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Sirius Black era apaixonado por Remus Lupin. E Remus Lupin era apaixonado por Sirius Black. Mas nenhum dos dois dava o primeiro passo - algo que Padfoot estava obstinado a mudar, finalmente.


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#Marotos #harry-potter #remus-lupin #sirius-black #wolfstar
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Parte Um

꧁L U M O S꧂


Dezembro chega, trazendo consigo os primeiros indícios de um inverno que promete ser rigoroso. A Lula Gigante já não dava mais as caras na superfície do Lago Negro, pois a água estava fria demais e ela, assim como os sereianos e os inúmeros Grindylows que o habitavam, se escondiam nas profundezas do lago, onde a temperatura era mais agradável.

A noite fria cai sobre Hogwarts, que possui apenas algumas luzes acesas espalhadas pela silhueta característica do castelo. Na Torre da Grifinória, Sirius Black, ainda está acordado, olha o fogo que trepida na lareira da Sala Comunal. Vestindo seus pijamas, meias nas cores da Casa e um roupão grosso e vinho por cima, brinca com o pomo de ouro que roubou de James.

Não consegue dormir e está extremamente entediado. Todos os outros Marotos já foram para a cama há horas, exceto ele - que se levantou depois de Remus tanto reclamar da movimentação excessiva de Sirius. Suas camas eram próximas, então qualquer ruído, por mais baixo que fosse, era capaz de atrapalhar o sono leve do outro.

Sirius estala os dedos, como se uma luz se acendesse acima de sua cabeça. Se levanta num salto da poltrona de veludo vermelha e vai até o dormitório, na direção da cama de James.

— Lumos — sussurra, fazendo a ponta de sua varinha se iluminar.

Abaixa-se sobre a cama de Potter, com o objeto quase tocando seu nariz.

— Que… — o outro acorda desnorteado.

— Preciso que você me empreste sua capa de invisibilidade e não faça nenhuma pergunta.

Toma cuidado para não acordar os outros - principalmente Lupin, que com certeza o faria um sermão. Principalmente agora, que havia recebido seu distintivo de Monitor, Remus se tornara insuportavelmente correto. Tudo era motivo para um longo discurso de “como as irresponsabilidades de Sirius afetariam seu futuro” e blá, blá, blá...

Potter dá um murmuro dolorido, voltando o rosto para o travesseiro, com seus cabelos desgrenhados e os olhos fechados. Black sabe que o amigo tem um sono pesado demais e provavelmente nem vai se lembrar disso amanhã de manhã.

— Dentro do malão nos pés da cama — diz, escondendo-se na bagunça de lençóis sobre seu corpo.

Sirius abre o baú cuidadosamente e retira o tecido fino de dentro, trazendo junto o Mapa dos Marotos. Desce as escadas com a capa nos ombros e abre o papel, apontando sua varinha. Ladeia um sorriso, antes de sussurrar:

Eu juro solenemente não fazer nada de bom.



— Alguém viu o Sirius? — Remus termina de ajeitar o nó de sua gravata e percebe a cama de Black vazia.

Também não o encontrou no banheiro enquanto escovava os dentes. Sabe que é improvável que o amigo tenha acordado mais cedo, porque sempre precisava tirá-lo da cama aos gritos e era o último a sair do dormitório.

— Talvez ele tenha dormido na Sala Comunal outra vez — Peter responde, vermelho e sem ar depois de se abaixar para pegar sua mochila carregada com livros.

O garoto sempre foi meio acima do peso, mas ultimamente estava ainda mais gordo. Ele culpava o estresse dos exames para Níveis Incrivelmente Exaustivos de Magia (NIEMs) que teriam que realizar no final do ano. - sempre encontrava alguma coisa para usar como desculpa para sua comilança e todos sabiam disso.

James continua na frente do espelho, buscando a melhor forma bagunçada e despojada para usar seus cabelos hoje. Precisava estar em seu aspecto excepcional, já que tinha planos de finalmente convidar Lily Evans para o Baile de Inverno do dia 21 de dezembro. Os dois estavam se dando melhor - principalmente depois do ranhoso tê-la chamado de sangue-ruim, a garota desistiu de vez do sonserino e resolveu andar com os garotos. Então Potter sentia-se confiante quanto às suas chances de levá-la ao baile.

Os três descem as escadas até a Sala Comunal e só encontram mais alguns grifinórios perambulando e conversando, mas nada de Sirius. Remus sabe que está errado, mas uma parte dele gostaria que suas palavras fossem verdadeiras:

— Ele pode ter acordado mais cedo para o café e está nos esperando lá embaixo… — diz, sem convicção.

— É. Pode ser — Peter responde, saindo na frente apressado para devorar o banquete lá embaixo.

— Sabe… — James murmura, pensativo, enquanto os dois se espremem no buraco do retrato da Mulher Gorda. — Eu pensei que estivesse sonhando, mas talvez… talvez Pads tenha realmente vindo até minha cama no meio da noite e me pedido a Capa.

Remus para bruscamente, arregalando os olhos para o outro.

— E você o entregou? Sem mais nem menos?

— Bom… eu pensei que estivesse sonhando.

— James!

— Ah, qual é, Moony. Ele é grandinho. Já sabe o que faz.

— É de Sirius Black que estamos falando — Lupin repete lentamente o nome: — Sirius. Black.

James respira fundo, passando as duas mãos pelo rosto e maneia a cabeça em negativa, percebendo agora a besteira que fez ao confiar que Sirius teria o mínimo de responsabilidade.

— Droga.

— É. Droga.

Os dois vão ao Salão Comunal e se sentam junto de Lily e Peter - que devora a comida como se fosse sua última refeição. James senta-se ao lado da garota, que os recebe com um sorriso iluminado.

— Por que as caras preocupadas? — Pergunta, desfazendo o semblante animado.

— Nós… perdemos o Sirius — James diz, servindo-se de uma taça de suco de abóbora.

— Como assim? Ele está morto?

— Não — Lupin franze o cenho, pensativo. — Bom… eu espero que não.

— Ele me pediu a capa de invisibilidade no meio da noite e…

— E você simplesmente o entregou? — Lily parece mais perplexa que Remus, então Potter revira os olhos, assentindo. A garota dá um tapa dolorido na cabeleira bagunçada do rapaz. — Às vezes você é mais burro do que o próprio Sirius.

— Oi! Eu estava sonolento demais para discutir…

— Nós temos que dizer a alguém… talvez à McGonagall. Ela saberá o que fazer.

— E dizer o quê?

— A verdade.

— Ele iria se enrascar…

— É melhor do que demorar muito e o idiota aparecer ferido ou pior…

— Merda — James murmura, trocando um olhar de cumplicidade com Remus. — Odeio quando você tem razão.

Lily sorri, mordendo ruidosamente sua torrada amanteigada.

Os amigos seguem para os dois períodos de Transfiguração e esperam até o final da aula para informar à Minerva McGonagall sobre o sumiço de Sirius Black - esperavam que até a hora do almoço ele já tivesse aparecido, o que infelizmente não aconteceu. James deixou de lado a informação de que o amigo havia falado com ele antes e que possuía a Capa de Invisibilidade, que era o segredo deles.

Mas agora, enquanto Minerva mobilizava todo o corpo docente para procurar Black no lado de fora do Castelo, James considerava a probabilidade de Sirius estar morto e coberto pela capa. Como encontrariam alguém invisível? Talvez ele devesse contar, afinal…

— Não é necessário, Professora McGonagall! — a voz grossa de Hagrid ecoa pela entrada do Castelo conforme ele caminha, segurando algo nas costas feito um saco de batatas. — Já o encontrei.

A Professora anda apressada em sua direção, com as vestes negras esvoaçando a cada passo.

— Por Merlin! O que aconteceu? — diz, ao notar o pijama imundo de Sirius e alguns cortes espalhados pelo braço do rapaz. — Leve-o direto para Madame Pomfrey.

Remus percebe a movimentação e corre na direção da enfermaria, com o coração apertado, em desespero por não saber o estado de Sirius. Padfoot precisava ser tão teimoso e impulsivo assim? Na maioria das vezes em que se ausentava, sua volta sempre significava encrenca. Como na vez que que decidiu ser uma ótima ideia escalar a torre de Astronomia no meio da noite, acompanhado por James, e os dois só não se espatifaram no chão por causa do feitiço de Lily que os segurou em pleno ar.

Lupin temia perdê-lo para uma de suas traquinagens em algum dia desses…

Passa pela porta e corre até a cama onde Hagrid coloca o rapaz. Abre espaço no meio de Peter e James, respirando aliviado ao ver os olhos abertos e o sorriso ladeado de Sirius. Apesar dos cabelos bagunçados, das vestes rasgadas e dos cortes finos espalhados pelo corpo, parece estar bem.

— Ele foi trazido até a cabana por um dos Centauros — Hagrid explica. — Estava dentro da Floresta Proibida, gritando bobagens e indo na direção do ninho das Acromântulas…

— Talvez as malditas aranhas é que estivessem sendo idiotas em primeiro lugar — Sirius murmura, bufando.

James e Lily arregalam os olhos. Remus trinca o maxilar, combatendo o impulso de lançar um soco contra Sirius ali mesmo.

— Você poderia ter morrido, seu imbecil! — diz, num tom alterado.

— Bom… devo ser um cara de sorte, pois estou inteirinho — Black olha para os cortes em seus braços e dá de ombros. — Quase inteiro.

— Então — Minerva diz, em seu tom ríspido. — É bom ter uma ótima explicação, Senhor Black.

— Hum… — senta-se na cama, passando a língua pelos lábios ressecados. Desliza os dedos pelos cabelos e sorri: — Perdão, Professora. Veja bem… eu sou sonâmbulo. Quando acordei, estava no meio da Floresta, sem ideia de como fui parar lá.

— Sim, Professora, ele sempre anda dormindo pela Sala Comunal no meio da noite — Peter acrescenta, mas seu tom aterrorizado não é nada convincente.

A mulher estreita seus olhos e aperta os lábios de uma forma ameaçadora que poderia intimidar a qualquer um - exceto Sirius Black, por razões óbvias. Nada parecia ser capaz de assustar o rapaz. Desde muito jovem, acompanhado de Potter, tinha o péssimo hábito de deixar um rastro de confusão por onde pisasse. James ao menos havia amadurecido um pouco, principalmente desde que Lily apareceu. Mas Black era um rebelde sem causa.

— Menos cinquenta pontos para a Grifinória. E vou fingir que acredito em seu teatrinho, Black — Minerva se levanta, alisando o tecido negro de suas saias e empina o nariz fino. — A semana inteira de detenção em minha sala depois do jantar.

O rapaz arregala os olhos, fazendo menção de protestar, mas McGonagall já está bem longe até seu cérebro processar a informação.

— Porra… — murmura, levando um tapa de Madame Pomfrey em resposta. — Perdão.

A bruxa espalha a mistura curativa pelos cortes de Sirius e as feridas vão se fechando aos poucos até se tornarem finas cicatrizes brancas.

— Vou à cozinha buscar seu almoço. Não saia daqui — diz, fuzilando-o com o olhar.

Papoula sai murmurando algo sobre "já deveria estar acostumada" e "vergonha para a Escola", até sumir no lado de fora da enfermaria.

Peter dá a volta no outro lado da cama, enquanto Lily e James continuam fitando o rapaz com preocupação. Lupin estreita os olhos e cruza os braços no peito. Ao contrário do que pensam, Moony é provavelmente a única pessoa capaz de fazer com que Sirius se sinta culpado pelos seus atos. Seu remorso, é claro, não durava muito tempo.

— Até quando você vai se enfiar em situações que envolvem perigos mortais? — Remus diz, com a voz calma e baixa.

Sirius rola os olhos e ladeia um sorriso:

— O ponto, meu querido Moony, é que Prongs agora me deve vinte sicles...

— O quê? — James emite um som agudo e desafinado.

— Semana passada me desafiou a invadir o estoque do Slughorn e pegar um pouco de Helária… — passa os dedos pelos cabelos negros, penteando-os para trás. — Eu fiz. Só que fiquei curioso no meio do caminho e acabei provando um pouco da erva… quando recobrei a consciência, estava meio perdido na Floresta Proibida, de pijamas e meias. E as malditas aranhas me encontram.

Helária era uma das plantas utilizadas no preparo do Elixir da Euforia e do Gás da Risada. Altamente alucinógena e não recomendada, poderia levar um bruxo à loucura caso exagerasse na dose.

— Você o desafiou? — Lily dá uma cotovelada no rapaz. — Quantas vezes nós temos que te falar para nunca desafiar o Sirius? Ele é um tapado que não mede nenhuma consequência antes de fazer as coisas!

— Ei, eu posso te ouvir, sabia?

— Eu sei.

— Legal, Padfoot — Peter diz, sorrindo largamente.

— Muito obrigado, Wormtail. Ao menos alguém aqui sabe apreciar uma verdadeira aventura — Sirius sorri, alongando o pescoço e bocejando por vários segundos. — Estou exausto.

— É bom acordar, porque se faltar a mais uma aula do Professor Binns, você vai levar um “T” nos Níveis Incrivelmente Exaustivos de Magia — Remus diz, checando o relógio em seu pulso.

— Moony, por favor — Sirius murmura, fechando os olhos. — No momento você e seu sermão estão sendo Incrivelmente Exaustivos.

— Me perdoe por ser o único sensato aqui, além de Lily. Agora tenho que ir. Eu e minha consciência moral precisamos levar os alunos do primeiro ano até a estufa. Vejo vocês daqui a pouco.

O rapaz se retira, lançando antes um olhar assassino à Padfoot, que responde apenas com seu sorriso insuportavelmente cativante. Lily e Peter o seguem - o loiro precisa correr para acompanhar o ritmo rápido dos dois, com seus passos desajeitados pelo excesso de peso.

Sirius e James se entreolham e Potter sustenta a expressão séria por alguns segundos antes de cair na gargalhada junto do amigo. Puxa uma cadeira, sentando-se ao seu lado e retira os óculos de grau para limpar as lágrimas que se formaram no canto dos olhos.

— Seu filho da puta — diz, ainda sorrindo.

— Minha mãe é mesmo uma vadia, então…

— Espero que tenha me guardado um pouco de Helária. Ainda quero experimentar…

— Não sou um amador, Potter — enfia as mãos por dentro do roupão sujo e entrega o pote com folhas secas e verdes ao outro. — É melhor fazer isso no dormitório se não quiser acabar como eu…

— Claro. Oh, por favor, não menciona isso à Lily. Ela me daria um chute nas bolas que provavelmente me deixaria estéril — guarda o pote no bolso interno das suas vestes, bem escondido.

Madame Pomfrey retorna com o almoço de Sirius e James faz companhia ao amigo - que continua contando sobre sua madrugada. Black termina de comer e vai direto para um banho antes de seguir com o outro para a aula de História da Magia. Com os cabelos negros compridos limpos e penteados, veste o uniforme da Grifinória - usando sua gravata meio frouxa e alguns botões da camisa branca abertos, além das mangas dobradas até os cotovelos. Assim como James com seus cabelos bagunçados, Sirius fazia questão de se vestir para chamar a atenção de todos ao redor - o que Remus dizia ser um complexo de filho mais velho rejeitado. Como sempre, estava certo.

O Professor Binns ignora o atraso dos garotos e continua seu monótono discurso sobre e Guerra dos Gigantes. O fato do velho fantasma não precisar recuperar o fôlego, torna a aula uma incansável tortura - principalmente para Sirius, que luta com todas as forças para se manter acordado, forçando os olhos cinzas e vermelhos de sono a permanecerem abertos.

— Sabe… — diz, interrompendo-se por um bocejo exagerado que faz Remus se virar para trás, irritado como sempre. — Acho que esse maldito tem ódio da gente por estarmos vivos, então nos tortura de propósito.

James, que rabiscava a mesa de madeira com sua pena, sem dar a mínima importância para a aula, diz:

— Você acha que é possível matar um fantasma?

— A gente poderia tentar…

— Pelo amor de Deus, calem a boca — Remus sussurra, pousando a pena sobre seu pergaminho com vários centímetros escritos.

Sirius revira os olhos, se jogando sobre a mesa com o rosto para baixo. Decide que sua presença na sala de aula já está de bom tamanho, para quem pretendia passar o resto do dia dormindo. Cai num sono profundo, embalado pela voz monótona do fantasma, que fica cada vez mais distante.

Acorda com os cutucões de James no final das duas aulas e se levanta, espreguiçando o corpo com um gemido exagerado e alto que atrai os olhares de algumas garotas da Corvinal que passam pelo corredor. Sirius sorri, empinando o queixo e lançando à elas seu típico olhar que fazia as meninas corarem. Exceto algumas delas, que apenas o fuzilam enraivecidas como se estivessem prontas para atacá-lo. Com motivo justo, é claro.

— Sabe… — Lily diz, enquanto andam pelos corredores. — Eu pagaria para ver essas garotas se vingando por você ter sido um babaca.

— Ei! Eu sempre deixo bem claro meus pensamentos sobre… sabe… um relacionamento sério. Não sou culpado pelas expectativas que criam ao meu respeito.

— Ele tem um ponto — James murmura, jogando o braço ao redor dos ombros de Lily.

— Ainda assim. A Mary passou a noite toda chorando no dormitório depois que você sutilmente a chutou. E eu acabei me ferrando na aula, porque não consegui dormir com os soluços desesperados dela.

— Você e Mary não estão mais juntos? — Remus se envolve na conversa, claramente surpreso.

— Não… nós decidimos, mutuamente, nos afastarmos — Sirius diz, num tom sério e fingido.

Lily ri, maneando a cabeça em negativa. Lupin apenas assente, ladeando um sorriso.

A verdade, no entanto, era que Remus havia sido o motivo pelo qual terminou com a garota. Há algumas semanas, durante a aula de Poções, Horácio apresentou aos estudantes a famosa Poção do Amor ou Amortentia. Sirius quase caiu de costas ao inspirar a fumaça espiral e sentir nada menos do que o cheiro de chocolate e pergaminhos novos - coincidentemente, as duas coisas que Remus sempre tinha em mãos.

Foi como se um clique estalasse em seu cérebro. Agora percebia o quanto realmente gostava de tudo sobre Remus. Desde seus olhos castanhos, até seu rosto delicado - inclusive as cicatrizes que Moony tanto detestava. Estavam em seu último ano e Sirius não queria desperdiçar a oportunidade de se declarar para o amigo, mesmo que isso significasse um fora embaraçoso. Era a primeira vez que de fato se imaginava em uma relação, como Lily e James. Queria aquilo e queria que fosse com Remus John Lupin.

E desejava enfiar a própria cabeça no Lago Negro para que os Grindylows o devorassem, odiando a si mesmo por ter levado tanto tempo para perceber seus sentimentos por Moony.

Nunca vira Remus com garota alguma, mas assumiu que a causa era seu pequeno… problema. No entanto, uma parte dele agora acreditava que talvez o amigo apenas não gostasse de garotas. Deus, esperava do fundo do seu coração que fosse isso. Porque ultimamente não conseguia parar de pensar em Moony e já estava ficando esquisito encará-lo todos os dias no banheiro, enrolado na toalha depois do banho. Sirius tinha certeza de que o outro havia reparado há alguns dias, porque suspeitava ter visto Remus segurando um sorriso ao encontrar os olhos de Black fixos em seu volume por baixo da toalha cor de vinho enquanto escovavam os dentes.

Os Marotos, acompanhados por Lily Evans, descem até o Salão Principal para o jantar que será servido. Peter se apressa na frente, murmurando algo sobre tortas e manjar. Do outro lado, o olhar carregado de desprezo de Severus Snape acompanha os garotos por todo o caminho. Sirius ladeia um sorriso e acena para o seboso, dando uma piscadinha em seguida. Tem certeza que se pudesse, Snape lançaria uma das Maldições Imperdoáveis nele ali mesmo.

Durante a refeição, Remus mal toca em sua comida. Mas repete três vezes o pudim de chocolate servido na sobremesa. Black já se acostumou com as mudanças do amigo quando a Lua Cheia se aproxima - inicia com a falta de apetite e, nos próximos dias, seus instinto à flor da pele o deixarão uma pilha de nervos. Tomava cuidado para não irritá-lo muito neste período, apenas o acalmava com barras de chocolate que roubava do estoque da Dedos de Mel, que acessava através da passagem secreta do terceiro andar do Castelo.

Na verdade, era o mesmo procedimento que James fazia com Lily quando a garota estava naqueles dias. Quando Sirius fez este infeliz comentário, Evans o azarou com um feitiço que produziu furúnculos doloridos e cheios de pus em sua pele por dias até Madame Pomfrey finalmente encontrar um antídoto eficaz.

Os garotos seguem para a Sala Comunal, enquanto Sirius vai em direção da sala da Diretora da Casa.

— Me desejem sorte — fala, sem nenhum humor.

— Boa sorte, Pads — Peter responde, com um sorriso fraco.

Os outros riem e se afastam, deixando-o sozinho.

Sirius afrouxa ainda mais o nó da gravata e engole em seco, levando a mão até a maçaneta da porta - que se abre antes mesmo do rapaz empurrá-la.

— Boa noite, figura materna — Sirius diz, sem resistir à tentação de provocá-la. Sobretudo, porque uma parte dele sabia que a Professora nutria algum carinho por ele.

Minerva está sentada atrás de sua mesa, com uma pilha de pergaminhos, passando os olhos estreitos pelas letras desleixadas dos alunos do primeiro ano. Sem erguer o rosto, diz:

— Boa noite, adolescente problemático e carente por atenção.

— Ouch.

Consegue ver os lábios rígidos da professora se curvando num sorriso quase imperceptível.

— Quero que lustre todos os cálices usados nas aulas do primeiro ano, Black. E se terminar antes do final da semana, recomece.

— Sim, Senhora — diz, desanimado e pegando o pano dobrado sobre a mesa da professora.



Às dez da noite, sobe as escadas até o dormitório praticamente arrastando as pernas em cada degrau - e, para ajudar, a maldita escada se deslocou, obrigando-o a fazer o percurso mais longo até a Torre da Grifinória.

— Água de Gilly — diz ao retrato da Mulher Gorda, que desperta num susto, espreguiçando-se demoradamente. — ÁGUA DE GILLY.

— Já vou, já vou — bufa, abrindo o quadro.

Sirius adentra o buraco e avista a Sala Comunal com a iluminação fraca das chamas alaranjadas. A maioria dos alunos já deve estar na cama uma hora dessas. Sentado no sofá de dois lugares, próximo à janela, Remus escreve com sua pena, freneticamente. Os cabelos estão úmidos e o rapaz veste seus pijamas listrados de vermelho e branco. Sirius sorri, sentindo o coração acelerado no peito com a mera visão de Moony, com seu rosto de sono e os olhos já vermelhos e preguiçosos. Do outro lado, James brinca com seu pomo de ouro, sentado na poltrona próxima da lareira acesa.

— Ei… — Remus sorri ao vê-lo chegar, jogando-se no lugar vazio ao seu lado. — Como foi?

— Entediante.

Sirius se inclina sobre o sofá e abre a janela de vidro, deixando o ar frio e a arrepiante da noite invadir a Sala quente. Pega sua varinha no bolso e toca o parapeito de blocos, dizendo:

— Revelio.

O tijolo envelhecido se abre num buraco retangular, revelando o pacote de cigarros que ele mantinha escondido ali desde o ano passado. Pega um e coloca de novo, selando o encatamento para mantê-lo oculto à qualquer outro. Acende na própria varinha, com um feitiço de fogo e dá um trago, apoiando a cabeça no encosto do sofá em um gemido longo de alívio, com os olhos fechados.

Remus limpa a garganta, movendo-se desconfortável no assento e pega uma das almofadas fofas atrás de si para colocar em seu colo, apoiando sobre ela o pergaminho onde escreve o dever de Defesa Contra as Artes das Trevas.

— Sobre o que estavam falando? — Sirius murmura, desfazendo o nó da gravata dourada e vinho, deixando-a pendurada ao redor do pescoço.

— Eu congelei outra vez e não consegui convidar a Lil para o Baile — James murmura.

— Cara, qual o seu problema? — Sirius ri, balançando a cabeça em negativa. — Vocês até passaram o Dia dos Namorados juntos na Casa de Chá…

— Eu sei, é que… sei lá, ela me deixa nervoso.

Sirius bafora a fumaça para cima e Remus abana com a mão, tentando não respirar o cheiro mentolado.

— É só perguntar e pronto. Óbvio que ela vai dizer sim.

Sirius sabia, porque Remus o contou, que um garoto da Corvinal havia convidado Evans para o Baile e ela recusou. Então ela estava esperando o que o bundão do Potter o fizesse.

— Sabe… estou pensando em me declarar para a Lil há um tempo. Talvez o Baile seja perfeito para isso.

Remus emite uma risada anasalada, dobrando seu pergaminho inacabado.

— Você nem consegue convidá-la para ser seu par e ainda quer se declarar?

— Cala a boca, Moony.

Sirius ri, com a fumaça saindo da sua boca e narinas.

— Que tal fogos? Ou… oh, fadas!

— O quê? — James ri, fazendo que não com a cabeça.

— Bem… se eu fosse me declarar, com certeza não seria nada sutil. Só foi uma ideia.

— Seu plano é que eu faça um coração de Fogos Filibusteiros e grite para todo mundo que amo Lily Evans?

Sirius, dá de ombros e lambe os lábios, pensativo. Vira o rosto, trocando um olhar rápido com Remus e imagina que é exatamente o que faria nesta situação. Dá uma risada baixa, imaginando Moony explodindo de vergonha em um cenários destes.

— É um ótimo plano… na verdade, pensa em outra coisa. Este já é meu.

James dá uma gargalhada gostosa, levantando-se da poltrona e se espreguiçando.

— Eu não esperaria nada menos de você, Pads… mas para quem exatamente Sirius Black irá se declarar?

Sirius dá de ombros e sorri para Remus, que engole em seco e desvia o olhar rapidamente.

— Nunca se sabe — o moreno responde, dando uma piscadinha para Potter.



Remus acorda no meio da madrugada, inquieto. Pela janela de vidro do dormitório, consegue ver a enorme lua no céu nublado. Os últimos dias de lua crescente são insuportáveis. E é ainda pior o início da fase cheia, quando seu corpo parece ser atingido por dores em cada centímetro. Por enquanto, o desconforto não está tão ruim, mas sabe o que o espera, então sofre antecipadamente.

Odeia a maldição impiedosa que corre em suas veias e só queria que isso tudo passasse. Em muitas vezes, por mais terrível que seja o pensamento, Remus desejou a própria morte a ter que passar por tudo mais uma vez. Não sabe onde estaria se não fossem seus amigos que tornam sua existência um pouco menos dolorosa.

Sai da cama devagar e vai ao banheiro. Liga a torneira de água aquecida, lavando o rosto com o líquido e passando as mãos úmidas pelos cabelos castanhos bagunçados. Se apoia na pia, fitando o reflexo no espelho. Sente vontade de quebrar o vidro, como se fosse culpado pelo que vê ali. As cicatrizes das garras em seu rosto permanecerão em sua face pelo resto de sua vida. Um lembrete sádico da sua condição medíocre. Remus aperta a porcelana até seus dedos ficarem brancos e abaixa a cabeça, fitando o ralo dourado. Suas lágrimas finas pingam, misturando-se às gotas de água que escorrem na pia.

Ergue o rosto novamente, fungando baixinho e limpa o nariz com a manga do pijama, respirando profundamente. Sai do banheiro e calça seus chinelos, pegando também o cobertor mais fino sobre a cama. Com a varinha e o Mapa dos Marotos em mãos, desce até a Sala Comunal. Sabe que não vai conseguir mais dormir e em noites assim, somente o barulho da água pode acalmá-lo um pouco. E também chocolate, mas está sem. Todo o estoque que trouxe no último fim de semana de Hogsmeade já acabou.

— Eu juro solenemente não fazer nada de bom — sussurra, enquanto caminha pelo buraco do retrato da Mulher Gorda, com seu cobertor sobre as costas.

Vê que Filch está em seu quarto, junto com Madame Nor-r-ra, e quem faz as rondas esta noite é o Professor e Diretor da Corvinal Fílio Flitwick. Mas ele está bem longe, próximo do banheiro dos Monitores, então o caminho de Remus para fora do Castelo está livre. Com os olhos no mapa, desce até uma das saídas quase subterrâneas de Hogwarts, que dá direto para o lago.

Cuidadosamente, pisa sobre as pedras úmidas e desiguais, sentando-se em uma bem na margem das águas que balançam preguiçosamente contra as rochas. Remus dobra o papel, pois sabe que ninguém nunca vem ali, nem mesmo quando estão todos acordados no Castelo. Abraça os joelhos, sentindo o corpo trêmulo com o vento frio e nebuloso que parece cortar sua pele quente.

Aponta sua varinha para a água, fazendo pequenas bolhas densas flutuarem para fora do Lago, dançando ao seu comando no ar. Sorri, juntando-as numa única bolha maior, que se move como em câmera lenta para manter todo o líquido preso. Seu corpo inteiro está começando a ficar dolorido. Uma dor incômoda que faz Remus se sentir estranho o tempo todo. Se essa fosse a pior parte de ser um lobisomem, estaria mais que feliz.

Porém, sabe que em poucos dias enfrentará algo muito mais pavoroso. Seus ossos se quebrando para dar forma à besta que habita dentro de si e a sede incontrolável por sangue humano, que o fará se comportar feito um animal selvagem.

— Achei mesmo que te encontraria aqui — a voz masculina o assusta e Remus derruba a bolha de água suspensa, que cai ruidosamente de volta no lago.

Olha para trás, instintivamente, encontrando o olhar sorridente de Sirius. Vestindo apenas um roupão por cima da camiseta velha da equipe de Quadribol e das calças de moletom pretas, se aproxima e senta ao lado do rapaz. Os cabelos negros e ondulados caem em seu ombro, emoldurando o rosto de feições marcadas de Padfoot.

— Você me assustou — Remus murmura, com a voz rouca e sem ânimo.

— Foi mal… — Sirius arqueia as sobrancelhas grossas e fita o outro com seus olhos cinzas que sempre fazem Remus perder o rumo dos seus pensamentos. — Tudo bem, Moony?

Assente, com um sorriso fraco e nada convincente.

— Sabe… a lua chegando e tudo mais.

— É — respira pesadamente, enfiando a mão por dentro do roupão grosso. — Quer um chocolate?

Remus franze o cenho, desconfiado. Os garotos não íam à Hogsmeade há duas semanas, era impossível que Sirius tivesse guardado uma barra de chocolate - ontem mesmo o perguntou se ainda possuía alguma e Pads disse que não.

— Por acaso você anda roubando a Dedos de Mel de novo? Eu já te disse que…

— Relaxa, eu coloquei dinheiro no caixa dessa vez. — Estende a embalagem e Lupin hesita. — O quê? Vai mesmo recusar?

O rapaz segura um sorriso e pega a barra das mãos do outro, que ri. Por dentro, Remus sente o coração descompassado no peito, por saber que Sirius teve o trabalho de ir à Dedos de Mel para lhe trazer o chocolate, sabendo que o faria se sentir mais confortável.

O moreno retira também um cigarro do bolso e começa a fumar calmamente, soltando a fumaça pelo nariz fino e delicado. Remus odiava este hábito e sabia que não era nada saudável. Mas tentar convencer Sirius era como discutir com uma porta, então simplesmente aceitava. Além disso, o cheiro mentolado, misturado ao perfume sutil e refrescante de Padfoot já se tornara familiar e aconchegante ao rapaz. Assim como a calmaria da água e seus chocolates, a presença de Black o acalmava.

— Acho que dessa vez vai ser bem ruim — Remus sussurra, mordendo um quadrado do chocolate.

Ele podia sentir quando sua transformação seria mais violenta. Os sintomas iniciavam bem antes da fase Cheia, como agora.

— Vai ficar tudo bem. Vou estar lá com você… — Sirius sorri, virando-se para encará-lo nos olhos. — Nós todos vamos.

Remus assente, voltando o rosto para o céu escuro.

Permanecem em silêncio por longos minutos, tempo de sobra para que Lupin admire a beleza de Pads, com o rosto meio iluminado pela lua. Já nem se lembra da primeira vez que percebeu ser apaixonado pelo amigo, mas foi há muito, muito tempo.

Claro que não lhe disse nada. Não queria arruinar a amizade que tinham e muito menos pensava que Sirius Black gostasse de rapazes. Seu histórico infinito de namoradas ao longo dos anos era a prova concreta disso. Hogwarts era composta por magia e corações quebrados por Sirius Black, isso era indiscutível. Então apenas guardava o sentimento dentro de si e prosseguia o ignorando. O que era excepcionalmente difícil de fazer, ainda mais quando os dois ficavam a sós e seu único desejo era de beijá-lo.

— É melhor a gente ir — Sirius se levanta, esticando a mão para ajudá-lo. — Não podemos arriscar reprovar nos Níveis Irritantemente Excruciantes de Magia…

Remus ri, assentindo.

Pega o Mapa e vê que a barra está limpa, já que Flitwick agora caminha pelo terceiro andar do Castelo. Os dois sobem as escadas na direção da Torre em silêncio e atentos.

— Merda! — Remus sussurra.

— O quê?

— O Filch está vindo na nossa direção.

— Por que aquele velho desgraçado está andando pelo Castelo uma hora dessas?

— Não sei…

Remus e Sirius caminham pelo corredor abaixo do retrato da Mulher Gorda, procurando um esconderijo, quando uma porta de madeira estreita surge na parede. O moreno dá de ombros e abre, puxando Lupin pelo braço. No mapa, os nomes dos dois desaparece.

— Estranho…

A salinha, que mais parece um armário de vassouras, é apertada e baixa demais. Os dois precisam se encolher, quase grudados um no outro para conseguirem fechar a porta. Remus consegue sentir o hálito de Sirius contra seu rosto enquanto observam atentamente o pergaminho.

— Nox — sussurra, quando o zelador se aproxima do esconderijo, e a luz de sua varinha de apaga.

Na completa escuridão, tem certeza que Padfoot é capaz de escutar seu coração martelando no peito. O nervosismo se deve muito mais à presença tão próxima do rapaz do que à situação arriscada. O calor que emana do corpo de Sirius torna difícil conseguir respirar, ainda mais com o oxigênio limitado e impregnado pelo perfume refrescante dele. Soltando o ar pela boca, faz o possível para esconder o volume entre suas pernas e tenta pensar em qualquer outra coisa que faça sua ereção diminuir.

Sem sucesso.

— Acho que podemos ir — a voz grave de Sirius o traz de volta à realidade e Remus limpa a garganta, acendendo a varinha novamente.

Dá de cara com o rosto corado e sorridente de Sirius quando o faz.

— Sim… ele foi para o outro lado.

Os dois saem do pequeno armário e vão até o retrato, que se abre de má vontade e os deixa passar. Sobem silenciosamente até o dormitório e vão para suas camas, sussurrando um ao outro:

— Boa noite, Moony.

— Boa noite, Pads.

Remus Lupin não consegue pregar o olho. E percebe que Sirius muito menos, já que se revira nos lençóis o resto da noite. Se pergunta se o motivo da insônia do amigo seria o mesmo que o seu… porque ele não parava de imaginar o gosto que teria o beijo de Sirius Black.


July 6, 2020, 3:42 p.m. 0 Report Embed Follow story
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