soulfaraway Fabiana Souza

Você já perdeu tudo? Henrique Freire foi um escritor famoso cujo livro de estréia, "Azul Estígio", se tornou best-seller. Suas publicações subsequentes, no entanto, foram todas de baixa classificação. Depois de um ano enfrentando um total bloqueio de escritor, seu editor está pegando no seu pé com prazos, sua esposa está indo embora de casa e ele corre o risco de perder a propriedade. Henrique está se afogando no fundo do poço. Será que ele conseguirá subir de novo? Talvez seja hora de tomar algumas medidas desesperadas... com um psicólogo ímpar.


Science Fiction For over 18 only. © Todos os direitos reservados. Registrado em: Avctoris.

#processocriativo #escritor #bloqueiocriativo #crise #casamento #amor #romance #psicologia #inteligenciaartificial #realidadevirtual #ficcaoespeculativa
3
3.3k VIEWS
Completed
reading time
AA Share

Um vazio na mente

"O maior risco de todos, perder o próprio eu, pode se dar de forma silenciosa no mundo, como se não fosse nada demais. Nenhuma outra perda pode ocorrer tão silenciosamente; qualquer outra perda — um braço, uma perna, cinco dólares, uma esposa etc. — certamente será notada."

S. Kierkegaard


Álcool e cigarros.


Meus vícios de escritor de meia-idade, que me habitam as entranhas, tão difícil que é mudar alguma coisa depois de velho.


Sei que deveria fumar menos. Até prefiro o efeito do cigarro esporádico ao do cigarro frequente, mas não tenho mais controle sobre tal ato. Acendo um cigarro na brasa do outro, fumando até o toco, sem nem perceber. Não é irônico? Eu fumo sem sentir que fumo, mas, se não fumo, não tolero a abstinência.


Eu deveria beber menos também. Essa falta de controle me causou alguns problemas recentes, permeados pela embriaguez. Amnésia. Mais coisas que faço, sem sentir que faço. É como se eu estivesse vivendo a vida em standby, entorpecido, mas não faço ideia do que é que estou esperando.


Tento me lembrar dos últimos dias ​​e não consigo. Não sei que dia da semana é hoje e fico surpreso por ainda lembrar meu nome. Nada mais se adere à minha memória ou à minha atenção. Quando saio para a rua, a flanar, mal vejo os lugares onde estou. Às vezes, me pego no meio do trânsito, sob o som ensurdecedor das buzinas, completamente inconsciente de ter chegado lá, e de para onde deveria ir.


Sou um fantasma, uma sombra. Estou... vazio.


Do parapeito da varanda, olho para a avenida, bem abaixo, tão pequena na minha perspectiva do décimo quinto andar: lá está todo o caos do fluxo diário, com seus ruídos constantes. Todo o mundo continua, todos tão cheios de si... Como posso obter um pouco disso? Dessa gana, dessa energia, dessa coragem?


Viro-me para encarar meu rosto opaco, no semireflexo do vidro fumê, e me pego naquele momento clássico, em que nos olhamos e nos perguntamos: "O que fiz da minha vida? Ou: o que a vida fez comigo? Em que ponto, no passado, vendi minha alma para Sei-Lá-Quem e me tornei tão autômato, tão insignificante?"


Jogo o cigarro no cinzeiro e atravesso a porta da varanda novamente, entrando no quarto. Arre! Como é difícil viver com esse vazio na cabeça!


Luana acorda e se espreguiça com prazer, rolando uma perna para fora dos lençóis. Abre seus lindos olhos cor de âmbar e me olha. Eu poderia ceder à expressão batida "cor de mel", mas seus olhos não são da mesma cor do mel. São quase amarelos. Felinos, misteriosos e superficiais.


Nunca consegui entender por que o mistério está sempre associado à profundidade. Nas profundezas, não há mistério. Há algo diferente, algo que pode levar um homem à loucura, se for muito revirado. Mania de escavação nas ideias. Para mim, o mistério sempre habitou a superfície, ele é visível ao olho nu. De Profundis, minha bunda!


— O que há, querido?


Sua voz, cheia de sono e da rouquidão característica das manhãs, parece se espalhar por todo o quarto, tridimensional. Eu não respondo. Não sei o que há, nem tenho vontade de dizer nada. Apenas me sento ao lado dela na cama.


Ela acende um cigarro. Em um minuto, percebo que estou fumando novamente. Os dois vapores se encontram e se entrelaçam, dançando no silêncio. Nós costumávamos dançar? Sinto vontade de tocá-la, mas não o faço e não sei por quê. Eu só me deixo lá, parado e silencioso, com o cigarro a me consumir.


April 17, 2021, 8:03 p.m. 0 Report Embed Follow story
1
Read next chapter Todos temos que lidar com prazos

Comment something

Post!
No comments yet. Be the first to say something!
~

Are you enjoying the reading?

Hey! There are still 19 chapters left on this story.
To continue reading, please sign up or log in. For free!