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Dez

Era cedo. Amarílis sempre se levantava antes do sol, porque gostava de vê-lo subir pouco a pouco e começar a iluminar o topo das árvores na floresta. Gostava, também, de ver a noite e seus perigos indo embora, desaparecendo devagar, sumindo sob o conforto tranquilo que o início da manhã trazia, e a produtividade que ela encontrava em si mesma.


Ela se surpreendia que conseguisse ser produtiva, ainda, ou encontrar motivos para continuar vivendo. Talvez porque tivesse, dentro de si, a certeza de que sua alma não era mais imortal. Talvez porque tivesse medo de desaparecer do mundo sem deixar rastros, sem a chance de nascer novamente, sem a chance de reencontrar as pessoas de que sentia saudades numa outra vida.


Talvez porque no fundo, lá no fundo, tivesse a curiosidade herege de descobrir um pouco mais sobre si, de explorar o mundo do Oculto, de conhecer a magia que agora habitava dentro de si e corria por suas veias. Mas como acontecia sempre que ela pensava sobre esse assunto, sempre que chegava perto de uma epifania, sempre que sua mente tentava se libertar um pouquinho que fosse dos conceitos que ela trazia de sua infância, Amarílis empurrou os pensamentos para o fundo da mente, onde guardava os pensamentos desconfortáveis, e pôs-se a murmurar uma canção.

   

Pra quem quer que ouvisse, soaria antiga, mas para ela tinha gosto de infância.

   

Ela cantou enquanto cortava as frutas frescas que seriam seu café da manhã, enquanto checava o telhado de sua cabana de madeira, enquanto colocava fios coloridos em seu tear e até mais tarde, quando o sol estava a pino, quando catava ervas medicinais em arbustos selvagens.


Ainda cantava quando passou pela trilha usada pelos caçadores na alta temporada, e só parou de cantar quando ouviu um som que não estava acostumada a ouvir por ali — um choro humano.


Era um som que não escutava fazia muito tempo, mas era inconfundível ainda assim. Trazia-lhe memórias de um tempo em que vivia em uma vila, ao lado de outras pessoas, no meio de vozes femininas a fofocar, barulho de homens a trabalhar e riso e choro de crianças. Amarílis balançou a cabeça, escondendo a memória em algum lugar que não visitava de sua mente, e tentou seguir em frente.


Quem quer que fosse essa criança humana — e a palavra em sua mente soou amarga, o que a fez franzir os lábios quase instintivamente — não lhe importava. Humanos já não eram mais da sua conta. Humanos não ligavam para seres como ela. Human-


A criança, agora, gritava pela mãe. Amarílis podia ouvir o desespero dela, o medo. Quase podia imaginá-la, pequena, sozinha, com medo da própria sombra. Ainda se lembrava de como se sentira, quase noventa anos atrás, ao entrar na floresta sozinha pela primeira vez — e era adulta.


Uma criança, imaginava, se sentiria ainda mais assustada. Perdida.


Suspirou, segurando o cesto de ervas mais próximo do corpo, como se isso fosse fazer o choro abafar. Então, revirou os olhos diante da própria estupidez ao deixar o cesto para trás, no chão, e seguir em direção ao choro. Depois de tanto tempo sozinha por ali, conhecia os caminhos da floresta melhor do que conhecia a própria mente, e seria capaz de tirar a garota dali em pouquíssimo tempo.

  

Sem dúvida a experiência de se perder teria sido assustadora o suficiente para impedir que a garota se aventurasse novamente na floresta, e a história a ser contada impediria que outras crianças resolvessem que valia a pena explorar ali também. De todo, tinha certeza de que podia tirar uma experiência positiva daquela situação aborrecida.


E, além de tudo isso, fazia muito tempo que não via um humano — que não um ou outro caçador de longe, andando pela trilha na temporada de caça. Seria interessante descobrir se eles ainda eram iguais.




Vilas eram diferentes do que ela se lembrava, ou talvez tivessem mudado com o tempo. A garotinha, que segurava sua mão com força desde que fora salva de ser atacada por um coelho (e daí via-se que não estava acostumada com animais, visto que coelhos não eram perigosos), ao ver as figuras das casas de tijolos crescendo e a quantidade de árvores diminuindo até quase desaparecer, soltou um sorriso e um suspiro aliviado.


Amarílis, por outro lado, ficou mais tensa. Depois de tanto tempo, acostumara-se a pensar na floresta como um refúgio, e na vila como um lugar perigoso. Seria considerada herege, ali, nojenta, perigosa. A garotinha, também, que há pouco tempo segurara sua mão como se não a fosse soltar nunca, se soubesse quem era de verdade, provavelmente teria medo.


Provavelmente sairia correndo para avisar os caçadores da vila que havia uma aberração por perto.


Em vez disso, lá estava, ignorante de quem ela era e do que podia fazer.


— Obrigada, minha Senhora. — A garotinha disse, logo assim que chegaram no que podia ser considerada a borda da floresta. Já não havia muitas árvores, musgo ou animais fazendo barulho. Em vez disso, uma estrada de terra se abria para campos de plantação. — Mamãe me havia dito que a Deusa protegia as crianças dos seres malvados. Agora eu sei que é verdade.


— O quê? — Amarílis piscou, incrédula.


— A Senhora é diferente do que eu imaginava. Mais baixa. — E a garota pareceu séria por um instante. — Oh!, não quis ofendê-La. Ainda é muito bonita.


Um sorriso brincou nos lábios de Amarílis, e um sentimento diferente subiu em seu peito. Ela não o reconheceu de primeira, não o sentia fazia muito tempo. Tempo demais.


— A beleza não é a minha característica mais importante — respondeu, quase por instinto. E, depois de pensar um pouco, acrescentou. — Não sou sua deusa.


Foi a vez de a garotinha piscar, incrédula.


— A Senhora usa magia. E me salvou. Mamãe me disse que o único ser do mundo que usa magia e salva pessoas é a Deusa. Todos os outros são malvados e cruéis, e gostam de fazer as pessoas sofrerem.


Amarílis mordeu o lábio, pensativa.


Gostara da maneira como a garota a olhara, com adoração. Gostara do brilho em seu olhar ao encará-la e agradecê-la. Não conseguiu se fazer dizer para a menina novamente que não era sua deusa, de convencê-la, e sequer se deixou pensar que estava sendo herege ao fazê-lo. Era herege há tanto tempo, lidava com sua heresia há noventa anos. Se a deusa existisse — e às vezes ela duvidava da existência desse ser etéreo e eterno e criativo e justo — que a punisse ali e agora por aquela escolha.


Se não, que a deixasse se sentir bem com aquela adoração infantil.




A garotinha voltou para a floresta, sozinha, no dia seguinte, levando consigo uma cesta de frutas frescas como oferenda. Sua mãe tentara impedi-la, mas a garotinha, irredutível, dissera que sua Deusa estaria consigo, e que nada poderia feri-la. A Deusa a salvara no dia anterior e a salvaria novamente se fosse necessário.


Não podia saber o quão certa estava, ou as consequências que aquilo teria para o mundo. Mas isso é uma outra história, que não cabe aqui.

Feb. 28, 2018, 3:46 a.m. 0 Report Embed 1
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