jeancarlo-berton1665003330 Jeancarlo Berton

As energias dos lugares sempre irão influenciar seus moradores, o sangue irá correr pelas paredes e vidas serão ceifadas para saciar a sede do velho prédio.


Short Story Not for children under 13.

#horror #terror #morte #lgbt #fantasma #bullying
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Tábata

Tábata era uma garota muito bonita, seus longos cabelos negros contrastavam com sua pele de uma brancura quase cadavérica e seus profundos olhos castanhos podiam decifrar a mais obscura alma. Quieta e de poucos amigos mantinha sua vida pessoal no mais absoluto segredo, sabia-se que morava em uma antiga casa distante vários quarteirões da escola e diziam que habitava ali com uma velha tia que muitos tratavam por bruxa.

Apesar de sua discrição, sua beleza chamava a atenção dos garotos e causava inveja nas meninas sendo que não era bem vinda em nenhum círculo social, ficando isolada durante os intervalos, era sempre vista sozinha na grande biblioteca nesses momentos.

Quando Cintia chegou a escola transferida de outra cidade a atração entre as duas foi instantânea, Cintia era o oposto de Tábata, ruiva de pele morena e olhos verdes, não seria considerada bonita, no entanto sua postura extrovertida chamava a atenção e sua conversa fácil atraia olhares de cobiça.

Apesar das diferenças gritantes e do jeito tímido de Tábata as duas viviam juntas, a amizade crescia a cada dia e as más línguas cogitavam até um romance, um escândalo tendo em vista que no ano de 1968 algo do gênero era tratado com uma certa repulsa até.

Conta-se que Cintia teria se apaixonado por Beto, jovem do último ano e que em poucos meses alçaria novos voos em direção a capital do estado para cursar o tão sonhado curso superior, nesse ínterim a amizade entre as duas enfraquece e Tábata volta a sua conhecida solidão.

Dias e dias se passaram com esse novo cenário se desenrolando às vistas de toda a turma e Tábata cada vez mais era vista sozinha debruçada sobre algum livro na sombria biblioteca. Tão frequentes eram suas visitas que a velha bibliotecária já não fazia as vezes e deixava-a livre revirando os milhares de exemplares empoeirados. Sozinha, envolta em todo tipo de literatura, pensamentos nada cristãos começaram a aflorar na mente da jovem.

Sentindo a solidão de forma diferente, agora triste, ansiava pelo retorno da amiga que vivia seus dias de gloriosa alegria.

Assim, em um momento de coragem resolve procurá-la fora da escola, talvez seria mais fácil se a conversa acontecesse em um sábado à noite, não a encontrando em casa, partiu em sua procura pelos lugares prováveis em que ela poderia estar, encontrou-a na praça central cercada pelos jovens da cidade, Tábata ali foi tentar a conversa que tanto procrastinara.

Cintia se fazia acompanhada de seu namorado não dando atenção a jovem que chegara trêmula e aparentemente assustada, ela nunca havia pisado naquela praça nas noites de encontro da juventude, assim, tentando não perder o controle, chama Cintia para um local mais afastado para ali confessar seus soturnos sentimentos.

Cintia se irrita com a intromissão da garota e aos berros exige que Tábata se afaste e deixe-a aproveitar a noite, toda a praça se volta em direção aos gritos e em segundos o silêncio sepulcral torna-se quase palpável, sendo quebrado após longos minutos por gargalhadas e um coro a chamando de estranha.

Em profundo desespero, Tábata em frenética carreira foge dali, lágrimas escorrem pelo seu pálido rosto queimando sua pele.

O caminho para sua casa fatalmente passava pela escola e em suas escadarias ela se senta procurando alguma alívio para sua vergonha, fora enxotada, humilhada e apenas desejava sumir, desaparecer daquela cidade, nada mais a prendia ali. De um ímpeto ela se pôs de pé indo em direção à grande porta de metal e vidro, sua mente não mais raciocinava e com as mãos quebra o rígido cristal tendo acesso a tranca interna, sua passagem estava liberado, tinha a escola toda para ela.

Por horas ela vagueia pelas salas vazias, o ódio em seu coração apenas cresce, nunca fora feliz ali, menosprezada por sua timidez era sempre chamada de anormal. Estava na hora de por um fim aquilo.

De posse de um grande pedaço de vidro ela refugia-se no único lugar em que encontrava paz, a velha biblioteca.

Seu corpo seria encontrado pela manhã, a pobre bibliotecária que descobriu seu cadáver, sofre um ataque do coração acompanhando-a em sua última viagem, muitos dos alunos que presenciaram a cena afirmaram por vários anos que ela teria sido assassinada, tamanha a violência dos ferimentos. No entanto fora a dor da rejeição que a assassinara.

Mais de cinquenta anos se passaram e até hoje ela é vista perambulando a noite pelos vazios corredores e muitos dizem tê-la visto debruçada sobre algum livro esquecido sobre as mesas por algum desleixado aluno.

Oct. 11, 2022, 1:07 a.m. 0 Report Embed Follow story
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