Cidade de Gelo Follow story

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Otabek sempre preferiu a simplicidade da rotina. Depois de sofrer perdas dolorosas, estava conformado em passar algum tempo em Hasetsu, trancar seus sentimentos e colocar seus pensamentos no lugar. Mas não esperava encontrar Yuri Plisetsky. O tigre de gelo russo era intenso até o último fio de cabelo loiro. Impulsivo, desbocado, grosseiro demais para um rapaz de apenas dezenove anos. Não tinham nada em comum, além do desejo de recomeçar. Mas algumas vezes, para seguir em frente, é preciso abrir o coração e se permitir resolver as questões do passado.


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#Yaoi #Lemon #YOI #YuriOnIce #Otabek/Yurio
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Dentro de fora do gelo

Deixar o Cazaquistão não estava nos planos de Otabek.

Na verdade, os últimos anos vinham sendo uma tempestade imparável de coisas saindo dos eixos e, mesmo assim, Otabek não sabia se um dia iria se acostumar a essas mudanças. Afinal, esse era o princípio, certo? Que você nunca se acostumasse e se desse por satisfeito com uma realidade imutável.

O jovem cazaque estava muito bem tentando levar a vida, um dia após o outro, mas a senhora Hiroki sabia muito bem como convencê-lo a dar outro passo no escuro.

“Eu estou velha, morrendo. Não posso acreditar que meu único neto, tudo que me resta de família, está se negando a passar comigo meus últimos dias”.

Ele sabia que ela não estava mentindo, exatamente, embora aquele teatro fosse um exagero. Dona Hiroki havia adoecido e sua idade avançada requeria cuidados, mas ela morava sozinha em Hasetsu desde… Bem, desde sempre.

Mesmo que toda a família de seu pai tivesse suas raízes do Cazaquistão, sua avó materna era japonesa. Não se lembrava de tê-la visitado mais do que algumas poucas vezes durantes alguns verões e, certamente, não pensava que algum dia moraria lá. No entanto, lá estava ele, na sala da casa da avó, separando os remédios que ela deveria tomar aquele dia no horário certo.

— Todos esses comprimidos vão me matar – ela resmungou.

— Mas a senhora precisa. Não pode ficar sem eles.

Era aquele mesmo discurso quase todos os dias, mas, naquele dia especificamente, ele estava um pouco mais preocupado que o normal. Tinha finalmente conseguido um bico, talvez temporário como DJ. Havia conversado apenas por telefone com o proprietário do lugar e trocaram alguns e-mails com informações relevantes e um portfólio com o trabalho de Otabek, que foi o que rendeu aquela tentativa.

— Eu vou sair daqui a pouco – Otabek disse – São quase 22h. Devo estar em casa apenas pela manhã. Deixei tudo separado sobre a mesa da cozinha. Se precisar de qualquer coisa me ligue.

— Eu já entendi, menino. Pode ir.

Mesmo dizendo isso, dona Hiroki puxou o rosto do neto para lhe dar um beijo antes de sair. Otabek não era muito de demonstrar emoções já havia alguns anos. Não era uma escolha, apenas aconteceu. Foram perdas demais em pouco tempo e sua maneira de lidar com isso não foi a melhor, mas foi o que manteve são até aquele momento. Mesmo assim, isso não o impediu de dirigir um curto sorriso a avó antes de pegar as chaves da caminhonete do finado avô, o equipamento que precisaria e sair de casa em direção ao endereço que lhe mandaram por e-mail.

Assim que pôs os pés fora de casa, apertou o casaco contra si. Tentava ignorar o frio que fazia naquele mês de Janeiro, mas era difícil. Não que sua terra natal tivesse um inverno muito melhor, mas, ainda assim…

Entrou rapidamente no carro, colocando o equipamento no banco do passageiro e rumou até o local. Hasetsu não era grande, por isso depois de passar por algumas curtas avenidas, seguiu por uma ponte comprida e vazia aquele horário. Bem, vazia até chegar perto de seu destino.

O lugar parecia um clube de dois andares. Havia muitos carros na frente do lugar e Otabek começou a se preocupar de, na verdade, estar atrasado para o trabalho. Parecia já haver muita gente. Ainda assim, entrou no local, ficando realmente surpreso com o que encontrou. Quando o empregador lhe contou que era como clube com um rinque de patinação, Otabek ficou confuso, tentando entender como isso podia funcionar, mas olhando em volta, ele percebia como aquilo podia dar totalmente certo.

O lugar era muito espaçoso, e o rinque ficava bem no centro. Haviam algumas pessoas ali se divertindo, rindo, patinando com certa delicadeza. A iluminação com cores frias deixava o lugar espetacular. Haviam alguns assentos em volta do lugar. Otabek ergueu os olhos, vendo que o segundo andar era tomado por camarotes de dois lados. De frente a ele, pôde ver que lá em cima tinha um bar, com menos iluminação.

Ajeitou os equipamentos que carregava no ombro e deu mais alguns passos para dentro, querendo achar o proprietário do lugar. Pegou o celular, para avisar que tinha chegado, mas foi interrompido por uma voz agitada vindo em sua direção.

— Você é Otabek Altin? - ergueu os olhos do celular, encarando o dono da voz.

Um homem de cabelos platinados o encarou sorridente e Otabek confirmou com a cabeça.

— Sim. O senhor é…

— Sou o Victor. Fui eu que troquei e-mails com você. Venha cá, preciso mostrar para o Yuuri que você existe mesmo. Acredita que ele estava com medo de você nos deixar na mão hoje?

Otabek não disse nada, apenas seguiu Victor enquanto ele continuava a tagarelar.

— Eu disse que ficaria tudo bem e que milhares de pessoas são contratadas pela internet, mas ele veio com um papo de entrevista e de ver sua cara antes do dia. Esse homem é muito desconfiado. Não sei o que fazer com ele.

Não havia como discordar do tal Yuuri, porque o próprio Otabek estranhou a falta de contato antes do dia, mas aquilo não parecia incomodar o homem em nada. Seguiu por um lance de escadas até o segundo andar. Aquela parte ficava bem sobre a entrada, e era onde ficavam os equipamentos de som.

— Nosso último DJ nos abandonou, estou feliz por termos encontrado você – Victor deu um sorriso sincero e depois olhou para além do Cazaque – Yuuri – acenou energicamente – Venha aqui conhecer o rapaz que contratei.

Otabek virou-se um pouco, dando de cara com um rapaz de cabelos escuros e óculos de armação azul sobre os olhos puxados. Ele usava um casaco grande e calças escuras e deu um sorriso simples para Altin.

— É um prazer. Espero que goste do ambiente.

— Viu, eu disse que ele não ia nos passar a perna – Victor chegou perto do rapaz japonês.

— Victor! - ralhou Yuuri, sem conseguir conter as bochechas coradas.

— Não se preocupe, senhor… - Otabek começou a falar, na intenção de que Yuuri dissesse o sobrenome.

— Ah, é Katsuki, mas pode me chamar só de Yuuri mesmo.

— Certo. Esse lugar é muito bonito.

— É mesmo, não é? - Victor olhou em volta orgulhoso – É o segundo bem mais precioso que eu tenho.

Otabek até perguntaria qual era o primeiro se tivesse coragem de se meter assim na vida de alguém, mas não foi preciso questionar. O olhar de Victor sobre Yuuri já respondia a pergunta. O mais novo baixou um pouco a cabeça e olhou para a mesa de som, deixando a bolsa ao lado dela.

— Tome seu tempo para se preparar, as coisas começam a esquentar às onze. É seu horário para começar.

— Certo.

— Bom trabalho – Victor apertou o ombro de Otabek e passou um dos braços pelos ombros de Yuuri se afastando.

Respirou fundo, tomando fôlego para começar o trabalho. Não podia fazer feio logo na primeira noite.

Havia passado de uma da manhã, quando a atmosfera começou a mudar pela segunda vez naquela noite. A primeira foi pouco antes das onze, quando foram deixando o rinque de patinação e as pessoas mais novas, talvez em encontros, foram substituídas por mais adultos. O bar encheu rapidamente e os camarotes também, assim como na parte de baixo, novas pessoas começavam a surgir. Até a iluminação parecia mais “madura” naquele momento.

Otabek já tinha entendido que o lugar sofria uma metamorfose depois de certo horário, mas aquilo estava acontecendo outra vez. Os burburinhos começaram a encher o lugar, as pessoas nos assentos do segundo andar começavam a prestar atenção na movimentação lá embaixo, alguém ia passando entre os clientes, anotando coisas que não pareciam pedidos de bebidas.

Victor despertou Altin de sua observação tocando-lhe o ombro.

— Você está indo muito bem. Aqui – estendeu uma lista para Otabek – As apresentações vão começar em vinte minutos, essa é a lista de músicas. Se você não as tiver, eu tenho um pen drive com elas.

O mais novo olhou a lista, negando com a cabeça.

— Não se preocupe. Eu tenho, sim.

— Ótimo. Considere um descanso. Só precisa colocar e trocá-las na ordem. Eu preciso ir, qualquer dúvida, pode me ligar. Estou com meu celular.

— Tudo bem.

Victor saiu de lá e Otabek começou a preparar as tais músicas. Ficou atento às palavras “apresentações” e “patinadores”. Então eles faziam isso ali também? Era por isso a mudança no ambiente outra vez?

Isso explicaria a atenção que começaram a dar para o andar inferior. Os minutos se passaram rapidamente, até que uma voz feminina se fez ouvir ao lado de Otabek.

— Você está arrasando, hein? - a moça disse – Prazer, eu sou Yuko – ela estendeu a mão, sorrindo.

— Prazer. Sou Otabek – correspondeu ao cumprimento.

— Victor sempre acerta – ela deu uma risadinha – Vou precisar do microfone.

— Ah, fique à vontade.

Yuko se colocou mais à frente, dando uma boa olhada lá pra baixo. O rapaz a viu dar um aceno para alguém lá embaixo e sorrir. Alguns minutos mais se passaram até que outra pessoa chegasse. Dessa vez um homem.

— Eles vão começar. Prepare-se.

— Eu estou louca pra ver o Yuuri e o Yurio. Eles sempre vem com alguma coisa nova. Ainda mais depois que o Victor começou a incentivá-los.

— Você sempre está ansiosa.

— Deixa de ser chato, Takeshi.

Otabek ouvia sem prestar atenção de verdade. Preparou a primeira música, já sabendo que estava prestes a começar e fez uma pequena transição, deixando um fundo baixo enquanto Yuko começava a falar.

— Boa noite. Parece que chegamos a hora mais esperada, não é? Espero que tenham feitos boas jogadas essa noite. O primeiro a se apresentar é nosso anfitrião favorito, desculpe Victor – se ouviram risadas entre todos no lugar, antes de Yuko voltar a falar – Yuuri Katsuki.

Yuuri entrou no rinque de patinação. Agora com uma roupa adequada, os cabelos penteados para trás e sem os óculos. Quando ele chegou ao centro, preparando sua posição inicial, Otabek soltou a música.

Era bonito, ele tinha que dizer. Os movimentos eram leves, precisos e Yuuri dançava como se seu corpo fizesse parte da música. Otabek nunca tinha dado muita atenção para patinação, mas era admirável, tinha que admitir. A música acabou, assim como a performance e os aplausos encheram o lugar. Victor recebeu o japonês na entrada do rinque com um selinho e um sorriso radiante.

Um após o outro, os patinadores foram se apresentando. Não eram tantos assim. O último, no entanto, fez Yuko soltar um suspiro longo e dar um pulinho ansioso ao lado de Otabek.

— Agora é a vez do Yurio.

Logo depois de dizer pra si mesma, pegou o microfone.

— Como última apresentação dessa noite, temos o nosso tigre de gelo russo. O que será que ele tem preparado para essa noite? O rinque é seu, Yuri Plisetsky.

Talvez fosse a entonação que a mulher usava, a música que ele escolheu – mais forte do que a dos outros patinadores –, o silêncio que se fez enquanto o rapaz entrava no rinque… Otabek não sabia dizer, mas dessa vez, ele estava mesmo interessado na apresentação.

Olhou para o andar de baixo com interesse, analisando a figura que deslizava pelo gelo. Usava roupas escuras e uma jaqueta. Os cabelos loiros muito claros estavam soltos, caindo na altura dos ombros. Otabek viu-se encarando o rapaz sem conseguir desviar o olhar, mesmo depois que ele parou no meio do rinque. De repente, o loiro o encarou lá de baixo. Mesmo longe, Otabek notava certa irritação.

Ah, é… Ele tinha que soltar a música.

Fez o que tinha que fazer e voltou seu olhar novamente para o gelo, onde Yuri continuava deslizando. Cada movimento dele era tão certeiro, que parecia atingir Otabek bem em seu interior. Mesmo longe, ele podia notar aquele olhar. Era firme, maciço, como se ele inteiro fosse feito para aguentar o peso do mundo. Era o olhar de um soldado. Seus saltos, giros, absolutamente tudo… Cada parte daquela dança era forte e expressiva. Era como um grito.

Como se ele estivesse queimando sobre o gelo.

Otabek não conseguia desviar o olhar. Quando acabou, ele ainda ficou parado algum tempo, sem conseguir se mexer. Viu o garoto deixar o rinque, sendo recepcionado por Victor também, que o abraçou carinhosamente enquanto o menor tentava se desvencilhar do platinado.

Otabek continuou a tocar. Os resultados da aposta haviam saído, e Yuri havia vencido. Alguns silvos foram ouvidos, assim como risadas ou reclamações. Eram apostas. Eles apostavam em quem venceria as competições. O resto daquela noite pareceu um borrão para o Altin, que não conseguia realmente se concentrar no que estava fazendo. Sorte a sua que o costume o fazia seguir com o trabalho sem problemas.

Estava ainda preso em todos os gestos, movimentos e expressões do Plisetsky, incapaz de esquecer aquela intensidade. Nunca, em todos os seus vinte e um anos, havia presenciado algo assim.

Quando era próximo das cinco da manhã, Victor surgiu novamente, liberando Otabek. Foi uma longa noite e ele estava contente, apesar de a mente ainda estar perdida em devaneios. O platinado lhe deu o pagamento da noite e lhe sorriu.

— Espero você no próximo sábado.

Aquilo animou Otabek. Era bom que tivesse algo certo, ainda que fosse apenas uma vez na semana. Arrumou suas coisas, colocando o pagamento na mochila e saindo de lá silenciosamente. A maioria já tinha ido embora e só restavam algumas poucas pessoas por lá. Ainda recebeu um aceno de Yuko, que retribuiu simpaticamente, antes de sair do lugar.

Colocou a mochila no banco do passageiro e estava prestes a entrar na caminhonete quando viu quem estava por perto. Os cotovelos apoiados na proteção da ponte, encarando o vazio do horizonte, a pose um tanto agressiva, o casaco grosso sobre o corpo magro, os cabelos loiros ainda soltos…

Otabek remexeu as chaves entre os dedos, sentindo uma estanha inquietação enquanto reconhecia e observava o rapaz.

— Ahn… - tentou chamar a atenção do loiro pra si – Oi.

Yuri virou-se um pouco, medindo o outro de cima a baixo. Os olhos… Eram verdes. Otabek engoliu antes de voltar a falar.

— Eu sou o novo DJ – começou – Vi sua apresentação. Foi…

— Então foi você que atrasou minha apresentação em quase dois minutos porque esqueceu de soltar logo a música?

Plisetsky se virou um pouco mais, encarando Altin de forma nada amigável. Depois dessa, o moreno nem sabia o que dizer.

— Desculpe – limitou-se a responder – Eu acabei me distraindo.

Yuri soltou um muxoxo.

— Sei. Eu não sei onde o Victor está com a cabeça quando contrata os outros sem conhecer – resmungou.

Não foi alto, mas não estava fazendo questão de não ser ouvido. A ideia de Otabek de oferecer uma carona se foi pelo ralo. Estava envergonhado, mas também um pouco irritado. Tudo bem, tinha perdido alguns preciosos minutos observando o garoto, mas ele, ainda assim, tinha ganhado, certo?

— Pelo menos você ganhou, mesmo assim – Otabek tentou dizer – Foi uma bela apresentação.

— É claro que foi. Mas isso não foi graças a você, né?

Ok, aquilo já estava o deixando realmente chateado.

— Ia oferecer carona – Altin disse, já virando-se – Mas não acho que seu ego vá caber na caminhonete.

Yuri se virou, arregalando os olhos verdes, vendo o outro de costas. Não tinha uma resposta, então apenas soltou um palavrão, que foi ignorado enquanto o moreno entrava no veículo e dava partida.

Foi decepcionante saber que a pessoa no rinque era tão diferente daquele moleque desbocado que havia encontrado. Enquanto dirigia para casa, Otabek só conseguia pensar em como alguém tão gracioso podia ser tão ranzinza e grosseiro. Mas, embora fizesse uma lista enorme com as diferenças de personalidades entre o rapaz dentro e fora do gelo, a única semelhança que encontrou era a que martelava em sua mente repetidamente.

Era o mesmo olhar. Aquele olhar de soldado.

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Bem, é isso aí.
Não temos amizade ainda, porque nada nessa vida é fácil, né.
Espero que tenham gostado. um beijo no kokoro de vocês e até a próxima.

Feb. 26, 2018, 11:48 p.m. 0 Report Embed 1
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