Lágrimas de Vidro Follow story

hikarinohimewriter HikariNoHime Writer

Eren era mais forte do que qualquer pessoa que tivera a chance de conhecer, Levi sabia. Assim como sabia que quando o limite do garoto de olhos puros chegasse, suas lágrimas arranhariam sua garganta e estilhaçariam sua alma, espalhando os cacos à espera de alguém para reuni-los outra vez. Pois as lágrimas de um Deus eram como lágrimas de vidro: verdadeiras, porém letais.


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#UniversoAlternativo #Romance #Drama #Fantasia #Eren/Levi #ShingekiNoKyojin
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Prólogo

Por que tinha que ser tão doloroso? Socos, chutes e pedradas machucavam-lhe o corpo, tiravam-lhe o ar e aumentavam seu desejo pela morte. Ouvia os passos ao seu redor, pesados como os de todo adulto, surgirem e desaparecerem na distância, ignorando seu corpo magro e encolhido contra a terra vermelha da estrada e as atrocidades contra ele cometidas.

— Filho do demônio! — gritavam sem parar. — Tudo seria melhor se você nunca tivesse nascido! — E iam embora, largando para trás o garoto machucado.

Ele esperou os passos se distanciarem e sumirem antes de se levantar com dificuldade. Tudo doía e sangue escorria pelos cortes abertos pelas pedras. Caminhou, mancando, pela estrada, pela floresta e pela pequena vila ao redor do Santuário onde os servos de Kiyoshi viviam — era um aglomerado de casas construídas com madeira, barro e palha. As trilhas entre as casas eram cobertas por uma areia clara e mais fina que a da praia e eram ladeadas por ervas daninhas e matinhos. As outras crianças, assim como todos os outros, pareciam evitá-lo, ou até mesmo fingir não perceber os ferimentos óbvios na pele pálida.

Levi! — Ouviu uma voz conhecida chamá-lo.

Levi olhou para a mulher que se aproximava rapidamente, quase tropeçando com as sandálias de palha — e congelou. Não, não queria que sua mãe, sempre tão linda e gentil, o encarasse com aquele misto de preocupação, tristeza e culpa. Não queria que ela tivesse que cuidar de seu corpo machucado e chorasse à noite quando pensasse que ele estivesse dormindo.

Kuchel Ackerman era uma das servas mais dedicadas do Santuário, sempre servindo de exemplo e cuidando dos demais. Entretanto, após uma pequena rebelião por parte dos escravos, ela foi abusada e acabou tendo um filho — Levi —, uma criança sem pai. Ainda assim ela o criou com todo o amor e carinho que uma mãe poderia ter, e até mesmo o Sacerdote fez questão de apoiá-la e realizou a cerimônia de batismo de Levi.

Sua mãe o abraçou, os dedos finos e protetores perdendo-se nos cabelos de Levi, compridos e sujos. Ele retribuiu o abraço, passando os braços finos ao redor do pescoço da mãe e enterrando o rosto no ombro dela, sentindo o cheiro familiar e esquecendo-se da dor. Não percebeu quando foi levantado do chão, nem quando entraram de volta em sua casa, feita essencialmente de madeira.

— Amanhã eu irei voltar a morar no Santuário — Kuchel anunciou de repente, a voz baixa e hesitante. Seus dedos passavam uma pomada sobre um dos cortes nos braços de Levi; o toque era sempre delicado e gentil, como se temesse machucá-lo ainda mais.

Levi sentiu os ombros ficarem tensos e agradeceu por estar de costas para a mãe, de forma que ela não fosse capaz de enxergar seus olhos úmidos. Ele sabia que aquilo aconteceria uma hora ou outra, afinal o Kiyoshi estava para nascer outra vez, e era mais que claro que o Sacerdote, Erwin, ficaria muito mais tranquilo com alguém como Kuchel para cuidar do bebê.

O Kiyoshi era uma divindade que reencarnava naquelas terras de tempos em tempos. Era ele que mantinha as barreiras que protegiam os humanos dos Onis, monstros de todos os tipos e formas, também era um símbolo da paz e esperança. Entretanto, mesmo com todo o poder que possuía, o Kiyoshi também era uma pessoa extremamente frágil que precisava de proteção e cuidados — logo, todos os garotos e garotas daquela região estavam treinando para serem Guerreiros e protegerem seu Deus, mesmo que não acreditassem verdadeiramente nele.

Levi não tinha certeza se acreditava ou não; talvez o fato de ser um bebê, provavelmente uns 8 anos mais novo que o próprio Levi, lhe dava a sensação que toda aquela imagem imponente e poderosa que os adultos lhe passaram não passava disso: uma imagem, distorcida como o reflexo na água.

— Mas vou precisar de alguém para me ajudar com o parto — concluiu, surpreendendo Levi.

Crianças da idade dele que não pertenciam às famílias do Conselho — um grupo de quatro famílias que auxiliam o Kiyoshi ao lado do Sacerdote — eram proibidas de ir ao Santuário, mesmo que vivessem ao redor deste. Mas era uma chance de ficar um dia a mais com sua mãe; o Kiyoshi não podia ser criado com a mãe biológica, tanto para garantir que sua Consciência Divina despertasse o mais cedo possível, quanto por apenas os Ackermans serem imunes à grande parte dos poderes do Deus.

A resposta de Levi saiu mais firme do que ele pensou ser possível.

— Eu irei.



Levi já havia apanhado, sangrado e apanhado outra vez. E, mesmo assim, nunca tinha visto tanto sangue em um lugar só na sua vida.

Os lençóis brancos da cama estavam ensopados pelo líquido rubro que chegava a gotejar no chão quando Levi voltou com uma bacia d'água. Sobre a cama, Carla Jaeger — a mulher que, em pouco tempo, daria à luz ao novo Kiyoshi — gritava e chorava de dor, os cabelos negros espalhados pelos travesseiros e emaranhados em incontáveis nós. Kuchel e mais algumas mulheres estavam ao redor de Carla, dando-lhe apoio e ajudando-a com o parto.

O cheiro do sangue estava tornando-se enjoativo para o pequeno Levi. Kuchel, vendo que ele não aguentaria muito tempo, pediu que ele esperasse no quarto ao lado. Levi obedeceu, descansando em uma cadeira desconfortável de madeira. Esperou pelo que pareceu horas, os olhos fixos no desfiladeiro logo abaixo da janela ao seu lado. Engoliu em seco.

Mesmo com os cuidados da mãe, seus machucados ainda doíam; tanto os recentes quanto os mais antigos e profundos do que Kuchel jamais sonharia. Assim como a mãe, que fora maculada injustamente, Levi estava imundo por dentro. E agora estaria sozinho naquela vila, a mercê de todas aquelas pessoas horríveis, sem as palavras e sorrisos gentis de sua mãe para acalmá-lo. Talvez, só talvez, o melhor fosse simplesmente pular e acabar com aquilo.

E teria pulado, se a porta não tivesse se aberto em um rompante, e Kuchel aparecesse com um sorriso vitorioso com um embrulhinho azul e branco nos braços. Ela abaixou-se quando chegou até ele, mostrando o que carregava: um recém-nascido com cabelos de avelã e pele morena, tão calmo e silencioso que nem parecia um recém-nascido.

— O nome dele é Eren e ele é o Kiyoshi dessa Era. — Os olhos cinzentos de Kuchel brilhavam com doçura e, acima de tudo, esperança. — Não quer segurá-lo, Levi? — indagou. Levi estendeu os braços, pegando o pedacinho de gente com cuidado. Pela primeira vez deu-se conta de quão frágil aquela criaturinha podia ser quando se remexeu em seus braços. — Ele pode ser a nossa salvação. Por isso devemos protegê-lo a todo custo. — Ouviu a voz da sua mãe distante como as ondas do mar; naquele breve momento o mundo de Levi se resumia ao pequenino em seus braços.

Olhos grandes verdes abriram-se para ele, inocentes e luminosos. O bebê estendeu os bracinhos em sua direção, dedos minúsculos estendidos em curiosidade. Levi podia sentir uma espécie de energia emanando do recém-nascido, fluindo através do corpo pequeno, atravessando seus braços e aquecendo seu coração machucado de criança de um jeito que não imaginava ser possível.

— Entendeu, Levi?

Quando o bebê sorriu abertamente, a fragilidade doce marcada pela falta de dentes, Levi encontrou uma razão para nunca mais pular.

— Entendi, mãe.

Feb. 28, 2018, 12:57 p.m. 0 Report Embed 1
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