rudevil Habito a sombra e o sol morreu comigo

Um vampiro que não vai ser imortal, um androide ultrapassado e um humano com câncer. Como conspiração, eles têm bem próximo o mesmo compromisso; resolveram remarcar para o mesmo dia.


Fanfiction Bands/Singers For over 18 only.

#oneshot #distopia #exo #xiubaeksoo
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como grãos de areia no deserto

Baekhyun não pensa mais em fuga. Há algum tempo passou da fase rebelde de querer viver para sempre do jeito que supostamente deveria enquanto procurava esperança online, lendo histórias de quem se infiltrou numa viagem para outro planeta com mais oportunidades — como o de viver o tempo que tivesse de viver.

Aceitou que não lhe é permitido esse direito, e mesmo que roubasse sangue o resto da vida aquilo não funcionaria porque nada nunca funciona já que sempre descobrem tudo porque mesmo naquele formigueiro não tem como se esconder.

Quase indignado Baekhyun se pergunta brevemente porque é que ainda não tem sangue artificial sendo distribuído por aí, mas é bem óbvio. É só olhar para a janela. Ele vira a cabeça, depois de sorver do líquido cor-de-rosa na xícara transparente, e acha que a visão é tão bonita quanto das primeiras vezes. Tem acontecido com frequência dele voltar a enxergar em algumas coisas beleza semelhante à da descoberta, mas não é sempre. Sentindo o cheiro de terra molhada das plantas que Kyungsoo há pouco regou, ele respira fundo e aproveita a sensação.

Percebe-se a si mesmo nos detalhes: os joelhos encostando suavemente no peito que sobe e desce; as costas permanecendo confortáveis contra o sofá; os pés no piso morno cheiro de ranhuras do chão; os olhos refletindo úmidos todas as luzes das janelas que estão acesas no edifício da frente, piscando pelas filas de aerocarros em movimento, procurando mecanicamente a silhueta do vizinho monstro na trigésima-oitava janela pra cima a partir da segunda entrada do estacionamento suspenso.

As panturrilhas de Minseok esbarram nos seus braços quando ele se inclina com um rangido por sobre a sua cabeça para pegar o próprio recipiente sobre a mesa de centro, uma xícara que imita o rosto de um felino. Minseok as aperta de propósito ao seu redor numa espécie de afago — talvez não tenha sido, Baekhyun se questiona enquanto deita a cabeça na coxa direita dele, sem tirar os olhos da janela. Minseok bebe um grande gole e volta a se recostar no sofá, agora acariciando os cabelos oleosos do mais novo, de baixo pra cima, deixando-o arrepiado e, por isso, bravo.

Ele tem um problema: acha que Minseok não o ama. Baekhyun acha que amor deve ser carinhoso, mais do que Minseok é capaz de expressar; bem daquele jeito que Kyungsoo faz quando as mãos quentes alisam seus corpos numa tranquilidade palatável. Aos olhos de Baekhyun, Minseok sempre foi meio bruto, e isso realmente nunca foi grande problema até chegada a hora do grande problema da vida deles três.

Minseok sempre deu carinho, mas não do jeito certo. Baekhyun percebeu que era sempre com intenção de arrepiar ou de fazer rir no final; nunca um beijo sem um sorriso ou uma língua; nunca carinho por carinho. No fundo, Baekhyun não quer revelar, mas desconfia dele porque sabe que dos três o único que tem chance real de se livrar daquela merda é Minseok, suas articulações substituíveis, suas veias desentupíveis e seus neurônios reanimáveis. Minseok é o único que tem escolha e que não precisa fingir que escolheu morrer por amor pra não assumir que na verdade não tinha opções palpáveis.

Como se pudesse voltar no tempo e despensar um pensamento, numa luta apressada contra o fluxo, Baekhyun aperta os olhos enquanto repete mentalmente para si mesmo que Minseok não estar lutando contra a escolha que fizeram é a prova de amor.

Amor. Kyungsoo sai do banho de vapor e o cheiro perfumado que chega até eles meio que faz Baekhyun ligar a palavra ao sentimento. Seu coração bate muito forte quanto mais ele se aproxima por trás do sofá e deixa também sobre a mesa de centro o copo americano que esvazia de uma vez só. Quando se senta ao lado de Minseok, a expressão controlada mas verdadeiramente desanimada de quem nunca deixa de sentir o peso da morte dolorosa como uma vibração constante, Baekhyun se impulsiona sinuoso e estranho pro seu colo, virando o corpo e ficando de joelhos, e com a cabeça na parte mais quente do corpo dele, pensa em como o calor do aquecedor artificial da casa ou de Minseok nunca vão se assemelhar ao daquele homem e do sol de verão.

Subitamente arrependido do pensamento, porque emerge outra vez no fluxo que leva à desconfiança em Minseok, Baekhyun vira a cabeça para observar o rosto moldado do androide que, para sua surpresa, também o encara de volta — e abre um sorriso pequeno mas que tem uma coisa que faz Baekhyun se corroer por dentro e suspirar.

Tem sido cruel com Minseok. Tem sido maldoso consigo mesmo em relação a Minseok. Como se para pedir perdão pela situação que criou dentro da própria cabeça, e que Minseok não faz ideia, suspira alto e beija o joelho exposto do androide antes de voltar a se ajeitar no chão.

Sentado sobre os calcanhares, toma os quadris dos dois entre os braços, deita a cabeça nas coxas deles encostadas — e olha de novo para as mil janelas através da sua única janela. Ambos fazem carinho nos seus cabelos, um de cima pra baixo, outro de baixo pra cima; em um momento as mãos se entrelaçam nos fios ensebados e ele se permite sorrir diante da risada suave que soltam uníssono.

— Fico me perguntando quem será que vai cuidar das plantas. — Kyungsoo diz. — Será que elas não podem ir com a gente?

Ninguém responde. Baekhyun muda o foco do olhar para as folhas verdes translúcidas; plantas padrão que, por permanecerem vivas, os garantiram bons descontos nas tarifas sociais dos últimos anos; que já foram muito bonitas, tal como as luzes da megalópole diante da janela e o cheiro do banho e da terra molhada e o calor do corpo porque já foram também em algum momento uma primeira vez. Elas são idênticas às da casa de seus pais e de seus vizinhos, só que significaram as plantas da casa de onde começavam a morar juntos, e por um momento também voltaram a ter a beleza que tiveram antes.

— Fico me perguntando… Várias coisas. — Minseok não é engraçado, mas Kyungsoo ri. Baekhyun revira os olhos e levanta a cabeça sem se dar conta do sorriso que nasce em seus lábios enquanto se alimenta visualmente do contraste forte na imagem de Kyungsoo. O cabelo dele voltou a crescer há poucos meses e por um tempo ver Kyungsoo todo branco, uniforme, foi esquisito e doloroso, e agora os chumaços pretos com variação de intensidade por todo lado são tão bonitos quanto uma primeira vez. Minseok encara Baekhyun. — E você?

— Fico me perguntando se temos outra opção — diz meio sem pensar, mordendo o interior das bochechas ao perceber que talvez não tenha superado tanto assim o fato de não poder escolher o que a sua natureza poderia lhe dar. Ele vê um pequeno lampejo de irritação nos olhos de Kyungsoo e se arrepende. É o dia dos arrependimentos, porque não consegue fingir que também não teve negativa para o seu problema secreto em relação a Minseok. Pensa em pedir desculpa mas não acha que tem tempo e importância explicar os porquês.

Depois da notícia de que Kyungsoo não viveria tanto quanto se esperava, a ideia de morrerem juntos foi súbita, mútua e discutida muitas vezes. Kyungsoo achou até que podia ter sido implantada — na verdade, para ele toda a situação era ridiculamente questionável. Kyungsoo só não levava o questionamento adiante porque era consciente do próprio lugar de existência — que diferença realmente faria se ele fosse parte de uma conspiração mundial?

E ainda que que o horário da morte fosse certeza para os três, que nunca acreditaram na vida eterna, — nem para Baekhyun, que tinha a possibilidade nos genes mas já possuía a data da guilhotina vinculada ao número de série de seu registro; nem para Minseok, que possuía o prazo de validade em relevo na derme — tê-la escolhido uma data tão próxima era irracionalmente perplexo.

Eles permanecem em silêncio. Baekhyun encara o nada entre os corpos sentados juntos e ambos encaram Baekhyun. Já conversaram, já buscaram soluções — menos Kyungsoo: para Kyungsoo nunca houve solução alguma. Só lhe restava mesmo aceitar a pressa que o tempo tomou — ou os conspiracionistas do alto escalão sabe-se lá exatamente do quê. No fim, em todos os fins de todas as conversas — porque Minseok e Baekhyun conversaram a sós e cogitaram uma vida a dois pelo tempo que lhes restava —, a decisão foi sempre a mesma.

— Fico me perguntando — começa Kyungsoo outra vez —... se existe algum lugar coletivo pra consciência individual. — Baekhyun o encara, abrindo um sorriso e franzindo as sobrancelhas enquanto vislumbra o desenvolvimento da mesma expressão no rosto de Minseok. Com isso ele vai fugindo dos próprios pensamentos outra vez. — É um desperdício a gente viver se vai morrer.

— Por que o ser humano sempre anda em círculos? — Minseok tira sarro teatralmente, erguendo as mãos num questionamento. — Deus existe e você vai morrer mais cedo porque já cumpriu o seu propósito. Você sempre foi apressado, bem feito.

Kyungsoo ri baixo. — É sério, pra quê? Que porra de fim vai dar essa merda toda?!

— Você já passou da idade de querer questionar a vida — avisa Baekhyun —, e agora já não tem mais tempo.

— Alguma vez eu tive tempo pra alguma coisa? Eu tive e não percebi.

— Não faria diferença alguma — constata Minseok; existe uma pequena mágoa que os três compartilham por baixo das máscaras.

— Nada faz diferença agora — Kyungsoo diz descontraído mas Baekhyun meio que fica sentimental e olha pra Minseok, que tem um sorriso metalizado que é lindo; que não tem rugas mas tem a textura da pele artificial envelhecida; cujos cabelos dourados nunca cresceram e que têm uma falha quase imperceptível no topo da cabeça, de quando Kyungsoo era saudável e eles dois tiveram uma primeira vez selvagem a sós.

Baekhyun se encontra arrependido de ter tantos pensamentos inúteis e franze o cenho quando lembra de que duvidou da decisão de Minseok quando nem foi ele quem, por exemplo, iniciou a conversa do relacionamento a dois. Baekhyun quem sempre foi o mais fraco e desde o início tentou buscar outra realidade, apesar de já ter a escolha tomada.

Baekhyun que só duvidou de Minseok porque na verdade ele próprio é o único que acredita que tem chances de viver e não pode por lei lutar contra isso, já que Minseok poderia sim ser restaurado, mas não seria o mesmo; e Kyungsoo… Kyungsoo é humano e apenas teve o tempo encurtado.

— Você queria um lugar coletivo pra consciência individual? — Minseok pergunta e Baekhyun quase chora quando vê a mão do androide se entrelaçar lentamente na de Kyungsoo. Minseok é um santo e foi o seu bode expiatório, mas não mais.

— Não sei, mas acho que com certeza? — Eles dois riem. Um tremor quase imperceptível sai junto da voz de Kyungsoo e só Baekhyun não quer fingir não ter ouvido.

— Kyungie... — começa Baekhyun, baixinho, manhoso, mas Minseok o interrompe com um olhar sério e parece que é pra Baekhyun só ter mais certeza do quanto teve pensamentos estúpidos e de como Minseok é um ser evoluído. Minseok tem razão, e é ele quem os leva para o mundo anestésico em que tanto precisam permanecer até que tudo chegue ao fim.

— Kyungsoo, você quer um céu com pênis pequenos e grossinhos e fofos iguais ao do Baekhyun, ou grandes, bonitos e vibrantes como os meus?

Baekhyun se enche de força com o riso mudo e intenso de Kyungsoo e daí fica de pé, ri meio escandaloso e tenta revidar. — Como os seus, artificiais? Ou como o meu,

— Gelado?

— orgânico!

Kyungsoo se entretém observando os dois discutirem.

— E aí, vamos fazer pela última vez? — pergunta Minseok, seus dois pênis já visíveis de propósito sob a roupa.

— Não sei, tô meio interessado em pensar na mecânica de um sexo entre consciências — diz Kyungsoo.

Baekhyun é o primeiro a tirar a roupa e sente no olhar dos dois uma admiração como se fosse da primeira vez.




June 28, 2020, 5:13 p.m. 0 Report Embed Follow story
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The End

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