Divórcio Follow story

vanychan734 Vany-chan 734

As coisas estavam mudando dentro da residência Uchiha e Sasuke não sabia o porquê, porém logo iria descobrir. A mágoa consolidada em Sakura era tamanha para expulsá-lo do quarto em uma noite que deveria ser de amor, e isso era apenas uma amostra do que estava por vir. A solidão sempre estava à espreita, o perseguindo, prestes a sugá-lo novamente para o mundo fechado que havia construído ainda criança. Talvez, o arrependimento bastasse... talvez, não. [SongFic - Enredo baseado nas músicas da Ana Muller, trechos indicados como citação]


Fanfiction Anime/Manga For over 18 only.

#SasuSakuSara #Slow-burn #superação #divorcio #casamento #naruto #sasusaku #UN #Universo-Natural #boruto #Gaiden #songfic #Nova-geração #Next-Generation
Short tale
34
8.6k VIEWS
In progress
reading time
AA Share

Basta!

Fanfic / Fanfiction Divórcio - Capítulo 1 - Basta!
~ Capa editada pela Equinócio. Imagem original da capa é da Akemiin e a do cap é da TofiqHuseynov. 

~ Betado pela Equinócio.

--------------------------------------X------------------------------------

Sakura se sentiu um lixo humano.

Estava em um jantar em família na casa de Ino. Sarada estava em missão há dois dias com sua equipe e por isso a Yamanaka a convidou para jantar com eles, junto a sua família. Chegou à casa da amiga sem qualquer pressão, mas começou a sentir-se mal ao olhar a plena interação familiar que tinham.

Ino, Sai e Inojin eram bem parecidos, não fisicamente – exceto pelo garoto ser cópia da loira quando criança – mas pelos trejeitos. Eles conversavam com uma sintonia que lhe dava inveja, a fazendo desviar constantemente os olhos para não chorar. Nunca tinha notado aquele ar tão familiar entre eles e se sentido tão intrusa ao mesmo tempo. Convivia com os Yamanaka desde sempre, faziam almoços aos domingos, alternando as casas e aproveitando para colocarem a conversa em dia; mas naquela quinta feira especifica, o ambiente a fazia ter vontade de vomitar.

No começo não compreendeu o desconforto interno que estava sentindo, mas com o passar dos minutos e horas, percebeu que o problema não era a casa, não eram eles. Era ela. Era o fato de estar sozinha, sendo convidada do jantar de outra família, porque a sua própria não estava em casa. Ambos os Uchihas que deveriam estar no distrito estavam em missão, e o pensamento de como poderiam estar começou a incomodá-la.

Umedeceu os lábios com um pouco de água, observando Inojin fazer um desenho rápido em seu caderno vermelho a tira colo, enquanto Sai e a esposa discutiam sobre o fato de sacos de lixo serem pretos. Aquele tema não era nem um pouco relevante, sabia bem, mas em seu íntimo os invejou por conversarem algo tão banal sem toda a formalidade que estava habituada com Sasuke. Com certeza, nunca havia discutido e nem discutiria com o marido sobre a cor dos sacos de lixo.

E aquele pensamento a levou à outros mais perigosos e sombrios. Não se lembrava da última vez que havia conversado com Sasuke sem precisar seguir as regras do mundo shinobi, como códigos criptografados que só ele saberia desvendar. Franziu o cenho incomodada com uma lembrança vaga de dois meses atrás, em que ele voltou para casa por dois dias mas logo saiu em missão novamente.

Quase não conversaram naqueles dias. Sarada monopolizou o pai, não parava de falar um minuto sequer e chamava sua atenção de um modo nada sutil, querendo provar-se boa o suficiente para ele sentir orgulho dela. No dia havia rido de suas tentativas, sabendo que Sasuke sentia orgulho da menina apenas por Sarada respirar, quem dirá por tirar um 10 na Academia! Porém uma lembrança traiçoeira se fez presente; a imagem de uma Sakura adolescente, tentando a todo custo chamar atenção do garoto mais popular da sala a assolou, e fez seu peito doer. Sakura balançou a cabeça tentando afastar os pensamentos levianos que estava tendo.

Ela e Sasuke haviam se casado, e tinham uma linda filha pra provar essa união.

Voltou a prestar atenção no jantar. Agora Sai e Ino falavam sobre missões em conjunto. A rosada retorceu o rosto, pensando que de tantos assuntos, missões era o que menos gostaria de conversar. Continuou observando-os e percebeu como, apesar de Ino ser a detentora da palavra final, ainda tinham uma cumplicidade típica de companheiros íntimos... uma cumplicidade que ela não tinha com o marido, mas sim com o melhor amigo, Naruto.

Abaixou os ombros com a constatação. Um ligeiro sentimento de pena tomava conta de si. Se perguntou como nunca havia reparado naquilo, como não percebeu durante todos aqueles anos que sentia-se muito mais aberta a conversar com Naruto do que com o amor de sua vida?

E então a lembrança das costas dele se afastando fora sua resposta. Estavam casados há quinze anos e a maior parte desse tempo passou sozinha. Sasuke não estava lá. Estava perambulando pelo mundo shinobi executando uma missão. Claro, ele era o único capaz de fazê-la, entendia isso, mas o desconforto que a atingia continuava ali, latente e doído, lembrando-a de que novamente, ele estava longe de si.

Tentou refutar a verdade inconveniente com o fato de terem uma laço eterno juntos, no caso Sarada, a maior prova de que seus sentimentos estavam conectados. No entanto, o dia da quinta partida de Sasuke – aquele após ele e Sarada se conhecerem e se acertarem – veio à tona, pronto para refutá-la. Havia ficado praticamente dez anos sem vê-lo e quando foram se despedir, Sasuke não fez nada. Não lhe beijou, não cutucou sua testa, e nem a abraçou como havia feito com a filha. Engoliu a seco, sentindo o coração falhar algumas batidas. Naquele momento, ficou chateada, mas tentou relevar o ato dele ao considerar que o marido era tímido e que nunca gostou de demonstrações de afeto em público, porém agora servia como um desculpa esfarrapada para que ele não quisesse se aproximar.

Sentiu o nariz formigar, assim como os olhos que se encheram de lágrimas. Não, não podia dar ouvidos aos seus pensamentos inseguros e tolos. Eles eram um casal, eles se amavam. Estavam unidos pelo fio vermelho do destino e nada – nem mesmo a distância insistente – os iria separar. Foi isso o que quis acreditar. Contudo, ao elevar os olhos para os amigos diante de si, sentiu inveja deles.

Sasuke e ela não eram assim.

Inojin continuava alheio à tudo que acontecia na mesa, agora pintando seu desenho, mas Ino e Sai estavam rindo de alguma bobagem. Era uma cena típica, um jantar familiar que nada tinha a ver consigo, e o que mais lhe incomodou foi perceber o clima afetuoso na cozinha. Sai olhava para a esposa com devoção, uma devoção que Sakura conhecia bem, aquela pertencente aos apaixonados. Tinha plena certeza que era assim que olhava para Sasuke, mas a incerteza de algum dia ter tido um olhar como aquele direcionado a si a quebrou. Se esforçou para relembrar algum olhar mais intenso nos olhos negros, mas tudo que via era um mar escuro, tão profundo que chegava a se afogar nele.

Eram tantas expectativas por ele estar finalmente a olhando que nada mais importava. Ao menos não naquela época. Mas naquele jantar, naquela quinta feira em especial, importava. Ela queria relembrar de algum olhar acolhedor dele, mas o que encontrou fora um olhar distante em sua despedida. Em sua partida, Sasuke voltou-se diretamente para Sarada e lhe deu sua atenção completa, e se a Uchiha não fosse sua filha, tinha certeza que chegaria a sentir ciúmes. Sentiria ciúmes de uma criança pelo simples fato de roubar de si a atenção do homem pelo qual era devota.

A bile subiu pela garganta. Fechou os olhos concentrando-se para não vomitar ali, respirou fundo, contando números para se acalmar e após alguns instantes, conseguiu. Abriu os olhos e remexeu a comida em seu prato. Já estava sem fome, e tinha medo de tentar forçar algo para dentro. Foi quando decidiu ir embora. Não precisava ficar ali, poderia estar na sua casa, dormindo ou lendo alguma ficção de que gostasse. Estava prestes a se despedir dos amigos, quando Sai se voltou para ela e perguntou:

– E como está a missão do Uchiha-san, Feiosa?

O sorriso falso dele a enervou. Sabia que aquele era o seu sorriso comum, que mesmo após anos era dessa forma que ele sorria. Mas naquele contexto, com aquelas palavras, o questionamento soava como uma ofensa, como uma forma de esfregar na sua cara que ela não tinha o que eles tinham.

Se irritou. Franziu o cenho e fechou as mãos em punhos, pronta para rebatê-lo com toda a acidez que tinha em si. Entretanto, foi quando abriu a boca que percebeu não saber o que dizer. Como estava a missão de Sasuke? Ela não sabia.

Não sabia como sua missão estava indo, não sabia quanto tempo mais iria demorar, não sabia se ele estava na dimensão deles ou em outra, não sabia nem se ele estava vivo naquele momento. Não sabia nada.

Era uma péssima esposa.

Tremeu. As inseguranças ressurgiram com todo seu potencial, mexendo na ferida aberta que era aquele tema. Passou a língua pelos lábios, ganhando tempo para formular uma resposta coerente. Olhou incerta para Ino em busca de ajuda, já que a loira era sua confidente há anos, mas o que encontrou foi o olhar penoso dela, e quis morrer por isso.

Ino era sua melhor amiga. Em momentos que sentia a saudade bater forte era com ela que desabafava; mas após alguns anos, a Yamanaka começou a odiar seu marido por ele ainda estar longe, então decidiu abolir o tema “Sasuke” de suas conversas, a não ser que algo muito importante acontecesse. A loira continuou odiando o Uchiha, porque via como a amiga morria aos poucos, mas nunca lhe disse tudo que realmente queria. Sakura precisava ver por si mesma que aquele era um casamento falido.

A respiração pesou. Voltou a olhar para Sai, querendo literalmente fugir pela janela por detrás dele.

– Está indo... ele demora a mandar mensagem quando não acha algo relevante a ser notificado – respondeu.

Era verdade. Sasuke era muito prático e metódico, só comunicava o essencial e de forma rápida. Porém mais uma vez sentiu-se incomodada. Era para ela e Sarada serem “algo relevante”, elas deveriam ser um estímulo suficiente para que ele escrevesse cartas à Konoha com frequência, desejando saber seus paradeiros.

Sentiu a garganta se fechando. As lágrimas quase estavam caindo.

– Testuda... – Ino se levantou, já sabendo que o marido era um sem noção às vezes, e que aquele desgraçado do Uchiha não deveria nunca ser lembrado.

E o gatilho que precisava para desabar aconteceu. O tom preocupado da amiga a machucou. Ino estava ali para ela, sempre a amparando quando precisava, mas isso só reafirmava o fato de que o seu marido não estava. Ela tinha que contar com Ino, Naruto, Hinata e até Tenten quando precisava! Mas não com ele. Não com Sasuke.

Soluçou, sentindo as lágrimas caírem como cascatas.

– Sai, seu idiota! – a loira ralhou, abraçando a Uchiha pelos ombros.

– Tia Sakura – a voz infantil de Inojin a perfurou.

– Feiosa... – Sai estava preocupado. Ele não havia entendido o que fizera de errado, mas sabia que aquele choro sofrido não era normal.

Sakura tombou a cabeça para frente, encostando a testa na borda da mesa, sentindo-se patética. Desejou sumir e nunca mais aparecer na frente dos amigos.

– Sakura, vamos para o meu quarto... – Ino sussurrou gentil.

Ela negou com a cabeça. Não queria se humilhar ainda mais.

– Q-quero i-ir em-bora – falou entre suspiros exasperados.

A Yamanaka concordou rapidamente e a ajudou a se levantar, proibindo Sai e o filho de seguirem-nas. Atravessaram a porta e a Vila rapidamente, esgueirando-se pelas sombras e evitando qualquer conhecido que pudesse se preocupar demasiadamente com Sakura. Chegaram à residência Uchiha em silêncio, ou quase, já que os soluços de Sakura eram o único som a preencher o vazio do distrito.

— Quer que eu fique aqui? – perguntou zelosa.

— Não – respondeu, negando com a cabeça e tentando inutilmente secar as lágrimas que escorriam.

Os olhos azuis a estudaram, não confiava que ficaria bem sozinha, contudo, era exatamente o que precisava: perceber que estava sozinha, que seu casamento era nada mais que um nome e um desejo infantil mal sucedido. Beijou o diamante púrpura e fez seu caminho de volta. Amava Sakura, mas ela já estava grandinha o suficiente para tirar sozinha suas conclusões do caso. O fato de Sarada não estar ali era ainda melhor, não haveria palavras acolhedoras em sua casa, e ela iria se deparar com a solidão que foi muito mais sua companheira do que o marido em si.

A mulher andou tropegamente pela sala de estar, sentindo-se uma idiota por estar relembrando tantos fatos doloridos, como a tentativa de assassinato sofrida pelas mãos de Sasuke. Ele havia pedido desculpas por isso – e por todo o resto – mas era um fato surreal demais que nunca fora plenamente esquecido... não, ela estava guardado no fundo de sua memória e agora flashes da lembrança se repetiam constantemente em sua mente.

As pernas falharam e caiu de joelhos no chão.

Sentia-se tão patética, a pior das mulheres de Konoha; uma idiota com o coração pulsante e sangrento, afinal, era como se literalmente houvesse uma kunai repartindo-o em dois. Apoiou uma das mãos no chão e sem querer observou o brilho da lua refletir no singelo círculo dourado em seu anelar. A kunai agora estava sendo fincada várias e várias vezes, cutucando ainda mais a ferida aberta, deixando-a ciente da dor.

As lágrimas escorriam pela bochecha e pelo nariz, pingavam no chão e também em sua aliança. Nunca achou que desejaria isso, mas naquele momento queria lançar o anel para longe de si. E foi o que fez. Num ataque de fúria, retirou a aliança e a jogou pela janela, pouco se importando onde cairia e que fora um presente de Sasuke, que pertencia aos pais dele.

Seus sogros. Não chegou a conhecê-los, mas convivia com os fantasmas deles todos os dias. Tudo na antiga casa era deles. A casa, o quintal, a fonte, o lago, o distrito, tudo era dos Uchihas. Apenas após o incidente com Sarada e o contrato da construção de uma nova casa é que passaram a haver coisas suas ali. E isso só reafirmava o fato de que não fora uma escolha conjunta do casal, ela havia decidido pelo sofá, pela cama, pelas cadeiras e quadros sozinha... ou com alguns poucos comentários de Sarada, mas não havia nenhuma indicação de Sasuke.

Ele nunca fora presente.

Soluçou.

Sentia o corpo quente, mas arrepiava-se pela brisa fria que entrava pela janela aberta. Não conseguia acreditar que fora tão cega, que não via o que estava bem claro diante de si: ele não se importava consigo. Podia se importar em ter uma esposa, mas não em quem ela era e nem seus anseios.

Até mesmo antes de Sarada nascer, para não ser irritante respeitava todos os momentos de Sasuke, respeitava seus silêncios e timidez, não forçava nada, aliás, sempre estivera de braços abertos e com um sorriso límpido para recebê-lo, e por isso se sentiu burra. Ele era uma raposa vestida de cordeiro e tinha um poder sobre ela que a controlava mesmo que indiretamente.

Quando ele voltou de sua viagem de redenção e se envolveram, parou de fazer coisas as quais sabia que ele não gostava, como turnos noturnos no hospital, tudo pelo bem da relação que estavam construindo. Mas necessidades novas sempre surgiam, e em um dia qualquer Sasuke confessou seu intuito de partir novamente; e com medo de pedir que ficasse e fosse rechaçada, pediu que ele a levasse junto. Chegou a ameaçar segui-lo caso não o fizesse, não porque queria perambular pelo mundo como ele... mas porque queria estar perto.

Tola. Era uma tola apaixonada que nunca aprendeu a ver os sinais. A ver a verdade que se mostrava nítida para todos, menos para ela.

Fechou os olhos mais uma vez, ainda tremendo, tentando afastar os pensamentos inconvenientes que nesse momento só serviam para destruí-la mais. Pensou no rosto dele, no sorriso sacana que encontrava quando saía do quarto com uma roupa de dormir... antes interpretava o desejo dele por si como algo bom e positivo, uma amostra de seu sentimento, mas depois do jantar começava a pensar que ele só a via como mulher. Como alguém que existia apenas para servi-lo, seja como dona de casa, seja como parceira sexual. No fim, ela era apenas alguém que levava seu nome adiante, usada para concretizar o desejo infantil dele de constituir uma família e retomar a glória que o nome Uchiha possuía.

Levantou-se do chão e começou a tirar a roupa pelo caminho do corredor até o banheiro social. Precisava de um banho. Queria lavar-se e empurrar a sujeira que sentia para longe de si.

Pensou na última vez que ficaram juntos, intimamente. Fora nos dois dias em que ele estava lá. À noite, quando foram ao quarto de casal, fora ela quem se aproximou dele, carente por todos os anos sem o contato de um corpo másculo junto ao seu. Rastejou até Sasuke, como uma das cobras que o próprio sabia invocar, e ele a olhou de esguelha sem demonstrar emoção, mas logo avançou sobre si, girando seus corpos na cama.

Sakura fora embalada pelo prazer que há muito não sentia. Não percebeu a falta de palavras e declarações que seria o esperado de uma noite como aquela. Porém, agora ela queria que ele tivesse feito um discurso, que ele a tivesse amado realmente, e não apenas transado.

Conseguia ver claramente a diferença de tratamento entre os dois. Conseguia ver como seu amor era unilateral e como sentia isso corroê-la por dentro.

Sentiu-se traída por si mesma. Pelo seu sentimento. O amava tanto que doía, doía aos seis anos e continuava doendo agora, trinta anos depois. Fora por causa do que sentia que se colocou em segundo plano durante sua vida inteira, sempre colocando Sasuke como um objetivo a ser alcançado, e quando foi, se tornou um bem a ser mantido. E para isso precisou ignorar muitos desejos seus, como continuar a vida de kunoichi, já que ele havia pedido por um bebê.

Ela não estava pronta para ser mãe na época, mas imaginou que aquele pedido era tão importante quanto um pedaço de papel indicando que haviam se casado. Ele havia lhe escolhido para ser a mãe de seus filhos. Aceitou a proposta sem pestanejar, e quando sua filha veio ao mundo achou que nada os separaria, que ela seria a garantia de que ficariam juntos para sempre. No entanto, a missão de Sasuke veio e Sakura foi obrigada a largar suas tarefas porque Sarada existia e precisava dos cuidados interinos da mãe, já que o pai não estaria presente.

Apoiou as costas no azulejo do banheiro e deslizou até o chão, sentindo o jato d’água quente encharcar seu cabelo e molhar o corpo. As lágrimas se misturavam à água do chuveiro, lavando sua alma também.

Ergueu o braço e pegou a bucha disposta. Passou sabonete e começou a se limpar, e no meio do processo encontrou um cabelo de Sarada enroscado na esponja rósea. O fio negro se destacava e a relembrava de que a filha fora um pedido engenhoso de Sasuke, uma maneira inteligente de tê-la sempre aos seu pés.

Soluçou novamente.

Começou a relembrar todos os momentos ao lado da filha e se entristeceu cada vez mais ao perceber que Sasuke tinha conseguido. Tinha transformado seu espírito livre em uma mera dona de casa, sempre devota à família.

Amava a filha com todas as suas forças, mas desde quando havia deixado de ser ela mesma para ser apenas mãe? Desde quando os seus dias passaram a ser um compromisso velado de manter-se sempre bem para ser o apoio da menina e do marido quando precisassem? Desde quando ela havia se contentado com a vida que nunca tinha sonhado... ou que talvez tivesse, mas não daquela forma?

O pensamento amargo era um soco no estômago, uma verdade doída, uma facada em seu coração. Nunca antes havia refletido sobre a vida que estava levando, como se estivesse em algum genjutsu poderoso que a enganasse completamente, que a fazia acreditar no amor deles; amor esse que justificava perdoar todos os erros de Sasuke e continuar ali para ampará-lo quando precisasse. Contudo, com o tempo, ela não sentia nada que não fosse um vazio, e fora ele o responsável por livrá-la da ilusão de uma vida feliz e satisfatória... ao invés disso tudo que sentia era solidão.

Estava casada com um desconhecido e tinha se tornado uma dona de casa qualquer. Suas ambições foram postas de lado e depois esquecidas quando ele se foi. Sabia que a missão demoraria, sabia que teria que cuidar da filha sozinha, mas dez anos era um prazo que extrapolava qualquer explicação.

Queria ela mesma bater em Naruto e nos Kages para mandá-los trazer Sasuke de volta. Não só por ela, mas por Sarada que sempre olhava tristonha para os pais dos amigos na Academia... a menina era inteligente, estava começando a perceber o fracasso que era seu casamento e não podia mais enganá-la como quando era pequena.

Não conseguia nem mesmo se enganar agora.

Olhou para seu corpo, vendo as espumas do sabão serem varridas pela torrente de água e decidiu que daria uma última chance à Sasuke, tentaria recuperar a visão do homem apaixonado que tinha, afinal, não podia deixar seu casamento ir por água à baixo como a espuma branca no ralo do banheiro. Havia Sarada no meio disso também. Ela estava começando a ficar irritada com a ausência de Sasuke, mas ainda era uma criança e desejava os pais unidos. Não queria ser a responsável pela quebra da ilusão dela, porém não queria manter-se num casamento que nem existia só porque tinha uma filha. Tudo era mais fácil quando não via seus problemas, mas não havia como fugir mais deles, ainda que no fundo quisesse voltar ao genjutsu que a cegava.

[...]

Sasuke não chegou a terminar o ato. Ela não o deixou.

As mãos pequenas e macias o empurraram para longe de si enquanto chorava silenciosa. Ele olhou petrificado para a mulher abaixo, sem entender o motivo do choro naquele momento. A rosada desviava o olhar dele, fitava o teto ao passo que as lágrimas cálidas rolavam pela lateral do rosto angelical. Parecia magoada, triste, irritada e... cansada. O último sendo o sentimento mais preponderante.

— Basta.

Rolou para o lado, saindo de cima dela, vendo a mesma se afastar na cama para esticar o braço e recolher o robe de cetim jogado ao chão, vestiu-o acuada, um meio para esconder seu corpo e a vergonha que sentia dele. De si mesma, na verdade.

Ele a olhou com estranhamento, ainda sentia o suor escorrendo pelo corpo, tinha a respiração errática e a genitália pulsante, mas nada tirava seu foco dela. A cor salmão da peça que vestia – e amarrava com mais força que o necessário – a deixava mais bonita que o normal.

A mulher nunca negava sexo, aliás, sempre se mostrava ansiosa para tê-lo junto a si, para se amarem nos lençóis da cama que dividiam. Era sempre uma experiência maravilhosa poder sentir o corpo delgado se movimentando no mesmo ritmo que o seu, tanto que nunca precisaram de palavras. O contato bastava, os toques bastavam, eles bastavam.

O cabelo róseo estava longo e caía em cascata pelas costas dela, tampando o símbolo Uchiha que ele sabia estar bordado na peça. A Uchiha terminou de arrumar o roupão e permaneceu de costas para ele, limpando as lágrimas insistentes com a costa da mão direita.

— Sakura...

— Por favor, durma na sala hoje. Eu quero ficar sozinha – interrompeu.

Engoliu a seco, queria discordar do pedido e dizê-la que ele estava ali para ela, no entanto, para a esposa ter tomado aquela decisão era porque realmente desejava-o longe, então decidiu acatar seu pedido. Mas algo lhe intrigava: por que ela teve aquela reação?

Por fim, achou prudente seguir seu pedido e esperar pela oportunidade dela lhe pedir colo. Assentiu silencioso, mesmo sabendo que ela não o via, se levantou, colocou a cueca com certa dificuldade pelo pênis ainda ereto e caminhou até a porta.

Ouviu o soluço sofrido da esposa e parou com a mão na maçaneta. Pensou em acudi-la, mas ela não queria sua presença, assim decidiu esperar por algum chamado, por algum sinal de que devesse se aproximar e lhe oferecer carinho, como ela tanto fazia consigo... mas Sakura não o fez e a única coisa que ouviu fora o som dos soluços cada vez mais profundos.

Respirou fundo, aceitando que a mulher precisava de seu tempo, assim como ele muitas vezes precisou. Abriu a porta e passou por ela, deixando a Uchiha sozinha dentro do quarto. Caminhou para o banheiro social no corredor, tomou uma ducha fria a fim de acalmar certa parte irritantemente rija do corpo e depois rumou para a sala, deitando-se no sofá.

Ainda que o sofá fosse confortável, a sensação que sentia era totalmente oposta. Era amarga e pesada, quase como uma culpa e um lembrete de que algo estava errado. Nunca havia dormido ali antes. Mas Sakura nunca o havia expulsado do quarto também. Aquela era uma realidade nova para si, as coisas estavam mudando e ele não sabia o porquê.

Tentou repensar em algum erro que poderia ter cometido para deixá-la tão triste, mas nada vinha a sua mente. Ele estava em missão e havia voltado na parte da tarde, chegou, cumprimentou-a, tomou banho e dormiu, acordou com o jantar. Conversaram sobre a missão, os dias dela e de Sarada, que estava fora por alguns dias em missão com sua equipe, ele lavou a louça e ela foi tomar banho, foi ao quarto e a encontrou com o robe. Se aproximou, ela o olhou parecendo buscar algo em si, mas logo seus olhos se fecharam quando ele a beijou, deitaram na cama e ele retirou sua roupa, assim como a própria, começando a amá-la ali, até sentir duas gotas caírem em seu ombro. Olhou para o rosto dela e viu os olhos verdes um tanto avermelhados, indicando o choro.

“Basta” ela dissera.

Se levantou, pensando em voltar ao quarto, mas logo desistiu da ideia. Sakura precisava de tempo para pensar, só isso. Amanhã seria um novo dia e eles estariam bem. Fechou os olhos com essa certeza, adormecendo rapidamente pelo cansaço acumulado.

Acordou no dia seguinte ao ouvir a almofada do sofá ao lado afundar. Remexeu-se languidamente e abriu os olhos com o mesmo pesar, observando a figura séria da esposa sentada diante de si.

— Eu quero o divórcio.

Franziu o cenho, confuso pelo pedido. Era um completo absurdo para si pedir a separação deles dois, principalmente ela, que sempre fora tão devota à família que construíram juntos. Olhou-a intensamente, enquanto se sentava no sofá e pensava em algo para retrucá-la.

— Não, você não quer.

A analisava com rigor. Os olhos esmeraldinos estavam úmidos, denunciando sua tristeza e insegurança ao lhe pedir aquilo, mas que se revoltaram quando lhe contradisse. Apertou os punhos em seu joelho até os nós dos dedos ficarem brancos, um meio para reunir coragem muito conhecido por ele.

— Eu quero o divórcio – repetiu com a voz trêmula, porém ainda segura da decisão.

O Uchiha permaneceu com sua expressão apática, ainda que uma leve ruga se formasse entre as sobrancelhas. A respiração dela era pesada e mantinha o corpo tão estático que o homem via sua seriedade a transpassando.

— Por que isso agora? – questionou irritado.

Odiava brincadeiras. Sempre fora um homem sério e de princípios, Sakura sabia muito bem disso e fazer uma gracinha como aquela não era nem um pouco divertido. Se fosse ideia de Naruto, iria socá-lo tanto que o atual Hokage perderia alguns dentes.

Para a rosada, no entanto, sua resposta pareceu inflar um ódio muito guardado. Riu, sem realmente achar graça, e se levantou furiosa, caminhando em direção à cozinha.

— Por que se importa agora?! – rebateu, se afastando.

Sasuke não entendeu a provocação. Acompanhou-a se afastar com o olhar ainda compenetrado, irritado e perdido. O que estava acontecendo na sua casa? Desde quando Sakura falava idiotices como aquela?

A seguiu intrigado pelo comportamento desconhecido e desgostoso. Mas foi ao ultrapassar o sofá que percebeu duas malas próximas a ele. Duas malas pretas e cheias.

— O que é isso? – sussurrou, tendo consciência que ela o ouvia muito bem.

A médica se apoiou no batente da porta da cozinha, de costas para ele, e se permitiu respirar sofregamente. Estava tentando se controlar para não chorar feito uma garotinha assustada, como na noite anterior.

— As suas roupas. Eu fiz suas malas.

E a realidade foi um choque.

Ele arregalou os olhos, confuso, sentindo-se abandonado e traído, voltou a olhar as malas pretas dispostas no chão e concluiu que ela falava sério sobre a separação. E aquilo doeu mais do que perder um braço. Doía tanto que ele precisou se apoiar no sofá para organizar os pensamento e não gritar com ela.

— São poucas coisas de qualquer forma – ela deu de ombros, ainda sem olhá-lo. O tom, agora, era calmo como num diálogo qualquer.

Ele fechou os olhos, concentrando-se no que era dito e também naquilo que não era. O divórcio não era uma coisa simples, seu pedido não era simples, mas as suas coisas dispostas na mala eram. Não havia muitos objetos seus propriamente na casa. Na casa deles. Aquilo deveria significar alguma coisa.

— Sakura... – disse, pensando numa resposta à altura do pedido.

— Não! – ela o interrompeu, virando-se para ele com os olhos raivosos – Estou cansada, Sasuke! Cansada de viver um casamento de mentira!

Ele sentiu o coração falhar uma batida. Não pelo que era dito em si, mas pelo grau de sofrimento que aquelas palavras continham. Sakura estava infeliz, completamente infeliz com sua vida marital, com o seu desempenho como marido.

— Ontem eu...

— Não importa – falou quebrantada, balançando a cabeça em uma negação – Eu não quero saber, não quero ouvir, só quero distância de você nesse momento... – a voz perdia vários tons — Só... por favor... vá embora.

— Eu... – tentou se aproximar, colocar um pouco de juízo na mente da mulher, mas ela se afastou rapidamente de si, fazendo-o parar no meio da sala.

— Por favor – gemeu, chorando.

Não aguentava mais guardar aquela dor dentro de si. Fingir que os problemas não ocorriam era como fingir-se de cega enquanto via o mundo colorido ao redor. Não conseguia mais lidar com aquela situação que se estendia por dez anos.

Sasuke ponderou, incerto. Naquele momento ela estava nervosa... talvez, se a atendesse e esperasse se acalmar, conseguiria conversar e acertar a questão real da discussão. Seu peito ainda doía, principalmente ao vê-la tão quebrada diante de si, porém, era perigoso se aproximar e destruir ainda mais as poucas chances que tinha.

Pegou as malas, colocando uma na transversal do corpo e levou a outra com a mão direita. Deu uma última olhada para a ainda Uchiha e se apressou em dizer:

— Eu vou voltar.

Ela negou com a cabeça, ainda tampando o rosto com as mãos, uma negativa clara do intuito que ele tinha. Sasuke trocou o peso das pernas e interiormente agradeceu por Sarada estar em missão e não presenciar aquilo. Não queria que a menina visse uma cena como aquela, diferente de tudo que havia sonhado um dia.

Saiu pela porta principal, sem nem se importar com a porta aberta. Na verdade, interiormente desejava que ela se arrependesse, que o chamasse de volta e que superassem aquela fase ruim. Mas diferente de todas as suas expectativas e vontades, Sakura não o chamou, não pediu que ficasse e não se arrependeu. Aquele era o momento à dois mais inusitado que tiveram... e o que ele mais odiou.

[...]

Esperou dois dias.

Dois dias inteiros. Calado, sozinho e estressado dentro da pequena kitnet alugada. Deu a quinquagésima terceira volta em seu minúsculo quarto, quando decidiu que não aguentava mais ficar sem notícias da esposa. Não poderia contatá-la diretamente, Sakura fora muito enfática ao desejar sua distância, então pensou em buscar ajuda dos conhecidos. O primeiro que veio à mente fora Naruto, amigo de ambos e praticamente irmão dela, o qual deveria saber o que estava acontecendo com sua mulher, quando o mesmo não sabia.

Saiu afoito pela janela da kitnet, não se deu ao trabalho de andar normalmente pela vila, ao invés disso, pulou os vários telhados das casas e entrou pela janela da Torre principal. Dois ANBU’s o seguiram e quase o prenderam, mas Naruto fez um gesto simplório para eles, os despachando.

Em sua sala havia dois shinobis de alta patente. Parecia ser uma reunião importante, já que um mapa de Konoha estava aberto na mesa do loiro.

— Eu senti seu chakra – comunicou, cansado – Pessoal – voltou-se para os jounins – continuamos depois. Preciso conversar com Sasuke pessoalmente – o tom de ordem não condizia com o amigo pateta que tinha, mas sim com o líder que o Uzumaki havia se tornado.

Ambos aquiesceram e saíram da sala, levando o mapa consigo. Sasuke e Naruto observaram-nos cruzarem a porta para depois se olharem, havia um brilho de cumplicidade triste nos olhos do Hokage que o atormentava.

— Ela te expulsou de casa? – perguntou sem ânimo.

Concordou com um aceno, sem realmente entender o porquê do ato, muito menos o porquê de Naruto já contar com isso. Seu casamento estava tão ruim assim para alguém de fora perceber e esperar pela separação?

Ele achava que não. Mas ele achava muitas coisas, e muitas delas eram convicções errôneas e infantis.

Naruto soltou um suspiro exasperado. Sentou-se na cadeira de Kage e começou a girar em seu próprio eixo, pensando no que poderia dizer no momento. Era tão amigo dele quanto dela, não queria e ao mesmo tempo queria se intrometer. Achava sim que Sakura estava sendo precipitada, mas Sasuke também não colaborava, não conseguia nem achar argumentos para defendê-lo.

Eram dez anos. Dez anos era muito tempo.

Sasuke mantinha-se parado, fitando incansavelmente o melhor amigo, como se ele fosse o detentor de suas respostas e anseios. Rolou os olhos para a mesa do loiro e viu a segunda foto de time que tinham juntos.

Eram jovens-adultos nela. Ele e Sakura já estavam juntos na época. Haviam acabado de almoçar no Ichiraku lámen quando Naruto propôs uma nova foto ao lado de Kakashi. Sakura segurava a câmera sorridente, Naruto abraçava a ela e ao Rokudaime, e ele estava com uma mão na cintura da rosada, uma marca sutil de seu relacionamento.

— O tempo passa... – Naruto disse ao seguir o olhar do amigo e entender parte de seus pensamentos.

Nunca acreditaria que chegaria o dia em que Sakura quisesse se separar do Uchiha, mas o destino adora lhe pregar peças. Ele fora só mais uma que se iludiu com aquilo que parecia ser o ápice de sua felicidade.

— O que eu fiz? – perguntou, realmente desamparado, buscando uma explicação coerente dos fatos.

Naruto riu pelo nariz.

— A pergunta deveria ser “o que eu não fiz?” – rebateu com deboche.

Seu amigo era tão inteligente no campo de batalha, mas tão burro acerca de sentimentos que não viu o próprio casamento definhar.

Sasuke o olhou com o cenho franzido, irritado. Não estava ali para jogos, queria a ajuda do idiota que conhecia sua esposa tão bem quanto ele próprio... mas nesse momento, parecia que ele não a conhecia verdadeiramente. Naruto estivera ali pelos dois, deveria saber dos problemas que tinham – e que o próprio desconhecia.

— Sempre foi muito cômodo para você ter alguém te esperando, né? – riu, sem humor – Mas nunca pensou em como era para esse alguém ficar sempre a sua espera, em segundo plano...

— Sakura não é e nunca foi meu segundo plano – devolveu afrontado.

— Não? – Naruto elevou a voz – Quem foi pedir que ficasse na Vila quando a abandonou da primeira vez? Quem pediu que a levasse junto de si na sua caminhada pela redenção? Quem carregou sua filha por nove meses e a educou sozinha porque o pai não estava presente?

— A missão... – tentou argumentar, mas teve que desviar do soco do loiro – Que merda!

— “Que merda” digo eu, Sasuke! Ou melhor: a Sakura-chan! Não use sua missão como desculpa para não ter retornado à Vila durante todos os anos que passou fora – o moreno desviou o olhar para a janela, sentindo-se encurralado – Sarada teve que ir atrás de você, se colocar em risco para finalmente conhecê-lo... – o tom grave diminuiu até se tornar um pequeno sussurro – E você continua fazendo suas missões...

— Eu sou um shinobi – defendeu-se – É o meu papel zelar pela minha vila.

— E o que Itachi ganhou com isso? – provocou-o, sabendo que parte da responsabilidade que ele sentia era, na verdade, culpa pelo que havia acontecido com o irmão.

No entanto, Itachi estava morto, e ainda em vida só provocou o sofrimento alheio, até mesmo na pessoa que mais amava: Sasuke. E isso era um trauma que o moreno nunca conseguiria superar. O homem diante de si não sabia amar direito, e estava destinado a sofrer as consequências disso para sempre.

A primeira e mais grave delas era não saber o que se passava com a própria família, não ver que a esposa se entristecia a cada dia, e que a filha começava a rechaçá-lo. Sasuke vivia se punindo pelo passado, mas não percebia que estragava seu presente dessa forma.

O Uchiha olhou-o bravo, um claro aviso de que o irmão – e tudo sobre ele – não deveria ser posto em pauta. Remexeu o cabelo frustrado, não sabendo como se portar diante daquela situação. Diante da iminente separação da sua família.

— Quem é você para me julgar quando passa mais tempo nessa sala do que na sua casa? – rebateu, fixando o olhar no amigo novamente.

Viu a expressão do outro amargurar-se, mas não se sentiu arrependido. Era dessa forma que lidava com seus próprios sentimentos: afastava as pessoas de si ou era grosso de algum modo, fazendo com que elas mesmas se afastassem.

A única que não se afastou com suas tentativas fora Sakura, mas até mesmo ela agora estava em recuo, e o fazia se afastar também.

— Você não veio aqui pra falar da minha relação com a minha família – Naruto respondeu com um sorriso triste – Precisa aprender a parar de fugir dos seus problemas, Sasuke. Sakura não aguenta mais esperar por alguém que nunca esta lá, que não se pronuncia, que não demonstra o que sente ou que se importe com elas.

— É claro que me importo, idiota! – avançou um passo, cansado daquelas provocações.

— Eu sei que se importa, ou melhor: que as ama – ele sorriu fraco – sua reação agora me prova isso, mas quantas vezes disse isso a ela? – o semblante do moreno mudou, atento ao que o outro falava – É a queixa que escuto da Sakura-chan, não sou eu quem está dizendo, Sasuke. É a ela quem diz.

Ele observou os olhos cristalinos e sinceros com um bolo na garganta. Cerrou os olhos irritado, assim como os punhos, guardando sua ira para si próprio, afinal, ele era o único culpado por seu casamento estar acabando. Ou já ter acabado, ele não sabia mais como pensar sobre seu relacionamento.

— Teme – Naruto chamou, voltando à cumplicidade característica entre ambos – Silêncios também são discursos. Guarde eles para você, não para ela. Sakura-chan e Sarada-chan precisam saber que são amadas.

— Como faço isso? – sussurrou, desviando o olhar envergonhado.

Ele achava que estar perto e saber sobre elas bastasse, mas nunca esteve tão enganado. Então ele teria que consertar seus erros, e precisaria fazer isso logo, antes que Sakura o expulsasse de vez da sua vida.

— Sarada-chan voltou ontem, vá para casa falar com ela.

Ele rolou os olhos para o amigo, incerto se a proposta deveria ser seguida.

— Não quero colocar Sarada entre nós, ela irá escolher a mãe. Eu sei disso.

Não havia motivos para ser o contrário, afinal, e ele não se chateava por isso. Na verdade, sabia que era melhor que a filha contasse com a mãe, ele ainda era muito inconstante para lhe dar segurança... uma segurança que ia além da física.

Naruto riu pelo nariz.

— Não estou dizendo para usar sua filha, Teme. Estou dizendo para visitá-la e aproveitar a oportunidade para falar com a Sakura-chan, mostrar que você pode ser sim um Teme muito filho da puta, mas que ama as duas mulheres lá no distrito da sua família.

Sasuke ponderou, trocando o peso de uma perna para outra, mas decidiu seguir o conselho. Era isso que tinha ido fazer ali em primeiro lugar. Sorriu de lado para o loiro.

— Para um Dobe, você não é tão idiota assim – e com o arquejo indignado do amigo, ele pulou a janela, indo para a casa.

Sasuke ficou parado em frente à casa sem saber como agir, antes entraria sem problemas, mas após ser enxotado pela mulher, ponderou sobre o que fazer, decidiu bater à porta e esperou ser atendido. Em seu interior desejava que Sakura fosse recebê-lo. Entretanto, sabia que ela sentia seu chakra ali; e se mesmo assim não fora atendê-lo, sobrava para Sarada a recepção – claro, não que ele estivesse reclamando de ver sua criança.

A porta se abriu, revelando a menina de quatorze anos. A Uchiha estava com um pijama azul e sem óculos, provavelmente havia acabado de acordar.

— Papa? – questionou incerta, dando-lhe passagem.

Não conseguiu evitar o singelo sorriso que despontava em seus lábios. Sarada conseguia arrancá-los facilmente, ainda que estivesse de péssimo humor, se aproximou observando as bochechas dela corarem pelo sorriso direcionado a si.

— Como foi a missão? – perguntou, perscrutando-a atrás de algum ferimento, mesmo sabendo que Sakura já deveria ter cuidado de todos eles.

— Fui pega... – soltou um muxoxo e desviou o olhar envergonhada.

— Como...? – ele se aproximou mais ainda, com um súbito medo de perdê-la.

— Konohamaru-sensei me salvou... – remexeu os pés inquieta.

O Uchiha a olhou fixamente. Sentia o coração acelerado. Tinha orgulho por sua filha seguir os passos dele e de Sakura, mas não podia evitar sentir-se mal pelo risco que ela corria toda vez que saía em missão. Não podia nem dar-lhe cobertura, se não nunca se desenvolveria plenamente como kunoichi.

Respirou fundo, recuperando seu bom senso, e em seguida ergueu o queixo dela, fazendo com que o olhasse. Os olhos negros tão parecidos com os seus e ao mesmo tempo com os de Sakura o fitaram curiosos. Elevou a mão à testa dela e a cutucou ali, sabendo que o sorriso da menina valia todos os seus dias. Nunca se arrependeria de tê-la tido com Sakura, já que Sarada era o melhor de si e da mulher juntos.

— Papa... – falou, massageando a testa emocionada e em seguida o abraçou.

Não a afastou. Nunca a afastaria. A menina tinha passe livre para tocá-lo quando quisesse.

— Sua mãe está? – perguntou sereno, acariciando as madeixas escuras dela.

Sarada assentiu sorridente.

— Vem – se afastou e o puxou pela mão para o interior da casa, sem nem se importar com a porta aberta. Ninguém ia ao distrito de qualquer maneira.

Andaram pela sala de estar rapidamente, Sarada mantinha seu desejo infantil de sempre querer ver a família unida. Passaram pela porta da cozinha e Sasuke conseguiu ver a tigela de frutas de Sakura abandonada na mesa, e a menina franziu o cenho sem entender como a mãe havia sumido. O homem fez uma varredura de chakra ao redor e concluiu que a mulher havia realmente saído da região... havia saído porque ele tinha chego. Quis ir atrás dela, segui-la por toda a aldeia e xingá-la por estar o evitando, no entanto, a mão pequena e quente na sua o lembrava que não era só com Sakura que deveria demonstrar apego.

Respirou fundo e olhou para a pequena ao seu lado.

— Sua mãe já deve ter ido trabalhar. O que acha de treinarmos juntos após comer sua tigela de cereais?

Os olhos dela se arregalaram, surpresos pelo convite pouco usual, porém tinha treino com sua equipe e não podia se atrasar.

— Papa... – começou corada e constrangida – pode ser mais tarde? Tenho treino com...

— Tudo bem – sorriu, não sabendo se ficava aliviado ou chateado pela recusa.

Ela sorriu, fazendo com que a pequena covinha em sua bochecha direita aparecesse. Uma característica herdada dele, que somente Sakura e ela conheciam. Sentou-se à mesa e indicou com aceno que ela fizesse o mesmo e Sarada comeu rapidamente seu café da manhã e depois saíram da casa juntos.

— Até mais tarde, Papa! – se despediu, correndo para o campo de treinamento.

Sasuke refletiu sobre a sentença. Ele esperava mesmo que se vissem ao anoitecer, não aguentaria ficar em Konoha sem tê-las ao seu lado. Suspirou cansado e começou a seguir o chakra de Sakura.

Ela iria ouvi-lo. Tinha que ouvi-lo. Durante todo o caminhou tentou ensaiar um discurso para afirmar seus sentimentos, mas não conseguia identificar ao certo o que sentia, eram tantas sensações que ficava perdido e não sabia como agir. Culpa, raiva, confusão, medo, tudo se misturava em seu coração.

Chegou ao hospital sem paciência, passou pela recepção sem dar atenção à recepcionista que o chamava dizendo que não podia entrar no local sem autorização.

— Vim ver minha esposa. – respondeu sóbrio, ignorando as sentenças da mulher.

Todos os enfermeiros ficaram ressabiados, sabiam que não era comum suas idas até lá, então apenas olharam-no com óbvia curiosidade. Encontrou Ino pelo corredor, que se assustou com sua presença, e estava prestes a expulsá-lo do lugar quando o mesmo desviou do corpo curvilíneo e continuou caminhando até a sala da esposa.

— Ela está em um atendimento! Vai ficar furiosa se atrapalhar a consulta dela! – gritou, o único modo real de pará-lo.

Sasuke ponderou por dois segundos. Não queria uma Sakura furiosa, e sim uma Sakura serena, mas era ingenuidade demais pensar que a encontraria calma de qualquer maneira. Assim como ele, a mulher tinha uma percepção de chakra muito boa, então, obviamente já sabia que ele estava ali com o intuito de vê-la. Olhou por sobre o ombro para Ino com zombaria.

— A consulta dela agora é comigo. – e após ver a expressão surpresa dela, voltou a caminhar pelo corredor largo.

Não bateu na sala dela, não se importou com o paciente deitado na maca dali.

— Por Deus, Sasuke! – reclamou sem olhá-lo, continuando a curar a queimadura no peito do homem.

— Quem...? – o sujeito se remexeu, logo urrou de dor.

— Vim conversar – disse sério.

— Não aqui – rebateu – Aqui é meu local de trabalho, tenha um pouco de respeito pelo que faço! Você pode trazer alguma bactéria para ele – olhou-o irritada, ainda mantendo o chakra verde em mãos.

— Não me importo – deu de ombros, vendo-a rolar os olhos e bufar.

— Claro, você só se importa com você mesmo – falou com amargura.

Sasuke trocou o peso das pernas. Se aproximou, sabendo que naquele momento ela não podia ignorá-lo.

— Eu estou aqui – percebeu os olhos esmeraldinos se encherem de lágrimas e não soube como reagir.

— Me deixa trabalhar... – pediu com a voz embargada.

O paciente já se remexia e falava coisas desconexas, quase implorando para sará-lo logo.

— Vamos conversar... – tentou tocá-la no ombro, mas isso a fez se afastar de si e consequentemente do homem.

Ele gritou e ela deu um pulo, desacreditada pelo erro momentâneo. Olhou irritada para Sasuke, voltando ao processo de cicatrização.

— Saia daqui! Eu o proíbo de voltar a esse hospital sem autorização! – gritou, focando-se no cuidado.

— Não vou embora até me ouvir! – retrucou, começando a se irritar com a teimosia dela.

— Sasuke! – deixou, finalmente, as lágrimas rolarem – Saia! Por favor... – cerrou os olhos, tremendo – Eu só quero que vá embora.

— Não vou desistir de você – falou mais calmo, se aproximando dela.

— Se não sair dessa sala agora vou pedir que ANBU’s o retirem à força! – Ino disse ao invadir o consultório – Está atrapalhando o atendimento médico dela – sua postura altiva não demonstrava nenhum brincadeira.

Ambas levavam a medicina a sério, mas levavam muito mais sua amizade. E Ino estava ali para protegê-la do inconveniente que ele era.

— Me impeça – provocou, pegando Sakura pela cintura e os teleportando para a residência Uchiha com o vórtice do Rinengan.

— Sasuke! – reclamou quando ele pousou no centro da sala – Aquele homem..!

Ele sabia que ela iria xingá-lo por interromper um atendimento, mas com Sakura longe, a Yamanaka assumiria seu posto. O homem não morreria, ambas estavam fazendo drama demais apenas porque a rosada não queria discutir consigo.

— Sua amiga cuidará dele – deu de ombros, se aproximando.

Ela o olhou irritada e magoada. Não podia discordar, já que no fundo era verdade. O homem só estava queimado, Ino sabia tão bem quanto ela cuidar daquele tipo de ferimento. Mas a magoava saber que ele não respeitava sua decisão, seu espaço.

— Vamos conversar – tocou o rosto dela, mas Sakura se afastou apressadamente, como se sua mão tivesse alguma doença contagiosa.

— Não há o que conversar... – ela deu a volta na sala, caminhando para a porta.

Sasuke sentiu o coração acelerar com o descaso em sua voz. Ainda assim, foi mais rápido que ela e segurou a porta pela qual tentava sair, ela concentrou chakra em suas mãos e estava prestes a puxar a maçaneta quando ele a empurrou para trás com o corpo. Sakura cambaleou irritada e avançou contra si.

Desviou dos primeiros três socos dela, e também do chute em sua lateral. Não achava que ela estava tão irritada àquele ponto, porém era melhor que descontasse seu sentimento de alguma forma, e finalmente tivessem uma conversa sensata ao final da luta.

Ela continuou numa sequência de golpes que lhe dava orgulho pela rapidez e combinação. O Uchiha continuava desviando deles, mas em uma distração rápida pela sala (uma mobília de seus pais que se quebrou com o soco da mulher) Sakura conseguiu mirar um soco em seu rosto.

Provavelmente teria desmaiado se não tivesse acionado seu susanoo. Ambos se olharam intensamente naquele momento. Ela tinha o cabelo preso um pouco grudado à testa pelo suor que escorria e ele respirava rapidamente, o braço dela continuava estendido, tocando a armadura de chakra roxa. E foi quando percebeu que realmente estava disposta a machucá-lo que começou a chorar.

Não era esse o tipo de casamento que queria para si.

A Uchiha caiu ajoelhada no chão e tampou o rosto, uma forma inútil de parar as lágrimas. Sasuke desativou a proteção e se ajoelhou diante dela, tentando ampará-la de algum modo, ainda que ele fosse o causador de sua dor.

— Sakura... – chamou, pronto para falar tudo aquilo que viera pensando.

— Eu não aguento mais, Sasuke! – proferiu entre soluços – Eu cansei de só sentir e sonhar com teu sabor...

O homem franziu o cenho sem entender o que ela dizia.

— Não dá mais, não quero mais continuar – elevou a cabeça. Os olhos estavam vermelhos, assim como os lábios e a ponta do nariz. Ele pensou que ela estava adorável, mas suas palavras cortaram seus pensamentos – Eu não consigo nem mais olhar para você e não me sentir doente por amar tanto alguém. – confessou com a voz quebrantada.

— Sakura...

— Eu queria que você me olhasse, me enxergasse, me visse. Queria que eu fizesse diferença para você... – resmungou, se encolhendo e se afastando.

— Você faz! – respondeu – Você é minha mulher...

— Sou a pessoa que lava, passa, cozinha e com quem transa. Não sou mais nada do que isso para você! – contrapôs, magoada.

Ela já havia se levantado e andava pelos cômodos da casa, buscando alguma sanidade perdida no meio do caminho.

— Isso não é verdade. Sabe disso – falou convicto.

— Sei?! – retrucou indignada – Porque é assim que eu me sinto – bateu no peito, indicando o coração – Você nem ao menos se lembra de me perguntar como me sinto, o que penso, nem ao menos me olha ou me nota! Sou um encosto que você leva apenas por ter parido sua filha, e por ser egoísta! Porque você gosta de saber que tem alguém o esperando voltar, e esse sentimento que carrego me faz cair aos seus pés, ser sua devota e pagã, que aceita essa luta vã de te perdoar todas as manhãs em que retorna das missões! Eu não quero mais me sujeitar ao seu egoísmo, Sasuke!

— Não fale absurdos! – fechou os punhos, irritado – Ontem nós estávamos bem...

— Você não me ama! – gritou, perdendo o fôlego. Sasuke arregalou os olhos – Eu não me sinto amada quando estou com você, me sinto suja, usada, uma vagabunda qualquer!

Ele parou diante da fala dela. Nunca havia se deitado com outra mulher. Sempre fora com Sakura, mesmo com as constantes provocações de Suigetsu em suas viagens, ele sentia desejo sim, mas nada que não pudesse se aliviar sozinho ou esperar retornar para Konoha. Não havia pedido Sakura em casamento para desonrá-la daquela forma. Não entendia como ela podia pensar algo assim de si, dos momentos à dois deles.

— Você não...

— Eu me iludi – ela o cortou, falando amargurada – Achei que você me amasse, que tivesse me escolhido por algum motivo especial! Vi coisas onde não existiam, pensei em gestos que só faziam sentido na minha cabeça, e que me deixavam cega... mas eu não aguento mais. Estou casada com um homem que não se importa comigo e nem com a própria filha! Que sai pelo mundo sem nos dar notícias e sem desejar sabê-las! Eu não mereço isso, Sasuke! Nunca mereci...

— Pare de ser tão irritante! – interrompeu irritado, balançando o cabelo a fim de se acalmar.

Mas aquela simples frase repercutiu de uma forma que ele nunca pensaria. O irritanteque para ele era uma forma quase carinhosa de se referir a ela, para Sakura era um tabu. Era uma palavra que a assombrava e trazia lembranças horríveis de um passado em que não era correspondida, e que naquele momento serviu para concretizar todos as suas aflições. Ela era irritante, e por isso não era bem quista por ele.

— Então eu sou só isso para você? – questionou cansada, sentindo o coração despedaçar – Sou irritante? – Mais lágrimas escorriam pela bochecha avermelhada – É por isso que passou dez anos longe de casa e ainda passa meses em missões? – Sasuke ficou quieto, não sabia como contradizê-la.

Sakura entendeu seu silêncio como uma afirmação e deixou as últimas lágrimas do dia caírem. Se virou, pronta para se recolher no quarto, mas ele a chamou.

— Sakura!

— Sabe, agora já é muito tarde, então me poupe dos detalhes. Não quero mais saber de ti, das suas vindas e partidas, suas saídas escondidas, com quem tu andas e onde vais. Já me cansei não quero mais.

— Não, não vou deixar – se adiantou, puxando-a pelo braço.

— E o que vai fazer? Fugir de novo? – tirou a mão dele de si, retomando toda a irritação acumulada por anos de negligência.

— Sou seu marido! – defendeu-se, tentando fazê-la entender que ela era parte de sua família.

— Onde? Eu não vejo, eu não toco, eu não sinto!* Você nem me diz que gosta de mim! Só fica cutucando minha testa!

Ele se exasperou. Sempre achou que ela entendesse o significado daquele gesto, mas naquele momento refletiu que nunca havia explicado o real sentido dele. Sentiu o desespero o tomando enquanto Sakura ainda o olhava irritada, mas ainda contendo um brilho de expectativa no olhar.

Sacudiu o cabelo outra vez, desconfortável, e olhando para ela com seriedade disse as palavras que pensou que ela soubesse serem proclamadas de outras formas em outros momentos.

— Eu te amo.

Sakura prendeu a respiração e empalideceu. Era a primeira vez que ele lhe dizia isso de forma tão aberta. Ficou momentaneamente chocada pela confissão, mas em seguida notou que não importava mais. Que ela própria não conseguia acreditar naquelas palavras que tanto havia sonhado ouvir, havia ficado mais chocada por ele ter dito aquelas três palavras do que pelo significados delas, e aquilo foi o bastante para sentir-se derrotada.

A mágoa estava presente, ela era muito forte por todos os anos acumulados, por todos os momentos em que ficou sozinha como esposa, sem saber do marido. Não queria estar ligada a um homem apenas por um papel, por um sobrenome, nem pela filha – ainda que ela fosse um laço indestrutível entre eles – queria que estivessem juntos, unidos pelo amor que sentiam.

Mas os anos solitária lhe mostraram que aquele amor era unilateral e que nunca seria recíproco.

— Não quero mais esse martírio de viver amarrada a você só porque temos uma filha, eu sou mulher agora, e não uma menina que fantasia com um amor platônico. Basta – Sakura o olhou cansada, não tinha nem mais forças para discutir.

Fora ela quem viveu para ele, quem se devotou a vida inteira por um homem inalcançável, abdicando dos próprios desejos muitas vezes para satisfazê-lo, para agradá-lo e se mostrar digna de sua atenção, da sua escolha. Ela era uma Uchiha agora, mas nunca desejou tanto voltar a ser uma Haruno, a ter novamente sua liberdade, o seu eu além de Sasuke e Sarada.

— Sabe, eu já perdi minha mocidade com seus caprichos e vontades, com a redoma que criastes, me impedindo de viver, fui vendo a vida passageira, te esperando a noite inteira, mudando o canal da TV. Só pra mais tarde te esperar e só te ver fechando a porta, me vendo como se fosse morta. Basta que de ruim já basta a vida, se só de ti fui pertencida, chegou a hora da partida, pois só de mim eu quero ser.

A fala dela o petrificou. Nunca pensou que a mulher se visse assim, que ele a fazia se sentir assim. Para Sasuke era tão claro quanto água que a esposa era importante para si, que fazia a diferença, que era o pilar da família que haviam construído e do seu eu próprio, mas ele nunca havia externalizado o que sentia e agora ela sofria por mais erros seus.

No fim, Sakura sempre chorava por sua causa.

— Sakura... – sussurrou, observando atentamente sua expressão martirizada e pela primeira vez considerou que o divórcio... talvez, fosse bom para ela.

Ele era muito quebrado. Ele estava lhe deixando infeliz, devia aquilo à Sakura. Aquiesceu silencioso, observando as orbes verdes se inundarem novamente.

— Feche a porta quando sair. Enfim, nosso fim chegou.

E aquela última frase fez Sasuke sentir-se tão só como quando criança. Não havia esperança para seu relacionamento. Ele havia quebrado Sakura, tinha tornado a pessoa mais iluminada de Konoha tão cinzenta quanto a si mesmo. As lágrimas dela rolaram, tão dolorosas que o homem sentiu o próprio coração doer, mas guardou a certeza amarga de que longe ela estaria melhor, que iria se reerguer e voltar a florir.

— Enfim, nosso fim chegou – repetiu amargo e finalmente a deixou ir.

Dessa vez, era ele quem via as costas de seu amor se afastar. E a liberdade sentida por ela nunca fora tão angustiante. 

Feb. 28, 2018, 10:54 p.m. 5 Report Embed 7
Read next chapter Fragmentar

Comment something

Post!
Deroxani Costa Deroxani Costa
Ola autora obrigado por me responder, sua fic tá bem fiel às personalidades dos personagens no anime, e isso foi o que eu mas gostei, eu me senti como se tivesse lendo a real continuação do anime, claro romântico, realmente bem intensa, aguardando a continuação bjcas...
March 14, 2018, 6:13 p.m.

  • Vany-chan 734 Vany-chan 734
    OLAAAR DE NOVO! <3 AH, JURA? Eu sempre me esforço pra fazer as personalidades de todos os meus personagens fieis às do anime, sabe? É bom ver que elas estão dentro do padrão e que vc gostou delas <3 Eu pretendo atualizar logo, sinceramente. Daqui umas duas (no máximo três semanas) é pra sair um novo cap, mas já aviso: ele está grande e o INK tem um certo limite de caracteres nos caps, por isso eu vou ter que dar uma quebrada nos caps ok? Tipo, quando eu for atualizar, o segundo cap vai ser NA VERDADE o terceiro, enquanto o segundo será uma metade destes aqui, asim eu consigo colocar notas finais e tudo mais. Enfim, é isso! Beijocas e obrigada pela resposta haha Eu adoro falar com meus leitores <3 <3 March 14, 2018, 8:56 p.m.
Deroxani Costa Deroxani Costa
Esqueci de perguntar, vai haver continuação?
March 12, 2018, 12:25 a.m.
Deroxani Costa Deroxani Costa
Eu amo esse casal, foi uma história dolorida e triste, mas com sinceridade eu gostei muito, da escrita, da forma como ela passa sentimentos, tô até agora com o bolo na garganta, gostei tanto que decidi comentar, fanfiction muito boa de ler... Parabéns autora...
March 12, 2018, 12:22 a.m.

  • Vany-chan 734 Vany-chan 734
    OLAAAR! Muito obrigada pelo seu coment <3 Bom, eu amo SasuSaku também e por isso achei que eles mereciam um amor mais maduro e declarado (não somente os pequenos gestos)... É muito bom pra mim, como autora, saber que o bolo na garganta permaneceu pós-leitura, essa é uma fic que é pra ser intensa e transpassar os sentimentos deles mesmo! Obrigada de verdade e espero não decepcioná-lo nos próximos! Pq sim, eu vou atualizá-la daqui umas duas semanas. Um beijo! March 12, 2018, 5:16 p.m.
~

Are you enjoying the reading?

Hey! There are still 4 chapters left on this story.
To continue reading, please sign up or log in. For free!