Mansolar Follow story

karimy Karimy

O rei Thanfor anexou Mansolar ao seu território, mas um dos herdeiros legítimos conseguiu escapar. Tentando compensar uma dívida do passado, a Cavaleira do Vale vai à caça. Sua aventura, porém, se revelará mais complicada do que imaginava.



Fantasy Epic For over 21 (adults) only. © Todos os direitos reservados.

#romance #fantasia #medieval #magia #guerra #mistério #violencia #original #erótico #mago #originais #hentai #pwp #universoalternativo #segredos #ação #bruxa #conspiração
17
7611 VIEWS
In progress - New chapter Every Thursday
reading time
AA Share

Prólogo

📷 

  

O matagal era baixo no Vale de Manom, cheio de ervas daninhas enfincadas em um solo duro e poeirento. O Cavaleiro Negro seguia à frente de uma das linhas da retaguarda, montado em seu corcel negro, com sua pesada armadura preta reluzindo. O estandarte de Belmonte ia ao seu lado; uma montanha em um fundo alaranjado, representando a alvorada. Sua fila mantinha um perfeito alinhamento logo atrás, duzentos soldados juramentados a Thanfor, em uma lenta cavalgada. 

Os tambores e trombetas de guerra eram ouvidos por todos os lados, pareciam fazer a terra tremer sob os cascos do cavalo.

— Meio galope — Enzo ordenou. — Seguir em alinhamento. Acompanhar a linha central. — Suas ordens eram repassadas para trás e para os lados. A capa negra dele se agitou, suor começou a lhe escorrer da raiz dos cabelos castanhos, deslizando pelo seu rosto sob o elmo em forma de caveira. Os cavalos abriam caminho, ganhando terreno, enquanto as pontas das lanças do flanco, metros à frente, tremulavam, parecendo beber o brilho do sol da manhã. Seu rei havia deixado bem claro que Mansolar devia estar anexada ao território de Belmonte ainda ao fim daquele dia. 

O Cavaleiro Negro conseguia avistar o estandarte que seguia ao lado da Mercenária da Taverna, no flanco esquerdo. Ele liderara uma investida daquela posição há poucos anos, na rebelião de Valdamar, e também em outras rebeliões. Mas aqueles soldados que seguiam ali não eram seus soldados, não saberia dizer o nome nem de metade dos que ali se encontravam. Dessa vez, seu rei dissera que a guerra seria vencida com a retaguarda e que era lá que ele tinha de estar, mas Enzo não conseguia parar de pensar que a sua posição devia ser na linha de frente. Preferia estar a pé, com Beijo de Sangue em mãos, sua espada, correndo em direção ao inimigo. 

Os companheiros da Guarda Real de Enzo seguiam liderando os batedores, cada um de um lado da retaguarda. Ele até mesmo preferia ter ficado com esse trabalho, mas era juramentado ao rei Thanfor e obedecia sem reclamar, mesmo que seu coração se apertasse. De qualquer forma, ansiava por fazer seu nome ainda mais famoso naquela guerra.

Thanfor já esperava pouco mais de duas décadas para invadir Mansolar, não admitia que o rei Gael ainda estivesse vivo depois de conspirar contra seu irmão, Thomas, o rei que governou um dia. E antes mesmo de tudo começar, Enzo já se via entregando a vitória ao seu rei.

Do flanco até a última linha da retaguarda, as trombetas de guerra soaram mais uma vez, mais altas, mais demoradas, e os tambores entraram em um ritmo mais forte e contínuo. 

— Lanças — gritou. — Espadas! — Aço raspou em couro e madeira, um barulho estridente e fino em contraste com os demais que ali se erguiam. Enzo apontou Beijo de Sangue para frente e depois a recuou, colocando seu cavalo a passos mais rápidos, sendo seguido pelos cavaleiros que vinham atrás. A cavalaria inteira avançava como uma só.

As armas dos soldados do flanco se ergueram, os inimigos ainda pareciam distantes ao seu olhar, mas todos mantiveram o ritmo; estavam afastados o bastante para manter o galope de guerra.

— Escudos — gritou o Cavaleiro Negro, puxando o seu próprio, que estava atado à armadura de seu corcel, e o colocou à frente do rosto bem a tempo de deter os raios de luz azuis, amarelas, brancas e cinzas que se ergueram contra eles, mas passou muito longe, em cima de suas cabeças.

A tropa de Mansolar possuía uma quantidade de magos muito pequena em comparação a eles, e eram verdes, inexperientes em batalha, além de estarem longe demais. Mesmo assim, atingiram alguns soldados do flanco, que agora eram pisoteados pelos demais que avançavam.

Alguns gritaram de dor, enquanto outros soltavam gritos de guerra. As tropas sequer tinham se encontrado e uns já sucumbiam. Seu escudeiro, Ramon, estava ansioso pela batalha. Só lutou em algumas justas no começo do ano, por isso ainda não entendia direito o que viria. 

O rei Thanfor gritou na fila da direita, e os soldados começaram a rugir em resposta. Uma tempestade de vozes invadia o Vale.

Thanfor convocou os capitães para o conselho de guerra meses antes, enquanto os soldados se reuniam e se aglomeravam no pátio de Belmonte, prontos para a partida. Até então, Enzo ainda não sabia que ficaria com o comando de uma das fileiras da cavalaria, antes contava que sua posição seria mantida no flanco.

— Que honra, meu irmão. Ao lado da fileira do rei — disse Tiro, o Vigilante, e deu três tapinhas nas costas dele. 

— Verdade. Honra — ele respondeu, recebendo olhares de soslaio de alguns dos comandantes. Acham que estou velho, que sou fraco demais para comandar o flanco, ele viu nesses olhares, mas estão errados. Sou o Cavaleiro Negro, Guarda Real de Thanfor. Vou mostrar onde está minha força, seja onde for.

Enzo batalhou em três grandes rebeliões em Belmonte, protegendo o rei de diversas formas, assassinando em seu nome, abandonando o direito de herdeiro da Casa de seu pai, tudo para servir Thanfor. Agora, o posto que tanto almejou na guerra foi tomado por um cavaleiro livre, pior, uma mulher. Enzo conhecia o flanco, os homens certos, as estratégias. Mas seu posto fora dado a uma puta qualquer, aquela do tipo que quando via sangue mesmo, corria. 

As coisas certamente seriam diferentes se fosse ele a estar à frente, no comando do flanco. Jamais teria colocado cavaleiros livres e mercenários na frente de batalha. Eles correm e choram feito crianças quando são feridos, com medo de não viverem o bastante para o saque. Em vez disso, teria posto cavaleiros consagrados, com espadas de nome conhecido em mão, armaduras brilhantes e vorazes, para assustar os inimigos que os olhassem. O rei Thanfor nem o respondeu quando falou isso. 

Entendia também os riscos do que propôs; as armaduras eram pesadas para quem teria que guerrear a pé. Sabia disso bastante bem, a sua mesmo deixava marcas em seu corpo, onde as tiras eram atadas. Cota de malha, elmo, peitoral, manopla, greva e todos os outros adereços talvez fossem prejudiciais, mas pelo menos deviam usar algum aço que não fosse nas armas.

Desejou que o flanco perecesse, que todos aqueles cavaleirinhos de merda que seguiam a Mercenária da Taverna morressem para que ele os pisoteasse com seu corcel logo depois. Alguns até usavam alguma cota de malha da pior qualidade, mas a maioria apenas roupas de couro: pelo menos metade morreria no primeiro encontro corpo a corpo. A companhia de arqueiros era boa, isso ele admitia, mas eram indisciplinados, apesar da boa mira. 

Até a escolha do dia para dar batalha foi ruim. A maioria dos poucos magos de Mansolar tem poder de fogo, enquanto os magos de Belmonte eram, em sua maioria, portadores de poderes de água. Esperar uma chuva seria sensato, pelo menos não íamos ter que ficar desviando dos poderes deles. Enzo não possuía poder algum, mas sua espada de lâmina de kaitsja era o suficiente para protegê-lo das rajadas de magia. 

Mesmo com tudo isso, pelo menos tinham o favor do elemento surpresa, ainda que com quase trinta mil cavaleiros, cavaleiros livres, mercenários e soldados a pé, conseguiram avançar pela Estrada da Perdição com rapidez. 

Quando chegaram na entrada de Mansolar, encontraram as casas de rameiras fechadas e silenciosas, mas quando seus homens as invadiram, ainda conseguiram encontrar duas dúzias de pessoas; homens e mulheres. 

— Que sorte — seu escudeiro disse. Os capturados tinham sido amarrados a postes improvisados e dados aos soldados para que se saciassem antes da guerra.

Enzo ficou bem mais interessado em outras coisas. Depois de pegar gonorreia de uma prostituta, não colocava mais a mão em qualquer uma, antes disso, preferia ir na estalagem de Melindra, ela arrumava mulheres sadias e novas para ele, algumas ainda donzelas. A diversão de seus homens só começou depois que ele interrogou cada um dos cativos. O que foi bom, pois acabou por descobrir que a tropa do Rei Gael já se direcionava ao Vale de Manom e graças a essa informação, não se detiveram na entrada de Mansolar como iriam fazer, avançaram ainda mais rápido para chegarem no campo de batalha antes de seu inimigo, se agruparam sem alvoroço e podia-se dizer que os pegou desprevenidos. 

O assalto ao grande muro da cidade acabou sendo fácil. Os soldados mansolarenses ainda não tinham tido tempo de chegar, então só precisaram enfrentar a tropa pequena do Senhor do Vale, enquanto os magos davam conta do primeiro portão da cidade. O mais difícil acabou sendo o segundo portão, muitos homens morreram queimados e esmagados por pedras que os soldados de Mansolar jogavam de cima das ameias. Os magos tiveram de recuar, e o portão do segundo muro da cidade foi arrebentado com aríete. Alguns homens também caíram no fosso raso entre os muros, mas resgatá-los era impossível. Os sobreviventes quebraram alguma parte do corpo e só atrasariam a tropa. 

A poeira se erguia no solo do Vale, luzes de energia mágica coloriam os olhos acinzentados do Cavaleiro Negro. A capa do soldado que estava atrás dele se prendeu no estribo do companheiro do lado e o homem caiu com um baque de aço, sendo pisoteado pelos cavalos que corriam em direção à batalha. 

Ahuuuuuuuuuuuuu!, as trombetas soaram em uníssono, e um som mais seco ecoou depois, acompanhado por gritos e ranger de aço com aço.

A primeira linha de frente de Belmonte se encontrou com a de Mansolar. Um milhar de gritos se espalhou, flechas subiram e desceram, e o corcel de batalha de Enzo seguia. Eu devia estar lá, pensou ele. Devia estar confrontando o Cavaleiro de Sal, fazendo meu nome mais uma vez. 

O Cavaleiro Negro chegou a sonhar que ganhou uma canção por ter matado alguns cavaleiros importantes e os príncipes de Mansolar. No sonho, a batalha aconteceu em um campo de rosas, e o maior machucado que recebeu foi um arranhão de um espinho. O problema era que depois de toda a glória que se sucedeu após a batalha, o arranhão inflamou e ele morreu. 

Agora que ele olhava bem, os espinhos do sonho dele muito se pareciam com as lanças cruzadas no fundo vermelho-sangue do estandarte de Mansolar. Ele segurou Beijo de Sangue com ainda mais força. Não estava nem aí se estava na retaguarda, ia matar o maior número de soldados que conseguisse, se fosse ferido, ia ferir três vezes mais, se morresse, levaria mais ainda com ele. 

O cheiro de sangue fresco pairava no ar, luzes mágicas passavam por ele como relâmpagos multicolores. Enzo ouviu um grito e, quando olhou para trás, viu a égua de Ramon se dobrar sobre as patas dianteiras, dando com a cara no mato baixo e lançando o escudeiro metros de distância. O Cavaleiro Negro tentou desviar seu corcel, mas foi tarde demais e acabou passando por cima do rapaz. Ele tinha só vinte anos, pensou ele, mas era burro, burro demais!

Um homem surgiu em pé, ao seu lado, brandindo sua espada em um meio arco, mas Enzo passou por ele, desferindo a lâmina de sua espada contra o homem. O aço penetrou no couro, na carne e vibrou enquanto passava no osso, se soltando em seguida. 

Soldados rolavam no chão trocando socos. Viu um que usava uma pedra para esmagar a cabeça do outro, que estava no chão. Enzo passou por ele, fazendo sua espada zunir no ar antes de cortar o braço esquerdo do homem. 

Um mago de Mansolar surgiu na frente do corcel, fazendo um movimento dançante com as mãos, Enzo colocou sua lâmina na frente do rosto quando a rajada de luz verde estava prestes a lhe atingir, e a magia foi repelida. O cavalo passou por cima do mago, mas se desequilibrou e caiu. Deitado no chão, sentindo sua perna sendo esmagada pelo animal que guinchava de dor, o Cavaleiro negro tateou o solo em busca de Beijo de sangue, que escapou de sua mão na queda. Um soldado com o brasão de Mansolar no peito seguia, cambaleante, em direção a ele. Enzo enfiou a mão na cintura, por baixo da cota de malha, arrancou de lá seu punhal, quando viu que não alcançaria a espada, e cortou o calcanhar do soldado com um movimento rápido. O homem caiu por cima dele, soltando um gemido, e Enzo enfiou o punhal na bochecha do inimigo. 

Mais homens vinham do nada para confrontá-lo, encontrando outros de seus cavaleiros antes de chegar até ele. Enzo empurrou o soldado que estava em cima dele para o lado e puxou sua perna com força. Quando de pé, viu que seu corcel quebrou a pata, pegou Beijo de Sangue e cortou o pescoço do animal. Um forte jato de sangue vermelho quase preto jorrou, deixando a espada e as manoplas dele ensopadas.

Arrancou a armadura de mão enquanto avançava em direção a um aglomerado de soldados que se empurravam, caiam e morriam à sua frente. Abriu caminho chutando, cortando couro, cota de malha e carne. Já estava ofegante quando passou a confusão, continuando em frente. 

Os tambores ainda cantavam, enchendo o ar com seu batuque, abafando as vozes que se encontravam, desencontravam e morriam. Homens soltavam guinchos de dor e animais gritavam. 

Carne queimada encheu seu nariz e quando olhou para o lado, viu um soldado gritando por ajuda enquanto rolava no chão de sangue. Um mago de Mansolar lançava chamas em quem quer que se aproximasse dele, mais atrás Enzo viu um homem com cabelos pretos que desciam ao ombro, usava um meio elmo encimado por um par de lanças cruzadas. Estava vestido com uma blusa de couro cozido, uma calça com o mesmo material. Também tinha grevas para proteger as canelas e usava antebraçal. Se movimentava rápido, subindo e descendo os braços, rodando em torno de si mesmo, passando rasteiras, dando socos e chutes em quem vinha contra ele, sua rapidez fez Enzo ter certeza de que o filho mais novo do rei Gael de Mansolar não usava cota de malha. Mas tem poder.

O segundo filho, Bryen Pistodi, lançava rajadas de fogo do mesmo jeito que o mago que estava na frente dele. Enzo avançou em direção aos dois, parou uma mão que segurava uma machadinha que quase acertou sua costela, se virou para ver uma mulher duas cabeças mais alta do que ele, com ombros tão largos quanto o do Cavaleiro Negro. Passou a espada na perna dela e continuou a seguir.

Quando batalhou na Rebelião dos Andantes, em Belmonte, tinha enfrentado uma mulher que devia ter um metro e meio de altura, dez centímetros menos que ele, e que resistiu bem mais do que aquela ali, quase transformando a batata da perna dele em filés.

O soldado que ateava fogo com as mãos para todos os lados o enxergou, e um jato quente e alaranjado veio em direção de Enzo como uma flecha. O Cavaleiro Negro colocou Beijo de Sangue na frente, bloqueando o golpe mágico e avançando. 

O mago de Mansolar não desistiu, agora lançando bolas de chamas, alternando os arremessos com uma mão e depois a outra, sem parar. Chamas do tamanho de um punho acertavam a espada de Enzo e eram repelidas uma a uma, se desfazendo com o corte da lâmina de kaitsja, enquanto ele avançava passo a passo. Quando estava perto o suficiente, brandiu Beijo de Sangue e acertou o mago com um corte em diagonal. A espada abriu a roupa do homem, cortou pele e lançou para fora suas entranhas.

O Cavaleiro Negro notou que o último ataque de fogo tinha pegado em seu espaldar. Apesar do aço, o fogo queimava, fazendo-o sentir o calor perto de seu rosto. Enzo arrancou o espaldar do ombro com dedos desajeitados, ainda tendo tempo de ver o mago caindo no chão. Acabou tirando também o espaldar do lado direito e depois jogou no chão ensanguentado. Com raiva, arrancou o elmo para dar visão a um rosto achatado, liso de barba, lábios finos e cabelos curtos. 

Ahuuuuuuu!, soavam as trombetas, e quando olhou para os lados, um sorriso reto apareceu em seu rosto. Os soldados de Belmonte se aglomeravam, matando, chutando, enquanto os magos combatiam magos. Mansolar caía bem na frente dele. O sorriso morreu quando viu o Cavaleiro de Sal sendo empalado por uma lança, do outro lado, a mão que a segurava pertencia à Mercenária da Taverna. Puta, eu que ia matá-lo.

Seus olhos se voltaram para frente a tempo de se livrar de um golpe de espada, só agora percebia que seu escudo desapareceu. Devia tê-lo perdido quando o cavalo caiu, mas agora já não fazia mais diferença. O homem que veio ter com ele devia ter pelo menos dois metros de altura, mas era gordo e lento demais. Enzo fê-lo cair com um chute no joelho e enfiou Beijo de Sangue na boca do gordo. Quando arrancou a lâmina da goela, o homem caiu. o Cavaleiro Negro limpou o sangue no couro do morto e foi em direção ao príncipe, notando só agora que Bryen já não mais usava magia, em invés disso, uma espada de duas mãos.

Ahuuuuuuuuuuuu!, um corno de guerra gritou bem perto dele, mas só olhou para o punho de Bryen que crescia em sua direção.

Bryen possuía olhos estreitos, talvez pequenos demais para perceber que Enzo já tinha previsto aquele golpe. O Cavaleiro Negro se abaixou e lançou sua espada contra as pernas do príncipe de Mansolar, mas este pulou antes de ser atingido.

Beijo de Sangue subiu em um meio arco ao mesmo tempo que Enzo se levantava. Aço se encontrou com aço, soltando faíscas enquanto rangiam uma de encontro à outra, até estarem livres. O Cavaleiro Negro virou de lado, deu uma estocada em Bryen, mas ele parou Beijo de Sangue com sua lâmina. Enzo puxou sua espada de volta, girou ao redor do príncipe e lançou mais uma investida.

Os dois dançaram em meio aos golpes, com o tilintar dos encontros e desencontros das lâminas ecoando no meio de tantos outros barulhos. Bryen passou, rápido, girando, corpo a corpo com Enzo, e acertou uma cotovelada na nuca do Cavaleiro Negro, que era quase quarenta centímetros mais baixo. 

Enzo cambaleou para frente com o golpe, arrastando Beijo de Sangue no chão, encurvado, enquanto tentava se equilibrar outra vez. Quando virou de volta para Bryen, foi para impedir mais um golpe. O coração do Cavaleiro Negro batia junto com o som dos tambores de guerra, suas mãos seguraram, juntas, Beijo de Sangue. Suor escorria pelo seu rosto, sua perna doía, uma dor fina e irritante que não se lembrava de como ter adquirido. Ergueu sua espada e foi em direção a Bryen, ganhando espaço, avançando, um pé na frente do outro. Beijo de Sangue subia e descia em investidas pesadas, enquanto Bryen bloqueava.

Havia correria por todos os lados, raios coloridos riscavam o céu, flechas subiam e caiam, silvando. A relva estava coberta de sangue, partes de corpos, tripas e rostos inchados. Enzo deu mais um passo, levantou a espada mais uma vez, urrando, mas quando a baixou, uma dor lancinante o fez cair por cima do joelho esquerdo, a espada pendeu para o lado direito e ele arregalou seus olhos, vendo Bryen com sua lâmina acima da cabeça, tremeluzindo com as cores que captava do céu. Quando o Cavaleiro Negro fechou os olhos, sentindo o sabor da morte lhe chegando à garganta, ouviu um grito:

— Vem, sobe. Sobe! — Era um homem em cima de um palafrém, estendendo a mão para Bryen. Só lhe restava pedaços de armadura no corpo, e a cicatriz no lugar da orelha esquerda fez Enzo reconhecer o Cavaleiro da Lança de Mansolar. Bryen enfiou a espada na bainha e subiu em cima do cavalo, sem lançar um olhar sequer para Enzo, ajoelhado como estava. 

Soldados de Mansolar corriam, enquanto soldados de Belmonte corriam atrás deles. Homens do rei Thanfor espetavam cadáveres e gritavam a vitória. Enzo enfiou sua espada no chão e a usou de apoio para se levantar. Sangue escorria de seu ombro para dentro da armadura, e sua visão já começava a ficar turva. Mas permaneceu firme até conseguir encontrar um cavalo que corria para longe do campo de batalha. 

Alguns dos comandantes de Belmonte ficaram para acabar com o serviço e deixar o resto para os corvos que sobrevoavam abaixo da mancha colorida que ficou no céu, deixada pela magia, como óleo em água. 

Enzo incitou o cavalo a ir na direção sul, onde um aglomerado de homens erguia lanças, espadas, arcos e escudos, gritando pelo rei Thanfor, por Belmonte. 

O ocaso se aproximava quando Enzo conseguiu entrar na tenda do seu rei. Seus companheiros da Guarda Real também estavam lá. Tiro, o Vigilante, parecia intacto em toda sua magreza e altura, mas Fausto, o Cavaleiro de Prata, possuía um rombo na cabeça, deixando sangue escorrer por suas costas largas.

— Soube que teve Bryen nas mãos e o deixou fugir, sor. — disse rei Thanfor em uma voz que mais se parecia com um raspar de pedras.

— O Cavaleiro da Lança o resgatou, Majestade. 

— Bom... então receio que tenhamos de colocar a cabeça dele a prêmio. Não posso permitir que o último herdeiro de Mansolar fique vivo para me atormentar depois.

— E o príncipe Mariel, Vossa Graça? — questionou Tiro. 

— O príncipe Mariel foi morto no começo da batalha, o rei Gael está à minha espera para uma... conversa, e a princesa deve estar sendo comida pelos soldados. A dei de presente.

Um vento soturno soprou as abas do pavilhão.

— Qual a recompensa, Vossa Graça? — Fausto questionou.

— Peçam para fazer folhetos com o desenho do príncipe e espalhem entre os soldados, e também pela cidade. Digam que quem me trouxer Bryen ganhará um posto na minha Guarda Real.

Enzo sofreu um choque.

— Na Guarda real? — perguntou, vendo Thanfor se levantar. — Mas... mas são apenas três Guardas Reais, cada um representando um dos nossos deuses. 

— Sim — disse o rei. — Mas acontece que agora temos uma vaga. Não lhe mandei deixar o príncipe escapar.

As mãos de Enzo subiram de encontro à garganta, um bolo subia em seu peito, por dentro, e quando ele abriu a boca, água começou a jorrar para fora, enquanto ele fazia um barulho como quem vomita. O Cavaleiro Negro caiu de joelhos no chão, sentindo o ar lhe faltando cada vez mais. Água saía de seu nariz, de seus ouvidos e até de seus olhos, mas não sabia se era por causa da magia de seu rei ou por estar chorando. Tinha servido Thanfor como escudeiro em sua juventude e já estava protegendo o rei quando ele subiu no trono. Pensou que, quando morresse, veria sua vida passar diante de seus olhos, mas a única coisa que viu foi o Cavaleiro de Sal sendo morto por outra pessoa. Devia ter sido eu, pensou ele, eu

March 1, 2018, 8:32 p.m. 4 Report Embed 6
Read next chapter Laura

Comment something

Post!
Marchetti ! Marchetti !
Que magnifico! Magia misturado com o gênero medieval, guerra e muito sangue!! Estou ansiosa para ver aonde está história irá me levar,,, Bem, você sempre me surpreende!
Sept. 14, 2018, 10:11 p.m.

  • Karimy Karimy
    Ahh! Que bom que está gostando. O prólogo foi mais para mostrar um pouquinho sobre como a personagem principal foi parar em Mansolar e como o rei que ela serve é, mas terão outras situações por vi! E o Enzo não foi muito feliz aqui kkk Bjs! *-* Sept. 15, 2018, 5:52 a.m.
Karimy Karimy
Muito obrigada! Fico feliz em saber que gostou!
March 6, 2018, 2:25 p.m.
Karina Da Silva Ramiro Karina Da Silva Ramiro
Amei muito maravilho 💟😽💗🌸
March 6, 2018, 2:24 p.m.
~

Are you enjoying the reading?

Hey! There are still 16 chapters left on this story.
To continue reading, please sign up or log in. For free!