana, sequer cobrou pela missão. E, se a treinou bem, ele vai ficar são e salvo. Pedi que ela viesse pra cá, onde a segurança é maior e ele já está acostumado. Vai ficar tudo bem.

Tendo isso dito, eu já não tinha o que contestar.

— Me encontra lá em baixo. Eu só preciso de vinte minutos. – Quinze para me arrumar e ajeitar o que iria levar. Cinco para me despedir do meu filho e conferir a história com a Matsuri.

“Não me abandone

Eu lhe darei

As pérolas da chuva

Vindas de países

Onde não chove”

Às vezes, tudo o que se precisa é de alguém que te empurre pra fazer aquilo que já se queria, mas uma série de receios, barreiras e orgulhos indevidos, dificultam o que devia ser simples.

Amor sempre foi a síntese e a resposta de tudo em minha vida. Por que agora seria diferente?

No fim, eu só tinha que ir e fazer qualquer coisa que o trouxesse de volta.

Porque atos de amor nunca estão, de todo, errados. Porque sempre nos tornam mais fortes.

E era isso que eu precisava que ele soubesse. Era isso que eu pretendia mostrar.

Dessa vez, mais do que querer, eu iria provar que ele podia jogar todas as suas preocupações fora.

Porque nos amávamos. Ele não tinha que complicar mais. Isso era suficiente. Com isso driblaríamos qualquer coisa.

Nós só tínhamos que ser quem éramos. Quem o outro se apaixonou. Eu precisava da determinação e otimismo inabalável dele de volta.

E estava indo buscar.

Uma tão longa viagem, porém eu e Kankuro muito raramente trocamos uma palavra ou outra. Ele não se espantava, estava acostumado com meu jeito introspectivo. Lhe bastava ficar me cercando com seu olhar cauteloso, como se tomasse conta. Era um bom irmão mais velho afinal. E também, ele sabia no que eu pensava.

Eu tentava encontrar uma forma de pôr em palavras tudo o que queria exprimir. Fiz e refiz meu discurso, inúmeras vezes.

Porque não bastava implorar, eu tinha que lhe passar a certeza do que o daria em troca de sua confiança. Eu tinha que soar verdadeiramente convincente de que trazia comigo mais do que desespero e saudades.

Tinha que fazê-lo acreditar que cada promessa que faria era válida.

Acho que só tive no máximo duas trocas de palavras dignas de se chamar de conversas durante aquela ida. Uma quando Kankuro praticamente me implorou que diminuíssemos o ritmo, ou chegaríamos na metade do tempo, mas, em compensação, chegaríamos mortos. E outra quando não me contive de curiosidade em perguntar:

— Por que está fazendo isso por mim?

— Porque é o que os irmãos fazem, ué... – Ele respondeu na maior naturalidade do mundo, novamente me olhando como se tivesse levantado uma questão óbvia.

Não disse mais nada, só me deixei disfarçadamente dar um pequeno e primeiro sorriso em dias.

“Escavarei a terra

Mesmo após a minha morte

Para cobrir teu corpo

De ouro e de luz”

O plano de Kankuro podia ter todas as boas intenções, mas não era totalmente bem estruturado, afinal, Konoha não era só uma cidadezinha qualquer, logo ali.

Era o centro militar de outro país.

Eu era o Kazekage...

E, às vezes, em momentos como aquele, gostaria de poder fingir que não era.

Não que eu tenha me arrependido de decidir lutar por isso. É só que ainda há humanidade por trás do homem que tudo suporta. Às vezes, há cansaço. É normal. Não quer dizer que eu ia largar tudo e deixar a Aliança Shinobi e a paz recém conquistada a muito sangue e suor desabarem.

Já podia avistar os portões de Konoha, quando Naruto simplesmente apareceu em minha frente.

— O que está fazendo aqui? - A forma exausta e o chakra agitado, indicavam que ele devia estar treinando por perto quando me sentiu chegar.

A surpresa e choque em sua expressão, e no tom de voz, me deixou ciente de que Kankuro só acertou coisas referentes à Sunagakure. Konoha sequer sabia da minha presença. Como iria justificá-la?

Uma mera interpretação errada e pronto, teríamos um enorme incidente diplomático para lidar.

Eu mal terminei de pensar sobre isso e Naruto já tinha me analisado de cima a baixo.

— Está com uma cara horrível, o que aconteceu? Suna está com algum problema? – Se expressou, preocupado.

Kankuro não deixou demonstrar, mas eu sabia que ele engoliu em seco um “não pensei nessa parte”.

Cansado demais para mentir e confiando em Naruto o suficiente para que ele soubesse da minha relação com Lee há tempos, assim como sobre tantas outras particularidades, simplesmente falei a verdade.

— Vim à paisana. – Me limitei a dizer. Não precisava de mais.

Ele sorriu, numa cumplicidade maliciosa.

— Finalmente... – Sempre se pode esperar sinceridade vinda dele. Porém, antes que ele continuasse, ambos sentimos um chakra conhecido se aproximar com rapidez.

— Eu estava mesmo me perguntando quantos dias eu e Gai teríamos que ficar com Metal, até que você viesse. Podia ter me avisado antes... Facilitaria muito. – Kakashi se pronunciou, com o pequeno citado em seu colo.

A criança estendia os bracinhos pra mim e, enquanto eu a pegava, me sentia um completo idiota.

Todos não só esperavam, como torciam para que eu tomasse uma atitude que, enfim, tirasse um pouco do peso que Lee vinha carregando sozinho naquele relacionamento há tanto tempo.

Deixei Metal me abraçar e matar um pouco a saudade. Deixei, inclusive, que ele puxasse meus cabelos sem reclamar. O vermelho dos fios sempre lhe atraíra atenção.

Eu ainda não tinha forças para sorrir, então só esperei que meu olhar expressasse a gratidão que sentia. Não se importando com minha ausência de palavras, Kakashi decretou, estendendo um cantil de água a mim e um a Kankuro:

— Eu sei que, se chegou até aqui, é porque esteve disposto a perder a cabeça. Mas não se preocupe, eu não vou pedi-la. Sunagakure receberá, em alguns instantes, meus agradecimentos pelo Kazekage ter se prestado a vir me fazer um favor pessoal.

Franzi a expressão por um segundo antes de assimilar, de fato. O apoio do Hokage em me cobrir era tudo o que eu precisava para poder me concentrar apenas no que queria.

Lee.

Kankuro tirou Metal dos meus braços, me lançando um olhar de incentivo.

— Vai lá. Ponha seus joelhos no chão. Não me interessa o que vai fazer depois disso, só quero te ver de novo daqui há vinte e quatro horas.

Acho que não devo ter escondido tão bem quanto pretendi a emoção que senti pelo apoio. E também devo ter ficado um tanto quanto em choque, pois Kakashi precisou bater uma das mãos em meu ombro, como se me arrancasse de um genjutsu.

— O que está esperando? Essa parte ninguém pode fazer por você. Vá e se acerte com Lee, antes que o Gai resolva retirar sua benção.

“Eu farei um reino

Onde o amor será rei

Onde o amor será lei

E você será rainha”

Mesmo apressando meus passos, mesmo procurando tomar os caminhos que sabia serem menos movimentados, Konoha é pulsante já pela manhã.

Eu, ainda assim, fui parado duas ou três vezes e cumprimentado com surpresa e exagerada reverência outras tantas.

Mas pouco me interessava aquele reconhecimento em específico no momento. O único com quem eu queria me importar por, pelo menos, o prazo que tinha, estava há algumas esquinas de distância. O único império que desejava sustentar, por um instante, não era feito de areia ou de ninjas.

Apenas de uma pessoa e cabia dentro de um quarto.

“Não me abandone

Eu inventarei

Palavras sem sentido

Que você entenderá”

E eis que eu finalmente me vi de frente a casa dele.

Achei que fosse precisar reunir forças para bater, porém, a verdade é que queria tanto fazer aquilo, estava tão ansioso para ver seu rosto, que não hesitei.

Já ele pareceu ter se arrastado um pequeno pedaço da eternidade até abrir a porta. Tanto que tornei a bater sabe-se lá quantas vezes mais, pressionando que ele atendesse.

Ou talvez não tenha demorado nem cinco minutos e isso era só minha ansiedade falando de novo.

Amar alguém tem um lado muito estranho. E todas aquelas dificuldades, aqueles altos baixos, intensificavam o fato de que não importava há quanto tempo estivéssemos declaradamente juntos, sempre que abríssemos a porta um pro outro, faríamos aquela mesma expressão de surpresa e alívio, suprimido num suspiro enquanto pronunciávamos o nome um do outro.

— Gaara? O que... Como... – Ele mesmo se interrompeu em suas questões e preferiu me puxar pra dentro de sua casa, conferindo frenético antes de fechar a porta, se havia alguém prestando atenção em nós.

— Não se preocupe com isso. Eu não me importo que notem. Não mais... – Eu queria ter dito mais. Eu devia.

Eu me preparei o caminho todo para fazer o melhor discurso da minha vida, no entanto, todas as palavras desapareceram de mim naquele momento.

Só restaram seu sentido. A força do desejo que continham.

E, em todos aqueles anos juntos, no fim, não precisávamos de palestras.

Kankuro tinha razão, falávamos melhor por atos.

Foi com um ato que ele sacudiu nosso marasmo e expôs uma questão mal resolvida. Era com um que eu devia solucioná-la.

Ele estava distraído, tagarelando, como sempre, quando minha mente vagueava em outros lugares. Mas eu o estava ouvindo, também, como sempre.

Ele expressava sua preocupação por eu ter largado tudo de repente, feito uma viagem apressada. Me perguntava se eu já havia sequer me sentado e comido alguma coisa, perguntava pelo Shinki...

Lá estava ele, sendo extremamente cuidadoso comigo. Ainda quando eu nem merecia.

— Lee! Pode se calar um minuto!? – Pedi, me aproximando dele e forçando-o a parar.

— Veio continuar a discutir comigo? – Ele rebateu, mas eu já podia começar a senti-lo amolecer sob o aperto de minhas mãos em seus braços.

— Não. Eu vim acabar com a discussão. Eu vim te dar algo diferente, porque não tenho sido justo com você e você merece saber como me faz sentir todo esse tempo. – Isso acabou sendo só um resumo atropelado, confuso e muito mal cuspido de tudo o que eu tanto havia pensado e concluído.

Pelo visto, minha habilidade com oratória se restringia a política.

Mas não importava. Ele entendia.

Não teríamos chegado tão longe, se não entendesse.

E, nesse momento, eu vi nos olhos dele que Lee começava a assimilar não só o que eu não consegui dizer, como o significado. Estar ali já era um começo. Era o melhor que eu podia iniciar por hora.

Eu vi tudo isso no esboço do sorriso que ele não pôde evitar de conter.

No sutil suspiro aliviado que queria romper sua desconfiança.

“Eu te falarei

Sobre esses amantes

Que viram duas vezes

Seus corações se incendiarem”

E assim, como sempre, lá ia eu ignorando o que convencionalmente se espera da minha postura nas ocasiões. Eu devia, eu me preparei para falar sobre o nosso presente, para implorar pelo nosso futuro e, ao invés disso, só de encará-lo tão de perto, sentir as cicatrizes em seus braços, o calor de sua pele... me fez falar sobre o passado.

Às vezes, os problemas que o passar dos anos vão nos soterrando fazem com que deixemos de nos atentar ao que devia ser sempre o ponto principal: A essência, o começo, a chama que criou a relação que se quer manter.

Resolvi, enfim, lhe contar algo que mesmo depois de todo esse tempo, havia mantido só pra mim.

Findei a distância entre nossos lábios, puxando-o pra mim com a necessidade de quem procura por ar pra viver. Embolei minhas mãos nos fios fortes e lisos de seus cabelos, sentindo-o ceder, arrepiar e estremecer, a medida que passei e repassei meu rosto pela curva de seu pescoço, me deleitando em absorver o cheiro do qual tanto senti falta.

Disse-lhe minhas impressões e sentimentos das primeiras vezes em que nos vimos. Ele sempre esteve certo em dizer que lutar com alguém nos faz aprender sobre este e desenvolver um laço.

Fui dizendo e forçando nós dois a recordarmos como chegamos até ali. Quem, de fato, éramos por trás do títulos. A determinação que ele me ajudou a aprender a ter. E, ainda agora, continuaria a ser o que nos manteria seguindo em frente.

Não éramos homens de desistir. Mesmo eu, com minha aura pessimista, fui aprendendo a desfazê-la com a maturidade.

Fui lhe dizendo, entre um beijo e outro, entre uma peça de roupa e outra que atirava ao chão – e que ele apenas permitia, numa admissão silenciosa do quanto também sentiu falta daquilo –, entre um passo e outro. Até onde o empurrei sobre a cama.

Ambos sabíamos que ele não pretendia me deixar. Ele queria me proteger.

Então eu estava lhe dizendo o quanto eu era melhor ao seu lado.

“Eu te contarei

A historia desse rei

Morto por não poder

Lhe reencontrar”

Demorei uns segundos admirando-o sem as vestes, com sua pura expressão de envolvimento e expectativa. Já não tínhamos mais vergonha ou receio desse tipo de intimidade. Só de pensar nas primeiras vezes e no quanto evoluímos até ali, me permiti um esboço sincero de sorriso.

— Tem que parar de olhar de cima desse jeito. Já reparou que sempre faz isso? Como se encarasse seus súditos. – Ele me trouxe de volta a realidade ao comentar.

Súditos?

— Não sou um rei Lee. A história que eu te contei não é um conto de fadas... – Comecei a tirar o cinto e deixei a cabaça cair no chão, sem me importar de ouvi-la quebrar.

Eu não precisava de defesa ali, tampouco de ataque.

Não com ele. Nunca mais minha areia o tocaria pra machucá-lo.

Eu só precisava que ele entendesse que naquele momento e em todos os que chamássemos de “nossos”... Éramos iguais.

E nada mais importava.

Deixei que minhas roupas também encontrassem o chão, para que não houvesse absolutamente nenhuma diferença entre nós.

Ele tentou vir até mim e participar do ato. O joguei sentado de volta à cama.

Eu não queria ser tocado naquele dia. Eu só queria lhe retribuir com todo o tempo que tinha, o carinho que havia ganhado ao longo de cada ciclo que vivemos juntos.

Deixei que minhas mãos e boca o acariciassem, numa delicadeza e calma que eu, na verdade, nem tinha, mas que ele tão bem merecia. Quis o sentir estremecer, quis o escutar suspirar, e, enfim, só após lhe render toda a veneração devida – e sem deixar de encarar seu olhar que tentava compreender porque eu estava querendo agir sozinho –, o toquei onde mais havia necessidade.

Não foi preciso manter esse ato por muito tempo. Uma das melhores coisas sobre nós, é que estarmos sempre envoltos em tanta adrenalina e intensidade, deixava um contexto constantemente propício para que respondêssemos rápido um ao outro.

Porque estávamos sempre ansiando por isso.

Um toque mais forte. Um gemido entrecortado. E, então, segui um dos melhores conselhos que recebi a respeito de nosso pequeno conflito:

Pus meus joelhos no chão.

“Não me abandone

Frequentemente vemos

Renascer o fogo

De um antigo vulcão

Que pensávamos estar velho demais”

Deixei minhas mãos trocarem de função, partirem para outros lugares. Ao mesmo tempo em que minha língua e minha boca capturavam o gosto familiar, que eu tanto temi nunca mais sentir novamente, eu acariciava e tomava cada centímetro daquela pele firme.

Enquanto me deliciava com os barulhos que conseguia arrancar daqueles lábios entreabertos.

E percebi que não importava quantos aniversários fizéssemos, Lee estava certo sobre mais uma coisa: Nunca perderíamos o tal fogo da juventude que ele tanto falava. Por mais piegas que isso soasse.

Ousava acrescentar que ele sempre reascendia mais forte, no alto de retorno a cada baixo que sofríamos.

Ouvir o gemido sôfrego de satisfação que lhe escapava, quase involuntário, ver a forma como seu corpo, que lhe custara tanto trabalho, remexia e arqueava...

Se expondo a mim como a mais preciosa obra de arte.

Era simplesmente umas das belezas mais impares que a vida me dava o presente de poder presenciar.

Vê-lo arquear a cabeça pra trás, a cada pausa que eu fazia, não só para relaxar os músculos do rosto, como para instigá-lo a durar mais... Fazia eu sentir que minha existência tinha os melhores motivos.

E que isso era tudo o que sempre busquei.

Finalmente sem a necessidade de mortes, eu podia dizer que me sentia vivo.

“E é provavelmente

Dessas terras queimadas

Que nascem mais trigo

Do que no melhor Abril”

Nesses momentos, pouco importava nossa idade, nossa história... Nossas feridas ou os pesos que cada um carregava.

Só importava que tínhamos amor suficiente para superar qualquer caos que viéssemos a passar.

Éramos capazes de tirar o melhor de tudo. Só não podíamos nos permitir esquecer.

Porque a lótus é a flor que vence e atravessa a lama e o lodo para florescer, sendo uma das mais resistentes e simbólicas plantas conhecidas.

E o deserto... Bem, ele exige a força de quem ousa enfrentar seu rigor.

Nossa união era fadada a dar certo, eu não ia permitir que terminasse.

Não ia sentar e assistir que ele me abandonasse.

“E ao cair da noite

No céu flamejante

Não é que o vermelho e o negro

Se casam”

Me permiti estender nas preliminares, nas preparações. Querendo fingir que aquilo não precisava ter um fim nunca e que tínhamos todo tempo do mundo para desfrutar um ao outro.

E como me era prazeroso desfrutar de seu deleite.

Como era incomparável e majestosa a sensação que me percorria por vê-lo apreciar cada estímulo que eu lhe despendia.

Seu nirvana, era o meu nirvana.

Porém ainda estávamos muito longe disso quando eu, por fim, o tomei naquele dia.

No geral sempre começávamos por mim. Então, fiz questão de inverter isso também, já que a intenção principal por trás de tudo aquilo era decretar que poderíamos ajeitar as coisas dali pra frente.

E, assim como nos atos anteriores, fiz questão de deixá-lo sentir, de lhe dizer com meu olhar, que tudo o que queria era que ele absorvesse meu amor e minha eterna gratidão, através de cada toque, de cada carinho. De cada cuidado...

E podia perceber que minhas intenções estavam sendo bem entregues.

Não só por suas respostas.

O arranhar de seus dentes em meu pescoço, o caminho que suas unhas fizeram ao cravarem em minhas costas – que, com certeza, ficaria marcado. Nossos gemidos que se misturavam, assim como as respirações descompassadas, davam a impressão de que nos revezávamos em roubar, por uns segundos, o fôlego um do outro.

E não era só por isso, mas porque ambos éramos o tipo de pessoa que não chegaria tão longe com alguém que não tivéssemos sintonia.

E sintonia significa poder ter conversas inteiras, longas, curtas, o que fosse... Sem efetivamente precisar dizer uma só palavra.

Bastava ter um conhecimento tão grande da alma do outro, que se conseguia senti-la em si próprio. Era isso o que estávamos trocando ali. Era mais do que o corpo, era o real espírito daquele que amávamos.

E trocamos todas as juras e sentimentos necessários, até desabarmos entorpecidos pelos leves tremores do êxtase. Mas, ainda, abraçados, como se temêssemos que o menor centímetro de distância pudesse quebrar toda a magia que invocamos ali. Tão próximos, que os fios de nossos cabelos, molhados de suor, se misturavam num belo contraste.

O vermelho e o negro... Simbolizando a aliança que nunca pudemos trocar realmente.

O que tampouco nos incomodava. Porque prometemos casar novamente todas as noites em que nos misturássemos daquele jeito.

Ele aceita. Eu aceito. Está tudo certo.

O Sol ainda estava a pino. Significava que ainda tínhamos tempo. Ainda havia muita saudade e, se aquilo era a definição de implorar, podíamos continuar em silêncio até o fim do dia. Ainda haviam muitas formas de se render.

Creio que Lee concordava comigo sobre isso. Era raro que preferisse ficar calado, mas até ele tinha que reconhecer que a motivação era nobre. Entre uma ou outra pausa necessária, experimentamos todas as partes de sua casa que conseguimos, de todas as formas que nossa criatividade permitiu.

Até nos cansarmos a ponto de perceber que, se continuássemos, eu não conseguiria ir embora. E, infelizmente, como sempre, eu precisava ir.

Tivemos nosso último momento no banho que compartilhamos e reservamos um tempo para apenas ficarmos sentados de frente à janela. Observávamos o Sol se pôr no horizonte, aconchegados e embolados um no outro. Devidamente vestido, eu estava sentado entre suas pernas, apoiado em seu corpo tão resistente, enquanto infundia mais chakra pra viagem e refazia minha cabaça.

Ainda não havíamos dito nada. Só desfrutávamos da sensação de plenitude.

E eu queria ver Metal uma última vez antes de ir, então esperava que Gai o trouxesse para Lee.

“Não me abandone

Eu não vou mais chorar

Eu não vou mais falar

Eu me esconderei lá

Para te contemplar

Sorrir e dançar

E te escutar

Cantar e depois rir”

Mas é claro que, a essa altura, o silêncio já estava começando se tornar estranho e pesado.

A perspectiva de minha partida dava conta de dissipar a névoa tranquila em que nos elevamos todas àquelas horas.

E, é claro, também, que foi Lee o primeiro a ceder e quebrar a quietude.

Apenas sorri ao ouvir sua voz. Já estava mesmo sentindo falta de sua tagarelice e me espantando porque este era seu novo recorde de tempo calado.

— Você parecia querer fazer um discurso quando chegou... Tem certeza que vai sair sem dizer nada? Sabe que pode demorar pra voltar...

E ouvir aquilo, fez meu sorriso se alargar um pouco mais.

— Sabe que não precisa mais. – Rebati.

— Ah é? Só por que fizemos isso, não precisa me dizer mais nada? Conquistou o que queria e vai embora? – Ele se afastou de mim e cruzou os braços, fingindo uma expressão ofendida.

Eu não estava enganado sobre a conexão que descrevi anteriormente. Mas, com o calor daquilo esfriando e o fantasma da distância tão próximo, era natural que ele me pressionasse.

Inclinei-me o suficiente para beijá-lo. E o fiz com todo o cuidado e intensidade necessário para que a lembrança do momento o pudesse acalentar, mesmo depois que eu me fosse. Assim como a mim mesmo.

Fiquei mais do que satisfeito ao vê-lo ter que puxar o ar longamente quando o soltei.

— Já passamos dessa fase, Lee. Essa foi minha melhor forma de implorar. Já chega de chorar e de fazer discursos. E eu sei que você entendeu melhor desse jeito... – Mesmo depois de tanto tempo “casados”, ele ainda corava e sorria um tanto quanto tímido, ao me ouvir falar um pouco mais explícito, fora de contexto. – Você disse que eu posso demorar um pouco pra voltar... Então está contando com isso.

Em outras palavras, “não se faça de rogado, não complique tudo de novo”.

“Deixe que eu me torne

A sombra de tua sombra

A sombra de tua mão

A sombra de teu cão

Não me abandone”

Ele abaixou ligeiramente a cabeça, fugindo do meu olhar, para confessar.

— É claro que eu entendi. É claro que eu quero que te ver voltar, sempre o mais rápido que puder, assim como também quero ir até você e o Shinki, tanto quanto for possível. Mas é óbvio que isso não acontece tanto quanto gostaríamos. Sabe que eu jamais contestaria a posição de Kazekage, ninguém além de você deveria estar onde está. Porém, como quer me fazer acreditar que isso vai dar certo porque ficamos mais fortes juntos, se quase não estamos?

Coerente... Muito coerente. O que não me espantava, eu não esperaria menos vindo dele afinal.

No entanto, não abalava minhas crenças.

— Não podermos estar sempre no mesmo país, não faz com que tenhamos anular o que temos toda vez que um de nós se afasta. Por acaso você deixa de se sentir casado, toda vez sai do meu lado? – Devolvi.

— Cla-claro que não... – Ele respondeu meio tenso e, mediante a isso, eu lhe sorri e envolvi num abraço.

— Então, por que deixa de sentir minha presença? Se tem uma coisa que eu aprendi com a história da minha mãe, Lee, é que quando a gente ama alguém, nunca vamos embora por completo. Nunca o deixamos verdadeiramente sozinhos. Continuamos nos amando, eu continuo pensando em você quando estou longe e sei que faz o mesmo. Você só precisa prestar mais atenção na sutileza dessas coisas. E deixar que eu continue aqui, mesmo depois que eu for.

Nisso o tempo não o mudou em nada. Ele continuava sendo levado a chorar com facilidade. Eu nem precisava de muitas palavras...

— Está certo - Ele admitiu me abraçando de volta.

Eu havia terminado de ajeitar a cabaça e reforçar o chakra. Lee fez questão fazer alguma coisa que eu e meu irmão pudéssemos levar pra comer na viagem. Não tive coragem de abrir a boca para dizer que Kankuro odiava a comida dele.

Gai não demorou muito depois de ter escurecido para aparecer com o Metal. E ele também não precisou perguntar para perceber que podia desfazer o olhar severo que tinha sobre mim.

Tive certeza de que havia escapado de sua repreensão e mantido minha benção quando ele me chamou pelo nome, e não pelo título político.

E de alguma forma, no meio disso, eu acabei não vendo os minutos passarem.

Fui relembrado disso por Kankuro chegando furioso até a casa de Lee.

— Você não tem noção de horário? Sabe que quanto mais tarde sairmos daqui, pior é a primeira parte da viagem. Estamos sozinhos hoje, ainda é perigoso, mesmo pra nós, sabia? – Kankuro estava muito apegado aos sermões ultimamente.

— Oh, eu sabia que estava esquecendo alguma coisa... – Gai se pronunciou antes que eu dissesse alguma coisa e Lee armasse uma expressão de preocupação. – Kakashi pediu para avisar que, se vocês estivessem aqui ainda quando eu chegasse, podia permitir que meu primoroso aluno os acompanhasse até Suna. Seria profusamente deselegante da parte de Konoha não enviar uma escolta, quando o Kazekage veio prestar um favor pessoal.

Eu vi os olhos de Lee se ascenderem e brilharem como estrelas. Eu posso até ser mais discreto, porém não devo ter ficado muito atrás disso.

— Quem tem amigos, tem sorte... – Kankuro provocou me dando um tapa no ombro. Apenas lhe dei um olhar repreensivo e ele retomou sua postura.

— Não se preocupem com Metal... – Gai se adiantou, em vista de que obviamente perguntaríamos isso.

— Mas Gai-Sensei... – Lee tentou ponderar. Óbvio que não conseguiu ir muito adiante.

— Já fiz isso tantas vezes Lee, qual é o problema agora? – Eu e Kankuro chegamos a dar um passo pra trás. Não era um embate no qual queríamos nos meter.

— É que a Tenten está em missão... Não vai poder ajudar e... – Coitado, mais uma vez, não conseguiu ir muito longe.

— Hum? Acha que eu não consigo fazer isso sozinho? – Gai parecia quase ofendido e Lee já estava quase de joelhos implorando perdão...

Kankuro revirava os olhos para a cena e eu balançava a cabeça negativamente. Porém mais uma vez naquele dia, fomos salvos pela chegada do Kakashi.

— Eu não tirei a noite de folga, para chegar aqui e encontrar isso... – Só Kami sabe como ele chegou no parapeito da janela sem se fazer notar.

— Tirou a noite de folga? – Verbalizei o espanto que deveria ter ficado só em pensamento.

— Você dorme no escritório? – Ele me devolveu com espanto igual.

Engoli em seco porque me soou como reprovação (e era mesmo), porém Kankuro não me deixou passar em branco. É pra isso que servem os irmãos mais velhos afinal. Pra te expor...

— Basicamente é isso sim. Tenho quase que pegar no colo e levar pro quarto, ou então ele vira os dias ali.

Antes que eu pudesse me defender, Kakashi terminou sua repreensão.

— É por isso que vocês estão desse jeito. É claro que é difícil se verem, você mimou Sunagakure demais. Quer saber... Não é mesmo prudente vocês saírem daqui a essa hora, ainda que com o reforço do Lee. Me daria um trabalho enorme ter que justificar a sua aldeia se algo acontecesse com vocês. Suna não vai cair, se esperarem o amanhecer para partir. E acho que sua irmã gostaria de tê-los para o jantar.

Mais uma vez, eu abri a boca pra responder, porém não cheguei a conseguir emitir som.

— Não aceitaremos negativas como resposta. Nossa aldeia, nossa responsabilidade. Entende isso, não é, meu jovem? – Gai entendeu rápido a estratégia de Kakashi e fez questão de reforça-la.

É... Eles não me deixavam escolha. Apenas suspirei e acenei afirmativamente.

Porém, foi naquele instante que percebi que ajudar a mim e ao Lee a termos mais um tempo juntos não era a única intenção daquilo. Lee, em sua tristeza, deve tê-los consumido muito.

Digamos apenas que o sorrisinho deles deu a entender que estavam precisando de um tempo sozinhos. Eu já devia ter notado isso no “tirei a noite de folga”...

Mesmo que um pouco atrasado, ao menos eu não notei isso sozinho. Kankuro tirou Metal do colo do Gai e lhes desejou um “bom proveito”.

Kakashi parecia tão bom quanto eu em simular indiferença. Gai só teve tempo de erguer o polegar, firmando que estaria de pé logo cedo para pegar o menino de volta quando fossemos embora e, em segundos, já estava tendo sua cadeira de rodas levada para longe.

Mal conseguimos agradecê-los como mereciam. Lee ficou com a parte verbal da tentativa, obviamente.

Kankuro de fato gostou da sugestão de irmos ver Temari, ainda que eu soubesse que, provavelmente, foi lá que ele passou o dia inteiro. O caso era que ele já estava metros adiantado a nossa frente no caminho. O que, conhecendo-o bem, ele fez de propósito para nos deixar ter uma finalização sozinhos, mediante as novidades.

Mas, eu ainda julgava que gastar muito tempo com palavras nos fariam perder a degustação do momento.

Então, apenas segurei a mão dele e o deixei ver minha felicidade por ele me proporcionar momentos familiares que eu jamais teria tão verdadeiramente sem sua presença em minha vida.

O deixei ver minha felicidade, e meu apelo.

“Não me abandone”.

March 2, 2018, 8:22 p.m. 1 Report Embed 3
The End

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Boo Alouca Fanficando atualmente sobre desenhos animados e animes diversos 💙

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Post!
Isis Isis
Que linda e intensa essa história. 💜
April 18, 2018, 7:52 p.m.
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