Meu bloco na rua Follow story

matildaleao Matilda Leão

— Sabe, Duda, aquela ressaquinha? Aquele ranço na boca e embrulho no estômago junto com uma angustiazinha chata no meio do peito que vêm logo depois que a gente se esbaldou: desceu até o chão, vibrou, gritou, ingeriu todas, trançou as pernas, expôs a raba e a alma, se roçou, trocou fluidos, se arrebentou, mas ainda não gozou tudo? Logo depois que a gente extrapolou, exagerou, mas sobrou um tanto ainda pra sambar, um buraco pra enfiar mais, um resto de dignidade ainda pra perder. Porque a gente simplesmente se recusa a acreditar que a euforia acabou, a gente jura miseravelmente que existe aquele tantinho de fogo pra botar pra foder um pouco mais.


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Meu bloco na rua

— Sabe, Duda, aquela ressaquinha? Aquele ranço na boca e embrulho no estômago junto com uma angustiazinha chata no meio do peito que vêm logo depois que a gente se esbaldou: desceu até o chão, vibrou, gritou, ingeriu todas, trançou as pernas, expôs a raba e a alma, se roçou, trocou fluidos, se arrebentou, mas ainda não gozou tudo? Logo depois que a gente extrapolou, exagerou, mas sobrou um tanto ainda pra sambar, um buraco pra enfiar mais, um resto de dignidade ainda pra perder. Porque a gente simplesmente se recusa a acreditar que a euforia acabou, a gente jura miseravelmente que existe aquele tantinho de fogo pra botar pra foder um pouco mais. Mas, ao mesmo tempo, a gente cansou? A gente enjoou, a gente empapuçou, a gente não aguenta mais, a gente quer distância. A gente sabe que abusou, que já foi além, que perdeu a linha, que quebrou o salto, mas não tá sabendo lidar com o fim da feira. É essa ressaca toda, meu amor. Mas o mais lascado é aquilo de ainda querer, mas não suportar mais. Sabe como? Ter tesão e repulsa junto? Saber que se te chamarem pra farra agora de novo você abana o rabo, mas vai arrastado? Do tipo da ressaca que só botando tudo pra fora. Só enfiando o dedo goela abaixo. Só dando um reset, invertendo a entrada com a saída, e se escondendo num quarto escuro por uma semana pra curar. Sabe, Duda?

— Sei bem...

— Eu tô sentindo tudo isso só porque eu insisti.

— Só porque insistiu...

— Porque insisti, me abri e nada aconteceu.

— E ainda continua sem tirar os olhos desse celular aí.

— Ainda.

— Bota uma Maria Bethânia e chora tudo, meu bem. Exorcisa isso logo. E esquece.

— Acho que não é pra tanto, né?

— “Toma um fósforo. Acende teu cigarro…”

“O beijo, amigo. É a véspera do escarro.” Ele completa, enquanto se estica para pegar um isqueiro da mão dela. — Mas nem beijo, flor. Antes fosse. A gente se esfregou de todos os jeitos possíveis nas sarrações dos infernos, mas dança tem hora que atiça e é só dança mesmo. Por isso nem Bethânia, nem Augusto dos Anjos serve.


Acendem um, e gastam um tempo pensativos. Ela se levanta de repente.


— Tá, então eu tenho outra coisa aqui pra você…


Usa sua sabedoria de mais de vinte quartas-feiras de cinza cambaleando juntos. Vai até a pilha de vinis, folheia, folheia, coça a poeira do nariz, folheia mais. Tira delicadamente o disco da capa, e coloca pra tocar na vitrolinha que um dia já foi da avó que sacolejou até os cem.


— Vem dançar comigo.


Ele a olha com ar de dúvida. Depois tira a máscara de gato, e revela um cachorrinho carente. Se abraçam conchegado, quase irmãos. Ele sente os seios dela chochos se amassarem em seu peito. E sua pica mole se espremer no ventre dela. Passo pra lá, passo pra cá. Flui um amor antigo.


— Por que a gente nunca?

— A gente já. Não se lembra?

— Mas a gente nem pensou, só deixou rolar, passou e nem viu.

— Ainda bem. Ia queimar nosso filme.

— Meu filme de viado e o seu de sapatão.

— Taí. Tô achando que essa é a grande cilada entre vocês dois. Vocês se colocam muito dentro desse quadradinho aí: viado e sapatão. No nosso tempo, a gente se agarrava a essa carteirinha porque era o que dava sentido a tudo o que a gente perdeu. Mas hoje? A gente já causou tanto na vida que deu contribuição suficiente pra sociedade. A sigla cresceu.

— Da minha parte é só que não sei lidar com rejeição, baby. No fim, não importa de que lado venha.


SOBE SOM:

Eu, por mim, queria isso e aquilo. Um quilo mais daquilo, um grilo menos nisso. É disso que eu preciso ou não é nada disso. Eu quero é todo mundo nesse Carnaval…”


E a chuva o toma de soluço. Duda sabia. Era mestre em dança da chuva.


— Lava, more. Lava toda essa nhaca, que amanhã ainda é terça, dia de glitter roxo e amarelo, dia do nosso Agora Vai.

Feb. 15, 2018, 10 p.m. 2 Report Embed 10
The End

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Anne Liberton Anne Liberton
Olá! Nossa, que sensacional o seu texto! Fazia muito tempo que eu não lia algo assim, tão leve, mas profundo. Achei agradável, docinho e muito bonito também. Postei os poemas do Augusto esses dia no perfil de Clássicos do Inks, aí achei amor quando reconheci os versos, e você fez um uso tão bom deles que eu fiquei aqui suspirando. A parte do "Usa sua... cambaleando juntos" ficou um pouco confusa pra mim, porque fiquei sem saber se era fala ou narração por um momento, mas foi só isso mesmo. Foi um prazer ler o seu texto e espero ver mais por aqui. Você está de parabéns! Até mais!
Sept. 15, 2018, 7:46 p.m.
Karimy Karimy
Nossa! Estava tão delicioso e leve que fiquei triste ao ver "Fim". Não pode ser!!! Parabéns, autora, senti essa ressaca aqui em mim, esse desafeto cheio de querer e a amizade incentivadora! Adorei! ;)
May 21, 2018, 9:35 p.m.
~