shijinkouhai G.K Pereira

Malditos sejam os homens que distorcem palavras, e as usam para justificar seu ódio e preconceito infundado. "Hoje me faz falta Me falta teu cheiro O macio de teus fios Teu olhar sincero Teu sorriso terno O vibrar de tua voz Ressoa dentro de mim Sua ausência é atroz Quão oca fico sem ti? Desejo sentir-te Sentir o calor de teus braços ser acalentada por teus lábios A vestígios de você em mim Desejo apenas mais tempo Amar não é pecado Mas sou condenado Pelo o que sinto Você me faz falta Amo-te" Uma releitura de Romeu e Julieta.


Short Story For over 18 only.

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Capítulo Único


A Obra "A Última Carta" pode ter um conteúdo desencadeante e alguns de seus trechos podem ser considerados gatilhos, então se você se sente desconfortável com menção ou descrição de:

• Depressão;

• Tortura psicológica e/ou Física;

• Ideação Suicida/Suicídio;

• Morte de personagens principais e/ou secundários;

• Relação abusiva e violenta entre pais e filhos.

Para sua segurança mental e emocional, é recomendável que apenas leia está obra quando estiver, preparado, seguro e em principal em condições emocionais estáveis.

Você é importante ❤

Boa leitura 😘❤


Os jovens adolescentes sorriam um para o outro naquela tarde fria de outono, o tempo que havia parado a favor deles, o sol se pondo no horizonte lentamente, a música romântica que partilhada no fone de ouvido do walkman ressoando em plano de fundo, quase apagada pelo brilho dos olhos de sua parceira, tudo estava perfeito naquele momento.

Ele finalmente conheceria a família da namorada, o dia mais temido para qualquer garoto, mas não para ele, a mais absoluta certeza do que estava fazendo corria como fogo por suas veias, seu desejo é passar o resto da vida com ela, sentindo cada batida do seu coração, ouvindo sua voz, sentindo aquele frio em seu estômago sempre que ela sorria. Seu amor era algo bem além do corpo ou do coração, suas almas estavam conectadas ele tinha certeza disso.

Então eles andaram devagar até a casa da garota que exibia um de seus mais belos sorrisos, enquanto o puxava pela mão. O mundo não estava parado, porém o tempo parecia piedosamente correr lentamente, como se ele mesmo estivesse suspirando apaixonado pelo amor jovem nascendo com vigor e força.

A casa em que pararam era ampla, em um bairro em um subúrbio sem nome, mas confortável, ela abriu a porta da casa o guiando até seus progenitores que estavam sentados no sofá da sala. Por algum motivo, mesmo que a sala estivesse iluminada e as janelas abertas, havia algo no ar, algo oculto, pesado, como se as próprias paredes da casa estivessem amordaçadas.

Como se estivessem prestes a gritar.

Um arrepio se passou por seu corpo, mas do mesmo jeito que se veio, se foi quando sua atenção foi capturada pelo homem parrudo que o olhava com um sorriso caloroso, mesmo que seus olhos tivessem um brilho avaliativo, como uma serpente se enrolando antes de dar o bote.

A conversa fluiu, sendo servidos pela mãe de sua namorada, vez ou outra vendo uma criança que deveria ser seu pequeno cunhado se escondendo no topo da escada, o olhando com curiosidade evidente.

Todos se parecem, é algo que ele percebe, sua sogra ri educadamente como uma dona de casa perfeita, dizendo que é um alívio alguém finalmente dizer que sua filha parece com ela.

Eles riem, conversam e comem com fartura, antes de tudo desmoronar com uma única questão sendo levantada.

“Qual a sua religião? Você não me parece Cristão”, o pai de sua namorada perguntou com uma sobrancelha arqueada, enquanto sua namorada ficava tão tensa e rígida que todos os alarmes possíveis soaram em sua cabeça como uma buzina de alerta para bombardeamento.

“Eu não sou cristão”, o rapaz riu sem graça, sentindo que de repente as paredes estavam realmente gritando, o oprimindo e sua namorada estava ao seu lado, quase trêmula de tão rígida, o medo estampado em sua linguagem corporal e em sua palidez. “Eu e minha mãe somos do Espiritismo”.

Foi a partir daí que o mundo deles desabou, perdendo todas as cores, parecia que as sombras do mundo cruel que vivemos os envolveram com força os sufocando até o limite.

Maldito dia em que o homem guerreou e atacou um igual por ideais, maldita a hora que corações duros de velhos amargurados destrói o coração viçoso e forte da valentia da juventude, malditos sejam os homens que justificam seu ódio e seus preconceitos usando como desculpa a religião, por que tudo que não os agrada é relacionado ao diabo?

O rapaz foi expulso da casa pelo seu "sogro" sendo acusado de compactuar com satanás e tentar levar a namorada para o mesmo caminho, ouvindo os protestos da namorada que praticamente implorava por compreensão e uma mente mais aberto por parte dos pais.

Ele foi lançado a calçada, com uma plateia de vizinhos, os observando de cada fresta aberta, ouvidos nas portas e caminhadas convenientes próximas a casa número 7.

Ele bateu na porta assim que ouviu o grito, mas a porta não foi mais aberta.

Pois assim que a porta foi fechada todo o ódio acumulado no olhos do Pai foram direcionados para a filha.

"Pecadora" foi a palavra que passou na mente do homem enquanto caminhava na direção da garota que estava paralisada de medo, ela conhecia aquele olhar o suficiente para saber que não adiantaria se esconder ou correr, mas ela o queria, seu desejo mais profundo naquele momento era fugir o mais rápido possível, ter força para não ser alcançada e ser capaz de não voltar.

O tapa foi desferido com força antes mesmo que ela percebesse a mão levantada, de um segundo para o outro ela estava no chão com um corte na boca e uma das mãos cobrindo a face ferida, ela o olhou com pavor.

— Você não vai mais falar com ele — seu pai disse agarrando os cabelos castanhos e a puxando para que olhasse em seus olhos — não vai mais olhar na cara dele — ele segurou com força o delicado maxilar quando ela tentou desviar o olhar — se eu suspeitar que por um acaso você até mesmo o cumprimentou de longe — a ameaça estava mais do que clara na voz de seu progenitor, ele a soltou mais uma vez no chão a vendo se encolher — você vai aprender o que é ser obediente de verdade.

Ela mal esperou seu pai sair de vista, antes de correr para o quarto sentindo as pernas amolecidas pelo medo, ela se trancou assim que passou pela porta, se encolhendo contra o canto da parede implorando a qualquer força maior que a ajudasse, era injusto viver amanhecer após amanhecer seguindo tudo a risca, ela recebeu tudo em silêncio, obedeceu o que precisava obedecer, ela não se importou se ela não gostasse.

Ela foi a igreja.

Ela honrou seus compromissos.

Suas notas eram altas.

O que importava se seu amor não era de julgo igual?

Dois anos cheios de amor estavam sendo jogados ao vento e o arrependimento por confiar em seus pais a correu mais uma vez por dentro.



Os dias se passaram lentos e mórbidos, sem cores, a falta um do outro os matando lentamente, olhares trocados de longe no corredores do colégio cheio de um desejo silencioso e pesaroso, desejando apenas o conforto de ao menos que poder se abraçar e dizer "Vai ficar tudo bem".

Todavia o destino não os deixou sentir o sabor doce da misericórdia, o regimento do colégio católico era rígido quanto ao afeto público entre as pessoas, e a garota seguia a risca o que lhe fora ensinada "honra teu pai e tua mãe para que te vivas bem e por muitos dias", e se isso não a motivasse, havia mais temores que a mantinham longe com o coração dolorido.

E desde o fatídico dia, a pergunta ressoava em sua mente como um sino católico na catedral, martelando sua mente e seu medo, o quanto valia a pena viver a felicidade deles e não a sua própria?

Até que depois de uma semana de dias sem fim, ela encontrou em seu armário algo que nunca havia recebido antes, um delicado envelope feito de um papel fino e amarelado, como se estivesse ali há muito tempo a esperando ali entre seus livros, atrás dele estava seu nome em uma caligrafia cursiva e rústica.

Ela sorriu pela primeira vez em dias, reconhecendo a caligrafia do namorado; seus olhos percorreram em volta o vendo do outro lado do corredor sorrindo de volta encostado em seu próprio armário com um olhar cúmplice, então seus lábios se moveram com travessura.

"Leia"

Ela abriu a carta com cuidado, com seu sorriso se alargando ainda mais ao ler suas linhas.



"Vivo dias amargos sem sua presença,
As areias do tempo correm devagar demais
Para a minha alma agitada e ansiosa
Desejo-te tanto minha amada

Oh meu belo anjo
Imploro que use suas asas
E voe para além desse tormento
Venha para os meus braços
Venha para o nosso paraíso particular

Onde posso cantar nossas doces memórias
Contar estrelas em sua pele
Declamar a glória de amá-la
E enfurecer Afrodite, por ela não ser tão amada quanto você.

Mas se não pode ouvir minhas doces palavras
Ouça a música que ressoa ao fundo de nossa história
Senão posso te tocar
Que ao menos meus versos a toquem
Se não podes ver ,que minhas palavras a façam enxergar

Enxergar que não existe abismo
Muralhas, Palavras
Terras, Céus ou Mares
Que apaguem o fogo que arde sem dor em meu peito.

Troque comigo seus versos, suas palavras
Suas aflições, medos e desejos
Que ao menos a tinta e o papel
Possam ser para nós
A nossa salvação"

Eternamente seu.

Lágrimas de alegria deixavam marcas nas bochechas rosadas dela, seus olhos voltaram a se encontrar no corredor, cheios de ternura e esperança lacrimosa.

"Amo você", ele declarou para o silêncio do mundo.

"Amo você" ela sussurrou o olhando dentro das orbes castanhas do garoto.

Ela nunca sentiu tanta necessidade de o segurar em seus braços como sentia agora.



Durante um mês o inferno não queimou com toda sua intensidade, pelo menos não para eles, as cartas trocadas realmente foram seu sustento e consolo, risos de alegria, lágrimas, amor e saudade foram compartilhados com ansiedade, cada palavra declarando com força sua intensidade, seu amor, tocando seus corações onde a distância os separava.

As cartas salvaram suas almas da tristeza irreparável, entretanto, sua salvação também os condenou.



O pai da garota, todo dia sem falta ou atraso, a levava e buscava do colégio, sem espaço de tempo para que ela pudesse papear com qualquer um, incluindo aquele garoto, pelo menos era o que ele acreditava firmemente, enquanto a trancava e isolava de tudo e todos.

Naquele dia ele estava na porta do colégio exatamente no horário, a esperando, quando ela apareceu sorrindo boba e amorosamente para uma folha de papel, mas quando seus olhos se cruzaram, a sombra do medo passou rapidamente nos olhos da menina, que logo tratou de esconder da melhor forma possível, e andou até seu pai sorrindo.

— Como foi seu dia? — Ele perguntou desconfiado das atitudes da filha.

— Foi bom — Respondeu evasiva.

Ele nunca fora um homem com paciência ou uma pessoa calma, além disso ele não costumava esconder sua raiva, aquela resposta evasiva fez com que sua mente se preenchesse em todas as possibilidades possíveis do que ela poderia estar escondendo, e a sua maior certeza era que aquele garoto estava envolvido de alguma forma.

— O que era aquele papel? — Perguntou a olhando procurando a verdade.

— Que papel? — Ela se fez de desentendida.

— Eu não nasci ontem, e se você não quiser que eu perca o controle no meio da rua, é melhor você me falar o que estava escrito ali — O expressão em seu rosto não deixou dúvidas que aquela, como todas as outras, não era uma ameaça vazia.

As palavras se enroscaram no fundo de sua garganta como um nó que ela não conseguia desfazer, engoliu em seco, soltando o que lhe veio à mente.

— Fui aceita no jornal da escola — Ela falou rápido tentando não parecer nervosa.

Ele ainda a olhava desconfiado, mas por enquanto fingiria acreditar naquela mentira deslavada.

— Parabéns, espero poder ver alguns de seus artigos — A resposta veio com um tom cínico, ele sabia que não havia nenhum jornal da escola. — Em qual setor você vai trabalhar?

A mente dela pareceu entrar em colapso, ela não tinha o costume de mentir, nunca havia se passado pela sua cabeça que mentir era tão complexo, com certeza a carreira de escritora não era para ela, sua mente estava em um branco amedrontado, como se tudo estivesse trancado por trás de uma porta cuja a chave ela não tinha, a ansiedade correu por suas veias e logo suas unhas curtas estavam se ficando nas palmas de suas mãos cruzadas no colo.

Então, mais uma vez improvisou da melhor forma possível.

— Poesia — ela disse olhando pra janela bem além da paisagem urbana, não conseguindo fazer isso o olhando nos olhos de seu pai.

Ele a pegaria na mentira, ela sabia disso, seu coração batendo forte contra o peito mal sendo contido por sua caixa torácica, ela quase conseguia ouvir o sangue circulando em suas orelhas.

— Que dias da semana? — Ele questionou desejando pegá-la na mentira.

— Não tem, escrevemos em casa e nos reunimos no intervalo e entregamos para a editora que aprova ou não o artigo — Ela não fazia a menor idéia de onde tinha tirado isso, mas agradeceu aos céus por sua voz não ter tremido até agora.

E amaldiçoou a si mesma logo em seguida por não ter aproveitado a oportunidade de arrumar um tempo para ver seu amado.

— Nem mesmo reuniões? — A pergunta veio em um tom desconfiado explícito.

Seu pai sabe que qualquer projeto extracurricular é fundado apenas com a permissão dos pais, talvez com sorte ele não saiba que não existe mais um jornal da escola.

— Só as de aviso e de escolha de temas e coisas assim, elas são avisadas com
antecedência — ela respondeu implorando aos céus que o pai acreditasse nela.

Ele por sua vez soltou um som em concordância, e decidiu que descobriria tudo sozinho.

Assim que entraram em casa a garota se voltou aos seus afazeres domésticos de sempre com a mãe, o pai subiu as escadas e parou na porta do quarto da filha, desde o dia em que ela apresentou o namorado a porta não tinha mais trancas e a chave havia sido guardada em sua gaveta de meias.

"Não é necessário tanta privacidade, não é como se você estivesse escondendo algo, né?"

Foi o que ele disse no dia enquanto removia a maçaneta; ele entrou sem hesitação no quarto analisando tudo, observando desde as paredes claras em tons pastéis de rosa e lilás, as estantes abarrotadas de livros e cadernos especificamente solicitados pelo colégio, ele não a permitiria ler outro livro se não a Bíblia se assim pudesse fazer.

Ele andou pelo quarto, abriu livros e cadernos, revirou o guarda roupa e a cômoda, virou o baú e a pequena e discreta caixinha de presilhas de cabelo vaidosas, logo o quarto estava tão bagunçado que seria impossível encontrar qualquer coisa.

Até que a roupas de cama foram puxadas e jogadas em algum lugar e ele encontrou, debaixo da cama simples onde qualquer coisa poderia ser ocultada pela saia da colcha florida, havia uma caixinha de metal cor de rosa decorada com várias flores amarelas, aquilo simplesmente não deveria estar ali, sua filha era organizada e metódica até demais pra fazer isso, tudo que ela fazia tinha padrões, a previsibilidade a acompanhava como uma sombra insossa, ela não o faria sem querer, a caixa estava ali por algum motivo e não seria segredo por muito mais tempo.

Ele abriu a tampa metálica da caixa sem cuidado ou esmero, vendo diversas cartas, todas feitas com um envelope amarelado e velho.

O conteúdo da caixa foi virado no chão com pouca ou nenhuma consideração, e logo cada uma das cartas estava sendo lida.

A cada linha lida, mais seu peito era consumido pelo ódio, pelo desafio e a desobediência claras a sua ordem, linhas pecaminosas e cheias de pouca vergonha escritas por aquele maldito rapaz.

Uma providência deveria ser tomada, afinal, a tolice mora naturalmente no coração das crianças, mas a vara da correção as livrará dela.

Quando terminou de ler todas, as recolheu e colocou de volta na caixa a levando consigo, fazendo tudo com calma e sem alarde, ele desceu as escadas entrando na cozinha e colocando a caixa no centro da mesa como um tributo ao altar, ele se sentou em seu lugar e chamou sua doce e pecadora filha.

A menina estava terminando de espanar o pó das estantes da sala, quando ouviu a voz de seu pai chamar seu nome. Ela andou rápido até a cozinha, com a conversa do carro ainda a amendrontando, mas com uma esperança vaga que não fosse nada com que se preocupar.

A expressão de seu pai fez com que sua minguada esperança fosse apagada sem surpresas, porém o que fez suas mãos tremerem e sua espinha gelar e seu estômago afundar como se houvesse chumbo derretido sendo derramado em suas estranhas, era sua caixinha de cartas, aberta sobre a mesa, e finalmente o real olhar de seu pai foi registrado, o sorriso louco e os olhos vidrados de ódio que a miravam como se sua filha não passasse de uma presa a ser abatida por seus próprios punhados, o vaso do oleiro para ser quebrado e reconstruído de acordo a sua vontade.

— O que eu disse? Você se lembra do que eu disse? — ele disse se levantando e caminhando lentamente em direção a garota, que já tremia de medo — Por acaso esqueceu quem manda aqui? Esqueceu quem é o dono desse teto? Você me deve respeito sua imunda! — disse desferido um tapa estalado na face esquerda da garota, a fazendo bater a cabeça na moldura da porta e cair tonta no chão.

Ele a agarrou pelos cabelos e arrastou pela cozinha até chegar no centro do cômodo onde foi largada sem cerimônias, ela viu quando pai pegou as cartas e puxou um isqueiro, lágrimas grossas caiam de seus olhos, ela tinha uma idéia do que ele faria e odiava essa idéia com todas as suas forças.

Ela levantou do chão indo em direção as cartas, ela não poderia deixar matarem sua esperança, o que restou de seu coração quebrantado, não sem uma luta, não sem ao menos resistir dessa vez. Ela mal se aproximou quando sentiu seus cabelos serem agarrados na base da nuca e sua cabeça ir de encontro a com o granito da pia com força, a tontura e a dor lhe atingiram rapidamente enquanto via o sangue escorrer em seu rosto, e ainda com as mãos nos cabelos dela, ele a puxou bem perto da caixinha com as cartas.

— Isso é o que acontece quando você me desobedece — seu pai disse calmamente a beira do ouvido da menina — pense o quanto de sofrimento você poderia estar se poupando, se fosse obediente, como eu te ensinei. Como mesmo que se fala? — ele perguntou a olhando nos olhos vendo sangue escorrer de um corte aberto acima da sobrancelha direita.

— Honra teu pai e tua mãe para que te vivas bem e por muitos dias — Ela disse sufocada.

— Isso mesmo — Ele disse sorrindo com orgulha antes de a soltar com violência — Vou fazer isso para o seu bem, para que você nunca se esqueça dessa lição — falou acendendo o isqueiro.

— Não pai por favor! Eu te juro que nunca mais vou te desobedecer, por favor, por favor, por favor! — implorava de joelhos, agarrada a barra da calça do pai.

Ele a ignorou colocando fogo na primeira carta, para então a colocar junto com as outras, alimentando o fogo rapidamente com o papel fino e delicado.

Nesse ponto a garota já havia se levantando do chão, tentando agarrar suas cartas de novo, salvar o que restasse, mas sendo firmemente segurada pelo pai, foi forçada a assistir até a destruição da última carta, enquanto ela implorava que parasse, que ela havia entendido a lição, não iria aprontar outra vez, ela seria uma boa menina, quando acabou ela estava com dor de cabeça de tanto chorar ou por causa da violência anterior, ela já estava tão acostumada com o tratamento que nem sabia mais diferenciar uma coisa da outra.

— Limpe tudo — o pai disse autoritário antes de sair da cozinha.

Ela segurou as cinzas em uma mão chorou amarga e silenciosa por cada palavra queimada e linha consumida por olhos que viram o diabo onde ela encontrou paz, suas mãos se mancharam com o que havia sido sua alegria, e enquanto limpava tudo, a contínua pergunta estava ali, a rodeando, a provocando com tantos sentimentos que não havia espaço para entendê-los.

"O que ela havia feito para merecer isso?"

A cozinha estava limpa e suas cartas eram um pote de cinzas que ela não sabia como jogar fora. Quando percebeu que sua mãe estava ali lhe observando.

— Venha me ajude a pendurar as roupas no varal — Ela disse pegando as cinzas e jogando no lixo sem prestar atenção no olhar de sua filha, o choque que se transformou em um vazio resignado.

A menina a seguiu obediente até a lavanderia sem questionar ou falar nada, porém quando ela pegou um cesto de roupas limpas e úmidas para pendurar, sua mãe a impediu entrando em seu caminho com seu próprio cesto.

— Lave o sangue do seu rosto, os vizinhos podem comentar — ela falou séria — e se livre dessas cinzas nas suas mãos, acabei de lavar essa roupa.

É claro que a reputação da família no bairro seria mais importante do que saber se sua filha estivesse com alguma concussão, que bela família eles eram, não é mesmo?

Algo finalmente terminou de se quebrar em coração, não havia mais apenas a tristeza ou medo, mas uma decepção e raiva resignados.

Ela lavou o rosto tirando o sangue e as cinzas de suas mãos sentindo o mundo se tornar opaco, tão ridiculamente preto e branco, doloroso, vazio e sem sentido, que até mesmo a toalha macia e felpuda que estava usando para se secar, parecia áspera ao toque, como se nada pudesse mais ser gentil com ela.

Não, não era gentileza, não havia nada, sem cor, sem sabor, sem sentimento, como um vácuo onde seu corpo também não a pertencia, ela mal registrou quando o cesto retornou as suas mãos e seus pés seguiram obedientemente sua mãe até o varal, fazendo a sequência que sempre faziam em dias de lavar roupa, dobrando a roupa seca, pendurando a molhada, trocando suas funções a cada poucos minutos, perdida demais no oco de seu peito para se importar com o sol queimando sua nuca ou como sua mãe a cada poucos segundos avaliava seu trabalho.

— Mãe? — ela chamou de repente, mal sabendo se estava realmente presente ou não na conversa, está que apenas murmurou mostrando que estava ouvindo e continuou a pendurar as roupas sem dar real importância.

— Você acha certo o que meu pai está fazendo? — A pergunta foi feita com simplicidade, sem expectativas ou desejos.

A resposta sempre esteve ali, ela não precisava perguntar, mas talvez seu coração ainda estivesse buscando desesperadamente um modo de voltar a bater, uma última chance talvez, algo que ao menos devolvesse algum brilho a este mundo pintado em tons de cinza e construído em granito.

— Você merece tudo que está acontecendo com você, tudo que nos acontece é a consequência de um ato, você tomou esse caminho sozinha agora enfrente as consequências sozinha, eu sempre te avisei que não é permitido ter relacionamentos fora da nossa fé mas você não me ouviu, agora Deus a está castigando pela sua desobediência — Sua mãe disse com plena convicção, batendo uma camisa branca para desamassá-la.

"Deus quer me castigar ou vocês querem?", a frase cheia de despeito martelou na ponta de sua língua, mas o vazio parecia tão bom para retornar ao mundo real apenas pelo desafio.

O fato era que ela não aguentava mais, parece tão bobo e fácil de falar, mas não há frases bonitas ou discursos inspiradores para comunicar sua desistência.

Ela estava cansada de usar roupas que cobriam as marcas em sua pele, de aceitar tudo em silêncio, o fato de que ela sabia que nunca poderia ficar com seu amor, e acima disso, sabe que nunca vai sair da coleira que foi colocada, o máximo que aconteceria, seria a guia ser trocada de mãos.

Ela não poderia viver assim, sem ouvir sua voz, sonhar com um futuro ao lado dele, abrir a janela de manhã, olhar a aquarela de cores no céu e fechar os olhos apenas por um segundo contando cada segundo esperançoso por seu futuro.

Mas agora sua única salvação havia sido destruída em frente aos seus olhos, era como se a mancha negra que crescia lentamente em seu coração como um câncer finalmente tivesse devorado não só ele, como todos os seus órgãos e tudo que restasse agora fosse esperar o doce beijo da morte.

Ela enterrou sua esperança. Trancada e afastada de tudo durante toda a sua vida, para andar no mundo, mas não ter ele dentro de si, vivendo dia após dia no cinza, seguindo o caminho pré determinado, até que um par de olhos castanhos e risada tímida finalmente afastou o tempo nebuloso que pairava em seus olhos, cinza costumeiro de sua vida foi tingindo de todas as cores possíveis.

Todavia, havia realmente alguma surpresa em sua família a destruir algo seu novamente? A exaustão se agarra aos seus ossos como os galhos de uma videira seca e infrutífera, desesperadamente tentando sobreviver, usando tudo que tem para sugar tudo que seu coração ainda tem, cada batida gaguejante, cada gota de sangue que ainda circula em suas veias, cada mísera gota de emoção que ainda consegue penetrar o vazio.

Se ela era a culpada do próprio sofrimento, então acabaria com ele.

Naquela noite ela fez sua última carta:

"Minhas asas foram arrancadas
Fui lançada do paraíso sem piedade
Meus sonhos despedaçados
Minhas lágrimas regam essa terra perdida.

Tudo está ruindo
Não há certeza no prosseguir de meus pés

A caminhada até aqui tem machucado tanto
Sinto o fogo desse incêndio me abraçar

Ele lambe minha pele como uma provocação
Sua voz sussurra que anjos sem asas são devorados
Não há ar para respirar
Apenas a dor do buraco que cresce onde minhas asas um dia estiveram

Eu posso ouvir o som de tudo sendo destruído
Ruína após ruína, desmoronando
Templos de adoração caindo ao chão com mentiras.
Porque dói tanto?

Oh meu amado
Me proteja em seus braços
Quero senti-lo
Porque nosso amor é um pecado?
Se o que sinto é tão bom?

Eu clamo por socorro
Mas as paredes estalam silenciosamente
Meus pés sangram da caminhada
E meu peito não bate mais

Amar-te-ei hoje
E te amarei por mais mil vidas
Todavia nesta, te deixarei aqui
Meu querido Adônis"

Espero te encontrar na próxima vida
Espero que nessa possamos estar juntos e com o peito livre dizer "amo você"

Te peço perdão

Eternamente sua."



No outro dia no final da aula o rapaz encontrou a carta, entretanto ele não a abriu na hora, ele estava ocupado vendo sua amada ir embora no carro daquele monstro.

Ele assim como todos havia percebido o corte em seu belo rosto, mas só ele sabia realmente o que causará o corte. O sangue em suas veias ferve com ódio e culpa impotente, ele quer tirar sua amada das mãos daquele homem, mas como tirar o poder das mãos do Delegado de sua pequena cidade?

Como tirar o poder da única autoridade por ali, mesmo que ele convencesse sua mãe e todo o corpo docente de que ele está certo, quem pode garantir que eles terão coragem para fazer algo?

Ele respira profundamente com o coração pesado, uma hora ou outra as coisa iriam voltar a andar nos trilhos outra vez, talvez daqui alguns anos quando estivesse casados, com filhos que nomearam em jogo bobo na biblioteca, eles olhassem no olhos um do outro e dissessem "tudo bem, já passou".

Ele não sabia o quão enganado estava.

O dia na casa da garota fora totalmente normal como todo os outros, ela fez suas tarefas domésticas, escolares, recebeu algumas críticas de seus pais, fora questionada do porquê não podia ser uma filha melhor, jantou e foi para cama.

Porém algo diferente aconteceu aquela noite, a doce menina se levantou da cama quando todos já estavam dormindo, ela desceu as escadas da casa enquanto todos já sonhavam, pegou duas cartelas dos calmantes da mãe e foi ao banheiro, enquanto todas as luzes já estavam apagadas.

Ela se olhou no espelho, os olhos já opacos e sem vida, cabelos castanhos sujos e quebrados, se ela estava desistindo? Não, ela tinha esperança, que se existisse mesmo outra vida após essa ou até mesmo uma reencarnação como seu namorado acreditava, que ela pudesse se encontrar mais uma vez com ele e fazer tudo que essa vida lhe impede.

Os comprimidos desceram pela garganta com mais facilidade do que ela havia planejado, "esse não é o fim" ela pensou sorrindo consigo mesma, como um consolo mal feito, então ela jogou as cartelas fora sentindo sono os calmantes começarem a fazer efeito.

Ela foi para seu quarto, se deitou, se cobriu por completo como sempre fez e fechou os olhos sentindo o sono da morte chegando cada vez mais perto.



Quando chegou perto de sua hora de dormir, o garoto abriu a carta de sua amada, o que poderia estar escrito ali hoje? Seria mais uma jura de amor? Um acontecimento diário? A explicação para aquele corte? Nenhuma das anteriores estava certa, o que encontrou ali foi a desistência da vida.

Ele mal havia acabado de ler quando saiu da cama calçando o primeiro par de tênis e um casaco que encontrou, antes de pegar as chaves do carro da mãe sem ligar para broncas ou multas e dirigiu para a casa da namorada sem dar a mínima para o limite de velocidades, em todo o percurso tudo que sua mente conseguia realmente registrar era seu desejo que tudo não passasse de uma confusão, um susto, ou que ao menos ele chegasse a tempo.

"Por que eu tenho que morar tão longe de você? Por favor ainda esteja aqui, eu imploro"

Ele mal se importou em estacionar o carro corretamente na calçada, pulando do banco do motorista e batendo a porta sem se importar com a educação.

O rapaz tocou a campainha desesperado, berrando em plenos pulmões para que abrissem a maldita porta, seus olhos derramaram lágrimas intermináveis que ele não se importou de conter ou secar, parecia que mais uma vez eles estavam debaixo daquela poste de luz há dois anos e isso só serviu para aumentar sua agonia.

Seu sogro atendeu a porta com o rosto cansado e inchado de sono, por ser despertado me plenas duas horas da manhã, porém bastou um olhar para o olhar confuso e cansado se transformar em ódio e nojo.

— O que quer aqui? Eu não te aceitou ou dou permissão para entrar na minha casa — O homem parrudo a sua frente, ameaçou.

Ignorando totalmente o homem, o rapaz correndo para dentro da casa, mal se importando com leis de invasão quando subiu as escadas indo direto para o quarto da garota, se lembrando da planta da casa que a garota já havia lhe desenhado em um jogo para planejar a casa deles.

Ele abriu a porta encontrando seu anjo totalmente coberto por uma coberta grossa e aparentemente dormindo, mas algo estava errado, ela não estava respirando.

O garoto entrou em desespero, descobrindo a namorada em desespero, seu pijama lilás não tinha sangue, mas o mesmo se refletia em suas bochechas sem cor. Ele podia ouvir o sogro gritando para que "aquele demônio fosse expulso da sua casa", mas não lhe deu atenção, não havia tempo para exorcismos sem sentido ou brigas desnecessárias, ele pegou a garota no braços sentindo o corpo frio contra sua pele quente e o desespero crescendo cada vez mais em seu peito agitado.

Ele procurou qualquer sinal de vida.

Qualquer coisa.

Não havia nada.

Nem ao menos uma respiração fraca.

Ele abraçou o pequeno corpo e chorou, um choro de cortar o coração e amaldiçoou tudo que podia, expôs sua dor da forma mais crua possível, ele podia sentir sua sogra o puxando dizendo que soltasse sua filha, aquela foi a pior madrugada de sua vida, seu mundo havia acabado junto com a vida da garota que sempre amou.



Após uma semana da trágica morte da menina, todos no bairro ou no colégio e principalmente na igreja ouviram a história, ou foram convencidos pelos pais da garota de que ela havia sido assaltada quando saiu para comprar remédios e morreu após ser baleada.

Não houve funeral ou qualquer tipo de homenagem a garota, o pai cremou o corpo dizendo:

"Ela já está condenada ao inferno mesmo".

E nada fora comentado por uma semana, até o garoto aparecer em sua porta outra vez.

— Ela está morta por sua culpa — Ele acusou furioso, sem se importar com reputação a manter ou o que infernos eles valorizassem, sua amada estava morta e os assassinos andavam livres.

A mulher começou a chorar, mas o homem, ele tinha absoluta certeza de que a culpa era do garoto.

— Não seu endemoniado do inferno, se você não tivesse entrado na vida da minha filha, ela estaria viva, foram os demônios que você carrega que fizeram ela se matar, você sempre foi uma má influência pra ela, o único culpado aqui é você. Eu apenas tentei proteger a minha filha. — o homem disse encarando o garoto com ódio.

A culpa e a raiva preencheram o peito do rapaz, ele levantou o punho dando um soco no rosto do ex-sogro, o vendo cair no chão com a mão massageando seu queixo ferido.

Fodasse se ele fosse preso por desacato a autoridade.

— Ela só chegou onde chegou quando estava com vocês, ela só se machucou com vocês, ela só chorou perto de vocês; quando ela estava comigo ela sorria, cantava, ela vivia de verdade, os únicos monstro que vejo são vocês — disse cuspindo sua raiva.

— Então por que ela só fez isso depois de te conhecer? — Foi o que a mãe da garota perguntou, com tanto nojo e raiva implícitos em seu tom que ele se sentiu furioso.

Mas... Era verdade não era?

— Não sou eu que abusei da minha própria filha em nome de Deus — Ele vociferou sentindo o olhar dos vizinhos o acompanhar em sua partida.

Ele chorou silenciosamente desejando aplacar a dor em seu peito, calar as vozes que repetiam e diziam que ele também era um culpado, que havia um dedo seu ali, se não tivesse se relacionado com a garota, ela estaria viva agora, com alguém melhor que ele, alguém que os pais dela aprovassem, alguém que não a faria sofrer.

Ele andou por horas a fio tentando se convencer que não tinha sido sua culpa, uma garrafa com algo que ele sabe que é alcoólico, mas agora horas depois nem mesmo o sabor da bebida está sendo registrado com precisão.

Sua mente luta em argumentos que variam de culpado a inocente, mas todos os que o apontam como culpado, são tão convincentes, ele se obra de quando ambos estavam debaixo daquele poste de luz atrás do prédio do refeitório, corações abertos e confissões amargas.

Ela disse que seria difícil.

Ele deveria ter acreditado nela.

O mancebo tropeçou aqui e ali sem rumo, até que percebeu que estava no parque onde haviam se conhecido, um raro dia onde sei ex sogro não havia buscado sua amada, preso dentro da delegacia.

Ele sentiu vontade de gritar para que onde sua amada estivesse pudesse ouvir o seu lamento, talvez ele tenha feito isso, ele não tem certeza de como andou até a ponte da parque, talvez o som alto e cheio de dor que ele ouvir era ele se entregando angústia bêbada.

Olhando o rio descer em alta velocidade em direção ao sul da cidade, diferente do que alguns pensavam o rio que corria debaixo da ponte era fundo e tinha uma forte correnteza, ele se lembrava com clareza daquele dia, garota não conseguia segurar todos os livros da escola, ele ainda conseguia vê-la cambaleando pela ponte buscando equilíbrio para segurar todos os livros.

O momento em que suas mãos se tocaram quando ele ofereceu ajuda, tudo estava acabado, não haveria mais nada disso, ele sentia que a morte o levou junto a ela, como se seu espírito entendesse que não havia uma maneira de mantê-los separados.

Foi quando a pequena ideia foi sussurrada em sua mente, "então porque não me juntar a ela?", nada o prendia aqui.

O garoto abriu a mochila que estava pendurada em seu ombro e pegou seu carderno e uma caneta, ele não se demorou em seu escrito, antes de dobrar a folha e a guardar na bolsa a abandonando no chão da ponte com um sorriso, antes de respirar fundo e subir no guarda-corpo, sussurrando para si.

— Esse ainda não é o fim.

E por fim se jogou indo de encontro às águas geladas do rio.

O corpo do jovem rapaz fora encontrada na madrugada do outro dia, extremamente gelado, sua mochila também fora encontrada horas antes, nela encontraram a seguinte carta:

"Meus sonhos foram destruídos
Meu pequeno anjo morto
Minha esperança roubada
Não existe mais horizonte

Nada mais faz sentido
Eu não acredito mais nesse conto de fadas
Estou andando nas ruínas do que já foi um lar
As cores fugiram de meus olhos
Está tudo tão opaco

Talvez em outra vida
Talvez em outra hora
Tudo possa ser diferente
E eu possa segurar meu anjo em meus braços

Mas já que a vida me tirou tudo
Desertarei de tudo
Se em vida não pude tê-la
Em morte terei

Afinal a morte não é o fim"

Espero te encontrar na próxima vida
Espero que nessa possamos estar juntos e dizer com o peito livre "amo você"

Eu te perdoo

Eternamente seu."




Escrevi isso há muito tempo, nunca dei nome aos personagens, talvez um dia eles ganhem nomes.

Oct. 5, 2021, 5:06 a.m. 0 Report Embed Follow story
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The End

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G.K Pereira ★ Bem vinde ao meu perfil, eu escrevo de tudo então tem de tudo um pouco aqui, aproveite bastante. ★ Aceito recomendações e indicações de livros, principalmente BL e LGBTQIAP+ ★ Gosto dos gêneros: YAOI/BL, ABO/Omegaverse, Romance, aventura, Lobisomens. ★ Libra – ISFJ – Elu/Delu. ★ Genderfluid: Não se assuste se eu comentar na sua história usando um pronome e na outra semana eu usar outro pronome, é algo normal ^^ ★ Wattpad: Geekey_Loves_Ikyrinn

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