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malki Malki Choccola

O mundo precisava de mais um herói? Achava sinceramente que não. Aos 25 anos, Bakugou havia cumprido sua missão com sucesso. Não possuía uma ambição, um sonho ou coisa assim. Não tinha ninguém que o procurasse, que sentisse sua falta. Sabendo disso, decidiu que era hora de dar o próximo passo. Era hora de pôr um ponto final em sua própria trajetória, e teria de fato feito isso se aquele homem não tivesse aparecido para detê-lo. Para salvá-lo.


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#yaoi #lgbt #bakugou #boku no hero academia #kiribaku #bakushima #kirishima #shounen ai
Short tale
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Capítulo único

Eu devia sorrir mais

Abraçar meus pais

Viajar o mundo e socializar

Nunca reclamar

Só agradecer

Fácil de falar, difícil fazer

Supercombo - Piloto automático

--

“Quando eu sair dessa casa tudo vai ser melhor! Vou ter minha própria vida, fazer as coisas do meu jeito, não vou sentir falta de ninguém! Porque eu nāo preciso de ninguém!”

Tal foi o pensamento que teve há muito tempo. E foi também o primeiro grande erro de que realmente se arrependia.

Bakugou Katsuki, aos 25 anos, havia se tornado exatamente o que desejava: independente. A palavra sempre pareceu perfeita, sua definição de felicidade, porque nunca se adequou à regras, nunca quis obedecer ou sentiu que se encaixava em absolutamente nada. Queria fazer as coisas do seu jeito, sem se sentir sufocado.

Conforme ia ficando mais velho saiu de casa, rompendo toda e qualquer ligação que ainda tivesse com seus pais. Se distanciou dos antigos companheiros de colégio. Concentrou todos os esforços em se tornar um herói de sucesso, reconhecido e aclamado.

E conseguiu, ao menos nos primeiros anos. Atingiu o auge do que desejava, imaginou que sua felicidade estaria ali.

Mas não estava. Nunca esteve.

Quando a profissão decaiu, quando os heróis licenciados começaram a buscar empregos que nem dependiam de suas individualidades, Bakugou compreendeu o que significava estar completamente sozinho. Sentiu medo, de verdade. Porque não imaginava que a dor da solidão fosse esmagá-lo de tal maneira. Seus dias se tornaram sombrios, sem propósito, cinzentos. Uma rotina desgastante sem novidade, sem desafios. Nem sabia mais pelo que se levantava todas as manhãs, o sentimento de insuficiência lhe batendo constantemente no peito.

O mundo precisava mesmo de mais um herói? Precisava dele?

Achava sinceramente que não. Havia cumprido sua missão com sucesso, não possuía uma ambição, um sonho ou coisa assim. Não tinha ninguém que o procurasse, que sentisse sua falta. Insistir em levar uma vida vazia não era o que desejava.

Sabendo disso, decidiu que era hora de dar o próximo passo. Era hora de pôr um ponto final em sua própria trajetória.

--

Não havia muitas coisas que queria ou desejava, então achou justo beber antes de morrer, afinal se privou disso por tanto tempo por conta da profissão que mal lembrava o gosto do álcool. Talvez o ajudasse a pensar no que fazer com o apartamento e os bens que acumulou ao longo dos anos. Não era muita coisa, mas também não largaria tudo para qualquer um.

Caminhava na garoa, os coturnos pretos batendo nas pequenas poças de água. As mãos estavam enfiadas nos bolsos da calça escura e larga. Os cabelos loiros estavam molhados, cobertos de pequenas gotas, e a jaqueta fina não ajudava em nada a espantar o frio que começava a fazer seu corpo arrepiar. Entretanto não se importou. Havia uma calma indiferente instalada no peito, como se estivesse anestesiado porque não sentia absolutamente nada.

Entrou na primeira loja de conveniência que encontrou. Há tempos que não ia a lugares como aquele, nem sabia direito em que prateleiras procurar. Pegou um engradado de cerveja, whisky e cigarros. Jogou tudo numa cesta, sem interesse, seguindo até o caixa.

Largou-a no balcão com um gesto brusco, até mesmo malcriado. Sequer olhou no rosto do atendente, abriu a carteira e jogou uma nota muito mais alta que o valor das compras. Pegou o cesto do mercado mesmo e saiu caminhando para fora, ignorando a garoa que começava a engrossar.

O que não esperava é que alguém correria atrás dele. Irritado, olhou por cima do ombro, disposto a comprar briga, e percebeu que era o atendente da loja, vindo esbaforido em sua direção.

Ignorou-o completamente e continuou seu trajeto.

- Espere! - a voz irritante fez Bakugou se virar para encará-lo. No instante em que o fez, ficou muito surpreso e intrigado.

Há anos não via aquele rosto, mas era impossível esquecer.

O outro rapaz por sua vez abriu um grande sorriso, reconhecendo-o de imediato.

- Sabia que era você, cara! Já faz muito tempo!

Bakugou ficou sem fala, não esperava encontrar justo com ele.

Tratava-se de Kirishima Eijirou, seu melhor amigo dos tempos de escola. Alguém que foi muito importante em sua vida, e que não via há muito tempo.

Olhando-o agora percebeu que o tempo lhe fizera muito bem. Parecia um homem feito e encorpado, ao menos foi o que conseguiu identificar sob o uniforme da loja que não o permitia observar muito bem. Nem achou prudente ficar reparando nisso também. Os cabelos ruivos continuavam espetados, um pouco mais curtos, e aquele sorriso inconfundível mostrava bem as presas afiadas.

Sem imaginar as lembranças que passavam pela cabeça do antigo colega de colégio Kirishima por sua vez parecia radiante por reencontrá-lo. Pensou no que dizer, mas pareceu subitamente sem graça.

- Então… Como você está? Ah, esqueceu seu troco e achei melhor te trazer.

- Pode ficar - respondeu seco, ainda surpreso por reencontrá-lo depois de tanto tempo.

O rapaz ruivo ficou inquieto, como se tentasse pensar no que dizer para prolongar o assunto.

- Mas é muito, e eu corri pra entregar porque imaginei que era mesmo você. A gente não se fala há anos…

- Foi bom te ver também, Eijirou - interrompeu o falatório dele, num tom bastante ríspido - Vou nessa.

Sem dizer mais nada, Bakugou se vira e sai caminhando apressado, cerrando os olhos porque a chuva começava a cair mais forte.

Não ficava muito confortável perto de outras pessoas, quem dirá daquela em especial! Kirishima sempre foi próximo demais, era irritante reencontrá-lo em um momento em que estava desistindo de tudo.

Ouviu passos detrás de si e rolou os olhos, cheio de irritação.

- Eijirou, me deixa enquanto eu tô de boa.

O rapaz de cabelos vermelhos não se importou com o tom repressivo. O puxou para debaixo da primeira cobertura que achou, o toldo de um estabelecimento fechado. Tinha uma expressão angustiada em seu rosto, como se quisesse muito dizer alguma coisa importante. Passou algum tempo fitando o rosto de Bakugou, abrindo a boca para dizer algo, mas desistindo em seguida ao ver os cabelos loiros pingando, os olhos opacos e sem vida.

Passado um tempo de completo silêncio, em que somente fitaram um ao outro, Bakugou foi o primeiro a se pronunciar.

- Se não vai me dizer nada então me deixa - desviou o rosto, mais nervoso que o normal.

- Eu termino em quinze minutos! - foi tudo o que Kirishima conseguiu dizer, enfático - Só quinze minutos, ok? Pode me esperar?

- Pra que diabos eu ia querer te esp…?

- Eu volto logo! - cortou-o de imediato - Não sai daqui, por favor!

Um nó se formou na garganta de Bakugou enquanto fitava os olhos do rapaz à sua frente.

“Eu não vou mudar meus planos por algo estúpido como um ‘encontro do destino’. Esse bastardo maldito vai sair do meu caminho ou eu o tiro à força” - exibiu um olhar impaciente e se preparava para discutir quando viu o rapaz se distanciar, correndo na chuva como quem foge de fogo.

Soltou o ar pesadamente pelo nariz.

Aquele imbecil não havia mudado muito, ainda fazia as coisas à sua própria maneira.

Pra que diabos iria esperar? Não fazia diferença! Não é como se reencontrar um velho amigo o fizesse mudar de ideia, querer mudar as coisas!

Estava certo do que estava fazendo e não havia mais volta. Não sentia falta de ninguém, nem se importava! Estava decidido a acabar com tudo naquela mesma noite. Era a certeza que latejava em sua mente.

Entretanto, seus pés não se moveram o mínimo, e ficou parado no mesmo lugar. Por cinco, dez minutos…

Bobagem, não precisava esperar, não precisava de companhia! Era um rebelde convicto, uma pessoa solitária, um homem que vivia para o trabalho!

Doze minutos. Embora sua mente gritasse a ele que fosse embora, seu coração o mantinha paralisado no mesmo lugar, batendo dentro do peito tão depressa como não achou que fosse sentir novamente. Os olhos ardiam.

Não fazia diferença! Então por que parecia tão importante que Kirishima tivesse surgido diante dele exatamente no momento que estava desistindo de tudo? Por que parecia tão importante para Bakugou o fato dele ainda se importar?

Sem perceber, ainda estava parado no mesmo lugar quando o rapaz veio correndo até ele, segurando um guarda chuva. Ao se aproximar e fitar o rosto do antigo colega de classe, o sorriso esmoreceu.

- Estava na chuva, não é? Você não muda mesmo - se aproximou e cobriu a cabeça e parte do ombro dele com o guarda chuva, convidando-o a seguir o caminho de volta para sua casa.

- … Cale a boca - retrucou, mas obedientemente caminhou na direção que Kirishima caminhava. Este por sua vez não disse nada, mas bem sabia que o rosto molhado de Bakugou não era por causa da chuva.

Eram lágrimas.

--

A casa era colorida demais, cheia de tralhas. Extravagante exatamente como aquele homem.

Bakugou tirou os sapatos com uma educação que nem sabia ter. Ergueu o rosto e sem aviso recebeu uma toalha na cabeça.

- E essa merda agora…?

- Pode tomar banho primeiro, você tá ensopado. Vai acabar resfriado.

- Vai pro inferno, Eijirou! Não pedi pra ficar se preocupando comigo.

- Vou pegar mudas de roupas secas então. Não pode ficar assim.

- Que droga você tá fazendo, hein? Pra que me trouxe aqui? Por que tá se intrometendo de novo na minha vida?

Kirishima não se rendeu ao ataque de fúria. Ao invés, levou as duas mãos à cabeça dele, coberta pela toalha, e esfregou os cabelos loiros tentando secá-los. Ao terminar puxou um pouco o tecido para encará-lo.

- Se quer tanto assim um motivo eu vou ser bastante franco. Naquela hora percebi que seus olhos eram os de alguém que não tem mais nada, Bakugou. E senti que se te deixasse ali eu provavelmente nunca voltaria a te ver. Senti medo disso acontecer.

A frase súbita pareceu deixá-lo ainda mais atônito e nervoso.

Aquele maldito… Desde quando sabia alguma coisa sobre sua vida? Quem achava que era para falar do que não sabia?

Abriu a boca para retrucar e gritar com ele. Estava possesso de verdade porque Kirishima não sabia de nada! Nem fazia ideia de tudo que já havia passado até ali, o que precisou enfrentar, quantas vezes quis desistir de tudo!

Seus lábios tremeram em uma frustrada expressão de ódio. A voz que saiu estava longe de ser um grito de raiva, longe de ter palavras conexas. Era só um soluço, que se tornou num choro desgastado e talvez a pior parte foi quando sua cabeça foi novamente coberta pela toalha, e abraçada por Kirishima.

Queria dizer que ele era repugnante, que o largasse! Mas acabou passando os braços em redor do corpo dele e o trouxe para perto, largando a testa no ombro e encharcando o tecido da camiseta que ele vestia.

O frio causado pela chuva sumiu imediatamente com o contato. Há tempos não abraçava alguém, e havia esquecido como uma coisa tão simples podia fazer tão bem.

Ficou ali parado, sem dizer nada, sem se mover, e Kirishima não fez um único movimento enquanto esperava que ele se acalmasse, só o apertou entre os braços. Algum tempo depois Bakugou o empurrou, não com a estupidez costumeira, a cabeça ainda estava coberta pela toalha.

-... Vou pegar isso emprestado - disse baixo, seguindo a direção ao banheiro.

--

Kirishima aguardou pacientemente até que Bakugou houvesse terminado seu banho, sem ousar interromper porque sabia que ele precisava pensar. Era óbvio que não estava bem então precisava fazer algo para ajudá-lo, embora ainda não soubesse bem o quê.

Ouviu o barulho da porta se abrindo e subitamente ficou nervoso. Há anos que não o via e era mais do que claro que ele havia crescido bastante. O corpo ficou forte como o de um adulto, o rosto mais largo, os cabelos loiros mais curtos, mas ainda rebeldes. Ele parecia terrivelmente atraente e seus olhos não expressavam mais aquela ferocidade dos tempos antigos.

- O que está fazendo aí parado olhando para o nada? - a voz grave soou e por instinto Kirishima se virou na direção dele. Péssima ideia porque a única peça de roupa que ele vestia era uma bermuda emprestada, um pouco pequena para ele e que deixava seu corpo mais à mostra do que gostaria.

Ficou calado por longos segundos e seu foco era aquele corpo maravilhoso, chegou a sentir um calorão repentino. O que o fez voltar a si foi um tapa na cabeça, sem muita força.

- Tá viajando, é?

- Perdi a concentração - riu sem graça, desviando o olhar e sem coragem de dizer que era por culpa dele.

Bakugou no entanto entendeu prontamente o olhar que recebeu, e não esperava menos.

Havia uma espécie de “química” entre eles desde os tempos de colégio. Algo tão recíproco que os levou a ficar várias vezes depois da aula. Bakugou ainda lembrava com perfeição o quão pontiagudos e afiados eram aqueles dentes, e como precisava tomar cuidado ao beijá-lo se não quisesse se cortar. Isso tornava as coisas mais interessantes e volte e meia, quando sentia o gosto de ferro do sangue em meio ao beijo, isso o provocava mais.

Ainda que o sentimento parecesse recíproco, Bakugou não se fez de rogado ao sumir da vida dele, assim como desapareceu da vida das outras pessoas. Nunca retornou contato, jamais o procurou. Havia encerrado qualquer relação que tivessem.

Até aquele momento. Odiava admitir, mas rever Kirishima havia mexido com ele.

- Você parece em forma - o rapaz ruivo tentou desesperadamente desconversar - Deve ter continuado a rotina como herói, né?

- Lógico, não me formei na UA à toa.

- São tempos difíceis, você sabe. Quase nem tem patrulha pra fazer, peguei um bico na loja de conveniência pra complementar renda - sorriu, os dentes muito pontudos à mostra - Mas não ficaria choramingando enquanto você levava o título de mais forte. Eu treinei pra caramba, tipo muito mesmo, e tenho certeza que consegui te superar.

Uma veia enorme saltou na têmpora de Bakugou.

- SÓ NOS SEUS SONHOS, SEU BASTARDO DE MERDA! EU ACABO COM VOCÊ ONDE E COMO EU QUISER!

Um sorriso endiabrado surgiu nos lábios do rapaz ruivo, uma ideia súbita invadindo a mente.

- Quer apostar?

- Lógico! - não perdeu o hábito de nunca recusar um desafio. As coisas até ficaram mais interessantes.

- Muito bem… - ergueu o corpo do sofá - Três golpes. O primeiro que conseguir pode dar uma ordem ao outro, irrevogável.

- Não preciso nem me preocupar porque sei que vou ganhar - estreitou os olhos vermelhos, mas havia um sorriso satisfeito nos lábios, um brilho de excitação na face. Há tempos não se sentia motivado a algo e naquele momento tudo o que queria era derrotá-lo como nos velhos tempos, quando ainda lutavam contra vilões.

Kirishima por sua vez estava um tantinho nervoso. Conhecia a força de Bakugou, ele era rápido e destruía tudo pelo caminho, não era páreo para qualquer um. Fez um movimento de cabeça, pedindo ao rapaz que o seguisse e ele assim o fez, saindo pela porta em direção aos fundos. Passaram pelo quintal da casa, entrando por um terreno que levava à um campo reservado pela prefeitura, que ainda não havia sido limpo e por tal motivo estava cheio plantas altas e algumas árvores. A iluminação chegava fraca ali, de modo que sentir a presença um do outro era mais eficaz do que tentar enxergar com exatidão.

Kirishima tomou alguma distância, os olhos atentos ao menor movimento, mas Bakugou não esperou ele se posicionar e veio em sua direção, como uma flecha, um disparo tão rápido que quando o outro percebeu já estava desviando o rosto a milímetros de distância do punho fechado que ameaçava atingir sua mandíbula.

O cheiro de pólvora o deixou alerta e assustado. Por reflexo tentou um chute para revidar, mas o loiro sumiu de suas vistas. O estômago de Kirishima gelou quando olhou para os lados tentando localizá-lo, sem sucesso.

Quando foi que ele ficou tão rápido?

Virou-se e sem poder desviar teve os ombros segurados com uma força fora de série. Foi jogado contra uma árvore, sentindo o tronco de madeira trincando detrás de si e resmungou de dor. Fitou a face completamente satisfeita de Bakugou, um sorriso debochado nos lábios dele.

- Um! - ele contou, triunfante.

Kirishima respirava depressa, por ter sido pego mas também porque aquela proximidade mexia consigo. Ainda se sentia muito atraído por Bakugou e estar em seus braços não o estava ajudando em nada.

Sorriu desafiador.

- O jogo só começou.

Mal acabou de dizer isso e rapidamente petrificou o braço, deixando a ponta dos dedos afiada como lâminas, e investiu contra ele, mirando no pescoço. O rapaz conseguiu desviar com apenas um arranhão na bochecha, mas a evasiva o fez perder o equilíbrio por pouquíssimos segundos.

- Merd… - sem tempo suficiente para reagir teve o braço segurado e foi puxado de encontro ao do rapaz ruivo, de uma vez. O peito dos dois se chocaram e Bakugou se viu com o rosto a centímetros do dele. Pêgo de surpresa levou um tempo quase ínfimo para conseguir revidar, porém o outro foi mais rápido e lambeu devagar a bochecha cortada, a ponta da língua passando pelo corte.

Quando o fitou de volta Bakugou estava vermelho, tão irritado que parecia querer explodir. Todavia tinha algo mais ali, algo que definitivamente não era o calor da batalha.

Kirishima lambeu os lábios enquanto dava um sorriso atrevido ao loiro irritadiço, cujo peito estava colado no seu, respirando rapidamente.

- Um a um - corrigiu.

O outro praguejou e se soltou com um chute que distanciou os dois. Sentia ódio até os olhos faiscarem. Odiava perder. O suor começava a brotar por conta do esforço, e se aproveitou disso. Soltou várias rajadas contra o ruivo, que se movia pelo ar, esquivando. Saltava e entre os pulos dava impulso com os pés nos troncos das árvores, a adrenalina crescendo conforme fugia, um sorriso endiabrado no rosto.

- Não vai me pegar atacando aleatoriamente desse jeito! Continua cabeça quente como nos tempos de colégio! - debochou enquanto surgia detrás das folhagens, pronto a dar um golpe certeiro. Porém o loiro se virou com um sorriso doentio e sem misericórdia lançou uma bomba em direção ao rosto dele. O rapaz ruivo tossiu, porém percebeu que havia apenas fumaça, não foi machucado com a intensidade que esperava.

Caiu no chão e sentiu algo pesado sobre si. Tentou mover as mãos, mas elas foram seguradas, suas pernas imobilizadas quando o loiro sentou sobre elas. Em meio à fumaça viu o rosto triunfante de Bakugou se aproximar, muito perto do seu, o corpo montado de maneira tentadora.

- Dois a um - disse, arrogante.

Kirishima só conseguia respirar depressa e se esforçar para não ficar excitado porque naquela posição era certeza que Bakugou sentiria qualquer “reação” sua. Rolou os olhos para a boca reparando na forma que ele respirava, os lábios secos. Um desejo ardente de segurá-lo pelo pescoço e colar a boca na dele fez seu rosto arder. Da posição em que estava conseguia ver o peito forte arfar e teve o impulso de tocá-lo.

- Você está bem quieto, hein? Perdeu a vontade de revidar e vai admitir a derrota? - a voz irritante soou e Kirishima pareceu voltar à realidade.

Retribuiu o sorriso.

- E perder a chance de te fazer obedecer um comando meu? Nunca!

Uma onda de excitação encheu o peito de Bakugou, estava se divertindo como há tempos não o fazia.

Desviou rapidamente quando o rapaz tentou alcançar seu queixo com um soco.

Não lhe daria esse gostinho, não queria perder, agora mais do que nunca. Impedia os golpes que ele mandava, sem fazer muita força, se percebendo subir cada vez mais, os pés dando impulso nos galhos das árvores, debochando da gravidade. Só desviava, sem se preocupar em atacar de volta.

Todavia não esperava que Kirishima surgisse furtivo atrás dele, as mãos seguraram seu tórax, o corpo dele colando ao seu por trás. Um arrepio infeliz o fez estremecer quando o ouviu sussurrar em seu ouvido, soprando ar quente e roçando os lábios ali de propósito.

- Dois a dois. Você não parece estar se esforçando muito, Baku-chan - passou devagar os dentes afiados no pescoço do rapaz em provocação.

Bakugou lhe volveu um olhar irritado. Estava vermelho, suado, ofegante… Seus olhos brilhavam com uma coloração que não condizia com a personalidade sempre tão irritadiça. Encararam-se, dentro daquele estranho e provocante abraço.

Foi então que o loiro mudou de expressão para um olhar que misturava raiva e vergonha.

- Seu maldito... Algo em você parece estar duplicando de tamanho!

Kirishima deu de ombros.

- Não tenho culpa se possuo a habilidade de ficar duro - frisou bem a última palavra com toda a malícia que existia em si, propositalmente esfregando o corpo nele.

Para sua surpresa completa Bakugou riu, alto e claro em resposta, e num momento de descuido ele se solta e segura em seu braço, inclinando o corpo para frente ao passo que arremessava o rapaz ruivo para longe.

- O próximo golpe é o que vai definir tudo - ainda ofegava, nitidamente interessado - E não pense que vou perder pra você, Eijirou!

- Veremos… - ergueu o corpo dolorido, se divertindo como nunca.

O combate que se iniciou foi muito mais feroz. Bakugou usava diversas explosões, a mira sendo prejudicada pela quantidade de poeira e destroços que subiam pelo ar. Kirishima por sua vez bloqueava os golpes com seus punhos petrificados, avançando sem medo, tentando golpeá-lo porque era bom em ataques diretos.

Em nada parecia uma luta amistosa entre antigos colegas de classe. Bakugou acerta-lhe o joelho na boca do estômago, mas o outro conseguiu se manter firme o suficiente para revidar um soco no nariz dele, que começou a sangrar de leve.

Os golpes começaram a perder intensidade, visto que estavam exaustos e começaram a ficar mais próximos. Estavam tão esgotados que quando caíram ao chão, mal tinham energia para se erguer. Rolaram pela grama e sempre que um deles ficava por cima, o outro revidava. Aquele jogo de esfregar o corpo estava deixando-os em um limite perigoso.

Foi então que Bakugou se viu posto de costas num golpe que o fez bater a nuca e gemer de dor, zonzo. O que não esperava no entanto é que as mãos de Eijirou se apoiassem exatamente sobre seu peito e sem querer pressionassem um dos mamilos. Não conseguiu segurar o longo gemido rouco que escapou da boca.

Seguiu-se alguns segundos de um silêncio constrangedor. Bakugou corou furiosamente, quase morto de tanta raiva.

- EU VOU TE MATAR! - intentou se mexer mas Kirishima ficou sério. Segurou-lhe os pulsos e quis tapar aquela boca que resmungava demais. Sem conseguir suportar mais, e percebendo que ele havia parado de resistir, prensa o corpo dele no seu e junta a boca à dele. O rapaz resmungava dentro do beijo, sem querer admitir que aquilo mexia consigo. Kirishima porém abriu os olhos devagar, não por completo, ainda o beijando propositalmente devagar, e o encarou ao passo que movia a boca de encontro à dele.

Isso fez o loiro perder as forças para revidar, na realidade nem conseguia e nem queria. Estava com a cabeça ocupada com aquele ruivo metido à besta. Lentamente começou a corresponder, os lábios estalando nos dele, o corpo todo arrepiando com isso. Passou a ponta da língua nos dentes afiados, chegando a feri-la propositalmente para sentir o gosto de sangue se misturando com a saliva. Fechou os olhos porque estava envolvido demais, seu peito parecia que ia explodir. Kirishima afouxou os punhos, livrando as mãos dele e sem demora Bakugou as pôs em redor do pescoço, sem parar de beijá-lo, enquanto ele enfiava as mãos nos cabelos dourados, puxando um pouco porque gostava de provocá-lo.

Soltou seus lábios e sem lhe dar chance de revidar abocanhou o pescoço, chupando e arranhando a pele. Ouviu ele arfar baixo e descontrolado e então, com certa maldade, cravou as presas ali.

Bakugou resmungou de dor e se agitou, volvendo o rosto até que seus narizes se encostaram.

Eijirou sorriu, tirando os cabelos loiros grudados na testa do outro com um gesto carinhoso.

-... Três… Eu venci - ofegou em meio ao riso. Bakugou estava sério, ainda com os braços postos em seu pescoço, os olhos atentos ao modo como a boca dele se mexia.

-... Só porque eu te deixei vencer - resmungou.

- Se me deixou vencer é porque você queria a minha ordem. Pelo visto está tão empolgado quanto eu.

Os olhos vermelhos brilharam e os dentes se mostraram no meio do riso.

- Eu não contaria com isso… - rosnou de volta, mas o peito faltava explodir de antecipação. Sobretudo quando Eijirou tornou a se aproximar para beijá-lo.

Não o repeliu, e nem hesitou ao corresponder. Movia o rosto devagar para retribuir o beijo igualmente, um arrepio gostoso subindo pela espinha ao sentir a língua dele esfregar na sua. Esqueceu de qualquer outra coisa, incluso o pensamento pessimista de horas atrás.

No momento a mente foi totalmente preenchida por aquele estúpido.

- Tenho direito a uma ordem, lembra? Se bem que pelo visto você quer agora o mesmo que eu quero...

--

Encostou a testa nos ombros dele, tentando voltar a respirar normalmente. O calor da excitação passava aos poucos, o suor esfriava no corpo. Um sorriso brincava em seus lábios.

Fechou os olhos e aspirou o cheiro da pele, um aroma que ficou na mente durante todos aqueles anos de longa saudade.

-... Por que foi embora sem me dizer nada, Bakugou?

O rapaz abriu os olhos, endireitando o corpo, mas ainda de costas. Não o repudiou por ainda estar abraçado a ele.

- Não foi só para você que não disse nada. Eu sumi da vida de todo mundo - passou a mão devagar pelo braço, encontrando a mão de Kirishima e a apertando com um pouco mais de força do que gostaria.

Ficou um tempo em silêncio, porque não conseguia dizer mais nada. Minutos depois se afastou, dizendo que achava melhor ir para sua casa, mas Kirishima imediatamente o puxou de volta.

- Ainda tem que obedecer uma ordem minha, esqueceu?

Katsuki virou o corpo na cama, atônito, para encará-lo.

- O caramba! Acabou de fazer o que bem entende comigo!

- Mas em momento algum eu te ordenei nada, você dormiu comigo porque quis - sorriu com simplicidade.

O ódio voltava ameaçadoramente aos olhos daquele rapaz já naturalmente tão esquentado! Kirishima achou melhor intervir antes que recomeçassem a brigar.

- Seja maduro e aprenda a pagar sua dívida.

- Acabei de pagar, caso ainda não tenha notado!

- Tivemos é um momento bom, muito bom diga-se de passagem, mas ainda me deve.

- Que porra de ordem ainda quer me dar, Eijirou???

O ruivo ficou sério.

- Não desista de tudo, Bakugou. Porque não vou desistir de você - encarou-o nos olhos, no profundo das íris - E isso não é uma ordem, é um pedido. Pode achar que está sozinho, que não tem nada, mas está enganado.

Percebeu que ele ficou paralisado com o que ouviu, e não podia culpá-lo.

Outras pessoas podiam achá-lo ríspido, mas sabia que era fachada. No fundo Bakugou era imaturo, dependente e não sabia se expressar. Entendia isso melhor do que ninguém.

Ele apenas resmungou e se virou, muito quieto. Kirishima observou as costas nuas, o pescoço cobertos de vergões. Ficou sem jeito e tocou a pele quente fazendo-o encará-lo sobre o ombro, curioso.

- Desculpa, cara. Às vezes eu sou meio bruto - se referia às marcas que deixou, sobretudo uma mancha escura de chupão no pescoço. O loiro estalou a língua no céu da boca.

- Eu não reclamei, não é? Isso aqui não é nada.

Em resposta, Kirishima se aconchegou na pele quentinha, abraçando-o e descansando a testa na curva do ombro. Não queria deixá-lo ir, em muitos sentidos.

- Eu não quero te perder, Bakugou - deu alguns beijos na nuca e observou com prazer a pele ficando levemente rosada, as orelhas corando. Esfregou a ponta do nariz no osso da coluna e aproveitou para aspirar o cheiro enquanto o abraçava mais forte.

-... Por que você insiste tanto?

- Em que?

- Me fazer ficar. Não faz diferença pra você.

- Acha que não faz? Eu sofri um bocado quando você sumiu, mas sei que é um cabeça dura, que gosta de ficar sozinho.

- Ninguém gosta de ficar sozinho - retrucou num tom muito baixo, coisa que surpreendeu o outro.

Era provavelmente a primeira vez que o ouvia expor uma opinião claramente assim.

- Então talvez seja hora de se reaproximar das pessoas importantes - colocava mechas de cabelo arrepiado para trás da orelha, mas elas voltavam por teimosia - Bakugou, há quanto tempo não fala com sua família?

Ele engoliu em seco, os olhos abertos na semi escuridão sem foco em nada específico.

- Desde que terminei o colégio.

- Isso é muito tempo! Você está sozinho desde então, não me admira que pensasse que não tinha outra saída!

- Você não sabe de metade da minha vida, beleza? Então não se meta!

- Não vou ficar sentado vendo você se afastar de novo, ou dando cabo de si mesmo! Eu não vou te perder dessa vez!

Bakugou não respondeu, porque baixou o rosto até que seu queixo encostasse no braço dele.

Era difícil de admitir, mas estava grato. Se a atitude de Eijirou fosse diferente, se o deixasse partir, não sabia o que faria. Não queria ficar sozinho, não mais.

- ...Eles não vão querer me ver. Eu saí de casa faz muito tempo.

- Não existe no mundo pais que não querem reencontrar o filho. Eu vou com você.

- Eu não preciso de babá.

- Mas precisa de companhia. Pode até me apresentar como seu namorado pra não chegar lá desacompanhado porque seria muita derrota.

Bakugou lhe deu um golpe sem muita força na cabeça, mas segurou-lhe a mão com gentileza maior, entrelaçando os dedos.

Era como ganhar um presente em um momento em que não possuía mais nada.

Calou-se e não o expulsou quando encostou a testa em seu pescoço, parecendo relaxar, muito sonolento. Apenas fechou os olhos, ainda que a ideia de rever os pais o apavorasse. Por hora queria apenas dormir, o quanto a ansiedade permitisse.

E cerca de duas horas depois conseguiu adormecer. Enfim.

--

Os dias que esperou por aquele momento foram longos e a ansiedade nunca o confrontou com tanta avidez. Dias sem dormir ou relaxar o mínimo que fosse.

Jamais admitiria para ninguém, mas estava nervoso por reencontrar seus pais após tantos anos de distância sem nenhum contato. Ainda mais porque foi ele mesmo que escolheu se afastar e nunca retornar uma ligação sequer. Bakugou sentia que o tempo havia se estendido de forma irreparável.

Esse sentimento pareceu mais nítido no momento em que parou diante da porta de sua antiga casa, o lugar onde cresceu.

Teve o impulso de dar as costas e voltar de onde veio. Achou que não fazia sentido visitar alguém depois de tanto tempo.

No entanto, a mão em seu ombro o fez lembrar o motivo de estar ali. Ergueu os olhos a um Eijirou que sorriu e acenou afirmativamente com a cabeça.

Aquele bastardo exercia uma influência muito grande em sua vida, era uma fonte de força que realmente precisava num momento como aquele. Respirou fundo e tocou a campainha, o rosto virado para baixo, o coração a mil batendo dentro do peito.

Quando a porta se abriu pôde ver pés pequenos calçando sandálias de dedo, e soube imediatamente a quem pertenciam. O cheiro, a postura inconfundível… Bakugou não conseguiu erguer o rosto porque sabia que era sua mãe, Mitsuki, ali parada. E teve medo que ela o odiasse, que o mandasse embora.

Que dissesse que era melhor continuarem sem se ver.

Engoliu em seco, nervoso e aflito. Pensava seriamente em inventar alguma desculpa, como ter ido buscar algum documento antigo, algum diploma esquecido, qualquer coisa. Foi então que os pés diante dele se moveram.

- Katsuki…?

A voz nítida como se lembrava fez seu corpo responder de imediato. Ergueu o rosto sem nem perceber, para fitar a mulher à sua frente.

E quase não a reconheceu.

Estava muito magra, as rugas eram aparentes no rosto e os olhos começavam a ficar embaçados ao passo que ela cobria a boca com as mãos, sem acreditar.

- É mesmo você?

Bakugou mordeu o canto do lábio, não sabia o que dizer. Desviou o olhar, muito constrangido.

- Se estiver ocupada eu volto outra hora, não quero incomodar.

Nem bem deu um passo ou se moveu e a mulher avançou em sua direção, os braços passando pelo corpo, trazendo-o para um abraço. Como era muito baixa seu queixo apoiava nos ombros dele e a mulher chorava, copiosamente. Subiu uma das mãos aos cabelos loiros desalinhados, afagando-os gentilmente.

Katsuki desabou com isso.

Tentou ficar parado, sem denunciar como sentiu falta do calor daquele abraço, ou de como o cheiro nunca saiu de sua mente. Piscou depressa, respirou fundo, mas lutar contra o engasgo era algo que não conseguia. Passou os braços ao redor do corpo dela e a abraçou apertado, escondendo o rosto no ombro tão mais baixo que o seu, envergonhado por chorar na frente dela, na frente de Eijirou.

Mas estava tão feliz como não pensou que estaria. A simples menção de não ser repudiado lhe significava muito.

Ao longo de todos aqueles anos de escuridão, cuja alma foi destroçando aos poucos, sempre achou que sua mãe o odiasse por tudo que havia dito na última vez que se viram, por toda a rebeldia e todo o trabalho que deu a ela.

Ficaram assim por algum tempo, sem se mover e deixando a dor da longa saudade sanar, ao menos um pouco. Mitsuki foi a primeira que se moveu, desfazendo o abraço, passando as mãos pelo rosto dele e o erguendo para fitá-lo. Ela chegou a lhe dar um tapa sem força na cabeça, o que para Bakugou era como um peteleco qualquer.

Havia um sorriso lindo por detrás da face úmida de tanto chorar.

- Você cresceu muito, seu tonto! Olha como está bonito! - ela lhe disse num tom alegre, usando os polegares para secar os olhos úmidos do rapaz que não se moveu, a culpa não permitia.

Percebendo isso ela volve o olhar para o rapaz de cabelos ruivos detrás de si.

- É amigo seu? - secava rapidamente o próprio rosto e foi cumprimentá-lo - Muito prazer e obrigada por vir até aqui. Entrem, por favor. Eu não sou lá muito boa na cozinha mas vou fazer alguma coisa para comer num instante.

O loiro abriu a boca para negar, mas Kirishima entrou na frente.

- Opa, eu nunca recuso comida! - disse alto e divertido e puxou Bakugou para entrar. Este lhe ofereceu um olhar muitíssimo irritado, todavia Kirishima esperou a mulher se afastar para então dizer baixo:

- Nunca se recusa comida de mãe. Mesmo que você já tenha comido ou esteja empanturrado, ela vai te fazer comer de novo e nada vai deixá-la mais feliz do que te ver apreciando essa comida!

Bakugou nem quis argumentar, não tinha energia sobrando. Se sentia exausto.

Sentaram no sofá da sala a pedido dela. Aquela casa inteira trazia lembranças demais. Reviu a si mesmo brincando ali, ou assistindo os noticiários e ver seus maiores ídolos em ação, coisa que o fez desejar se tornar um herói. Lembrou das brigas, dos sorrisos, de entrar correndo por aquela porta com os pés sujos de terra...

Apertou as mãos nos joelhos, nervoso, irritado, desnorteado. O corpo inteiro estava tão tenso que a rigidez dos músculos era dolorosa.

Novamente, o que o fez tornar ao pensamento coerente foi a mão que pousou na sua. Eijirou não olhou em seu rosto, nem disse coisa alguma porque respeitava os limites dele. Sabia bem o nível de estresse que estava atravessando.

O que Eijirou talvez não soubesse é que sua presença naquele lugar salvava mais uma vez a vida de Bakugou.

--

- Você parece bem, Katsuki.

Mitsuki servia uma porção generosa ao filho que reconheceu ali o seu prato favorito.

- Como anda seu trabalho como herói? Deve estar tão feliz por realizar seu sonho de infância!

Um gosto amargo subiu pela dele garganta.

-... Mais calmo do que deveria. As coisas não são tão agitadas como eram antes.

O sorriso dela pareceu diminuir um pouquinho.

- Não importa. Esse era o seu sonho. Me deixa muito feliz que tenha conseguido fazer o que mais queria.

Bakugou desviou o rosto, profundamente contrito com o que ouviu.

- E quanto ao velho? Ele não está em casa? - tentou mudar de assunto porque se sentia sufocado.

A expressão no rosto dela se tornou mórbida.

- Na verdade acho que você apareceu no momento perfeito, querido - pousou o garfo ao lado do prato, a fome desaparecendo - Seu pai precisa muito te ver.

--

Olhou pela janela de vidro da porta do hospital e seu coração se fez em pedaços.

No leito no interior daquele quarto estava seu pai, Masaru. Muito debilitado, muito magro e respirando com ajuda de aparelhos. Uma figura que em nada lembrava o homem que já foi um dia.

Sentou ao seu lado, olhando tristemente o estado tão letárgico em que ele se encontrava. Pôs a mão sobre a dele, sentindo a pele desidratada e fria.

-... Velho, sou eu - começou com um tom baixo - A mãe disse que queria me ver, e eu já devia ter feito isso há muito tempo.

O som contínuo do apito dos aparelhos era o único som da sala. Seu pai estava em estágio terminal, sentia dores, mas os dias se estendiam sem que ele encontrasse descanso.

Os olhos de Bakugou arderam ao entender o motivo.

- Eu sei que fiz um monte de bobagem, e que provavelmente só dei desgosto pra você e pra mãe. Vocês mereciam um filho melhor, não um estúpido que acha que pode fazer tudo sozinho… - nem se importou quando a primeira lágrima rolou pelo rosto, porque eram verdades que remoeu por muito tempo - Mas, sabe? Eu ia dar fim em mim mesmo, desistir de tudo. Só que tem um idiota ali fora que não deixou, que parece disposto a lutar por mim mesmo quando eu mesmo desisti. Por causa dele eu entendi que não dá pra fugir da culpa, mas dá pra conviver com ela.

Volveu os olhos foscos às pálpebras fechadas dele.

- Nunca teria chegado onde cheguei sem ajuda, e não posso fazer nada sozinho. Eu precisava das broncas que recebi quando teimava, quando gritava com vocês, quando os magoava achando que o mundo estava contra mim… Era um jeito de descontar a raiva que sentia de tudo e de todos. Eu senti que o mundo tava contra mim, que vocês não me entendiam e que o único modo de ser feliz era indo pra longe, recomeçar do zero não dependendo de outras pessoas.

Apertou a mão gelada contra a sua.

- Ninguém vai a lugar algum sozinho, pai - murmurou tristemente - E não teve um dia que eu entrasse naquela casa vazia e não desejasse ver você ou a mãe de novo, dizer como fui idiota, mesmo se vocês nunca me perdoassem por isso. De que adianta eu ser um herói para os outros se nem sei cuidar da minha própria família?

Ficou em silêncio, este quebrado somente pelo fungar e o suspiro resignado.

- Sei que é tarde pra caramba, mas é tudo o que posso fazer. Eu sinto de verdade por ter sido um filho tão complicado, pela dor que causei a vocês. Espero que possa me perdoar algum dia.

A mão que segurava a sua apertou muito de leve, os dedos se movendo devagar, mas Katsuki sentiu e isso acabou consigo. Envergou o corpo para frente e chorou a dor de anos infernais de remorso. Quando conseguiu se controlar, ao menos um pouco, decidiu tomar a decisão mais difícil de sua vida toda.

- Me desculpe te fazer esperar esse tempo todo pra me ver, pai. Nada é culpa sua e vou dar o meu melhor para ser a pessoa que esperava de mim. Já pode parar de sofrer agora. Eu te amo e te deixo ir. Você precisa descansar.

Mal conseguiu terminar a frase, os olhos postos em um ponto qualquer, a mão apertando a de seu pai firmemente.

Percebeu então os apitos ficarem cada vez mais fracos, a mão que segurava a sua afrouxando aos poucos. Mordeu bem forte e esperou até que o som se tornasse um único apito contínuo.

Seu pai esperava só uma visita, apenas ouvi-lo de novo. Só isso o fez lutar contra a dor, insistir e se manter vivo para poder se despedir do filho. Uma vez que conseguiu o que tanto queria, não havia mais razão para se manter ali.

Bakugou ainda levou algum tempo para se recompor. Soltou a mão imóvel, colocando-a de volta no leito. Sem olhar para trás seguiu pela porta do quarto, andando pelo corredor como se não enxergasse nada. Viu de relance quando sua mãe correu para o quarto, provavelmente adivinhando o que havia acontecido. Ignorou os enfermeiros que lhe fizeram perguntas, somente continuou o trajeto até a sala de espera, vazia por conta do horário.

Eijirou estava sentado ali, tenso. Ao vê-lo se aproximar se levantou de pronto, perguntando várias coisas, querendo saber se estava bem. O que ele não esperava é que Bakugou o abraçaria, sem dizer absolutamente nada.

Abraçou-o de volta, respeitando o silêncio. Apertou o corpo forte contra o seu, fechando os olhos duramente. A mão passou pela cabeça loira, trazendo-a para descansar em seu ombro. Apertou-o a ponto de fechar os olhos, de se converter no tipo de porto seguro que ele precisava.

- Estou orgulhoso de você, Bakugou. De verdade.

O outro não respondeu, e nem conseguia.

--

O tempo não cura feridas, não conserta os erros, mas ajuda a aceitar as escolhas que foram feitas com a base de discernimento que uma pessoa tinha na época. Se perdoar e se permitir seguir em frente é crucial.

Bakugou pensava nisso sempre que se perdia nos olhos de Ejiirou. Naquele instante em questão o observava ajudar a montar as mesas dispostas no jardim, parecendo muito empolgado. Fazia calor, mas ele não parecia se importar em vestir terno. E tinha que admitir que ficava muito bonito nele.

O loiro volveu o olhar à sua mãe, satisfeito que o relacionamento com ela voltou ao normal, que podiam se ver e conversar outra vez. Se aproximou dela, resmungando porque o nó apertado daquela maldita gravata era um martírio! Teve vontade de xingar e praguejar em alto e bom som. Todavia, se controlou ao máximo.

- Mãe, pra que esse tanto de comida? - deu um olhar de reprovação ao banquete disposto sobre a mesa, capaz de alimentar dez vezes mais pessoas que o número real de convidados. Ela o olhou de volta, indignada.

- Você ainda me pergunta??? MEU FILHO VAI SE CASAR HOJE! Seus amigos já devem estar chegando e temos que servir um monte de comida!

Ele ainda resmungou que era pouca gente, mas não ousou interromper. Ao lado dela, um Kirishima extremamente empolgado provava um dos docinhos. Este ao ver o noivo parado ali se esgueirou até ele, dando palmadinhas em seu ombro. Quando ele se virou deu um beijo rápido e estalado nos lábios.

- Ansioso? O cerimonialista chega daqui a pouco, ainda dá tempo de desistir.

- É mais fácil você correr de mim - riu resignado, puxando o corpo dele para perto, para lhe aplicar um beijo calmo nos lábios.

Kirishima pareceu feliz e constrangido ao mesmo tempo.

- Impossível desistir de você, cara. Vou correndo atrás porque sou muito chato.

Como resposta, Katsuki soltou um riso pelo nariz.

- Se ainda estou aqui é justamente por ficar correndo atrás de mim, idiota - bagunçou os cabelos ruivos e lhe deu um olhar afetuoso, coisa que nem pensou que conseguia fazer de fato. Olhar o rosto de Kirishima sempre o deixava calmo, grato por estar vivo, por ter sido salvo por ele e ter a chance de recomeçar - Obrigado, Eijirou.

Os olhos do rapaz de cabelos rubros brilharam em resposta.

- Eu também te amo, Baku-chan! - irritou-o e o abraçou, mesmo que Bakugou retrucasse e tentasse se soltar.

Não demorou e os poucos convidados encheram o quintal da casa de Mitsuki. Antigos colegas da época da UA como Uraraka e Iida, que mantinham uma relação há algum tempo. Amigos que não via há eras, tal como Tsuyu, Kaminari, Tokoyami, Ashido, Ojiro ou Yaoyorozu também estavam ali. Aceitaram de bom grado o convite. Bakugou nem ficou surpreso quando viu Izuku chegar, o rosto vermelho por ter corrido para não se atrasar. Atrás dele, Todoroki vinha preocupado, usando a mão direita para criar uma névoa gelada e esfriar o rosto dele. O jeito como se olhavam não deixava dúvidas.

Então eram mesmo um casal? Sempre desconfiou. Depois da luta em que Todoroki evitava a todo custo usar seus poderes de fogo isso ficou mais do que claro. Ele havia se apaixonado por Izuku naquele dia.

Ainda olhava de longe quando pareceu despertar ao ter sua mão apertada. Virou para encarar Kirishima que tinha um grande sorriso satisfeito nos lábios. O idiota ficava lindo em um terno, tinha que admitir. Embora o próprio Katsuki odiasse mais do que tudo estar vestido em um. Viram os convidados se acomodar e o cerimonialista chegar.

- Pronto?

- É você que não está, imbecil - Katsuki deu-lhe um sorriso terno em resposta, coisa que usualmente não faria. Entrelaçou os dedos nos dele e se pôs a caminhar para o jardim, pelo caminho que o levava ao altar.

E pensar que no dia em que achou que havia perdido tudo, no exato instante em que ia desistir, Eijirou ressurgiu em sua vida.

Desde aquele momento, e esperava que pelo tempo que ainda tivessem juntos, ele se tornou uma das razões pelo qual Bakugou queria se levantar todas as manhãs.

Feb. 27, 2018, 7:56 p.m. 2 Report Embed 4
The End

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Yue Chan Yue Chan
Ainda não li, mas resolvi vir aqui surtar antes porque é o que está acontecendo agora! Eu estou urrando, gritando e enlouquecendo por causa de uma fic e uma autora maravilhosa que admiro para caralho! Eu quase chorei lendo a sinopse, e surtei quando vi quem era a autora. Apenas me aguarde com meus berros, porque assim que meu baby dormir de noite, essa vai ser a fic dos meus olhos!
Oct. 27, 2018, 6:12 a.m.
MP Mariana Pereira
Maravilhoosaaa!!!! * ----- *
Oct. 22, 2018, 10:36 p.m.
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