antonio-stegues-batista Antonio Stegues Batista

A esposa de Jonas foi embora. Ao mesmo tempo, ele recebe a notícia que sua mãe faleceu. Para completar a desgraça, um meteoro se dirige para a Terra.


Short Story All public.

#drama #apocalipse
Short tale
0
1.5k VIEWS
Completed
reading time
AA Share

O meteoro

Astrônomos do observatório astronômico Athena, descobriram um meteoro escapando da orbita solar e se dirigindo em colisão com a Terra. Calcularam o tamanho, a rota, o horário e o local da queda. O bólido de 9 quilômetros de diâmetro, cairia na região do Amazonas no dia 21 de fevereiro, às 12 horas e 44 minutos. Dali a 10 meses.

Um vídeo de autoria anônima, apareceu nas redes sociais mostrando a trajetória e o estrago que o meteoro faria no planeta. O pronunciamento do presidente da República, anunciando o fato, alertou o mundo todo. Providencias foram tomadas para preservar o maior número de vidas. Populações do Amazonas, incluindo indígenas, começaram a serem evacuadas.

Pessoas no mundo todo se prepararam para tentar sobreviver à catástrofe, construindo abrigos subterrâneos, estocando alimentos e passando a morar no fundo de cavernas a espera do impacto. Outros se desesperaram. Em alguns países a taxa de suicido aumentou 70%.

A maioria da população seguiu a vida normalmente, não acreditando nas previsões nefastas.

****

Dez meses depois...

52 HORAS PARA O IMPACTO

Salvador, Bahia.

Era sexta-feira. Jonas estava em casa colocando umas peças de roupa na mala para viajar na manhã seguinte, quando o telefone tocou.

─ Alô?

─ Jonas?

─ Sim.

─ Aqui é o Carlos. A Elvira me pediu pra avisar que tua mãe faleceu. O enterro é amanhã as quinze horas. O velório é na capela do cemitério do município. Meus pêsames.

─ Obrigado por avisar.

Desligando o celular, ficou parado, pasmo. Sentiu remorso mais do que tristeza. Não via a mãe há quase dois anos. Precisava ir ao enterro.

A mãe morreu. Sentiu magoa por não ter ficado com ela o tempo todo. Saiu de Serrinha, cidade do interior da Bahia, para trabalhar em Salvador num banco do estado. Ganhava bem, conseguiu alugar uma casa e comprar um carro usado, mas em boas condições.

Um pensamento o deixou aflito. Havia prometido se encontrar com a esposa em Aracajú, para discutir a reconciliação. Eles haviam brigado e ela o abandonou, indo para a casa dos pais. Naquela semana, Selma concordou em conversar, entrar num acordo. Ele precisava mostrar que estava disposto a mudar, prometer cumprir as regras de um bom casamento. Cancelar alguns hábitos nocivos, evitar atitudes inconvenientes. Enfim juraria diante dela que mudaria suas atitudes e hábitos nocivos a um bom relacionamento.

Precisava telefonar para dizer que não poderia ir a Aracaju.

Acessou um número. Do outro lado, uma voz de homem se fez ouvir. O pai de Selma.

─ Residência dos Figueira. Quem é?

─ Sou eu, Jonas. Queria falar com Selma, por favor.

Procurou ser educado, pois sabia que o velho não o tinha em boa conta. Ainda mais depois da separação.

65 segundos depois; ─ Alô? Jonas? Vai vir ou não?

─ A mãe faleceu. Não vou poder ir esse fim de semana.

─ Não acredito que você inventou essa desculpa prá não vir conversar comigo cara a cara!

─ De forma alguma eu ia mentir uma coisa dessas, Selma! Vou ter que ir no enterro. Fica mal eu não ir.

─ Eu não vou poder ir. Pela lei trabalhista você tem direito a sete dias de folga. Vou te esperar semana que vem, segunda-feira. Se não vier, não venha mais. Chega de desculpas para não cumprir com tuas obrigações, Jonas. Aliás, nem sei se estaremos vivos segunda-feira com essa história do meteoro. Então é isso, Jonas, se tu não vieres segunda-feira, vou considerar que é uma separação definitiva, que você não gosta mais de mim. Aliás, eu também nem sei se gosto de você pois não sinto a tua falta. Tchau!

Jonas ficou chateado. Selma nem se importou com a morte da sogra. Não podia culpá-la, as duas não se davam bem. Assim como ele não se dava bem com o sogro.

Resolveu chegar no velório pouco antes do sepultamento, às 15 horas. Assim, não precisaria permanecer muito tempo na cidade. Sabia que os parentes o tinham como um desclassificado. Um tio o chamou de vagabundo por estar vivendo à custa da mãe, no tempo em que vivia com ela.

A causa era a sua má conduta nos empregos. Se o patrão xingava, mesmo tendo razão, ele retrucava e logo era despedido. Acreditava, sem razão, que era má sorte. Estava enganado. Era sua índole impulsiva, explosiva.

Na cidade grande foi obrigado a aprender controlar seus impulsos, sua rebeldia, seu espírito selvagem.

****

45 HORAS PARA O IMPACTO

Serrinha, Bahia.

Chegou ao velório às 14hrs e 30 min.

Sem olhar para os lados, foi direto ao caixão. A mãe estava com um lenço branco sobre o rosto. Mentalmente fez uma prece. Pediu desculpas por não ter vindo antes. Desejou que ela encontrasse a Luz, que ficasse livre de todos os vínculos terrestres, de todas as mazelas do mundo material.

Estremeceu ao sentir uma mão em seu braço. Era sua irmã, Elvira. Ela retirou o lenço do rosto da defunta para ele ver. A mãe estava sorrindo, um riso sardônico. O rosto carrancudo havia se amenizado, embora tivesse uma cor cinzenta, parecia rir da própria morte.

Ele lembrou que ela sempre foi durona, queria tudo certinho, casa sempre arrumada. Muitas vezes apanhou de chinelo por entrar em casa com os pés enlameados. Agora aquilo tudo parecia ter sido inútil.

Ele se sentiu indisposto, ali, à vista de todos.

─ Vou sair um pouco.

A irmã o acompanhou. Ficaram afastados da entrada.

─ Quer um chá?

─ Tem café?

─ Não, só chá. Quer? Eu vou buscar um copo.

─ Não gosto de chá. Me diga, do que a mãe morreu?

Elvira ficou ainda mais séria. Os olhos fundos ficaram cheios de lágrimas. Ela enxugou com o lenço.

─ Mamãe já não estava boa da cabeça. Ficou pior quando soube da história do meteoro. Você sabe que ela sempre foi religiosa. De uns tempos para cá, começou a ter alucinações. Qualquer coisa fora da rotina, do normal, dizia que era obra do diabo. O Mateus queria interná-la numa clínica, mas eu decidi que não. A levamos no médico e o diagnóstico foi demência senil. Mamãe já não tinha capacidade de raciocinar com clareza. Quando soube pela televisão sobre o meteoro, achou que nós iriamos morrer esmagados pela pedra. Ontem de manhã, levantou cedo e fez café. Quando acordamos a encontramos na cozinha, com o café pronto e as xícaras sobre a mesa. Disse que havia colocado veneno para nos tomarmos. Que era melhor morrermos envenenados do que esmagados pela pedra. Claro que nós não tomamos o café, mas infelizmente ela sim, já havia tomado uns goles.

─ Morreu sorrindo.

─ Por causa do veneno. O médico disse que os músculos da face ficam repuxados.

─ Você deveria ter me telefonado antes.

─ A gente fez tudo o que podia por ela. E a Selma, não veio com você?

─ Estamos separados. – Jonas ia dizer mais alguma coisa, quando alguém apareceu por trás dele. Levou alguns segundos para reconhecer Gloria Assunção, Glorinha. Eles se conheciam desde os tempos do ensino primário. Foram amigos inseparáveis até o dia em que ele partiu da cidade, há nove anos. Ele sabia que a garota o amou naquele tempo, mas nunca conseguiu sentir a mesma coisa por ela. Gostava dela por sua cumplicidade. Glorinha era inteligente, sempre lhe deu bons conselhos na época. Boa e humilde, era o que ela era. Às vezes, ingênua.

Glorinha o abraçou dando os pêsames, fez o mesmo com Elvira.

─ Lamento o que aconteceu com dona Candinha. Fiquei com muita pena dela. Desejo que ela descanse em paz.

─ Obrigado. – respondeu Elvira. – E você, como está?

─ Tudo bem. Aliás, mais ou menos. Estou apreensiva com essa história do meteoro e o fim o do mundo.

─ Acho que é mentira. Não vai acontecer nada.− afirmou Elvira.

─ Você acha? Nós estamos preparando tudo para ir para a mina abandonada. Papai disse que é o melhor lugar pra gente ficar. Ele não tem certeza mas acha que é melhor nos prevenir. Vocês não querem vir conosco?

─ Vou precisar convencer o Mateus.− respondeu Elvira.

─ Eu quero me despedir de dona Candinha. Você me acompanha?

─ Claro!

As duas mulheres entraram na capela mortuária. Jonas puxou a carteira de cigarros do bolso e acendeu um cigarro. Aquela história de fim do mundo, a decisão insana da mãe, o deixava letárgico, sem condições de tomar uma atitude para a sobrevivência, tanto do corpo quanto da razão.

Às 15 horas, Dona Cândida foi enterrada. Na saída do cemitério, Jonas se despediu da irmã e do cunhado.

─ Não quer dormir lá em casa e viajar manhã? Tem algum compromisso urgente?

─ Não, nenhum compromisso.

Glorinha aproximou-se.

─ Já vai embora? Não quer ficar na mina? Nós vamos para lá amanhã.

─ Nós já vamos.− disse Elvira. ─ Se mudar de ideia, sabe onde moramos.

Ela e o marido se afastaram, deixando os dois a sós para conversarem. Jonas estava hesitante, indeciso. Não havia decidido o que fazer. Selma havia posto um fim no casamento deles dizendo que não sentia falta dele. O seu mundo tinha acabado. Agora parecia flutuar a esmo num mar revolto.

─ Estou com medo− confessou Glorinha. ─ Gostaria muito que você ficasse do meu lado quando o meteoro cair.

Ele observou o rosto dela e achou que Glorinha estava sendo sincera, como sempre foi. Parecia frágil, indefesa. Considerou a possibilidade de ficar. Não tinha nenhum compromisso. Tudo ficaria em suspenso até a hora final.

─ Ok. Aceito o convite.

O rosto de Glorinha se iluminou com um largo sorriso.

Ela entrou no carro dele e eles partiram para o sítio. Os pais de Glorinha o receberam com cordialidade. Ficaram satisfeito de verem os dois juntos. Jonas os ajudou a carregar os mantimentos para a caminhonete e outros objetos que seriam uteis durante o confinamento. Um gerador de energia já tinha sido instalado para garantir eletricidade. Eles partiriam para a mina na manhã seguinte.

─ Já levamos muitas outras coisas pra lá. ─ disse o pai de Glorinha. ─ Outras duas famílias vão estar conosco. Eles já prepararam tudo para a gente ficar lá pelo menos uns quarenta dias, sem precisar sair.

─ Eu não tenho acompanhado as notícias. Disseram onde o meteoro vai cair?

─ Perto de Roraima.

Os noticiários da televisão mostraram as longas filas de carros deixando a região do Amazonas. Imagens do México e Estados Unidos exibiam os preparativos da população para enfrentar a catástrofe. O mesmo acontecia na Venezuela, Guiana e Suriname. Governos da Europa avisavam a população sobre as alterações climáticas que iria ocorrer após o impacto.

Dona Lurdes, mãe de Glorinha, queria que a filha cedesse o quarto dela para Jonas dormir, mas ele recusou, disse que ficaria bem no sofá da sala.

Como estava em casa estranha, demorou para pegar no sono. Mal tinha adormecido quando sentiu alguém deitar ao seu lado. Na obscuridade da sala, percebeu que era Glorinha. Ela não esperou ele despertar completamente. Fazia anos que desejava aquilo. Jonas não conseguiu resistir, afinal, não era de ferro e o mundo iria acabar dentro de algumas horas.

Após a explosão dos sentidos e emoções, Glorinha ainda ficou alguns instantes sobre ele, murmurando juras de amor. Depois voltou para o quarto, tão leve e sorrateira como uma gata na escuridão da noite.

Jonas não conseguiu mais dormir. Para Glorinha, aquele ato seria como uma corrente que os ligaria para sempre. Mas ele não queria nenhum compromisso com ela. Nos primeiros clarões do dia, se vestiu, saiu, pegou o carro e foi embora. Precisava conversar com Selma. Achava que ainda havia chances de salvar seu casamento.

30 HORAS PARA O IMPACTO

Aracaju, Sergipe.

Chegando na cidade, Jonas foi direto para a casa dos pais de Selma. Apertou a campainha, bateu na porta, mas ninguém atendeu.

─ Eles foram embora.− disse a vizinha, na janela da casa ao lado. ─ Se mudaram de manhã cedo.

─ Sabe pra onde?

─ Bariloche. Acharam que é o melhor lugar pra escapar do meteoro. Acho isso tudo uma bobagem. Não vai cair meteoro nenhum. Quantas vezes disseram que o mundo ia acabar e não aconteceu nada? Eu vou ficar por aqui. Não quer entrar um pouco?

─ Não. Obrigado.

Jonas voltou ao carro e partiu. Almoçou num restaurante. Tentou dormir no carro, mas não conseguiu. Partiu em seguida.


20 HORAS PARA O IMPACTO

Salvador, Bahia.

A primeira coisa que fez ao chegar em casa, foi tomar banho e fazer a barba. Como o café acabou, resolveu ir ao mercadinho comprar. A rua estava deserta e silenciosa. O mercadinho, estava fechado. Decidiu pegar o carro e ir ao Centro.

Quanto ia entrar no veículo, uma voz o chamou. ─ Jonas! Hei!

Era o seu vizinho, Sergio Galvão. Sergio era solteiro, um bom homem. Sempre disposto a ajudar as pessoas. Era fanático por Ficção Científica. Certa vez ele mostrou a sua coleção de livros. Coleção Argonauta com 530 volumes, com os maiores escritores de Ficção Científica, Philip K. Dick, Ray Bradbury, Isaac Asimov e muitos outros. Nas paredes do quarto tinha pôsteres de filmes antigos, Planeta dos Macacos, Contatos Imediatos do Terceiro Grau e Guerra dos Mundos.

Ele estava parado na porta da casa, com uma latinha de cerveja na mão.

Vestia uniforme militar de combate.

─ Te chamei ontem. Não respondeu. Pensei que tinha ido embora para o sul, se esconder do meteoro. Não está assistindo à televisão?

─ Está estragada. Não tive tempo de levar na oficina eletrônica.

─ Vem pra cá. Vem ver. A CNN está transmitindo a chegada do meteoro.

Jonas abriu o portão e foi até ele. Tocaram-se com os punhos e entraram. A sala estava uma bagunça, roupas atiradas sobre uma cadeira, revistas num canto, mochila, prato sujo de comida no braço do sofá, cascas de banana sobre a mesinha de centro. Quanto ele entrou, Sergio fechou a porta, trancando com uma barra de ferro. As janelas estavam tampadas com tábuas. Havia uma espingarda encostada na parede.

─ Estou me preparando para a invasão dos alienígenas. O meteoro é apenas o início.

Jonas sacudiu a cabeça como que concordando com a previsões do amigo. Sempre achou que Sergio era esquisito e ali estava a prova.

A televisão mostrava a mata amazônica, além de reportagens sobre a fuga das pessoas da região da queda. Sergio foi até a cozinha e voltou trazendo uma lata de cerveja. ─ Eu não tenho visto a Selma. – disse ele, entregando a bebida para Jonas.

Jonas pegou, quebrou o lacre e bebeu um gole. ─ A gente se separou. Ela foi morar com os pais.

─ Que pena, cara! Vocês pareciam um casal tão apaixonado!

─ Tudo acaba um dia.− Jonas não queria falar da esposa. Tinha que esquecer dela. Procurou mudar de assunto. ─ Acho que o estrago não vai ser tão grande.− disse, olhando na televisão, a imagem de um meteoro em chamas caindo sobre o planeta, uma demonstração de como seria a queda. Faltavam poucas horas para o impacto real.

─ Também acho que não vai dar em nada.

─ Você tem café?

─ Não, não tomo café. Tem Nescafé, comprei para as visitas. Quer?

─ Café instantâneo tem gosto de mijo de vaca.

─ Como você sabe? Já bebeu mijo de vaca?

─ É sentido figurado. − colocou a latinha sobre a mesinha de centro. ─ Vou no supermercado da esquina comprar café.

Sergio tirou a tranca, abriu a porta.

─ Vem pra cá depois. Pra gente ver o meteoro chegando.

Jonas sacudiu a cabeça e seguiu pela rua deserta. Atrás dos prédios o céu estava vermelho. O Sol se punha no horizonte. Todas as casas estavam com portas e janelas trancadas. Os moradores foram embora, ou estavam escondidos dentro de casa. A noite caia, silenciosa e triste. O único barulho era o ruído dos seus passos na calçada. Logo descobriu que o supermercado também estava fechado. Mas uma porta lateral estava entreaberta. Alguém havia arrombado. Havia poucos produtos nas prateleiras. Nenhum pacote de café. Tinha latas de café instantâneo, coisa que ele detestava.

Saindo, avistou um homem deitado num dos bancos da praça. Era um mendigo, um sem-teto, enrolando-se num cobertor para passar a noite. Ao lado estava dois sacos de plástico com os seus parcos pertences.

─ Por acaso, você tem café?

O homem abriu os olhos, coçou a barba, olhou de um lado para outro e voltou a fixar os olhos em Jonas.

─ Você tem pó de café? – repetiu.

O sujeito sacudiu a cabeça, negando.

─ Tenho Nescau.

Jonas resolveu voltar para casa. Concluiu que precisava era dormir. Passando pela farmácia, arrombou a porta e pegou alguns frascos de ansiolíticos.

*****

Acordou com o corpo dolorido. A cabeça parecia inchada. A sensação era de uma tremenda ressaca. O relógio de cabeceira marcava 9hrs 31min AM. Nenhuma claridade do dia entrava pelas frestas da veneziana. Se lembrou que havia tomado alguns comprimidos para dormir. Se era de manhã do dia seguinte, o meteoro ainda não havia caído. Pensando em telefonar para a irmã, pegou o celular. A hora no aparelho era a mesma, mas o dia era 24. Ele havia dormido três dias seguidos? Um sono tão pesado como se tivesse ficado em coma por 3 dias! O meteoro já havia caído. Tentou ligar para a irmã, mas não havia sinal de telefone, tampouco de internet. Coisa estranha.

Foi para a cozinha fazer café, mas se lembrou que não tinha. Bebeu um copo de leite com biscoito amanteigado e depois saiu. Na porta, acendeu um cigarro. Embora fosse de manhã, o dia estava escuro como a noite. Nuvens amarronzadas rolavam para o sul. Uma fina poeira cobria a rua. Por um instante observou a penumbra e o silêncio sepulcral.

46 HORAS DEPOIS DO IMPACTO.

As casas continuavam fechadas e desertas. Havia luz numa das janelas da casa de Sergio. Foi até a porta e bateu.

─ Sergio!

Sem resposta, torceu a maçaneta e abriu a porta. Sergio havia esquecido de trancar, ou deixou aberta para que ele entrasse. Ele estava deitado no sofá, de olhos abertos, os lábios pálidos. Frio e rígido. Sergio estava morto. Fulminado por um infarto.

Jonas pegou o controle remoto e ligou a televisão. As notícias sobre a queda do meteoro, não eram boas. As imagens e os repórteres anunciavam o caos provocado pelo meteoro. Uma nuvem espessa de poeira, misturada a nuvens de vapores, expelidos por vulcões que surgiram em toda parte, cobriam o sol. A Terra logo entraria numa nova Idade do Gelo. No hemisfério norte, as populações morriam de frio, no equador, morriam pelos gases dos vulcões. A humanidade sucumbia.

Jonas resolveu ir ao encontro de Glorinha. Talvez tivesse tempo de lhe dar um último abraço. Pegou o carro e partiu. As rodovias estavam congestionadas por veículos de todo tipo. As pessoas tentavam fugir, mesmo sem saber para onde. Jonas pegou uma estrada vicinal.

Ao passar por Feira de Santana, viu no horizonte, uma nuvem comprida rente ao solo. Era a poeira mortal. Parou o carro em frente a um restaurante. Estava deserto, abandonado às pressas.

Jonas serviu-se de café e sentou-se numa mesa para beber tranquilo. Realizava seu último desejo.

July 3, 2021, 1:45 p.m. 0 Report Embed Follow story
0
The End

Meet the author

Comment something

Post!
No comments yet. Be the first to say something!
~