emvicente E. M. Vicente

Família sai para passeio em lugar isolado quando o filho menor sofre um acidente. Ajudados por dono de sítio, um gentil senhor chamado Ramon, conseguem tratar o menino e voltarem para casa. Porém, Mikael, o filho mais velho, esconde um segredo que poderá levar a eventos macabros.


Short Story For over 18 only.

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Short tale
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Crânio de Boi

Era um pouco mais de uma hora da tarde, talvez uma e quinze, quando partimos para aquele lugar. Tudo o que lembro era de que havia sido em algum sábado ensolarado de agosto, embora também me recorde de ter nuvens cinza claras crescendo atrás das montanhas; lembro, pois minha mãe na época ficava dizendo que aquele passeio era uma má ideia e de que ela havia deixado roupas no varal. É claro que era besteira, via na face dela, e era uma face que parecia única dela, um jeito de inclinar a cabeça para um lado e franzir os lábios para o canto; as sobrancelhas apertadas contra os olhos, sempre com um cigarro preso entre os dedos.


Ela cuspia para o chão sempre, escarrava às vezes, como se houvesse uma bola de pelo entalada em sua goela, como se fosse morrer se não movesse aquilo para fora, como algum porco asfixiado. Confesso que odiava aquilo nela – uma das poucas coisas que execrava. Mas todos nós odiamos coisas mesmo naqueles que amamos. Mas às vezes ela cuspia para o chão não apenas pelo hábito. Quando meu pai estava por perto, ela fazia isso com certa constância. Sabia que ele odiava, e quando queria chamar atenção, como se ele entendesse que dar uma escarrada era um sinal de que ela não estava gostando de algo.


Havia sido uma ideia de meu pai que retornássemos ali após cinco anos. Um lugar mais distante de nossa casa, do estresse. Com dezesseis anos na época eu pude perceber que havia algo mais entre ele e a minha mãe. Era como se papai estivesse tentando algo, labutando para fazer dar certo com ela e reacender o fogo entre eles, talvez, apelando para a nostalgia da época em que as coisas eram um pouco melhores entre eles. Seria bom reviver momentos em família, resgatando o fôlego de outrora.


Encontramos um lugar – o mesmo que havíamos ficado há cinco anos e que recordava de ter tido dor nas tripas de tanto gargalhar com as piadas da tia Patrícia, que havia ido; o meu irmão e eu rimos. Forramos um lençol de mesa no solo, no espaço amplo paralelo a ruazinha de terra. Sentamos no local com a vista para as altivas montanhas ao longe, com mais nuvens depressivas se elevando detrás destas. Dava para ver nossa casa dali, em meio à constelação doutras que, de longe, era impossível não se comparar a favelas, apesar de não ser o caso.


Mamãe deixou a bengala de lado e com um suspiro pesado foi a primeira a sentar-se, já empurrando para longe o focinho de Pimpo, quando este, de rabinho abanando, foi inocente para cima dela. Achei que ela fosse dar com a bengala de novo no nosso Fox paulistinha. Ele nunca aprendia! Mas mamãe não o feria, embora gostasse de espantá-lo de uma forma severa. Fizemos um lanche com biscoitos recheados, alguns cachorros quentes pequenos e ‘’refri’’. E lembro bem de papai ter levado um pandeiro. Não parava de bater, além de cantar um pagode que falava da vida. E Pimpo parecia adorar, pois acompanhava latindo com a cabeça erguida, dando pulinhos com as patinhas da frente.


Meu pai ria, Julian ria, eu ria... Mamãe só fazia que não. Ela bateu com o pé de leve no traseiro de Pimpo, que parou e correu para o lado, saindo de cima do lençol com os restos de comida. Papai havia dito algo para ela que não lembro e tentado beijá-la na bochecha. Mas mamãe o afastou de imediato; ele ria alisando seu bigode. Ficamos ali mais um tempo. Passei a mexer no celular enquanto papai afagava os cabelos de Julian, deitado em seu colo. Passamos a conversar sobre algo curioso que tínhamos visto no caminho até ali, e os ânimos de mamãe pareceram melhorar.


Antes de nos aproximarmos dali, havíamos feito uma parada próxima de um sítio. Lembro-me de sacar meu celular e de começar a filmar o lugar. Meu pai abaixou o meu braço. ‘’É falta de respeito’’, ele me disse. Quis saber quem morava ali. Nenhum dos meus pais soube dizer. Por uns bons metros, em ambas as direções, não havia nenhuma outra construção; seja lá quem vivesse ali, vivia bem à moda antiga. Da outra vez em que viemos não me recordo de havermos questionado nada sobre o local. Dava para ver um pilar de fumaça clara ascender de detrás da casinha. Mamãe disse que possivelmente era de um fogão à lenha.

— Nossa. Que saudade de uma comidinha de fogão à lenha! — ela falou. — Mmmm. Que delícia! — e deu mais uma tragada no cigarro.

Vimos alguns bois e vacas lá dentro e sons de gansos, fora de vista. Julian, de treze anos na época, correu e empoleirou-se na cerca. Mamãe mancou rápida até ele e bateu de leve com a bengala na bunda dele, obrigando-lhe a descer. Gargalhei muito. Pimpo havia começado a latir para algo atrás de nós e, quando nos viramos, recordo-me apenas de Julian gritando, já indo esconder-se atrás das costas de papai. Recuamos para a beira da estrada, ao lado da cerca de arame farpado quando os cascos passaram por nós a toda. Tive de fechar os olhos pela poeira. Quando os abri, vi o ser parado a dez metros de nós, de costas para nós.


Quando se virou, mergulhei na imensidão umbrosa de seus olhos e nadei contra a onda de pavor que se assomou sobre mim. O boi negro de chifres leitosos nos fitava impávido. Na época, não havia prestado atenção, mas ao refletir depois, não lembro haver nada nas proximidades da ruazinha antes de ele aparecer. O boi ciscou o casco no chão por duas vezes. Minha família se recolheu e nos abraçamos praticamente. O boi mugiu e minhas pernas ficaram bambas, e acho que foi a mão de meu pai em meu ombro que não permitiu que eu desabasse em terror completo.

Ouvi uma voz repentina atrás de nós, sem ser acusada por passos ou nem outro ruído sequer, apesar de que o pavor pudesse ter me impedido de prestar atenção em tais detalhes.

— Ooh!... Para! — a voz se aproximava. — Ooh! Pra trás, menino!

Viramos, e vi a mão parda espalmada para cima. O velho passou por nós com a mão ainda espalmada e acalmou o boi, tocou-lhe na cara e lhe fez um carinho. ‘’Calma, Nino. Calma’’. Enquanto mantinha o bicho segurado, o velho nos pediu desculpas. Ouvi mais mugidos um pouco longe, olhei para além da cerca de arame e vi mais bois e vacas se aproximarem do cercado. Olhavam obstinados para nós. Ao menos oito pelo que recordo. Agradecemos o velho de boné sujo e seguimos caminho por alguns metros até o local do piquenique.


Mamãe findou por me chamar até ela, aninhou-me em seu colo e copiou meu pai, também afagando meus cabelos, como às vezes fazia. Mas Julian, (que parecia querer estragar o momento bom sendo inconveniente, diga-se para mim, pois não queria que aquilo viesse à tona), resolveu inquirir-me sobre se não devolveria o anel de prata de caveira de Fernão. Talvez Julian já tivesse visto o anel no dedo dele nos dias em que viera à minha casa para trabalhos escolares, e em um destes dias mesmo que o roubei, quando tirara para lavar as mãos de tinta Guach. Fingi que não sabia de nada. Creio que vivera desconfiado de mim, mas ele não quisera procurar brigas. Fora por impulso, como da vez em que roubei uma caneta doutro colega. Não usaria o anel até que ele se mudasse de cidade como dissera, porém, nunca o usei.


Julian era um maldito de um pivete com olhos bem aguçados. Mandei que ficasse calado sobre o furto, quando ocorrera. Havia dito em um tom bem sério para que ele entendesse (cheguei até a ameaçá-lo com uma faca certa vez, o mataria dormindo). Mas jamais faria isso, claro, mesmo ele sendo um maldito dum dedo duro, e ele também nunca me levou a sério. Não sei por que no passeio, resolveu me delatar. Talvez por que achasse a segurança nos braços de papai, que o protegeria de tudo.


Meu desejo era sempre o de ser um bom filho, melhor do que Julian (não por ciúmes ou inveja. Não tinha ciúmes do moleque, tão pouco, inveja), só que tinha esses impulsos. Já havia afanado brinquedos aos dez anos; e a última vez em que havia roubado algo fora há dois anos. Roubei duas moedas de dez centavos de troco de um sujeito, que deixara dando sopa sobre um balcão.


Não que eu fosse precisar. Era pelo impulso. A adrenalina, talvez. Sentia o remorso, que passava. Porém, sempre quis ser um bom filho. Após a chata discussão sobre o roubo do maldito anel de Fernão, deixamos o lugar e, já no caminho de volta, Julian, que saltitava na frente de nós, correu aos berros assim que passávamos próximos daquele sítio. O boi negro saiu do matagal ao lado. O menino de olhos ‘’estatalados’’ correu para nós, mas tropeçou num buraco raso e caiu com a face no solo.


O boi jazeu estático, nos fitando. Pimpo latia para ele. Papai correu para o auxílio do meu irmãozinho maldito. Julian se estrebuchava nos braços dele com um corte perto da têmpora direita. Batera em uma pedra despontada para fora do chão de terra. Mamãe tentava acalmá-lo, e eu revezava meu olhar para Julian e para o boi, que mantinha nos encarando. Vez ou outra sacudia a cabeça. Minha perna bambeou. Os olhos... Aquele olhar. Tinha uma coisa a mais nele, não saberia explicar. Algo além do animal; o bicho não estava só olhando, estava observando. Estava notando, calculando e reparando. Era minucioso, como apenas um humano poderia ser, talvez.


Pimpo latia. Julian chorava. E atrás de nós, o velho de boné sujo surgiu de novo. Não se preocupou com o boi desta vez. Ofereceu-nos ajuda. Papai pegou Julian no colo e adentramos no sítio. Com um pano úmido, mamãe limpou o machucado enquanto meu irmão chorava e soluçava sentado no sofá da sala. Era uma casa pintada de azul-claro por fora, com mobílias um tanto antigas, madeira escura. Tinha um leve cheiro de verniz no ar ou algo assim. Quadros de pessoas nas paredes. Era de um casal de idosos, juntos, e outros três quadros menores, de crianças.


A senhorinha da casa teclava o número da ambulância no telefone fixo, nos poupando de usar nossos aparelhos. Do lado de fora, Pimpo latia para alguma coisa. Gansos grasnavam e dois cães ao longe também ladravam. Tive a impressão de escutar uma trovoada ou era o som de alguma carreta passando a toda na BR não muito distante dali. Julian se acalmava quando a senhorinha chamada Madalena nos disse que a ambulância chegaria logo. Tivemos de esperar. Um pano fora posto sobre a ferida de Julian, e ele recebera uma dose de aspirina. Era certo que precisaria de pontos. Papai passou a niná-lo em seus braços e mamãe fazia carinho no braço dele.

— Tadinho — disse a senhorinha coçando o ombro. — Também temos um menino.

Recordo-me bem de ver o velho dando um soquinho no antebraço dela na hora em que dissera e depois fazendo que não de cara feia. A mulher não disse mais nada a respeito e mudou de assunto, perguntando se a gente era de muito longe.

Precisei ir ao banheiro, urinar. O velho, que se chamava Ramon, me levou neste, depois da cozinha. Tinha um cheiro de feijão fresco, alho e de algo que não lembro mais. O homem me deixou sozinho, fiz o que precisava e na hora de voltar, num corredor estreito, olhei para o lado, e ao fim deste havia algo que já tinha notado antes. Aproximei-me e parei diante de uma cortina meio transparente ao final; leitosa. Um brilho fosco pulsava de um modo intermitente por detrás. Mas forte o bastante para berrar atenção. Um branco mais branco que o da cortina e que, por segundos, piscava no tom laranja-claro. Meu braço se moveu automaticamente.


Movi a cortina para o lado. Tinha argolas em cima, como as de banheiros. Respirei muito fundo e prendi o grito. ‘’Mikael!’’ Ouvi a voz de minha mãe me chamando e voltei à sala. Papai disse que eu estava pálido. Não falei nada, apenas sentei-me ao lado dele e ficamos na espera da ambulância... O céu havia se fechado e, desta vez, ouvi claro o trovão. A chuva já caía quando a ambulância chegou. Entramos atrás; a ambulância partiu. Antes do meio dia do dia seguinte, papai estava na cozinha, consertando a porta desta no quintal da parte detrás. Julian tinha levado sete pontos e, por pouco, não havia tido traumatismo. Na sala, despojado no sofá, assistia a vídeos na internet em seu celular. Uma faixa branca envolvia sua cabeça.


Estava com muita fome, e o cheiro de ovos mexidos que mamãe fazia para o almoço estava me devorando. Enquanto mexia em meu celular à toa em meu quarto, pensava no que havia visto no sítio; havia sonhado com o boi e seu olhar atento sobre nós e com, meu Deus! Com aquilo que havia visto naquele corredor. Não contei para ninguém. Não queria mais sonhar com aquilo. Peguei-me paralisado por vários segundos pensando naquilo e a minha atenção se perdeu por completo. Perdi-me por completo até que a porta se abriu de súbito e pulei da cama com o barulho.

— Moleque, desce logo pra comer. Tá surdo?

Respirei fundo e segui minha mãe. Enquanto comíamos, ouviu-se algo lá fora. Um ‘’Ô de casa!’’ Pimpo começou a latir. ‘’Ô de casa!’’ e agora com palmas. Ninguém disse nada. Minha mãe revirou os olhos.

— Vai lá, Mikael. Se for pra mim, fala que eu não tô — ela sussurrou.

Julian riu. Olhei para o meu pai e ele fez sinal com a mão espalmada para mim, como que para esperar.

— Sua mãe é maluca. Deixa que eu atendo — papai se levantou e foi.

Ouvimos a conversa. Era Ramon, no portão da frente. De algum modo, ele achou nosso endereço. Pensei que havia regressado para saber se Julian já estava bem. Como ele havia nos achado? Meu pai o questionou e o velho apenas mudou de assunto. Disse estar ali por algo. Queria de volta, algum tipo de objeto. Não parecia grosseiro, pedira com gentileza. Fui à janela da sala, que dava vista para nosso portão de ferro de grade, e espiei da greta a conversa. E após meu pai insistir que não havia nada conosco, Ramon, quase que rendido, recuou, porém, deu meia volta após alguns metros e voltou. Pimpo latia bravo. O velho de boné sujo segurou em nosso portão. Respirava forte e passou a falar pausado, se não me engano.

— Eu sei que está aí! — Ramon chacoalhava o portão. — Está com vocês. Ele me disse. Devolvam, por favor. Só quero o objeto de volta.

Meu pai, que já entrava, voltou para fora. Insistiu com o velho.

— Meu menino precisa do objeto — os olhos de Ramon se encheram de lágrimas. — Minha mulher não para de chorar. Por favor. Ele precisa para viver. Só devolva.

Papai pediu mais informações do objeto, mas Ramon não parecia muito bem. O homem pardo estava muito vermelho e começou a arfar. Tinha vindo de charrete sob o sol quente daquele dia. Agachou-se no chão, se segurando no portão com uma mão e usando a outra para apertar a testa, então desabou para trás. Chamamos uma ambulância que o levou para o hospital. Discutimos sobre o episódio naquele dia, porém, além do fato de acharmos estranho, não fomos muito adiante com isso. Fiquei pensando naquilo, no objeto. Que coisa mais estranha aquele homem queria dizer?


O desespero nele era evidente, uma ânsia obstinada para sanar algo. Seu olhar lacrimejante enquanto suplicava para que devolvêssemos o objeto. O maldito objeto que ele tanto falava. Eu apenas pensava. Dormi com isso na cabeça e sonhei com a coisa maldita de novo, a coisa que tinha visto no corredor. O boi preto me perseguia no sonho, até me encurralar contra a parede, seus chifres leitosos a trinta centímetros de furar meu crânio; ele mugiu alto no sonho, insistente, como se questionasse, e eu não entendia sua língua ferina. Ele mugiu muito alto e despertei na madrugada com as calças molhadas.


Eram um pouco mais de uma hora da manhã e minha audição se adaptou após o susto ter passado. Mas eu ainda estava dormindo! (só podia ainda estar dormindo, como queria mesmo ter continuado dormindo, mas sem ter os pesadelos, não, com os pesadelos não, por favor). Quando entendi o som que acabara de ouvir do outro lado da porta, arrepiei-me dos pés a cabeça, minha boca secou e meus olhos arregalaram ao máximo. ‘’Muuu’’, algo assim. ‘’Muuu’’. Na escuridão eu ouvia: ‘’Muuuuu!’’. Lá fora. O urro iracundo paralelo ao rumor de cascos, indo e vindo, lá fora, apressados, e um mal-estar tomava meu corpo, meu intestino. Meus olhos encheram de água para chorar de horror.


Gritos intercalados, coisas se quebrando por segundos infinitos. Mas não conseguia gritar, abri parcialmente a boca e nada saiu. Abri mais a boca... e nada saiu. De meu olho esquerdo uma lágrima escapou. ‘’Muuu!’’ Após aquela eternidade, sufocado sob o véu do pavor, ao menos os barulhos e os gritos cessaram. Tudo ficou quieto por algum momento, mas ainda não podia me mexer. Sentia o cheiro de minha urina. Na cama, com as costas contra a parede, ouvi novamente os cascos, pararam à porta e depois um arranhão na madeira. Um bufar. Tremi e clamei a Deus em minha mente, coisa que jamais havia feito.


A porta foi açoitada pela besta insistente. Consegui largar um grito fraco. Abriu com um estrondo e notei uma silhueta à entrada, nas trevas da sala (embora tivesse uma fonte de luz indistinta ao fundo), uma forma robusta com os contornos dos chifres leitosos que se destacavam de modo sutil às sombras. Chamei por papai e mamãe, mas eles não iriam me responder. O boi bufou e se afastou. Não iria conseguir entrar. Porém, a mulher entrou. Ela mantinha uma luminária de bateria em mãos. Aproximou-se de mim e parou ante a cama com a coisa sinistra ao ombro direito dela.


Apenas em pensar em descrever, sinto mal-estar na barriga. Parecia com a cabeça flutuante de um touro deformado; quase tocava o teto. Tinha uma tonalidade verde-escura; quase negro. O focinho era muito curto, dando a impressão do formato de uma estranha cabeça humana. Orelhas curtas e parecia de pele, não de pelo; uma pele flácida de idoso. Os chifres negros se moviam de forma sinuosa e vagarosa. Nem pareciam sólidos. Os olhos eram negros e refletiam toda a luz da luminária, todavia um sutil ponto na cor alaranjada em meio ao branco do reflexo fosse perceptível.


Da parte de baixo da cabeça pendiam cordões grossos, mas de extensões variadas, os maiores por centímetros tocariam o chão. Remetiam ao corpo de serpentes com protuberâncias gibosas em todo decorrer, tais a bolhas vagamente translúcidas. Verde-escuro, o ‘’corpo’’ era como se estivesse umedecido, tendo um brilho forte à luz da luminária. Madalena estendeu a mão alva e enrugada em minha direção, e eu me mantinha encolhido na cama ao máximo.

— Devolva. Não minta para Ele. Meu menino precisa disso. A energia vem dessa casa. Meu marido, que descanse em paz, já esteve aqui. Não guardo rancor. Mas sei que o objeto está aqui.

Não falei nada.

— Meu Nininho precisa, ou perderá o novo corpo dele em breve.

— Por quê? — foi só o que saiu de minha boca num gaguejo,

Bois mugiam lá fora, na sala e cozinha, como se ao menos três vagassem por lá. Como puderam entrar na casa? Madalena insistiu e falou sobre um garoto que sofrera um acidente doméstico e tivera a maior parte do corpo queimada. De cama, jamais poderia viver sem sofrer com dores que não poderiam ser narradas. Sem tratamento e com a morte certa, nem para Deus ou para o Diabo eles apelaram. A senhorinha falou de um segredo antigo de sua família, de milênios, das primeiras raízes de seu sangue, que só eles detinham esse conhecimento, somente eles poderiam contemplar uma das infinitas formas DELE sem serem obliterados pela insânia e que eram os únicos a poderem evocar o seu nome maldito e sua imagem sem terem os corpos despedaçados, se Ele quisesse.


Ele devolvera a vida, sem a dor, ao lastimado, com a imolação necessária. Ele havia trazido a vida de volta ao lar de sua família. A alma não poderia mais habitar no corpo destruído, mas habitaria em outro corpo disponível, qualquer tipo de corpo. ELE havia entregado a chave para isso, desde que esta permanecesse onde deveria. ‘’Ele é tudo e é nada, Ele está dentro e está fora, ele é quebrado e indestrutível ao mesmo tempo. Ele é alto e é baixo, é forte e é fraco, é grande e é pequeno. É círculo e quadrado. Ele é cheio e vazio, feio e belo, Ele corre, mas está parado. Ele está vivo e está morto ao mesmo tempo. Ele é todas as coisas impossíveis e possíveis ao mesmo tempo’’, Madalena disse ainda com a mão estendida.

Era o que me lembro. Talvez, tenha dito mais, mas não me importo. Isso é demais para minha cabeça.

— Então devolva. Apenas devolva — ela concluiu.

E eu apenas não queria ouvir mais nada. Com algum esforço, arrastei-me até o pé da cama e, trêmulo, catei minha mochila sobre o banco, saquei o objeto. Enquanto no sítio, depois de abrir a cortina, eu o peguei no mais singelo impulso. Queria aquilo para mim. Era tão sedutor! A pedra ogival do tamanho de uma jabuticaba era de um material tão transparente que sua casca quase parecia invisível. As extremidades tinham a exata mesma proporção, quase como um olho humano e, dentro da casca, um globo miúdo do tamanho da unha dum mindinho, lembrando um sol minúsculo, cintilava alvo e laranja. O alvo por mais tempo.


Fazia movimentos vagarosos, como aprisionado em algum tipo de líquido incolor. Era mesmo como um olho. Havia arrancado da cavidade ocular do crânio depurado de um boi, dentro dum nicho de pedra lavrada acoplado à parede. Havia um pedaço de pano que ajudava a segurar o tal objeto lá dentro. Tinham quatro velas apagadas, já gastas, ao redor, e o crânio jazia sobre um tecido rubro-escuro, pelo que lembro. O objeto era frio e ficava meio quente às vezes e segurando-o por alguns instantes notavam-se sutis vibrações e tinha um leve odor de terra ou lama.


Entreguei o objeto à Madalena, depois cerrei os olhos. Não queria ter mais que ver a cabeça flutuante, esta que, ao ver o tal objeto, emitiu um gruído singular pavoroso, como que de contemplação. A mulher foi embora junto à aberração torpe e dos bois. Com olhos cerrados, não vi como se foram. Apenas se foram. Mamãe havia sido esmagada contra uma parede, papai tivera seu peito e pescoço perfurados; Julian, aparentemente, tinha sido pisoteado. A face fora desfigurada. E Pimpo estava morto no quintal com sangue no corpo.


A polícia não descobriu e nunca descobrirá nada. E eu jamais pude explicar sem ter soado louco. Desconfiaram de mim. Mesmo que pudessem provar algo contra mim, jamais seria preso aos dezesseis. Acabei por vir morar na casa da tia Patrícia, em São Paulo. Nunca mais ri de nenhuma piada, quase nunca mais ri de nada, como se a minha alma tivesse deixado meu corpo, levando tudo o que torna um humano um humano. Passaram-se só um ano. Ainda sonho com aquela cabeça e os bois; com tudo o que Madalena dissera. Psicólogos não ajudaram; remédios não ajudaram; e o pastor não ajudou. E tudo só está piorando cada vez mais. Até tive certa tranquilidade por um tempo, só por um tempo. Isso jamais me deixará, tenho certeza.


Não saio muito do quarto. Não quero mais ter aqueles sonhos, não quero mais ver aquele demônio sempre que fecho os olhos... e às vezes quando desperto, pelos cantos. Urino na cama desde aquele dia. Não quero mais rever aquilo. Não quero, não quero, não quero, não quero. Hoje, decidi ir dormir, mas sem sonhar. Nunca mais irei sonhar com nada. Por isso, deixo esta mensagem em áudio para quem se interessar e para evitarem aquele sítio. E não, não roubem coisas estranhas por aí! Bem... Aqui perto tem uma linha de trem...

Preciso ir andando.

Aug. 29, 2022, 1:01 p.m. 6 Report Embed Follow story
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The End

Meet the author

E. M. Vicente Bastante interessado no gênero do horror, suspense e afins, independente da mídia. Se essa também é sua praia, fique à vontade.

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Marcelo Farnési Marcelo Farnési
Parabéns! Orgânico e inteligente como há tempos não via!
January 07, 2023, 19:25

  • E. M. Vicente E. M. Vicente
    Obrigado. Seu feedback vale muito. Fico feliz que apreciou esse pequeno, mas dedicado trabalho. January 08, 2023, 12:19
  • Marcelo Farnési Marcelo Farnési
    O um prazer ler seu conto! January 08, 2023, 12:21
  • Marcelo Farnési Marcelo Farnési
    Correção: Foi um prazer ler seu conto! January 08, 2023, 12:22
Giovanni Turim Giovanni Turim
Ótima história, e o que mais gostei foi a narrativa.
September 13, 2022, 17:15

  • E. M. Vicente E. M. Vicente
    Muito obrigado, Giovanni. Sua opinião é muito importante. September 17, 2022, 12:03
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