quinjinzinho Ellie

(Namjin) Em um casarão isolado de Florença, dois mundos opostos se encontram quando Kim Namjoon, um mecenas sobrinho do banqueiro, é obrigado a conviver com o ladrão Kim Seokjin, que põe em xeque todas suas noções de beleza, justiça e amor. *Inspirado nas obras de Shakespeare.


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#drama #jinjoon #namjin #bts #jinnam #rapjin
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Itálico I; Entre campos de lavanda e pilhas de florins

Notas da autora: Olá, pessoal. Antes de tudo tenho alguns avisos.

Bem, eu fiz essa oneshot inspirada em textos de peça de teatro, porém com algumas alterações. Por exemplo, coloquei narração e também descrições para ficar mais compreensível já que normalmente é só um "(Sai)" ou "(Desmaia)"shuahsuash. No entanto eu mantive o nome dos personagens antes das falas e também coloquei uma divisão de atos e cenas ao invés de apenas uma quebra de tempo (só porque eu achei fofo kk).

A história se passa no período da alta renascença (por volta de 1500) na Itália (que ainda não tinha esse nome já que não era unificada, enfim). Eu tentei o máximo manter uma fidelidade com o contexto histórico da época, mas já peço desculpas se deixei algo passar ou usei algum termo contemporâneo.

Como eu sempre falo, não gosto de falar sobre os desfechos das minhas histórias, mas se você consegue esperar que tudo vai dar certo em uma TRAGÉDIA inspirada nas obras de SHAKESPEARE, eu admiro seu otimismo shaushaush.

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✼ Ato I ✼

Cena I

Propriedade do banqueiro

Se Hamlet fora o primeiro homem moderno, Kim Namjoon era orgulhosamente o segundo. O próprio modelo dos intelectuais de Florença, um filósofo integro com inclinações tanto para o campo artístico, quanto para o de exatas. Não seria um exagero dizer que existiam famílias dispostas a matar apenas para ver alguma de suas filhas casadas com o herdeiro de um dos maiores banqueiros da região, entretanto, o jovem ria a cada oferta de compromisso, não porque se achava em um patamar inalcançável, mas justamente porque via graça na idealização de sua pessoa. O que o distinguia dos artistas que padeciam nas margens do canal de Veneza era simplesmente um bocado de dinheiro que vinha do seu tio e que jamais teve que mover um dedo durante boa parte de sua vida para conseguir.

Quando mais novo, se via como uma pilha de moedas com pernas, até que decidiu que se era isso que as pessoas tanto esperavam dele, era isso que iriam receber. Financiou artistas de cada lugar que viajava, descobria prodígios, montava estúdios, pagava materiais e viagens para qualquer um que soubesse manejar um pincel.

Em pouco tempo se tornou um dos mecenas mais importantes da província de Toscana.

Não esperava retorno, mas ele veio como consequência do talento de seus pupilos. Diversos magnatas ficavam surpresos em como Namjoon havia conseguido ganhar tanto dinheiro comercializando arte, chegavam a pedir dicas de como entrar no mercado que antes julgavam como uma futilidade sem futuro.

Ainda morava na propriedade de seu tio, não para tirar vantagem, mas simplesmente por estar acostumado com o local, gostava dos serviçais e, principalmente, de ficar próximo a irmã mais nova, mas isso era temporário, em breve a donzela estaria se casando com um homem que Namjoon julgava muito respeitável e com propriedades o suficiente para desposar a jovem. Por isso o aristocrata já planejava seu futuro bem longe da casa do banqueiro, era grato por ter o acolhido junto de sua irmã, porém a cada dia ficava mais clara a diferença entre a sua filosofia de vida e de seu tio, e para um filósofo isso há de ser importante.

IRMÃ — Vais sair? — A garota apoiou as mãos no parapeito da janela enquanto observava o irmão selar o cavalo.

NAMJOON — Sim, mas hei de retornar antes do jantar — respondeu colocando a mão em frente ao sol do fim de tarde que o impedia de ver sua amada irmã. — De qualquer forma, não peça para me esperarem, sim?

IRMÃ — Farei isso. Cuide-se, meu irmão, espero não precisar lhe alertar novamente dos perigos de cavalgar sozinho por aí. Ainda estão procurando os criminosos que saquearam a propriedade dos Médici. Ai de mim imaginar tu esbarrando com esses malfeitores.

NAMJOON — Vosso irmão sabe se cuidar. — Colocou o pé na pedaleira e montou no animal. — Até mais, minha cara.

IRMÃ — Até! — Sorriu acenando fervorosamente.

Cena II

Bosque

Já fazia parte de sua rotina pegar seu cavalo favorito e desbravar cada canto da cidade, gostava de ver paisagens novas, imitar Sócrates e conversar com a plebe a respeito da vida. Às vezes encontrava algum dos pintores que patrocinava e perdia a noção do tempo os ouvindo falar a respeito de seus futuros projetos, Namjoon já havia aprendido que eles não precisavam apenas de seu dinheiro, mas também sua atenção. Gostava de pensar nos artistas como seus afilhados.

Quando notou já estava enfiado em um bosque de bétulas que jamais havia visto na vida. Os troncos brancos e finos possuíam pouco espaço entre si e o cavalo já parecia estressado em ter que passar por aqueles espaços apertados. Namjoon desceu do equino e o amarrou em uma árvore, ainda não queria ir embora, gostava de explorar lugares novos. Se para encontrar-se é necessário perder-se, ele aceitaria de bom grado cada perdição em seu caminho incerto. Mal sabia ele que a maior delas estaria o esperando ao fim daquela trilha.

Suas botas pisoteavam folhas amareladas enquanto pensava em o que sua irmã havia falado, talvez devesse voltar, já era quase noite. Passou a caminhar com a mão na bainha de sua espada apenas como precaução.

Sentiu-se quase decepcionado quando notou que já havia atravessado o bosque, ele parecia tão grande, por um momento chegou a acreditar que ele possuía potencial para alguma aventura, quem sabe um animal selvagem ou dormir ao relento. Entretanto ali estava uma planície que não demonstrava nenhum desafio, apenas um córrego cristalino e raso que refletia o céu noturno. Quase que como uma criança, colocou o pé na água para medir a profundidade e constatou que não era o suficiente nem para um banho sequer.

Suspirou colocando as mãos nos bolsos e virou-se vendo um homem parado no outro lado da margem. Estava escuro e sua visão jamais fora algo que se orgulhasse, não importava o quanto estreitasse os olhos, era incapaz de enxergar o rosto do cavalheiro, então decidiu dar meia volta e buscar seu cavalo, entretanto, uma catástrofe pode começar com a coisa mais banal possível.

Um passo em falso sobre as rochas molhadas e Namjoon estava caído. Com o corpo parcialmente dentro da água, sentia suas roupas encharcadas e ainda um tanto tonto por ter batido a cabeça em uma pedra na queda. Visto isso, sequer notou quando o homem veio em passos rápidos em sua direção, apenas viu a figura em pé. Por um segundo achou que seria um bem feitor oferecendo-se para ajudá-lo a levantar, no entanto, sentiu seu sangue parar de fluir por suas veias quando a lâmina da rapieira foi colocada contra seu pescoço como se fosse uma lança pronta para atravessá-lo.

SEOKJIN — Quem o mandou até aqui? — O homem questionou firmemente sem afastar a espada. — Trabalha para os Médici? — gritou pressionando mais ainda a ponta contra sua pele.

Namjoon não conseguiu focar em nenhuma de suas ameaças, apenas piscou observando o rosto daquele que estava com a sua vida em mãos.

SEOKJIN — Anda! Fale antes que eu o mate!

NAMJOON — Você é lindo.

Seokjin jamais imaginou vacilar daquele jeito, suas mãos apertaram com mais força o cabo da arma, mas apenas para descontar a raiva que sentia de si mesmo por não conseguir fazer o que era o esperado dele. Mas como poderia matar alguém que dedicava suas últimas palavras para dizer algo como aquilo?

Era uma atitude patética. Que implorasse por sua vida! Seria mais digno do que um golpe baixo como aquele. Mas para a infelicidade do ladrão, aquilo havia funcionado, seu rosto estava quente como se tivesse bebido um barril inteiro de vinho.

Enquanto isso Namjoon conseguia pensar apenas em como aquele homem parecia perfeito, mesmo de cabeça para baixo.

SEOKJIN — Veio com alguém? — Suspirou profundamente e se agachou para retirar a espada da bainha do filosofo.

NAMJOON — Não, mas agora vejo que deveria. — Riu soprado tomando impulso e sentando.

SEOKJIN — Sabes onde está? — Instigou oferecendo a mão para ajudá-lo a levantar.

NAMJOON — Não tenho a mínima ideia, meu senhor.

Seokjin já estava ponderando deixá-lo ir, talvez fosse realmente apenas um andarilho mal afortunado no lugar errado e na hora errada, entretanto, quando observou o brasão gravado no cabo da espada, soube que seu problema era muito maior. Não conseguia acreditar que o sobrinho do banqueiro havia coincidentemente invadido sem planejar a propriedade que ele e seus homens estavam usando como esconderijo enquanto se preparavam para saquear o negócio do seu tio.

NAMJOON — Visto que foi tudo um grande engano, queira me desculpar por tê-lo assustado, prometo que não irá me ver novamente, sim? — falou com uma polidez que não deixava duvidas a Seokjin, era realmente um aristocrata.

Não respondeu, apenas pegou uma corda que estava presa em seu cinto, para emergências como essa, e puxou os braços do filosofo para trás de forma brusca, prendendo seus pulsos com um nó aperto.

NAMJOON — Ora, meu senhor, se a questão é dinheiro, isso não me é um problema-

SEOKJIN — Claro que não é... — O bandido riu soprado, sacando a espada novamente e a colocando contra suas costas. — Anda.

Obedeceu em passos lentos, tentando memorizar o local que estava caso precisasse mostrar o caminho para as autoridades, mas era apenas um campo gigantesco com grama alta, cercado pelo bosque por todos os lados. Seokjin guiou o prisioneiro até a propriedade abandonada que usavam como base. Era um casarão de tijolos, visivelmente mal cuidado, mas grande o suficiente para mostrar que algum dia pertenceu a algum magnata importante.

Entraram por uma das portas que deviam ser destinadas a serviçais, percorrendo corredores com teias de aranha, cortinas rasgadas e moveis já maltratados pelo tempo e os cupins.

Desceram uma escada que dava para o subsolo da casa, e logo Seokjin estava com um molho de chaves na mão, destrancando a porta de um quartinho minúsculo que possuía apenas uma cama e uma mesa com um candelabro.

Seokjin empurrou o aristocrata até que ele estivesse sentado sobre a cama e começou a andar de forma inquieta de um lado para o outro do cômodo.

Namjoon já pensava que havia planejado outras formas de morrer, e acabar com sua existência em um quarto sujo pela espada de um sequestrador, não faziam parte deles. Lembrou da irmã e seu coração apertou com a ideia de nunca mais vê-la, poderia suportar diversas coisas, mas não aquilo.

Viu seu sequestrador sair batendo a porta com força e se arrependeu por todos seus pensamentos sobre desejar viver um perigo, agora que havia sentido a lâmina contra seu pescoço e sido jogado ali, só queria voltar para a monotonia de seus passeios pela cidade e das conversas com os pintores.

Cena III

Um dos quartos do casarão

Passou cerca de meia hora e Seokjin voltou. Ele pegou a cadeira que estava em frente a mesa e girou de modo que conseguisse se sentar ficando cara a cara com prisioneiro.

Com a luz da vela, Namjoon conseguia o ver melhor, era alto, tinha ombros largos, cabelo preto e lábios que pareciam uma pintura de tão bem desenhados. Sabia que em uma situação como essa não deveria estar se deixado levar por seus pensamentos sobre estética e arte, mas o homem em sua frente era a definição de ambos. Sentia que passou a vida inteira usando as palavras sem saber o significado, como se estivesse cometendo uma blasfêmia em falar sobre beleza sem ainda ter conhecido Seokjin.

SEOKJIN — Senhor Kim Namjoon... — Ele suspirou profundamente encarando o chão.

Para o nobre não era nenhuma surpresa que soubessem seu nome onde quer que fosse, por isso sequer se abalou ao ser chamado.

SEOKJIN — Entenda que minha intenção não era de forma alguma lhe causar mal, meus interesses de nada tem a ver com o senhor. — Cruzou as pernas. — Entretanto espero que compreenda que não posso deixá-lo ir.

NAMJOON — Como? — Franziu o cenho. — O que fiz para você? Já falei que se queres dinheiro-

SEOKJIN — Namjoon, eu não quero o seu dinheiro! Já disse, não tenho absolutamente nada contra vossa pessoa, é apenas uma infeliz coincidência tu ser sobrinho de quem é!

NAMJOON — Vais destruir a propriedade do meu tio, não é? — Indagou em um lapso de lucidez ao lembrar do que a irmã havia falado sobre os bandidos que invadiram a propriedade da família de banqueiros Médici.

SEOKJIN — Correto, seu tio destruiu a vida da minha família, assim como a de vários moradores de Florença, estou apenas tentando tomar de volta o que é nosso por direito, após anos de juros abusivos. Por isso preciso que fique aqui, será apenas até concluirmos nosso plano. Me entendes agora?

NAMJOON — Perfeitamente. — O filósofo respondeu sem hesitar, fazendo Seokjin tomar uma expressão de surpresa. Não era todo dia que um herdeiro de um dos maiores bancos de Florença ouvia tão passivamente que planejavam destruir o patrimônio que seria sua herança. — Apenas quero que me assegure que ninguém irá se ferir.

SEOKJIN — Tu tens minha palavra, senhor. Queremos apenas invadir o banco e tomar o dinheiro, não iremos tocar em um fio de cabelo sequer dos funcionários ou de seu tio.

NAMJOON — Bem, então tens meu apoio.

O ladrão riu baixinho achando graça da forma que o aristocrata acreditava que sua aprovação contava para alguma coisa, mas não iria mentir, gostou da sua reação. Se Namjoon realmente concordava com suas ideias, já havia conquistado um pouco da sua admiração.

Levantou da cadeira e soltou a corda de seus pulsos. Agora sabia que o nobre era tão inofensivo quanto um filhote de lebre.

SEOKJIN — Senhor, você realmente não se importa com o fato de que vamos roubar o dinheiro do teu tio? — instigou tentando receber uma defesa mais concreta.

NAMJOON — Veja bem, meu caro. Nunca concordei com os negócios do meu tio, cresci ao seu lado, sei melhor do que ninguém que tudo que tu me dissesses é verdade. — Passou os dedos pelos pulsos analisando a vermelhidão. — Já tenho meu próprio trabalho, minha irmã está prestes a se casar e eu realmente acho um absurdo o tanto de dinheiro que ele acumula explorando a população, então por que eu iria me opor ao seu magnifico plano digno de Robin Hood?

SEOKJIN — És um homem engraçado, Namjoon. — Sorriu cruzando os braços. — Mas fico feliz que pense dessa forma, facilita muito para nós.

NAMJOON — Não sou uma ameaça, podes ter certeza disso.

SEOKJIN — Ainda não posso deixá-lo ir.

NAMJOON — Também concordo com essa parte, é o mais inteligente a se fazer, afinal eu poderia ir até meu tio, mostrar a localização da casa e entregar-te. — Se levantou e colocou as mãos nos bolsos. — Não irei levar para o lado pessoal, disse que são apenas alguns dias, certo? Vou tentar encarar como uma pausa do meu trabalho. Um pequeno sacrifício para um fim justo. — Sorriu ao notar que havia citado Maquiavel sem planejar.

SEOKJIN — Posso contar que, mesmo depois do assalto, quando eu o soltar, o senhor não vai me entregar?

NAMJOON — Jamais faria isso — retrucou firmemente. — No entanto, tenho uma condição.

SEOKJIN — Senhor Kim, não acho que está em lugar de fazer exigências. — Riu baixinho.

NAMJOON — Sempre estamos em condições de expressar nossos desejos — rebateu se aproximando alguns passos. — Mas não veja como uma "exigência", pode ser um trato entre nós dois, a minha parte vai ser permanecer aqui o tempo necessário e nunca contar que sabia quem era o ladrão por trás do golpe.

SEOKJIN — E a minha? Vais querer parte do dinheiro?

NAMJOON — Não quero um florim sequer do meu tio, fique tranquilo. — Sorriu. — Primeiro, quero saber vosso nome.

Seokjin riu incrédulo com a audácia do filósofo. O encarou vendo que os olhos de Namjoon possuíam uma bondade genuína, realmente queria acreditar que ainda existiam pessoas boas no mundo e talvez ele fosse a prova disso.

SEOKJIN — Seokjin. — Disse apoiando as mãos na mesa. — Meu nome compra teu silêncio?

NAMJOON — Parte dele. — Ponderou. — Após o roubo, quero que me permita que eu encomende um retrato seu com um dos meus pupilos. Quero que pose para uma pintura.

SEOKJIN — Deixe-me ver se entendi, já sabes meu nome e ainda quer meu rosto em uma tela?

NAMJOON — Exato.

SEOKJIN — Não seria mais fácil me entregar de uma vez? — Riu tapando a boca com a mão. — A troco de que quer um quadro meu?

NAMJOON — Já respondi essa pergunta quando tu estavas com sua espada em minha garganta.

As bochechas de Seokjin estavam ruborizadas novamente, e Namjoon sorriu ao notar a reação que suas palavras tiveram.

NAMJOON — Eu sou um mecenas, meu caro, eu patrocino artistas por toda Itália, sempre busco os melhores. — Deu ênfase em seu discurso. — Mas acredite, sinto que nada que eles pintarem vai ser tão belo quanto você.

O ladrão revirou os olhos e saiu do quarto batendo a porta.

✼ Ato II ✼

Cena I

Quarto do casarão

Ao contrario do que se espera de alguém em cárcere, Namjoon dormiu tão tranquilamente quanto um gato na soleira de uma janela.

Seokjin entrou no quarto trazendo o café da manhã e se surpreendeu com a calma e educação do nobre. O achava um homem realmente estranho.

NAMJOON — Fico feliz em vê-lo, Seokjin. Preciso falar com você.

SEOKJIN — Tens minha atenção. — Sentou-se na cadeira.

NAMJOON — Meu cavalo está no bosque, amarrado em um tronco, passou a noite sozinho, o infeliz. — Suspirou profundamente. — Se importa em buscá-lo? Acredito que não seria bom se encontrassem o animal abandonado próximo a vossa propriedade.

Namjoon falou em um tom que, por alguns instantes, Seokjin entendeu como uma ameaça, mas depois refletiu que ele sequer sabia que o aristocrata havia chegado até ali a cavalo, se realmente quisesse uma chance de fugir seria mais inteligente manter esse fato em segredo e esperar que encontrassem o animal como uma pista de seu paradeiro.

SEOKJIN — Não se preocupe quanto isso, mandarei agora mesmo algum de meus homens resgatar teu cavalo.

NAMJOON — Se me permitir, posso enviar uma carta a minha irmã dizendo que viajei para encontrar alguns amigos, creio que isso irá deixá-la menos preocupada quanto ao meu paradeiro, novidade seria eu desaparecer sem lhe dar explicações.

SEOKJIN — Me parece uma boa ideia... — Assentiu se preparando para ir buscar papel, pena e tinta. — Como vou sabe que que não vais colocar alguma dica na carta?

NAMJOON — Porque não vou, tens que confiar em mim, assim como eu estou confiando no senhor.

SEOKJIN — Confia em mim?

NAMJOON — De fato.

SEOKJIN — Não deveria, Namjoon. Existem pessoas muito ruins no mundo, não confie tão cegamente em alguém que acabou de conhecer.

NAMJOON — Aceito de bom grado teus conselhos, senhor sequestrador. Elucide-me com vosso conhecimento sobre a maldade que ronda os humanos. — Debochou fazendo Seokjin rir. — Se quiser posso ditar o conteúdo da carta e tu substitui as palavras do modo como achares melhor.

SEOKJIN — Já me convenceu, meu senhor, vou deixá-lo escrever.

O homem voltou com os instrumentos necessários e os colocou sobre a mesa. Namjoon tomou a pena escreveu uma mensagem que não desse detalhes demais para soar falsa e nem detalhes de menos que fizesse a donzela temer que o irmão estivesse escondendo algo.

NAMJOON — Aqui está, meu caro. — Selou a carta com sinete. — Lhe garanto que dessa forma ninguém da cidade estará à minha procura.

SEOKJIN — És o prisioneiro mais prestativo que já pisou na Terra. — Riu, se sentando na cama.

NAMJOON — Não sou prisioneiro, estou aqui cumprindo meus serviços para receber meu pagamento. Aliás, ainda não respondeu sobre minha proposta, se recusar, deixo as chamas a consumirem — ameaçou colocando o papel próximo a chama da vela.

SEOKJIN — Não seja tolo, Namjoon! — Esbravejou franzindo o cenho.

NAMJOON — Tolice seria aceitar ficar aqui sem receber nada em troca.

SEOKJIN — Está vivo, homem! Já deveria ser grato a isso.

NAMJOON — Sim, sou grato a minha vida, mas não acha curioso o fato de estar apresentando tanta resistência em apenas ficar parado em frente a um artista? O que lhe peço não é nada demais, se comparado a grandiosidade de seu plano. Ele vale isso, não vale?

SEOKJIN — Claro que vale!

NAMJOON — Então eis aí sua resposta, meu caro.

SEOKJIN — Ai de mim, sequestrei um louco! — Riu pegando a carta de sua mão. — Tens minha palavra, irei ceder aos teus caprichos.

NAMJOON — "Caprichos"? Tenho vários, esse não há de ser um deles, está mais para o motivo que vivi até hoje.

SEOKJIN — Um quadro meu?

NAMJOON — Sem dúvidas. Preciso apenas de uma lembrança da vez em que conheci a beleza personificada, ou ninguém irá acreditar em mim.

Seokjin cerrou os punhos e bufou como se tivesse escutado a coisa mais incabível do mundo, Namjoon sorriu achando aquela expressão adorável.

SEOKJIN — Irei resolver vossos assuntos pendentes — disse guardando o envelope no casaco.

NAMJOON — Tenho mais um pedido.

SEOKJIN — Mais um? — Resmungou.

NAMJOON — Gostaria que fosse razoável e me permitisse sair de meus aposentos, agradeço a hospitalidade, mas se passar todos os dias nesse quarto, hei de enlouquecer — pediu em um misto de educação e sarcasmo.

Seokjin encarou o nobre que sorria aguardando sua resposta e pensou que, mesmo que quisesse, não era páreo contra nenhum dos trinta homens que transitavam fazendo a guarda das saídas do casarão. Não por uma questão de porte físico, Namjoon na verdade aparentava ser mais forte até do que o próprio líder do bando, entretanto parecia muito ingênuo, incapaz de fazer mal a uma mosca.

SEOKJIN — Pois bem, tens minha permissão para transitar pela casa, no entanto, não sei o que o senhor pode achar para distraí-lo.

NAMJOON — Ah, essa parte pode deixar que descubro sozinho, não tornarei a incomodá-lo. — Sorriu passando pela porta junto a Seokjin.

SEOKJIN — Então que seja.

Ao falar isso jamais imaginou que o entretenimento escolhido por Namjoon fosse justamente o de importuná-lo, o seguindo por cada canto da casa. Ia conversar com algum de seus parceiros e ali estava o filósofo querendo participar.

Não entendia muito bem o interesse em sua pessoa e ainda tinha um pé atrás, talvez o homem estivesse colhendo informações para usar contra si, por isso já estava o irritando ter o nobre o seguindo como uma sombra.

Um dos homens de Seokjin o cumprimentou com um tapa em seu ombro, e Namjoon gostou de ouvir o capanga chamando o líder por seu apelido.

NAMJOON — Jin... — Repetiu em um tom baixo. — Posso chamá-lo assim?

SEOKJIN — Não. — Respondeu prontamente. Não seria bom dar ainda mais intimidade para seu prisioneiro.

NAMJOON — Terei que pensar em outra coisa então... — Encarou o teto como se ele estivesse com a posse das respostas. — Nini... Gostas de "Nini"?

SEOKJIN — Não.

NAMJOON — Perdão, Nini.

SEOKJIN — O que pensas que estás fazendo? — questionou parando abruptamente.

NAMJOON — Acompanhando-o, não tenho nada para fazer, quero ver como vive.

SEOKJIN — Como vivo?

NAMJOON — Sim, vossa rotina, hábitos e gostos. — Debruçou-se no corrimão. — Me interessa saber mais sobre pessoas.

SEOKJIN — Pois estais sendo inconveniente! — Vociferou. — Vá achar algo útil para fazer que não seja me importunar com tuas asneiras!

Namjoon endireitou a postura e deu meia volta, fazendo Seokjin acreditar que estaria em paz novamente. Iria retomar seus afazeres na mansão com tranquilidade.

No entanto, se assustou ao ouvir o barulho de uma janela sendo escancarada. Correu até ela vendo o filósofo caminhando tranquilamente do lado de fora.

SEOKJIN — Onde pensas que vai, homem? — gritou, apoiando as mãos na soleira.

NAMJOON — Ao inferno, se o diabo me aturar!

SEOKJIN — És muito dramático, Namjoon, deveria ser ator. — Pulou a janela e seguiu nobre. — Peço que volte, perdoe-me por ter perdido a paciência.

NAMJOON — Aceito tuas desculpas. — Respirou profundamente. — Contanto que reserve um tempo para escutar minhas "asneiras".

SEOKJIN — Sabes fazer algo sem barganhar? — Riu, o guiando até de volta ao casarão. — Farei isso, após o jantar creio que estarei livre.

NAMJOON — Então, irei procurá-lo, Nini.

Cena II

Biblioteca

Namjoon desapareceu pela mansão. Seokjin até se culpava por ter sido tão ríspido, tentaria consertar as coisas com uma conversa, já sentia muito apreço pelo nobre. A vida poderia ter sido deveras cruel com o ladrão, mas ele não sentia necessidade em descontar isso em terceiros. Mal sabia o filósofo que o larápio possuía uma alma tão bonita quanto sua aparência, não era perfeito, é verdade, mas havia de ter qualidades suficientes para sobressaírem sobre seus defeitos.

Quando o sol se escondeu no horizonte, Seokjin buscou em cada cômodo aquele que havia prometido o procurar. Apenas ao passar em frente a uma porta dupla é que ouviu sua voz, espiou pela fresta e enxergou Namjoon com um livro em mãos lendo em voz alta para uma pequena plateia formada por jovens que jamais tiveram a oportunidade de se dar ao luxo de aprenderem mais do que escrever seus próprios nomes.

O filósofo andava de um lado para o outro, notando os olhares atentos em si. Sabia que os garotos ali tinham praticamente a mesma idade dos estudantes que patrocinava. Sempre buscou incentivar aqueles que não eram abastados, entretanto, agora pensava que possuíam o mínimo necessário para demonstrar talento e nessa equação entrava muito mais do que dedicação nos estudos, um teto sobre suas cabeças e refeição garantida todos os dias já os colocavam mil passos à frente dos desafortunados ali naquele cômodo.

Seokjin sempre fez o possível e o impossível para mantê-los vivos e isso já era muito mais do que a sociedade e o universo faziam por eles. Mesmo assim sentia que era pouco, gostaria de retribuir aqueles que haviam lhe dado um novo motivo a sua existência.

Apenas quando foi jogado na rua é que passou a olhar para os invisíveis, afinal, havia se tornado um também. Não lembrava quando começou a roubar, mas foi necessário para sua sobrevivência e de um bando de crianças famintas. Com o passar dos anos, os viu crescendo sem um futuro garantido, então decidiu que iria cobrar daquele que havia abandonado seus próprios filhos: Florença. Não foi difícil encontrar mais pessoas como ele, que ansiavam vingar-se dos banqueiros, quando notou, liderava um grupo com potencial de fazer a burguesia tremer apenas ao ouvi-los serem mencionados.

NAMJOON — Meus jovens, continuamos amanhã ou irão me fazer perder a voz — falou assim que notou Seokjin o espiando. — Nini! — Sorriu fechando o livro. — Perdoe-me por não ter ido ao teu encontro mais cedo, mas teus garotos são muito curiosos, li três capítulos sem descansar.

SEOKJIN — Agradeço vossa atenção, a maioria não sabe ler, havia até esquecido da existência desse cômodo — comentou observando as prateleiras empoeiradas da biblioteca. — Não possui utilidade para eles.

Os garotos saíram deixando ambos sozinho.

NAMJOON — Sabes ler, Nini?

SEOKJIN — Sim, porém há anos que não tenho tempo e um local como esse — respondeu sentando-se em uma poltrona.

NAMJOON — Disse que meu tio arruinou a vida de vossa família... Qual é o teu passado?

SEOKJIN — Não hei de querer escutar, irá apenas aborrece-lo.

NAMJOON — Engana-se, quero descobrir tuas motivações, o passado há de ser um deles. — Sentou ao seu lado.

SEOKJIN — Estás certo disso. — Suspirou ao pensar que estaria novamente mexendo naquele vespeiro. — Meu pai era alfaiate, minha família comandava um pequeno estúdio para produzir as peças, não éramos ricos, mas vivíamos confortavelmente. Quando eu tinha quatorze anos, houve uma série de contratempos no negócio, meu pai foi praticamente obrigado a pedir empréstimos aos bancos da cidade, ele trabalhou duro dia e noite para repor cada moeda, os porcos se aproveitaram disso, aumentavam cada vez mais os juros. O coitado trabalhou tanto, que o encontramos morto, debruçado sobre uma pilha de tecidos, com a agulha ainda entre os dedos. Minha mãe morreu de tristeza pouco tempo depois. Que Deus os tenha. — Fechou os olhos por alguns segundos. — Todos que trabalhavam perderam seus empregos e vosso tio tomou a oficina e minha casa para quitar a dívida. Fui jogado na rua, sem poder levar um botão sequer.

Namjoon engoliu em seco ao ouvir a história, sempre soube as sujeiras que seu tio cometia, mas estando assim ao lado de uma de suas vítimas, fazia o sentir ainda mais asco do homem. E pensar que, enquanto estava feliz, aproveitando de sua juventude com tudo do melhor que o dinheiro podia comprar, Seokjin estava vagando por Florença sem saber se estaria vivo no dia seguinte.

Sempre estiveram tão próximos, no entanto, o grosso véu que separava ricos e miseráveis havia de mantê-los sem saber da existência um do outro, bem, isso se o nobre não tivesse escorregado em uma pedra.

Algumas lágrimas brilhavam sobre as maçãs do rosto de Seokjin, paradas ali, como se não tivessem força para cair, então o filósofo atreveu-se a se inclinar para limpá-las com o dorso da mão, acariciando sua pele muito mais que o necessário e que se esperava de um homem.

NAMJOON — Não chores, Nini, és muito belo para ficar neste estado.

SEOKJIN — Beleza de nada poupou-me de meus sofrimentos.

NAMJOON — Tens razão... Sinto muito por vossas perdas, meu caro. — Apertou seu ombro. — Ouvi falar muito bem do senhor. — Tentou mudar de assunto. — Saiba que o estimo deveras, o que fazes por esses jovens é magnifico.

SEOKJIN — Ensiná-los a furtar? — Riu ao notar que era a primeira vez que tinha seus esforços reconhecidos.

NAMJOON — És um mecenas da arte do crime. — Brincou. — Sinto-me muitíssimo grato por ter a honra de conhecer o rei dos ladrões.

SEOKJIN — "Arte do crime"... Essa é nova.

NAMJOON — Estou apenas a valorizar tua ocupação, veja bem, um roubo inclui muito mais da arte do que se pode imaginar, usas a retórica, lógica, criatividade e inspiração para teus planos, se isso não a categoriza como arte, não sei o que mais séria.

SEOKJIN — És realmente um homem estranho, Namjoon. — Voltou a rir.

NAMJOON — Apenas falo o que me dá vontade.

SEOKJIN — Já que tocastes no assunto, gostaria de pedir perdão por ontem quando o ameacei de morte, achei que eras um enviado dos Médici.

NAMJOON — Não fostes o primeiro e nem há de ser o último, não te preocupas. — Sorriu o tranquilizando. — Já matou alguma vez?

SEOKJIN — Já... Não me orgulho, entretanto, era ele ou um de meus companheiros, e infelizmente, não me posso dar ao luxo de morrer, muitas vidas dependem de mim. Mesmo assim, seu rosto assombra meus pesadelos, o infeliz morreu para proteger uma fortuna que jamais colocaria as mãos, era apenas um empregado.

NAMJOON — Continuo o achando um homem muito nobre, tens teus motivos e ainda assim se compadece da alma. Matar aqueles que merecem é muito fácil, poucos suportariam teu fardo.

SEOKJIN — Sempre achas motivo para elogiar-me. Se digo sobre meus furtos, citas todas as habilidades necessárias para tal, se falo que matei, admiras minha coragem. — Riu olhando nos olhos do outro.

NAMJOON — É meu impulso natural, mas se quiseres que procure teus defeitos, assim farei.

SEOKJIN — Não, não foi isso que quis dizer. — Balançou a cabeça ao pensar que já havia o mundo inteiro para criticá-lo.

NAMJOON — Então posso continuar a elogiá-lo?

SEOKJIN — Devo dar-lhe permissão para isso?

NAMJOON — Tens razão, o farei independentemente de tua resposta.

SEOKJIN — Tenho que dormir, meu senhor. Saibas que apreciei nossa conversa. — Levantou-se arrumando o casaco.

NAMJOON — Vossa companhia é uma das melhores que já tive em toda minha vida. — Copiou os movimentos do outro e se colocou de pé. — Durma bem, Nini, que os anjos velem o teu sono.

SEOKJIN — Desejo-lhe o mesmo, boa noite, meu caro.

✼ Ato III ✼

Cena I

Jardim do casarão

Os dias se passaram tão rapidamente quanto uma raposa buscando sua toca. Consideravam-se amigos e já confiavam plenamente um no outro. Namjoon era muito prestativo quanto aos serviços domésticos, ajudava no que sabia e o que não dominava pedia para ensinar-lhe. Brincava com os garotos e oferecia apoio a Seokjin quando precisava dividir um pouco de seu fardo.

Naquela dia o nobre havia passado a tarde buscando água do poço para limpar o chão imundo de alguns cômodos, estava exausto. Ficou no jardim vendo as flores silvestres que cresciam tão naturalmente quando sua afeição por Seokjin. Pegou um exemplar de cada, planejava catalogá-las, aquilo o distrairia ao menos um pouco.

Quando terminou de circundar a propriedade, já possuía um buquê. Sentiu-se grato por ser primavera, as plantas estavam por toda parte, mas as mais bonitas encontrou escondidas próximo a um pântano. A beleza realmente pode existir ao lado da podridão, ao pensar nisso, apenas Seokjin passava por sua cabeça.

Deitou na grama embaixo de um salgueiro e repousou as mãos com o punhado de flores sobre o peito. Ouviu passos sobre a grama e sequer precisou abrir os olhos para saber quem era.

SEOKJIN — O que estás fazendo?

NAMJOON — Ensaiando meu velório, não vê?

SEOKJIN — Jamais sei quando estás a brincar e a falar sério.

NAMJOON — Amo tua inocência, Nini.

SEOKJIN — Sabes que estou tão próximo da inocência, quanto tu da ignorância. — Se deitou na grama ao lado do nobre.

Namjoon abriu os olhos, sorrindo com o elogio discreto. O ladrão sentiu seu coração palpitar ao ver as covinhas, gostava muito de admirá-las mesmo que jamais tivesse comentado em voz alta.

NAMJOON — Costuma pensar sobre a morte?

SEOKJIN — Cresci embalado em seus braços. Minha única certeza é que vou para o inferno. Somo mais pecados do que Deus, nosso senhor, toleraria.

NAMJOON — Jesus morreu como bandido sendo crucificado ao lado de dois ladrões e mesmo assim prometeu lembrar o nome de um deles quando chegasse no paraíso.

SEOKJIN — Temo que hei de ficar fora de sua cota de salvação — brincou. — E você, sabes para onde vai?

NAMJOON — Já comprei meu terreno no reino dos céus.

Seokjin riu, novamente, sem saber se era verdade ou apenas mais uma de suas piadas.

NAMJOON — Somo tantos pecados quanto você, meu caro.

SEOKJIN — Não consigo imaginar isso.

NAMJOON — Contente-se em saber que eu, Kim Namjoon, atravessaria os nove círculos do inferno por você.

Aquela frase confundiu profundamente o ladrão, não conseguia entender o que ele queria falar com aquilo.

SEOKJIN — Não fales bobagens, Deus há de castigar.

NAMJOON — Mais do que já castigou nós dois? Impossível.

Seokjin suspirou encarando as nuvens e pensando que deveria prometer algo similar ao filósofo.

SEOKJIN — E eu atravessaria os nove círculos do inferno com você. Sozinho não conseguiria sair sequer do primeiro, és um fracote.

O aristocrata sorriu e ficou apreciando a brisa, sentindo seu peito subir e descer de forma lenta. Seokjin havia de ser uma de suas provações.

Apoiou o cotovelo no chão e pegou uma flor púrpura, a colocando entre as mechas negras do rapaz. Parecia ter sido esculpido pelos anjos e criado pelas ninfas. Em outros tempos, talvez Seokjin tivesse o poder de colocar pólis em guerras por aqueles que quisessem tocá-lo. Seria o estopim da disputa entre gregos e troianos, ou quem sabe, a própria arma usada como distração que os inimigos acreditariam ser um presente enviado pelos deuses. Felizmente, a única batalha que Namjoon precisaria enfrentar seria contra seus receios.

No sentido literal da frase, Seokjin valia a pena, com isso, referia-se à punição, não estava brincando quando disse que seria capaz de ir ao inferno por ele.

NAMJOON — És adorável, Nini.

Namjoon acariciou sua bochecha com o dorso de sua mão, e o corpo do jovem reagiu muito mais rápido que suas reclamações, fechou os olhos apreciando o toque. Jamais havia recebido nada igual, "carinho" era uma palavra fora de seu vocabulário.

SEOKJIN — Isso não é elogio que se dê a um homem.

NAMJOON — Como não? Tens ideia da dimensão dessa palavra? Estou querendo dizer que és digno de adoração, meu querido. Assim como adoravam deuses na Olímpio, em Roma, e qualquer outro lugar do mundo onde houvesse um altar. Me colocaria de joelhos se assim fosse tua vontade, já provei que sou teu seguidor fiel — disse afastando alguns fios de sua franja. — Adoro-te.

SEOKJIN — Está a cometer blasfêmia. — Não conseguiu conter um sorriso tímido após aquelas palavras.

NAMJOON — Que seja! Um pecado a mais, um a menos...

SEOKJIN — Pois racione-os, não podes sair esbanjando pecados como se fosse teu dinheiro. — Levantou-se passando as mãos pela roupa para tirar a terra.

NAMJOON — Não esbanjo meu dinheiro. — O seguiu em passos rápidos.

SEOKJIN — Como não? E os quadros que compra e vende? — indagou adentrando o casarão.

NAMJOON — Achas que é desperdício?

SEOKJIN — Não quero ofender-te, mas sim, acredito que são.

NAMJOON — Seokjin, agora é você que estás a cometer blasfêmia condenando aquilo que compõe o seu ser?

SEOKJIN — Como? — Questionou com o semblante confuso.

NAMJOON — Arte.

SEOKJIN — Ora Namjoon, você não vai conseguir convencer-me que alguns pedaços de madeira com tecido são um dinheiro bem gasto, enquanto cresci vendo pessoas ao meu lado morrendo de fome.

NAMJOON — Entendo teus pontos, entretanto está sendo utilitarista, julga a arte inútil?

SEOKJIN — Algumas.

NAMJOON — Música, dança, teatro, culinária, alfaiataria, carpintaria, literatura, sabes que tudo isso é arte, não é?

SEOKJIN — Também não trate-me como estúpido, Namjoon. O acho fútil, apenas isso. — Subiu as escadas em passos firmes.

NAMJOON — Me achas fútil? — franziu o cenho o seguindo.

SEOKJIN — Não!

NAMJOON — Mas foi o que disse.

SEOKJIN — Eu quis dizer que acho essa sua mania fútil.

NAMJOON — Essa "mania" é minha profissão, não está se ajudando, Seokjin. Achas minha profissão fútil?

SEOKJIN — Pare de me fazer perguntas, Namjoon!

NAMJOON — Sabes que isso é o que faço de melhor. — Parou em sua frente mantendo sua postura firme. — O que tem de belo tens de teimoso, és um cabeça dura! Dura como as rochas.

SEOKJIN — Pois olhe-se no espelho! O que tem de belo tens de atrevido, não sabes quando parar, adentra os lugares como água infiltrando-se em frestas e confronta as pessoas sem medo de ser inconveniente, sei que sempre teve tudo que queria, mas aceite ser contrariado ao menos uma vez na vida! — elevou o tom de voz cerrando os punhos.

Quem visse os dois homens gritando um com o outro, parados no meio do lance de escadas, jamais diria que eram os mesmos que a poucos minutos estavam jurando atravessar o inferno juntos. Suas vivências impediam de colocar-se no lugar do outro, e mesmo que praticassem a empatia, de nada surtiria efeito imaginar-se reagindo a aquelas ofensas. A Seokjin, pouco o importaria ser chamado de fútil e a Namjoon, achava que se fosse leigo em algum assunto, o correto seria ouvir o profissional. Eram dois casos perdidos, igualmente inflexíveis.

O ladrão seguiu em direção ao seu quarto, deixando o fidalgo ali, sozinho, assimilando que em um momento de raiva, havia escutado Seokjin pela primeira vez dizendo que o achava belo.

Se a beleza de Namjoon era na mesma proporção de seu atrevimento, havia de ser muito.

Cena II

Quarto do Seokjin

Em seu quarto, Seokjin se jogou na cama sentindo seu peito doer como nunca. Odiava a forma como as vezes falava sem pensar e entrava em uma disputa de poderes que quanto mais tentava se explicar, pior ficava sua situação. Namjoon tinha razão, ele era teimoso.

Mas era dessa forma que havia vivido até então, era isso que o mantinha forte, saber honrar suas palavras sem mover um pé para trás. Então como o nobre se achava no direito de julgar a forma que havia encontrado para sobreviver?

Era forte, quase inabalável, ao menos na frente das outras pessoas. Havia de continuar assim, pouco importava o que sentia.

Virou o rosto por alguns segundos e encarou seu reflexo em um dos espelhos empoeirados do quarto. O ramo de lavanda ainda estava preso entre os fios de seu cabelo, a retirou com cuidado e girou a flor na mão.

SEOKJIN — Oh céus, por que me castiga novamente? Algum dia terei paz? Estou enlouquecendo! Pedirei perdão, a ti, a ele e a mim mesmo. — Suspirou fechando os olhos. — Falar "me perdoe" soa como se quisesse que tirasses o peso da culpa sobre meus ombros, é egoísta, não é? Não vejo outra forma a não ser dizer o quão arrependido estou dos meus pecados, mas isso também seria mentira. Então qual é a saída? — Levantou-se andando impacientemente pelo quarto. — Por mais incabível que pareça, não irei pedir perdão, tampouco me mostrarei arrependido, peço que me aceites. Será que estou sendo teimoso? Ele estava certo. — Sorriu apertando a flor junto ao peito. — Namjoon, meu querido, por que me tratas assim? Hei de guardar eternamente essa flor como lembrança de minha paixão indecente. Perdoe-me por vê-lo dessa forma, tire a culpa de meu coração e desapareça de minha vida antes que esse sentimento seja nossa ruina.

Cena III

Quarto do Seokjin

"Não estou bravo contigo, meu caro. Venha me ver, não consigo dormir.

Nini"

Namjoon sorriu, lendo e relendo o bilhete que havia sido colocado por baixo de sua porta. Seokjin poderia até ter sido ousado em entregar a carta, contou apenas com seus sentimentos, tentando ignorar em um certo nível, a possibilidade de Namjoon estar bravo consigo. A frase final parecia mais uma intimação, mas o nobre desconsiderou todos esses aspectos e focou apenas no fato do ladrão ter assinado com o apelido que ele havia lhe dado.

NAMJOON — Boa noite, Nini — disse dando uma batida na porta do quarto.

SEOKJIN. — Boa noite, meu caro, entre.

Seokjin estava sentado em uma cadeira da mesinha que ficava no canto do cômodo, o fidalgo tomou o outro assento livre e sorriu assim que notou um único ramo de lavanda dentro de um vaso.

NAMJOON — O que te afliges?

SEOKJIN — Não tenho certeza, sinto que os receios de uma vida inteira decidiram me tirar o sono. — Se debruçou sobre a mesa. — Perdoe-me por ter o tirado da cama, não tens obrigação alguma de ficar ouvindo minhas lamentações.

NAMJOON — Achei que já havia deixado claro que gosto de ouvi-lo.

SEOKJIN — Creio que os primeiros dias em que ficastes me seguindo como uma sombra já serviram de prova. — Riu. — Peço desculpas por ter o ofendido.

NAMJOON — Desculpas aceitas.

SEOKJIN — Ora, não vais pedir nada em troca?

NAMJOON — Quer que eu peça? — instigou arqueando a sobrancelha.

SEOKJIN — Não foi isso que quis dizer! — negou rapidamente.

NAMJOON — Mas foi o que pareceu.

SEOKJIN — Céus, não me faça acabar discutindo novamente contigo. — Riu.

NAMJOON — Perdoe-me, estava apenas brincando, lhe tirar do sério tem sido meu maior passatempo.

SEOKJIN — Já havia reparado nisso. — Sorriu ao lembrar de como o nobre já havia acabado com sua paciência diversas vezes.

NAMJOON — Sabe, eu estava pensado... Rouba apenas daqueles que tem mais do que o necessário, certo?

SEOKJIN — Perfeitamente. Gosto de pensar em meus golpes como atos revolucionários, não criminosos.

NAMJOON — Concordo, não há violência maior contra o povo do que a que o governo e a elite fazem.

SEOKJIN — Ao menos em algo pensamos igual...

NAMJOON — Se não me conhecestes, roubaria de mim?

SEOKJIN — Infelizmente terei que dizer "sim" — respondeu sorrindo.

NAMJOON — Agradeço tua sinceridade — riu girando a flor no vaso. — Taehyung adoraria conhece-lo...

SEOKJIN — Quem?

NAMJOON — Um dos jovens que patrocino, é um pintor extremamente promissor, quando tudo isso acabar, vamos para Veneza encontrá-lo — disse com empolgação.

SEOKJIN — Fala tanto de seus pupilos que fico curioso...

NAMJOON — Sobre o que, meu caro?

SEOKJIN — Vossa relação com estes rapazes... já ouvi falar sobre... histórias entre pintores... — comentou receoso.

NAMJOON — Ah, entendo. De fato, existem casos... No entanto, jamais me envolvi com os artistas que incentivo, não gosto que eles pensem que me devem algo.

SEOKJIN — E com os outros?

NAMJOON — Estás com ciúmes, Nini? — indagou sorrindo.

SEOKJIN — Ora, não fale besteiras, Namjoon! — negou com as bochechas coradas.

NAMJOON — Estaria mentindo se dissesse que nunca me relacionei com outros pintores.

SEOKJIN — Homens?

NAMJOON — Homens. Jamais tive interesse em cortejar damas.

SEOKJIN — Não tens medo que o descubram?

NAMJOON — Tento ser o mais discreto possível. Agora tens um segredo meu em tuas mãos, se cai, podes me levar junto.

SEOKJIN — Eu jamais faria isso.

NAMJOON — Sei que não, no entanto é sempre bom ter um peão próximo ao outro lado do tabuleiro, não achas?

SEOKJIN — Me contou isso apenas para que eu tivesse como chantageá-lo caso precise?

NAMJOON — Sim, assim se sente mais seguro comigo? Confiança é compartilhar segredos.

SEOKJIN — Confiança é contar segredos porque sabes que teu confidente não irá entregá-lo. Se me contou algo dessa importância como uma garantia para barganhar, não confia verdadeiramente em mim. Dessa forme me ofendes.

NAMJOON — Nini, pense bem, você sabe que não foi só por isso que contei — sorriu encostando o rosto em seu punho e analisando a expressão do homem a sua frente.

SEOKJIN — E o que mais seria?

NAMJOON — Que não quero que lhe restem dúvidas de que estou o cortejando.

Mesmo que Seokjin já desconfiasse que os elogios do nobre iam muito além de uma admiração artística, encará-los como investidas para uma aproximação romântica o fizeram entrar em um estado catatônico. Namjoon respeitou seu espaço e permaneceu em silêncio enquanto pensava se aquela realmente havia sido a hora certa.

O maior problema daquele que permanecia com o rosto escondido entre os braços era o fato de ser reciproco. Enquanto não sabia a verdade podia dizer a si mesmo que não havia a menor possibilidade de ficarem juntos, mas agora existia esperança, como se a confirmação do nobre fosse a única coisa necessária para ficarem juntos.

Como se não existisse a sociedade, Deus e o inferno.

JUNGKOOK — Meu senhor, posso entrar? — o jovem se encontrava parado na porta segurando alguns papéis.

SEOKJIN — Claro, entre — confirmou sentando-se corretamente na cadeira.

JUNGKOOK — Terminei os mapas que me pediu.

O rapaz se aproximou receosamente, colocando as folhas sobre a mesa. Namjoon rapidamente reconheceu os desenhos como sendo plantas do banco do seu tio, mas não era isso que de fato chamava sua atenção, mas sim a riqueza de detalhes e técnicas para representar o prédio. Já havia visto Jungkook com a cabeça baixa e a atenção voltada aos papéis, mas jamais imaginou que eram desenhos, ainda mais daquele nível.

SEOKJIN — Está muito bom, meu jovem, agradeço vosso trabalho.

NAMJOON — "Muito bom" é uma ofensa, Nini, isso aqui está perfeito! — falou de modo afoito pegando o mapa e o analisando de todos ângulos possíveis. — Onde aprendeu a desenhar desse jeito?

JUNGKOOK — Eu apenas observo e treino bastante, senhor — respondeu de forma tímida por conta dos elogios.

NAMJOON — Pois trate de estudar e levar isso a sério. Quando eu voltar para minha casa, procure-me. Juro que irei pagar tudo que for necessário para que te tornes um pintor.

JUNGKOOK — Céus... Isso é verdade? — não conseguiu evitar sorri empolgado com a ideia.

NAMJOON — Te dou minha palavra. És muito talentoso, meu jovem, apenas precisa que alguém invista em ti.

JUNGKOOK — Bem... Nem sei como agradecer...

NAMJOON — Não precisas pensar nisso agora.

Ambos sorriram e Jungkook se retirou do quarto tentando não gritar com os amigos de empolgação pela notícia.

SEOKJIN — Vou ficar lhe devendo essa — sorriu juntando os mapas. — Jungkook é um bom garoto, muito inteligente e talentoso, não serve para essa vida, só precisa de outras oportunidades. Obrigado, de verdade.

NAMJOON — E agora, tu continuas achando o que faço "fútil"?

SEOKJIN — Estás certo. Era isso que queria ouvir? — Riu se levantando e guardando os papéis em uma gaveta.

NAMJOON — Não exatamente, mas há de servir — copiou o outro e colocou-se de pé. — Vou ir para os meus aposentos, creio que queira ficar sozinho.

SEOKJIN — Sim, amanhã conversamos. Durma bem, meu caro.

NAMJOON — Igualmente.

✻ Ato IV ✻

Cena I

Varanda do quarto

Era curioso que nos últimos dias Seokjin estava sempre fugindo. Parecia contraditório o "sequestrador" fazendo de tudo para não ficar no casarão, enquanto o "sequestrado" o esperava pacientemente voltar. Namjoon já estava cansado de perguntar onde estava o amigo e minutos depois o ver cavalgando pelo campo até desaparecer no horizonte. Só voltava a noite e escondia-se no quarto falando que estava exausto.

O nobre não era de se arrepender de suas palavras, no entanto, dessa vez queria voltar no tempo, não suportaria ter Seokjin o julgando e o tratando de forma diferente, coisa que mesmo que tentasse negar, ele já estava fazendo.

O quão tolo havia sido em falar descaradamente suas intenções para com o ladrão?

Ou talvez não fosse esse o ponto: havia falado pouco.

Munido de uma coragem desproporcional para um ato tão inofensivo, Namjoon atravessou o corredor planejando contar com riqueza de detalhes tudo que sentia.

NAMJOON — Nini? — adentrou o quarto o procurando.

SEOKJIN — Aqui, meu caro — respondeu abrindo a porta que dava a varanda. — Aconteceu alguma coisa? Estás pálido como um fantasma.

NAMJOON — Sei que está fugindo de mim.

SEOKJIN — Engana-se, apenas ando atarefado.

NAMJOON — Se mentir for mais fácil para ti, não o julgarei. — Suspirou parando ao seu lado. — Hei de me escutar.

SEOKJIN — Pois fale!

O silêncio reinou como em um enterro. Namjoon encontrava-se pela primeira vez em sua vida, sem palavras.

Ambos olhavam para o céu questionando qual era o próximo passo, talvez as estrelas entregassem direções para eles assim como faziam com marinheiros.

Seokjin deixou sua mão deslizar sobre a pedra do guarda corpo do balcão até estar sobre a do aristocrata, entrelaçando seus dedos como jamais havia feito com qualquer outro em sua vida.

Olharam para suas mãos unidas, sorrindo discretamente entre uma carícia e outra.

NAMJOON — Qual seria o sentido em ter minha existência inteira contida em um único ser? Começo aqui — apontou para si próprio. — E termino aí — alternou para Seokjin. — Carrega em ti uma parte minha muito maior do que eu gostaria.

SEOKJIN — E o que isso significa?

O filósofo reparou que no momento Seokjin sorria com os olhos, estes que brilhavam mais que a lua.

Ele já havia entendido, mesmo que gostasse da forma que Namjoon usava metáforas bonitas, preferia coisas diretas que não dessem margem para falsas interpretações.

NAMJOON — Que te amo e que sou seu se assim desejar.

SEOKJIN — Namjoon... Namjoon... Jamais dei razão aos meus desejos.

NAMJOON — Pois experimente, ao menos uma vez, Nini — pediu puxando sua mão e deixando ali um beijo terno.

SEOKJIN — Estive a beira da loucura esses últimos dias — confessou soltando a mão do nobre. — Imploro que não me incentive a cair mais ainda nesse abismo.

NAMJOON — O que aconteceu, meu anjo? — indagou acariciando a bochecha do outro.

SEOKJIN — O amo — respondeu simplista. — Fujo disso como o diabo foge da cruz, jamais senti essas coisas antes, muito menos por um homem...

NAMJOON — Também não senti isso antes, acredite em mim, procurei em todos cantos e jamais experimentei um por cento do que sinto quando estou ao teu lado. Se eu te amo e tu sentes o mesmo, qual é o empecilho? A única coisa que penso ultimamente é em faze-lo feliz! — sorriu segurando as mãos do ladrão. — Adorna minha vida como as estrelas enfeitam o céu, ou melhor, és a própria lua. Se me permitires, minha dedicação será inteiramente em cuidar de ti até que não tenhas dúvidas de que, para mim, és o meu único amor.

Poucas coisas possuem mais poder do que as palavras afoitas e carregadas se ternura vindas de um homem apaixonado.

Seokjin jamais havia derramado lágrimas que não tivessem como fonte dor e tristeza, parecia que a vida tinha prazer em machuca-lo, por isso Namjoon era seu ponto fora da curva. Parecia que estavam o recompensando, pelo que era incapaz de dizer, mas se permitiu agarrar o nobre como se ele fosse de fato um presente. O abraçou puxando a parte de trás de seu casaco como um pedido mudo para que o apertasse na mesma intensidade.

SEOKJIN — Não coloque em minhas mãos o peso dessa decisão. O adoro com todo meu ser, em minha vida sempre tive pouco ou quase nada, e tu és mais do que o suficiente para preencher minha existência inteira de alegria, entretanto, não vejo o que pode sair de bom deste amor. — Afastou-se o suficiente apenas para encarar o aristocrata.

NAMJOON — Acabas de se contradizer, meu caro, se reconheces que o que temos é amor, por que achas que ele nos deve algo além de existir?

SEOKJIN — Não é a isso que me refiro, apenas estou pensando no futuro.

NAMJOON — O futuro a Deus pertence, não tome dele seu trabalho. Tens medo?

SEOKJIN — Me envergonha ter de confirmar.

NAMJOON — Sua vida inteira cresceu com o perigo, por que agora desistir por conta das consequências? — apertou os braços do rapaz enquanto olhava em seus olhos. — Quando tudo isso acabar, o dinheiro do roubo vai se ser o suficiente para bancar a vida de teus parceiros, então partiremos juntos para Verona. Apenas nós dois em uma casa no campo, como essa, mas livres para correr para os braços um do outro sem inquisidores ao nosso lado. Aceite, Nini... — pediu em um tom baixo, com os olhos brilhando em expectativa.

SEOKJIN — Um pecado a mais, um a menos... — sorriu balançando a cabeça.

NAMJOON — Acabo de me tornar o homem mais rico do mundo com sete palavras. — Comemorou o abraçando apertado.

SEOKJIN — Ora, está exagerando. As tuas sempre pesam o dobro, não me expresso tão bem quanto você, irei rouba-las até conquistar novas.

NAMJOON — Roube de mim o que quiser.

SEOKJIN — Já tenho de ti tudo que quero.

NAMJOON — Achei que me roubaria um beijo — riu soprado.

SEOKJIN — Isso não é algo que se rouba, e sim se pede.

NAMJOON — Pois então peça.

SEOKJIN — Acabo de dizer que não sou bom com as palavras e queres que eu elabore um pedido dessa importância?

NAMJOON — Sabes que minha resposta será a mesma independente do que falar. Se me disser que o céu brilha em carmesim e que a espuma do mar se forma com as lágrimas das sereias, de qualquer modo meus lábios estarão contra os teus quando terminar.

SEOKJIN — Céus... Tudo que tu falas é lindo, agora vejo que me tranquei com a própria tentação. Não lembro quando me apaixonei, mas há de ter sido entre alguns de teus monólogos, escuta-lo é o ponto alto do meu dia. Quando se empolga e sorri desse jeito... — sorriu acariciando a bochecha do nobre assim que viu as covinhas. — Permita-me.

Namjoon assentiu levando sua mão até a nuca do ladrão e fechou os olhos quando sentiu a respiração próxima ao seu rosto. Não houve hesitação, selaram um pacto sem palavras e sangue, que com apenas um beijo, os tornava oficialmente amantes.

Da forma que estavam, pareciam uma pintura. Artistas mais atentos talvez conseguissem retratar perfeitamente a pressão dos dedos sobre a carne, o ângulo em que as cabeças se moviam em busca de mais contato de suas línguas, tudo isso banhados pela luz de prata da lua. Muitos negariam a encomenda ao ouvirem a descrição, simplesmente por não se sentirem a altura de pintar tal cena tão encantadora, então restava apenas aos dois prolongarem aquele momento o máximo que conseguissem para eterniza-lo em suas memórias. Não entrariam para história, tão pouco seriam um caso de amor agradável de ser contado uma roda de conversas. Durante aquele beijo, sabiam que seriam para sempre o segredo um do outro.

Voltaram para o quarto entre tropeços e peças de roupas sendo abandonadas pelo caminho. Ao ver Seokjin despido, Namjoon notou que um quadro não seria o suficiente, agora queria também uma estátua, o mármore havia de representar bem as clavículas marcadas, a cintura delgada e os músculos de suas costas.

Cada toque era mais uma certeza de que não conseguiriam voltar atrás, havia uma vida antes e depois do que estavam fazendo. Seokjin fechou os olhos enquanto puxava os lençóis, apreciando os beijos do nobre sobre sua pele. Não era em nada comparado as mãos das meretrizes que exploravam seu corpo de forma impaciente, o filósofo tinha a delicadeza de uma pétala e a doçura do mel.

NAMJOON — És tão perfeito... — Suspirou dando beijos em seu pescoço.

SEOKJIN — Céus... — apertou os olhos enquanto cravava suas unhas nos ombros do nobre.

NAMJOON — Não fale esse tipo de coisa na situação em que estamos. — Riu beijando o ladrão e prendendo suas mãos contra o colchão de modo que seus dedos ficassem entrelaçados. — Eu te amo, Seokjin.

SEOKJIN — Eu também te amo, Namjoon.

✻ ATO V ✻

Cena I

Bosque

Namjoon e Seokjin aproveitavam intensamente a calmaria antes da tempestade, pareciam recém casados em suas férias. Durante um mês, viveram no quarto um do outro trocando juras de amor e promessas de que, jamais, nada nesse mundo os separaria.

Sabiam esconder bem sua relação, ou ao menos os jovens do casarão queriam se agarrar as desculpas medíocres que ambos davam quando os questionavam sobre os sons que vinham de seus quartos. Enquanto todos fingissem que tudo continuava normal, de fato assim estaria.

O aristocrata sentou-se na borda da cama, arrumando o lençol sobre o corpo nú daquele que continuava em um sono profundo. Sorriu ao ver Seokjin suspirar quando seus dedos se colocaram entre as mechas escuras. Mesmo dormindo sabia identificar os toques de seu amado.

NAMJOON — Acorda, meu anjo — sussurrou assoprando próximo ao rosto do adormecido como se fosse Zephyrus guiando Vênus a terra firme.

SEOKJIN — Já? — questionou confuso sentindo os olhos ainda pesados.

NAMJOON — Sim, na verdade o deixei dormir mais do que me pediu, estavas tão lindo que tive pena de perturbar teu sono.

SEOKJIN — Vais deixar-me mal acostumado — sorriu apoiando o cotovelo no colchão.

NAMJOON — E a tendência é apenas piorar.

SEOKJIN — És adorável — puxou a mão do fidalgo e deixou um beijo sobre seus dedos.

NAMJOON — Estás realmente a roubar minhas palavras. — Riu incrédulo. — E além de ladrão é hipócrita. — Sorriu passando a ponta do indicador sobre o lábio inferior do amante.

Antes que conseguissem continuar o momento de paz, as batidas na porta fizeram Seokjin se levantar e vestir suas roupas de forma apressada.

Namjoon saiu pouco depois assim que teve certeza que ninguém passava pelo corredor, desceu as escadas e viu os ladrões abrindo caixas com máscaras que eram tradicionalmente utilizadas no carnaval de Veneza. Não era bobo, sabia que aquilo tinha ligação com o plano, mas evitava conversar sobre esses assuntos com Seokjin, ele sempre parecia tão estressado com as responsabilidades do roubo, que quando o via, queria apenas faze-lo esquecer de tudo. Entretanto naquela tarde fora um pouco diferente.

Andando entre o bosque de bétulas com braços entrelaçados como elos de correntes, Seokjin tentava acalmar o nobre e mostrar toda sua experiência.

SEOKJIN — Não confias em mim, meu amor? — indagou colocando sua mão sobre a do outro.

NAMJOON — Sabes que confio minha vida em ti, apenas tenho meus receios... Achas mesmo que é necessário se expor a tanto risco por dinheiro? Posso lhe dar se quiser.

SEOKJIN — Acabo de descobrir que estou a meses a conversar com as paredes. — Riu incrédulo. — Não é apenas uma questão de dinheiro, Namjoon, é vingança, justiça, honra. Te amo, mas não vais conseguir me fazer desistir disso.

NAMJOON — Compreendo, Nini... Me perdoe. — Apertou sua mão enquanto continuavam andando.

SEOKJIN — Logo isso irá acabar, iremos aproveitar as festas de carnaval na semana que vêm. Estaremos mascarados e a segurança será menor por conta dos feriados, sequer irão nos ver entrando ou saindo.

Continuaram discutindo sobre o plano, revisando cada uma das alternativas, rotas de fuga e de saída, Namjoon usou todo seu conhecimento sobre como o local operava para ajudar.

SEOKJIN — Sei me defender muito melhor do que imaginas, meu querido.

NAMJOON — Não estou duvidando disso, meu amor. — Sorriu dando um beijo em sua bochecha. — Nini... Semana que vêm já é o carnaval?

SEOKJIN — Sim, foi o que eu disse.

NAMJOON — Céus, então essa semana é o casamento de minha irmã... Ela jamais irá me perdoar... — Encarou o chão e parou de caminhar. — Permita-me ir vê-la.

SEOKJIN — Bem... Se é o casamento de tua irmã, tens de ir, claro — concordou balançando a cabeça.

NAMJOON — Ficará bem essa semana sem mim? — indagou o abraçando.

SEOKJIN — É apenas uma, creio que irei sobreviver sem você — sorriu o apertando. — Assim que acabar tudo por aqui, vou direto para Verona e o esperarei lá.

NAMJOON — Contarei cada segundo para isso. — Disse dando um beijo em sua mão.

SEOKJIN — Agora vá, arrume tuas coisas antes que comeces a chorar.

NAMJOON — Não irei me despedir de ti, aí sim começaria a chorar. Contente-se com um beijo, sim?

SEOKJIN — É mais do que o suficiente. — Respondeu colando seus lábios contra os do nobre.

Seokjin sempre considerou a covardia um dos piores defeitos que um homem poderia ter, então o quão decepcionado ficaria se soubesse que entre aquelas árvores estava um dos jovens, que sempre tratou como um irmão mais novo, planejando entregá-lo para o banqueiro?

✻ Ato VI ✻

Cena final

Os pensamentos de Namjoon estavam sempre longe, mais especificamente, junto de um belo ladrão. Quando chegou em casa, teve que usar toda sua criatividade para inventar tantas histórias sobre sua suposta estadia em Veneza, se limitava a dar respostas vagas quando a irmã perguntava de seus amigos Taehyung e Jimin.

Celebrou o casamento como pode, não podia estragar um dia tão importante para a donzela com seus receios. Após a festa, a garota partiu para a lua de mel em Siena, então Namjoon aproveitou para juntar suas coisas e foi para a casa de um amigo. Não conseguiria ser tão hipócrita ao ponto de ficar ao lado do seu tio quando sabia tudo que aconteceria em poucos dias.

Enquanto isso no casarão entre o bosque, um jovem ladrão colocava em uma balança todos seus conceitos de moralidade. Roubar seria mais digno do que entregar seus parceiros, sabia disso, no entanto o medo o tomava como fogo em madeira. Na manhã em que colocariam o plano em prática, pegou um cavalo e foi até a casa do banqueiro. O burguês ouviu incrédulo sobre o plano de como tomariam sua fortuna e de início, recusou-se a acreditar que seu sobrinho estava envolvido, no entanto sempre achou Namjoon de fato um tanto rebelde.

BANQUEIRO — Aquele infeliz! Fui traído pelo meu próprio sangue! — bateu com os punhos sobre a mesa do escritório. — Meu jovem, volte para sua base, se esse ladrão acha que irá me pegar de surpresa, eu estarei pronto para acabar com ele antes que tire uma moeda sequer dos meus cofres — gritou. — Volte mais tarde para receber o restante do pagamento, fez o que era certo, terá sua recompensa, meu garoto.

O homem saiu gritando com os guardas da propriedade, deixando sua sobrinha que havia acabado de voltar de viagem, se perguntando o que teria feito seu irmão para despertar tanto ódio em seu tio.

BANQUEIRO — Quero todos no banco! Ninguém sai vivo daquele lugar, ouviram bem? E se encontrarem o bastardo do meu sobrinho, não hesitem em matá-lo! — falou enquanto andava pelo pátio de modo impaciente. — Ingrato, degenerado, patife, covarde! Até tu, Brutus, meu filho...

A donzela deixou suas malas na porta da casa e saiu correndo até a casa onde sabia que seu irmão estava abrigado. Não importava o que tinha acontecido, não o deixaria ser morto.

IRMÃ — Namjoon, meu irmão, fuja! Nosso tio quer matá-lo! — alertou assim que passou pela porta e viu o nobre.

NAMJOON — O que? Como sabes disso?

IRMÃ — Cheguei de viagem a pouco, ainda no portão o ouvi gritando com os guardas sobre não deixar ninguém sair vivo do banco e que não era para hesitar em te matar. Meu irmão, o que fizestes?

Namjoon não respondeu, saiu correndo pensando que se ele teve sua irmã para alertá-lo, Seokjin não teria a mesma sorte. Pegou uma carruagem para tentar chegar mais rápido até o banco, no entanto os foliões ocupavam as ruas fazendo o cocheiro ter de tomar um trajeto mais longo.

Trocava os anéis entre os dedos e mordia o lábio por conta do nervosismo. Seokjin sabia se defender, era nisso que tentava se apegar.

Já próximos ao banco, o grupo de ladrões se infiltrava entre a população que festejava. Entraram sem grandes problemas pelo teto do prédio, e logo que Seokjin deu o primeiro passo no saguão, soube que havia algo de errado no local. Os guardas saltaram de trás das colunas de mármore, os encurralando de uma forma que não restavam dúvidas: já sabiam do plano e estavam os esperando. Sacou sua espada e iniciou uma batalha que parecia interminável, os homens apareciam aos montes e mesmo que fosse bem preparado, ver seus amigos caindo ao seu lado lhe dava vontade de desistir de tudo. Conseguiu sair do prédio, arrastando o combate para o pátio do banco, teria mais chances de fugir dessa forma.

Lutou bravamente contra três, no quarto, sentiu a lâmina fria atravessar seu abdômen.

Namjoon desceu da carruagem dando todo dinheiro que tinha em seu bolso sem sequer conferir o valor. Contornou o muro da propriedade e adentrou o pátio já correndo em direção ao homem atirado sobre o chão de pedra.

Se ajoelhou ao lado do ferido e puxou a máscara, vendo os olhos de Seokjin brilharem com as lágrimas de mágoa e raiva. Colocou as mãos sobre o corte tentando parar o sangue que se esvaía como todo o amor que ladrão tinha pelo nobre. Namjoon já soluçava, um choro inconsolável, que mesmo assim, não aliviava a dor que sentia.

Seokjin juntou suas últimas forças para levar sua mão até a gola da camisa daquele que havia jurado amar para sempre e o puxou com todo ódio que sentia.

SEOKJIN — Como você pode? — questionou pausadamente em um sussurro enquanto olhava em seus olhos.

O aperto no pescoço do nobre cessou. Havia partido.

Seokjin morrera acreditando ter sido traído pelo homem que mais amava nesse mundo.

Ao notar isso, Namjoon chorou mais ainda. As últimas palavras que ouviu de seu amante eram justamente as que o assombrariam pelo resto de sua vida.

NAMJOON — O quão cruel é o destino por não me permitir partir em teu lugar? — tocou seu rosto de forma suave. — Mesmo agora em que o sopro da vida já o abandonara, continuas sendo a criatura mais perfeita em que já pus os olhos, meu anjo. — Inclinou-se dando um beijo em sua testa. — Meu coração guardará apenas rancor com a morte por o ter tirado de mim, sequer me deixou explicar essa confusão trágica para que morresse me amando... Escutai-me agora. Apenas lhe peço, me ame onde estiver e juro fazer o mesmo. Vai em paz, meu amor. Se é impossível uma existência contida em um único ser, tu continuarás vivendo em mim para sempre, Nini.




Notas da autora: Pequenas contextualizações sobre as referências que usei porque fanfic também é cultura. Florença foi o berço do renascimento cultural justamente por concentrar a burguesia, então após a "idade das trevas", as pessoas começaram a se importar com a arquitetura e arte como forma de deixar as cidades mais bonitas. O período "renascimento" tem esse nome porque ele resgata os valores artísticos, científicos e filosóficos greco-romanos. A cidade era realmente conhecida por ter diversos bancos, e os Médici que eu citei eram uma das famílias mais poderosas de Florença, conhecidos por valorizar a arte e praticarem o mecenato (que era esse patrocínio para pintores e escultores).

E eu usei um dos apelidos que as armys gringas deram recentemente para o Seokjin e que eu achei MUITO FOFO, então para quem boiou, foi daí que eu tirei.

NORMALIZEM CHAMAR O SEOKJIN DE NINI!

Ah a cena em que o Seokjin coloca a espada no pescoço do Nam foi inspirada em Princesa Mononoke, deu vontade de recriar essa cena com namjin e eu já estava a um bom tempo querendo um plot com Namjoon mecenas, aí juntei com Shakespeare e deu nisso haushau.

Essa é a primeira parte da minha coletânea de tragédias, então na seguinte irá focar em taekook e o título vai ser "Veneza" <3.

Não sei quando vai sair, mas um dia vem ta kkk

Obrigada por terem lido, espero que tenham gostado, se cuidem.

May 9, 2021, 12:37 a.m. 0 Report Embed Follow story
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The End

Meet the author

Ellie History lover, sensitive painter and mediocre writer. Taejin, Namjin e Sope shipper 솝. "Qual seria o sentido em ter minha existência inteira contida em um único ser?"

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