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julie1sachs Julie Sachs

Tudo tem um lado positivo, por menor que seja. Pelo menos, é o que dizem. Mas me diga... Se isso é verdade, onde está a parte boa do que eu fiz? Por favor, aponte-me o lado bom; faça-me enxergar a salvação em meio a tanta destruição e dor. Prove-me que eu estou cego e que há sim um lado bom nisso tudo. É tudo o que eu lhe peço. Salve-nos.


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#science fiction #tempo #avó #sci-fi #maquina #borboleta
Short tale
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Butterfly Effect

       Espiei por uma fresta na cortina o enorme público que ouvia com atenção as palavras do apresentador engravatado, que fazia um breve resumo dos meus feitos no meio científico – que, diga-se de passagem, não eram muitos..

       – ....de qualquer maneira, chega de enrolação. É com grande honra que eu apresento.... Dylan Parker! – Essa era a minha deixa. Respirando fundo, empurrei a grande máquina coberta por um pano vermelho na direção do palco, sendo cegado quase que imediatamente pelos milhares de flashes e holofotes direcionados a mim. O apresentador me entregou o microfone e foi para o camarim.

       Parei mais ou menos na metade do palco; todos os olhares voltados para o objeto ao meu lado – mais ou menos da minha altura – oculto pelo pano cor de sangue. Olhei para o camarim, onde um dos assistentes assentiu, indicando para eu começar o meu discurso.

       – Boa noite, senhoras e senhores. – Todos responderam com um outro boa noite. – Bem, como vocês já sabem, meu nome é Dylan e, como o próprio apresentador disse, até agora eu não tive nenhum grande feito digno de prêmios ou algo do gênero no meio científico..        Mas isso tem uma justificativa: passei praticamente a minha carreira inteira planejando isso que está aqui ao meu lado, sonhando com o dia que eu finalmente iria poder apresentá-la à vocês... E bem, agora não é mais um sonho.

       Fiz uma pausa para fazer um suspense, demorando meu olhar em um grupo de jovens com olhares sonhadores, que me remeteram à alguns anos atrás, quando eu ainda tinha aquela idade. Lembrava-me muito bem quando eu estava no mesmo lugar que eles, imaginando o dia que eu estaria neste palco com alguma experiência incrível, como agora. Despertei-me de meus devaneios quando alguém deu uma tosse forçada, obrigando-me a desviar meu olhar dos jovens para o resto do público.

       – Senhoras e senhores, é com grande orgulho que eu vos apresento o objeto que irá revolucionar! O objeto que irá quebrar todas as barreias entre o passado, presente e futuro... – Com um puxão bruto, tirei o pano, revelando uma máquina prateada do tamanho de um homem adulto. A plateia soltou suspiros de admiração, e alguns burburinhos curiosos puderam ser ouvidos. – Imaginem quantas coisas poderemos aprender em pouco tempo com mais certeza e precisão que qualquer site da internet poderia nos dar. Imaginem como iremos evoluir rápido com isso!

       – Desculpe a intromissão, senhor... – Uma mulher que estava no fundo da plateia começou hesitante, mas fiz um movimento de cabeça, indicando para ela prosseguir. – Isso é uma máquina do tempo? Tipo, uma máquina do tempo de verdade?

       – Exatamente. – Respondi com um sorriso amarelo, tentando não demonstrar o meu desapontamento com a singela pergunta da moça. Eu realmente cheguei a pensar que estava óbvio..

       – Como você conseguiu tal ato? – Um homem, que estava sentado em uma das primeiras fileiras indagou, sem tirar os olhos da máquina oval. – Não tenho a intenção de desmerecer o seu feito, mas nem os cientistas mais renomados conseguiram isso nem com décadas de estudo e testes...

       – É que ninguém pensou em olhar à nossa volta, e eu sim. Estavam todos presos na velocidade e buracos de minhoca que sequer pensaram que viagens no tempo sempre existiram. – Respondi, ajeitando os meus óculos antes de prosseguir, percebendo os olhares confusos das pessoas. – Antes de qualquer coisa, vocês tem que ter em mente que transpor o espaço tempo e voltar ao passado é sim possível, pois as partículas quânticas fazem isso o tempo todo. O único problema que pode-se ser considerado um real desafio, seria atomizar um corpo humano, com trilhões de células vivas, e reconstituí-las no passado ou futuro.

       Fiz uma pausa para observar a plateia calmamente. Então prossegui:

       – Durante anos a fio, me debrucei sobre a física quântica e a nanotecnologia — o que foi total perda de tempo, pois no fim meus estudos não renderam em nada. A resposta, meus amigos, estava esse tempo todo dentro dos filmes de ficção: desintegração e teletransporte.

       "Estava claro para mim que desintegração de verdade não existe realmente. Tudo vai para algum lugar. Inclusive quando a coisa que se diz estar "desintegrada". Quando cheguei mesta conclusão, meus estudos se dirigiram exatamente para essa área: conseguir desintegrar nossas células e as transportar para um tempo em específico, integrando-as novamente quando chegarem. Agora, eu finalmente consegui. As respostas sempre estavam a nossa volta, nas coisas mais simples e banais das quais convivemos diariamente!"

       Uma onda de aplausos se iniciou, durando mais ou menos uns trinta segundos. Aos poucos, elas foram se cessando, dando espaço para varias perguntas ao mesmo tempo. Apontei para um senhor sentado na primeira fileira, ele fora o único que não aplaudiu.

       – Você pode fazer uma demonstração? – Silêncio total. – Digo, como saberemos que o que você diz não passa de palavras rebuscadas?

       Encarei meu público, nervoso. Para demonstrar da forma que eles queriam, sabia que eu teria que viajar pelo menos a um ano atrás.. E eu nunca havia feito uma viajem maior do que um mês — e dentro de casa. Mas eu precisava provar para eles que minha máquina realmente funcionava, ou eles nunca acreditariam em mim.. Afinal, cientistas só acreditam nas coisas se houverem provas.

       – Tudo bem. – Disse por fim, andando alguns passos incertos até a máquina. – Mas primeiro, eu preciso de um voluntário, alguém que eu possa aparecer em seu passado e fazer o que eu pretendo.

       – Tudo bem. Eu me ofereço. – O mesmo homem que me pedira a demonstração levantou sua mão. – De que informações você precisa?



       Respirando fundo, entrei na máquina. Bloqueei meu celular que tinha a foto da carteira de identidade de meu "cobaia" (da qual descobri que se chamava Harryson. Sim, Harryson Willians: o renomado cientista que inventou uma redoma que protegeu o nosso país e vários outros que estavam perto de um ataque nuclear terrorista. Eu admirava muito ele, e até hoje eu não sei como é que eu não o reconhecera...) e guardei em meu jaleco. Digitei a data que ele dissera para eu voltar: dia 4 de outubro de 1930.

       Sim, eu iria voltar 107 anos atrás. Admito que estava nervoso. Eu era do século XXI, nasci com a tecnologia ao meu lado, e, admito que nunca pensei que algum dia eu iria para uma data tão distante..., onde não havia sequer internet pública ou algo do tipo.

       – Senhoras e senhores, daqui exatos... – olhei para o meu relógio. – cinco segundos voltarei. Até lá! – Com um aceno de cabeça, um dos assistentes pegou meu microfone e se afastou da máquina. Apertei o botão vermelho na lateral da mesma e fechei o vidro blindado, sendo tomado por uma estranha — mas não desconhecida — sensação de cada parte do meu corpo sendo separada e transformada em pequenas partículas. Um calor praticamente insuportável tomou conta do meu ser, e então, em questão de segundos, eu já não era mais material, e tudo à minha volta desapareceu.



       Despertei com o sol batendo em meus olhos; os pássaros cantando alegremente nas árvores. Sai da máquina claustrofóbica e me espreguicei, olhando em volta.

       Eu estava em frente à um sítio. Diversas árvores me rodeavam e eu já podia avistar algumas vacas e cavalos ao longe. Sorri. Nunca havia visto tais animais assim, soltos. E muito menos tantas árvores aglomeradas no mesmo lugar. Minha respiração melhorou, ficou mais fácil e solta, e eu pude sentir meus pulmões comemorando o ar puro.

       Dentro do sítio, ao lado de um estábulo, pude notar uma casa antiga de madeira. Me dirigi até ela. Se o Dr. Harryson tivesse me dito a verdade, deveria haver uma mulher grávida de sete meses ali, e, tudo o que eu precisaria fazer, seria tirar uma foto da mesma enquanto tomava chá. Essa seria a prova de que precisava para mostrar que eu realmente viajei no tempo.

       Atravessei a rua deserta de terra batida e observei o portãozinho de madeira que protegia a propriedade, preso por um cadeado com correntes. Peguei uma pistola com silenciador e atirei no cadeado, abrindo o portão. Antes de entrar, alisei meu terno que havia posto ainda dentro da máquina, não percebendo que, enquanto eu o fazia, um sujeito mal encarado se aproximava de mim silenciosamente.

       Quando fui dar o meu primeiro passo, ele avançou na minha direção e apontou uma espingarda em minha cabeça, obrigando-me a parar meu movimento.

       – Não se mova ou morra. – Ele disse em meu ouvido, andando lentamente para dentro do sítio. – Vá embora lentamente e finja que isso nunca aconteceu...

       Assenti com a cabeça, os instintos gritando para eu obedecê-lo e não levar chumbo. O bandido sorriu satisfeito e começou a correr na direção da humilde casa.

       Assim que ele ficou em uma distância segura e eu pude voltar a pensar racionalmente, levantei minha pistola e mirei no bandido. Destravei a arma, pensando seriamente nas consequências desse ato.

       Se eu atirasse e matasse o homem, poderia dar alguma interferência na linha do tempo, causando um enorme efeito borboleta e, portanto, mudando algo que poderia ser muito importante no futuro, afinal, eu não sabia quem esse homem era...

       Agora, se eu o deixar viver, a avó de Dr. Harryson será assaltada. Mas isso já iria acontecer de qualquer maneira, certo? Afinal, se esse cara realmente quisesse assaltar a casa, ele não teria muita dificuldade em pular o portão...

       Abaixei a pistola e deixei o homem entrar na casa.

       Não. Eu não tinha o direito de tirar a vida deste homem que poderia ter algum parente importante no futuro. A família do Dr. Harryson só seria assaltada, nada demais. Esperaria ali mesmo até que ele saísse e tiraria a foto. Pronto. Tinha certeza de que não haveria grandes prejuízos no futuro e...

       Minha linha de pensamentos foi interrompida quando escutei o som de um tiro que ecoou alto da casa da família de Dr. Harryson, o que fez eu entrar em desespero. Corri com todas as minhas forças na direção da casa e entrei pela porta, tropeçando em tudo em meu caminho.

       "O que aconteceu? A avó de Harryson matou o bandido? Ou será que foi o contrário...?" Balancei a cabeça, afastando essa ideia catastrófica de minha mente. "Não. Sejamos positivos e.."

       Escutei o som de um vidro sendo quebrado no andar de cima. Subi até lá, pulando vários degraus de uma vez. Adentrei no quarto rústico, bem a tempo de ver o bandido fugindo pela janela; atrás dele, uma cama de casal com os lençóis cobertos de sangue, onde uma mulher grávida de mais ou menos uns trinta anos, jazia morta, o olhar já sem vida.

       Corri até ela, desesperado; o coração a mil. A avó de Harryson Willians estava morta. Dr. Harryson nunca nasceu e, portanto, quando eu voltar para o meu tempo, o mundo estará acabado por conta da radioatividade altíssima.

       Deixei-me cair sobre os cobertores ensanguentados, chorando de desespero como uma criança. Ignorei quando ouvi passos no andar de baixo e uma voz masculina chamando pela esposa, agora morta.        Não me importei quando ouvi os passos já atrás de mim e quando o homem barbado correu na direção da cama, ao meu lado, chorando junto a mim.

       Tudo o que eu conseguia pensar naquele momento era: "O que foi que eu fiz?"

       Mas eu sabia da resposta. Eu só não queria acreditar que eu, literalmente, tinha conseguido destruir a salvação da humanidade inteira em apenas alguns minutos e em um único experimento por conta de um erro bobo e irresponsável.

Jan. 16, 2017, 2:24 p.m. 1 Report Embed 0
The End

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Kaline Bogard Kaline Bogard
Olá! Acho o efeito borboleta um dos temas mais impressionantes de se trabalhar. Teoria do Caos me fascina. As vezes eu olho as pessoas na rua e me pergunto o quanto esse breve olhar interferiu na vida delas. Até no onibus, as vezes eu me pergunto se sentar ao lado do motorista mudou alguma coisa se eu tivesse escolhido o outro lado. E aqui... a interferencia foi a nivel mundial. Um mero esbarrão provando que tudo no mundo importa, até o que a gente acha que não mudou nada na vida de alguem. Mudou. Sempre muda. Parabens pela história.
May 11, 2018, 9:52 a.m.
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