Foi Único (2014) Follow story

alicealamo Alice Alamo

De todas as lembranças que tenho sobre Near, a que mais me invade é a do momento em que o conheci. E é isso, e somente isso, que vou contar aqui.


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#Yaoi #Near #Mello #Mello/Near #DeathNote
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Capítulo Único


De todas as lembranças que tenho sobre Near, a que mais me invade é a do momento em que o conheci. E é isso, e somente isso, que vou contar aqui.

Eu sabia que ele não era boa coisa. Não podia ser. Mas uma criança de pouco mais de seis anos ainda não conseguia negar-se a ajudar e a cuidar de alguém machucado ou que aparentasse ser tão frágil.

Se eu fosse fazer uma análise de mim mesmo naquela época, diria que fui ingênuo como toda criança, motivado pela curiosidade e pelo instinto protetor que os órfãos rapidamente desenvolvem. Sim, é lógico pensar que por não termos recebido o cuidado de nossos verdadeiros pais, começássemos a odiá-los, a ter raiva, a jurar não sermos iguais a eles. Portanto, desenvolvemos um forte sentimento de preocupação com tudo e com todos.

Infelizmente, quando se é criança, é assim que as coisas funcionam.

Quando Roger entrou pelo largo portão da Wammy's House (que na época parecia ainda maior do que de fato é), eu corri para frente do orfanato. Eu não me controlava de curiosidade, de ansiedade.

Mais cedo, quando Roger me convocou a sua sala para que pudesse me dar mais uma bronca, o telefone tocou. Provavelmente era Watari, porém dessa parte não me recordo com clareza.

Suas feições deixaram de ser rígidas, amoleciam e, com um suspiro profundo, os olhos dele se encheram de pesar.

– Uma fatalidade.

Foi assim que Roger definiu o que havia acontecido, seja lá o que fosse. Após isso, com a voz branda e já esquecido da bronca que eu deveria ouvir, ele se levantou, pousou a mão sobre minha cabeça e simplesmente sugeriu que eu fosse fazer companhia a Matt.

– Onde o senhor vai?

Eu não consegui me segurar! Roger apenas pegou na minha mão e me levou para fora do escritório, trancando-o.

– Vou buscar uma criança, Mello.

O meu sorriso morreu. Eu abaixei a cabeça,lembro que, naquela hora, todos os meus traumas, as lembranças de meus pais, tudo voltou com força. Mais uma vez, a mão de Roger pousou nos meus cabelos, e ele repetiu para eu ir brincar com Matt.

Eu esperei ansiosamente, observando pela janela a rua, esperando ver o carro de Roger cruzá-la. E então, ele chegou.

Roger passou por aquele portão segurando a mão de uma criança franzina. Menor do que eu, talvez fosse mais novo, pensei. As roupas, naquela época, não eram brancas como ele costuma vestir agora... As roupas eram azuis, ressaltando a pele pálida e os cabelos descoloridos.

Perguntas idiotas (será que ele pinta o cabelo; Será que ele é albino; será que ele é um mutante) passaram pela minha mente. Mas logo se afastaram quando vi as faixas rodeando sua cabela, o braço engessado, os olhos negros totalmente sem vida.

Me assustei, cheguei a dar um passo para trás. Ele parecia um boneco quebrado, e, aquela imagem, tinha conseguido me chocar, me paralisar. Ele olhou para mim, eu caí naquela escuridão, sendo puxado pelo seu desespero e pela sua dor.

Meus pés não se mexiam como eu queria, minha mente não funcionava diante daquela tristeza tão comovente. E... E então... E então eu me vi nele. Eu me enxerguei naquele frágil corpo, naquela alma destruída que adentrava o orfanato. Lembrei-me de como foi, lembrei-me de meus primeiros passos naquela instituição.

Foram essas lembranças que me fizeram me aproximar trêmulo. Roger pediu que eu o apresentasse o orfanato enquanto ia levar as malas de Near. Nós não nos mexemos. Ele de cabeça baixa e perdido, eu não menos perdido mas com medo.

Eu toquei a faixa em sua cabeça sob seu olhar melancólico, ele nem ao menos se mexeu. Vi meu reflexo em seus olhos, e ficamos assim. Em silêncio, contemplando um ao outro à medida que observava seus olhos ficarem úmidos, e ele notava a minha comoção.

Não liguei para o braço quebrado, para os machucados. Nunca fui delicado ou sútil, principalmente naquela época. Eu o abracei, forte, como se dependesse daquilo! Até hoje não sei se era ele ou eu que tinha essa dependência.

Near retribuiu, eu senti a mão agarrar com a força que minha a barra da minha blusa, os soluços (embora contidos) já se tornarem presentes.

Eu havia visto nele a mim mesmo, quis ser, mesmo que por um breve momento, um pilar, uma base que o sustentasse naquela hora, algo que eu não tive quando passei pela mesma coisa.

Eu inspirei profundamente aquele cheiro doce de melancolia, bagunçando sem querer seus cabelos com as mãos desajeitadas, tentando imitar o gesto de Rorger mais cedo.

Não era, mas eu me sentia um adulto ali! Senti-me na responsabilidade de acolhê-lo, de retê-lo naquele abraço e dizer que estava tudo bem, que ficaria tudo bem. Talvez fosse por já ter passado pela experiência, talvez fosse pela aparência franzina dele, talvez apenas fosse para ser assim.

Eu o levei até seu quarto, não deixando de segurar sua mão em nenhum momento.

A porta foi aberta. E aí começa o segundo choque. O quarto é algo muito íntimo, muito pessoal que retém lembranças, alegrias, parte de seu dono. Os olhos de Near voltaram a tremer quando contemplaram aquele cômodo praticamente vazio, eu via nele a necessidade que tinha em tentar achar algo familiar ou parecido.

Assim que anoiteceu, eu peguei um travesseiro, atravessando o orfanato sem ser notado, entrando de repente no quarto de Near. Ele estava deitado de bruços, coberto por um lenços, os olhos vermelhos denunciavam o recém choro. Eu sorria, como sempre naquela época, entrei rapidamente, subindo na cama e o empurrando para o lado.

Near sorriu. Foi a primeira vez que o vi sorrir verdadeiramente.

Eu tirei do meu bolso uma barra de chocolate, não acredito que a ofereci a ele... Que desperdício. Near me olhou confuso, mas aceitou. Eu voltei atrás, partindo-a no meio e ignorando o olhar incrédulo dele antes da risada que se seguiu. Naquela noite, conversamos sobre sonhos, inventamos histórias, contamos as manchas do teto, dividimos um chocolate. Aos poucos, o sono foi dominando-o e eu me permiti observá-lo por alguns poucos minutos antes de me render também.

E foi isso. Só e somente.

Aquele foi o único dia em que o vi chorar, sorrir, rir, sonhar. Foi o único dia que ele me permitiu vê-lo e enxergá-lo. Depois, soube de L, soube da chance de ser o sucessor. E, do mesmo modo que eu almejei ser como L, ele almejou ser o sucessor que L queria. Não sei notam a diferença, porém ela é clara: eu queria ser L, a pessoa L; Near queria ser o detetive, queria o cargo. Ou assim penso eu.

De todas as minhas lembranças com Near, acho que essa foi a que mais me marcou, visto que toda hora me vem à mente. E eu sei o por que... É óbvio demais que chega a ser idiota. Foi único, mas foi tão único que eu queria repetir, por isso insistia em chamar sua atenção, eu queria protegê-lo, vê-lo sorrir, fazê-lo sonhar comigo.

Eu era e ainda sou muito ingênuo.

Feb. 25, 2018, 1:32 a.m. 0 Report Embed 3
The End

Meet the author

Alice Alamo 23 anos, escritora de tudo aquilo em que puder me arriscar <3

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