u15514544731551454473 Luiz Fabrício Mendes

Agosto de 1986. Uma jornalista tenta impressionar seu editor com bons artigos enquanto luta para subir os degraus de sua carreira. Mas, com um Marlboro à boca e dedos cansados, ela mal suspeita ser capaz de uma decisão que decidirá os rumos da humanidade...


Science Fiction Not for children under 13.

#drama #sci-fi #tempo #futuro #música #songfic #apocalipse #filho #mãe #viagem-no-tempo #salvação #Especulativo #Ficção-especulativa
Short tale
1
3.2k VIEWS
Completed
reading time
AA Share

Capítulo Único

Quando Gira o Mundo


Os dedos milimetricamente treinados pelo curso de datilografia martelavam a máquina Lettera 10 com urgência. A mente se encontrava em condição ainda pior.

Os pedidos do editor vinham se tornando mais e mais incômodos. Substituir um dos repórteres da coluna social com um artigo senso comum sobre o milionário do momento era uma coisa, mas ter de escrever uma análise sobre os acordos de cooperação entre Brasil e Argentina entendendo patavina de economia era bem mais complicado. Percalços que uma mulher negra tinha de enfrentar para conseguir alguma posição de mais referência numa sociedade que ainda acreditava em "democracia racial"...

Bem, considerando que ninguém mais neste país aparenta entender qualquer coisa de economia, estou em vantagem... – ela ponderou, lançando brevemente o olhar até os maços de cruzados sobre a mesa que de certo seriam gastos com cigarros assim que se cansasse da labuta.

Os lábios se contraíram numa fisgada para evitar que o Marlboro caísse da boca quando tornou a inclinar o rosto na direção das teclas. Não, aquilo não estava dando certo. Todo um parágrafo iria para o lixo por ela não fazer a mínima ideia do que falava ao relacionar taxas de câmbio com protocolos setoriais. Talvez fosse o maldito toca-discos: acostumar-se a só trabalhar ouvindo música estava passando de um incentivo a um vício pior que fumar...

Ergueu uma mão para arrancar a folha da máquina – esta prestes a se tornar mais um bolo amassado a fazer companhia às demais dentro do cesto ao lado da cadeira estofada – quando a sala brilhou.

A fraca lâmpada do abajur não poderia jamais ser a origem daquele clarão, que por instantes cegou-a como o próprio sol comprimido em tamanho e deslocado justo para o interior do cômodo. A voz do cantor Fábio Júnior engasgou-se na vitrola, a agulha oscilando e arranhando o disco num chiado agudo e sofrível aos ouvidos. As paredes e janelas estremeceram, um baque que reverberou por segundos e, sob o olhar assustado da jornalista, fez com que rachaduras surgissem e se multiplicassem pelos vidros – que, mesmo estalando, resistiram a ponto de não quebrarem.

Quando ela ousou voltar novamente a atenção ao centro da sala, não mais tendo os olhos ofuscados pela luz, uma silhueta fina e alta desenhou-se em meio ao que restava do misterioso clarão, tomando forma enquanto uma névoa quente, cujo tom oscilava entre o branco e o esverdeado, propagava-se ao redor misturando-se à fumaça agora tímida do cigarro à sua boca.

Se isto for alguma brincadeira, o sujeito tem que ir trabalhar com efeitos especiais naqueles filmes do Spielberg...

O vulto no meio da neblina logo foi identificado como um ser humano, embora tanto seus trajes quanto sua aparência física fizessem com que a repórter imaginasse estar sonhando após ter caído no sono enquanto tentava driblar a porcaria do artigo. O macacão cinzento que revestia o estranho das pernas ao pescoço mais parecia algum traje de proteção, do tipo daqueles usados pelo pessoal de Angra I para lidar com materiais radioativos – disso ela bem se lembrava quando fora enviada para cobrir a construção do reator.

Então... será que já estou contaminada por ficar no meio desta neblina sem proteção?

O capuz da roupa do sujeito, por sua vez, estava abaixado, deixando o rosto do indivíduo à mostra – um rapaz em seus vinte e tantos anos, talvez beirando os trinta, de cabelo raspado e algum tipo de malformação na cabeça: um dos lados da face torto e menor em relação ao outro, espremendo um de seus olhos numa fina abertura branca e praticamente extinguindo a orelha no mesmo hemisfério – um resquício de cartilagem fundido ao crânio como se ela um dia até houvesse estado ali, mas acabara achatada. Considerando a pose levemente corcunda e a desproporcionalidade entre os braços do rapaz – perceptíveis mesmo sob o traje de proteção – ele devia ter mais daquelas distorções por seu corpo.

A jornalista de início sentiu-se apavorada diante da figura, o coração disparando e a adrenalina fluindo rápida a ponto de travá-la quanto a correr ou gritar. Mas algum tipo de inesperada identificação a tomou quando notou a pele daquele homem da mesma cor que a sua; e, encarando-o, notou que ele a fitava fixamente através do resquício de névoa com um assombro difícil de definir – um brilho de encanto perceptível em ambos os olhos, até mesmo naquele cuja íris só era levemente exposta através da órbita apertada.

Quando ela já acreditava que o indivíduo ia verter uma lágrima, ele rapidamente se recompôs, caminhando em sua direção a pesados passos de suas botas reforçadas. Por mais que simpatizasse um pouco mais com a visita, a memória de Contatos Imediatos de Terceiro Grau ainda estava muito recente para que ela não acreditasse ser aquilo algum tipo de abdução.

- Q-quem é você? – indagou quase entrincheirada atrás da mesa.

- Peço que preste muita atenção ao que vou falar – ele instruiu em tom sério, soando como um militar. – É provável que não acredite em mim num primeiro momento, mas sou um ser humano. Apenas não desta época. Eu vim do futuro... cerca de vinte e sete anos adiante.

Dentro da lógica de que o sujeito simplesmente brotara num clarão dentro de seu apartamento, aquilo era de certo possível. Ela só não podia afirmar com certeza, ainda, se o conjunto era mesmo realidade ou pesadelo.

E vai fazer o que? Pedir que ele te belisque?

Ao invés disso, outra pergunta surgiu:

- E o que está fazendo aqui? Eu, eu...

- Acalme-se – sua fala tornou-se mais serena, e ele até ensaiou colocar uma das mãos enluvadas em seu ombro, porém reteve-se. – Vim pedir sua ajuda. Você possui acesso a meios para que informações sejam divulgadas de maneira ampla e rápida. Quero que veicule algo no jornal em que trabalha. Uma notícia que pode mudar o futuro de toda a humanidade.

OK, agora a humanidade está em minhas mãos... – ela mordeu os lábios, o Marlboro indo ao chão sem que tivesse intenção de pegá-lo. – E eu só querendo saber se "Alfonsín" tem ou não acento...

- Diga. Do que precisa?

- Ao norte do país, no estado que hoje vocês chamam "Pará", existe uma região chamada Serra do Cachimbo. Lá o governo está cavando túneis para realizar testes nucleares. Os militares iniciaram o projeto, e os civis estão tocando adiante, longe dos olhos da imprensa e opinião pública...

- Uau. Uma bomba atômica brasileira – ela ponderou, baixando os olhos. – OK, suponha que eu acredite que você venha do futuro. Ainda precisaria de provas para justificar uma exposição dessas e...

- Diga ao editor do jornal que você tem um contato no Exército. Com a informação divulgada publicamente, o governo não terá opção a não ser reconhecer. Isso iniciará uma cadeia de eventos que levará à desativação dos túneis e encerramento do projeto. Está em suas mãos mudar o futuro.

- Mas como assim? O que isso pode alterar mais à frente?

- Hoje poucos acreditariam que um país sul-americano com uma arma nuclear seria capaz de afetar o equilíbrio mundial, mas se vissem os acontecimentos de daqui a dez anos... – o viajante cinzento refletiu pesaroso. – Os programas nucleares de Israel e da África do Sul foram ampliados pelo exemplo brasileiro. Líbia e Iraque vieram nesse esteio... Até hoje não sabemos quem atacou primeiro. Ao menos a tecnologia do plutônio, após as guerras atômicas, foi convertida em combustível para o dispositivo do tempo que me permitiu estar aqui, vendo-a de novo após tanto tempo...

A lágrima até então contida pelo estranho finalmente rolou.

- Publique essa matéria, por favor.

E, num novo clarão, desapareceu da sala tal qual jamais houvesse estado ali, tragado pelo desconhecido numa nova lufada de névoa que o desmaterializou – sua silhueta ainda visível por alguns segundos enquanto desvanecia transparente, jamais deixando certeza se por fim do efeito da viagem no tempo ou por pertencer a um futuro não mais existente.

Caída no chão de frente à mesinha com a máquina, a repórter, ofegante, viu inserida nela uma folha de papel em branco.

O toca-discos voltou a funcionar, como se desemperrado. A aura do plutônio havia tingido num brilho verde os móveis e paredes, tornando a sala o interior espelhado de uma esmeralda. E, em meio aos versos de Fábio Júnior, ela se levantou...

Quando gira o mundo e alguém chega ao fundo de um ser humano

Há uma estrela solta, pelo céu da boca, se alguém diz "te amo"

E uma esperança desce junto com a madrugada

Com um sol surgindo cada vez mais lindo pela nossa estrada...


X - X - X


A informação dada pelo visitante mostrou-se verdadeira, e o governo brasileiro reconheceu as preparações para testes nucleares na Serra do Cachimbo. A repórter foi até premiada pela matéria. Em 1990, o presidente Collor encerraria de vez o viés bélico do programa nuclear brasileiro com uma pá de cal sobre um dos túneis...

Meses depois do encontro com o homem do futuro, a vida da jovem foi mais uma vez agitada ao descobrir estar grávida. A expectativa pela vinda da criança encheu sua vida com o parceiro de alegria, e nem mesmo a fatalidade advinda no nascimento conseguiu abalá-los: o pequeno bebê, nomeado Hector, nascera com várias malformações pelo corpo, como os bracinhos desproporcionais, um olho quase cego e uma orelha incompleta...

Todos que conheciam a mãe alegaram que, ao cobrir para o jornal o acidente radioativo em Goiânia em setembro daquele ano, ela acabara infelizmente contaminando o feto com radiação ionizante. Mas, em seu íntimo, sabia qual era a verdade...

E foi justamente ela quem fez com que amasse seu filho, e sua coragem, pelo resto da vida.

June 23, 2020, 2:28 a.m. 0 Report Embed Follow story
2
The End

Meet the author

Luiz Fabrício Mendes Goldfield, alcunha daquele em cuja lápide figura o nome "Luiz Fabrício de Oliveira Mendes", vaga desde 1988. Nasceu e reside em Casa Branca - SP, local que se diz ter sido alvo da maldição de um padre. Por esse motivo, talvez, goste tanto do que é sobrenatural. Atualmente é professor de História, mas nas horas vagas, além de zumbi, se transforma em agente de contra-espionagem, caçador de vampiros, guerreiro medieval, viajante do espaço ou o que quer que sua mente lhe permita escrever.

Comment something

Post!
No comments yet. Be the first to say something!
~

More stories