dracula amy ᘛ 🦋

𝐑𝐀𝐘𝐀𝐍 x OC 🦋 Um alfa derrotado, cujas feridas físicas e psicológicas parecem estar longe de cicatrizar… Rayan Zaidi acredita agora estar sofrendo um castigo por toda a calamidade que fez anteriormente. Além de perder sua alcateia, o que por consequência levou sua companheira para toda uma vida, foi gravemente ferido e mal consegue se recuperar, tendo de abandonar a antiga cidade para que assim preservasse sua vida. Mas, descobriu no infortúnio de seu destino um caminho para o recomeço.


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#romance #sobrenatural #hot #erótico #hentai #alfa #amor-doce #lobisomem #Rayan-Zaidi #Sr--Zaidi #beemov
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Lavanda

Ainda era capaz de farejar a morte que pairava no ar noturno, cuja mais insistente das brisas não conseguia soprar para longe. O cheiro estava impregnado nele, nos ferimentos que ainda cicatrizavam, embebedando as bandagens de sangue, escondia-se sob suas unhas e se embrenhava em seu pêlo, mesmo os poucos que o cobriam quando na forma humana. Não havia como escapar do produto de sua própria ambição, e, contemplando a própria miséria enquanto largado na sala de estar no novo apartamento, deixou que os rostos que outrora compunham sua alcateia dançassem em sua memória. Chloé era o mais persistente, e tal como os outros estava morta. Rayan ainda decidia-se se ter escapado vivo fora um golpe de sorte ou uma punição.


Fora dantes um alfa temido, e por quantas vezes não teria ele mesmo provocado em outros o sentimento que agora o corroía? Dizimando alcateia atrás de alcateia, dilacerando ômegas indefesos e por muito quebrando o juramento de não ultrapassar os limites tratando-se dos humanos; pacto este feito entre todos os seres mágicos imagináveis.


Talvez de fato estivesse sofrendo um castigo por sua inconsequência.


Zaidi suspirou ruidosamente, esticando o braço para alcançar uma garrafa de uísque largada pela metade na mesa de centro, e assim dando goles generosos na bebida direto do gargalo. O álcool pouco afetava seu organismo, mesmo que naquela noite parecesse disposto a quebrar o paradigma, mas gostava da sensação efervescente lhe descendo pela garganta, uma das poucas que ainda o fazia sentir vivo. Limpou a boca com as costas da mão quando enfim esvaziou o vidro, voltando a se debruçar na poltrona, agora com os olhos amarelados a refletir o brilho da lua crescente fixando-se num maço de papel passado por debaixo da porta mais cedo. Não se lembrava de ter de fato notado o objeto, apenas o barulho dos passos pelo corredor, o som de algo raspando contra a madeira da porta e aconchegando-se no carpete…


Grunhiu e não tencionou sair do lugar, desviando o olhar que acaba por voltar a pousar sobre o papel. Tinha um cheiro forte que se atenuou conforme ficou ali… por que o tinham deixado, afinal? Então a curiosidade rapidamente o venceu, e o fez levantar-se preguiçosamente até que o tivesse em mãos: um jornal. Vagou pelas páginas até encontrar algo que o apetecesse, evitando as notícias trágicas estampadas na primeira página e saltando logo para a seção de esportes, depois seguiu para os anúncios, centrando-se nos de acompanhantes, com seus slogans que iam de provocantes a cômicos… e enfim pairou sobre as vagas de emprego. Algumas propostas lhe pareceram interessantes, enquadradas em seus interesses e experiências, talvez boas o bastante para afastar os pensamentos que lhe nublavam a mente. Sabia que tinha de continuar, mesmo sem força de vontade alguma para tal, teria de fazê-lo em memória aos que morreram para que ele vivesse, não? E claro, também precisaria do dinheiro num futuro próximo.


Destacou alguns anúncios e deixou-os sobre a mesa, pondo o celular sobre eles para que não se esquecesse de ligar quando entrassem no horário comercial, assim voltando a recostar-se no acolchoado do móvel enquanto deixava o olhar correr pelas estrelas que cobriam o negrume do céu noturno naquela madrugada. Acabou dormindo pouco antes do nascer do sol, quando os raios de luz já começavam a tingir os céus de laranja.


Acordou num estado deplorável se comparado ao que havia adormecido, com saliva escorrendo pelo queixo por barbear e o corpo estando a poucos milímetros de escorregar até o chão. Suas costas doíam, e os ossos estalaram quando Rayan levantou-se, resmungando. Estar em processo de cura pouco ajudava em seu mau humor, já agravado por tantos fatores, e só recebeu uma injeção de ânimos quando viu, empilhados sobre a mesa, pedaços de papel rasgado quase que encobertos por seu celular. As palavras emprego e honra piscaram em sua mente feito um letreiro em néon, e o alfa apressou-se em pegar o aparelho e discar o primeiro número, mal notando que já se passava do meio dia. Não foi fácil conseguir respostas tão cedo, mas na cidade haviam mais pessoas desesperadas do que ele próprio, e tão logo marcou uma entrevista para dali duas horas. Satisfeito, fez mais algumas ligações antes de se arrumar.


Rayan fez como pode para esconder as bandagens com camadas de roupas minimamente elegantes e domar o cabelo bagunçado, o que se deu após muito esforço com gel de modelar. Anotou em sua agenda eletrônica que teria de arranjar um barbeiro, o que eventualmente ficaria para depois; ele mesmo não tinha noção alguma com uma tesoura, e quem outrora lhe aparava os cabelos era Chloé, a mesma mulher que estampava sua tela de plano de fundo e em vida fora sua companheira… engoliu seco, tratando de engolir as lágrimas junto, e ajeitou o colete azul sobre a camisa de botões branca por mais uma vez antes de enfim deixar o apartamento, andando num mancar suave que o fazia gemer a cada passo.


Preferiu fazer o trajeto de carro, jurando que o caminho para a Anteros Academy seria longo e tortuoso se feito a pé em suas condições… mas tão logo que acomodou o traseiro no banco de couro e ligou o GPS viu que não estava muito distante, o que não deixava deixaria de ser vantajoso, tão mais quando estivesse enfim recuperado. Dirigiu, sendo inevitável ranger os dentes vez ou outra quando sentia a pele rasgada mexendo-se mais do que devia sob as bandagens.


Veja bem, não era um homem, tão pouco um lobo, que se deixava incomodar por qualquer dorzinha, mas a batalha fora tão intensa que lhe deixara ferimentos profundos ao ponto de ultrapassar os limites físicos. Estava ferido de honra, de coração e de alma, dores que pouco conseguia atenuar.


Quando estacionou na universidade, tinha vinte e cinco minutos de vantagem. Ora, não era a pontualidade um dos requisitos preferidos quando tentando conquistar uma vaga de emprego?


Bem, enquanto sentado sozinho na sala de espera contemplando a porta da sala do escritório do diretor, ouvindo-o zanzar para lá e pra cá enquanto numa ligação da qual Rayan não se deu ao trabalho de ouvir por inteiro, ponderou que poderia ter chego vinte e cinco minutos atrasado e ainda assim teria alguma vantagem. Internamente, ralhava consigo mesmo por não tê-lo feito, assim poupando suas narinas do misto de cheiro dos corredores da universidade, que ameaçavam deixá-lo zonzo a cada nova pessoa que cruzava o caminho diante de si. Há quanto tempo esteve em um lugar tão cheio pela última vez?
De um jeito ou de outro, teria de se acostumar, mas seu incômodo de fato não limitava-se ao cheiro de aglomerações, ao qual tentava se convencer de que era... havia um cheiro em específico a pairar que o intrigava, e tão logo que achava ter captado o aroma, perdia-o. Toda vez que o cheiro desvanecia crescia nele um misto de frustração e irritação, sendo, modéstia à parte, um dos melhores farejadores, não só perder o rastro do aroma como não saber identificar do que se tratava o deixava louco.


Esteve rosnando baixinho até que a porta do escritório se abrisse, acordando-o de seus devaneios e fazendo com que Rayan tomasse uma postura diferente, despindo-se da natureza feral enquanto esboçava um sorriso amável ao diretor: um homem ruivo de meia idade que cheirava a chá, balas de goma açucaradas e tabaco. A mistura era interessante, mas não chegava aos pés do que sentia há pouco; um perfume inebriante, convidativo, provocando-o sempre que se dissipava e tão logo voltava a lhe atiçar.


— Estava a ponto de me perdoar por fazê-lo esperar, mas vejo que chegou mais cedo! Bom, muito bom… — a última sentença foi um murmúrio que mais parecia parte de um monólogo, acentuada por uma olhadela no relógio de pulso, e Zaidi nada fez se não por anuir e entrar pela porta, a qual o homem dava passagem. — Por favor, acomode-se — e assim ele o fez, sentando-se numa das cadeiras dispostas diante da escrivaninha da saleta, abarrotada com estantes cheias de livros, cujas folhas há muito estavam amareladas. — Pouco antes de chegar, estava lendo o currículo que me enviou por e-mail. Tem um portfólio extenso, boas recomendações, e o que dizer da base deste todo? Simplesmente esplêndida, tal como nenhum candidato jamais me apresentou — o ruivo ajeitou os óculos redondos sobre a ponte do nariz enquanto voltava os olhos ao monitor, onde ainda mantinha o documento aberto. Estava decerto impressionado, e muito cativado pela boa aparência do homem diante de si. Rayan Zaidi parecia bem apessoado, provido das habilidades necessárias, mas… — Contudo, há algo que me intriga, devo admitir. Seu posto em Riverview na banca da faculdade local era muito prestigioso, e mesmo com as recomendações afáveis vindas de lá, não posso me deixar de perguntar…


— Perdi minha esposa — interpôs-se, o gosto azedo das palavras parecendo derreter feito ácido em sua língua. Não teria de mentir, mesmo que de fato não falasse a verdade como um todo, e notou pelo olhar do diretor e a postura que o mesmo assumiu de que fora capaz de conquistar sua empatia. Não era como se precisasse que sentissem pena de si, ele mesmo não via margem para nada além de desprezo, mas no amor e na guerra por uma vaga de emprego, valia tudo. — Por favor, não fique constrangido. Saí de Riverview para não passar meus dias reavivando minhas memórias — o que ele fazia, mesmo estando distante — e acredito que um recomeço tenha que de fato ser um recomeço, partindo do zero.


O ruivo assentiu, ponderou enquanto coçando a barba, e enfim pronunciou-se após um demorado sorriso:


— Acredita que sua disponibilidade esteja de acordo com o cargo de professor, sr. Zaidi?


Rayan deixou o prédio com um contrato assinado, pastas que ameaçavam estourar diante da incapacidade de conter a papelada, folders e um pen drive com vídeos e slides instrutivos. O diretor, de nome Culann, também lhe ofereceu uma de suas balas de goma, da qual ele agora mascava avidamente. O gosto mais amargo provou-se ser limão, mas havia um toque adocicado, sutil, porém ainda marcante… e, com um arfar orgulhoso, compreendeu o que antes lhe fugia: lavanda! Estava bem ali, saboreando o cheiro que sentia antes na jujuba que mascava, e do canto de seu lábio ergueu-se um enorme sorriso.

No caminho de volta para casa acabou por parar em uma farmácia. Comprou novas bandagens, esparadrapos, alguns medicamentos e velas aromáticas, cujo cheiro você já sabe qual é.

June 22, 2020, 11:09 p.m. 2 Report Embed Follow story
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Cristina Ravela Cristina Ravela
Achei muito bem escrito, poético até. Não sou fã de histórias sobre lobisomens, mas a sinopse é cativante, narrativa bem descritiva. Parabéns!
August 25, 2020, 18:19

  • amy ᘛ 🦋 amy ᘛ 🦋
    Ler seu comentário por aqui fez meu dia. ♡ Muito obrigada pelos elogios, torço para que goste da história. August 25, 2020, 18:23
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