kztironi Karina Zulauf Tironi

Um conto sobre as cicatrizes que ficam após vivenciar abuso dentro de casa e quanto somos moldados pelo medo de passarmos por isso novamente.


Short Story Not for children under 13.
Short tale
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A Herança de Meu Pai

Quando meu pai levantou a mão para a minha mãe pela primeira vez eu tinha somente seis anos e não entendia direito o que estava acontecendo. Aos sete ele a derrubou no chão. Ela estava grávida do meu irmão e o perdeu na semana seguinte. Aos doze a agressão já era frequente e comum nos nossos dias. Ele chegava em casa irritado com o trabalho e bastava uma palavra num tom um pouquinho diferente ou qualquer outra bobeira – uma louça suja, o modo como ela amarrava o cabelo – para que ele se alterasse e descontasse nela.

Meu pai nunca bateu em mim, mas toda vez que ele acertava um tapa na minha mãe ou a empurrava contra a parede, gritando com ela, eu sentia como se ele estivesse me machucando.

Não sei dizer porque ela continuava com ele – medo, talvez –, mas também pouco sei sobre o comportamento abusivo de meu pai, os quase treze anos em que a agrediu física e psicologicamente, e o porquê desse comportamento existir em primeiro lugar.

Eu tinha medo do meu pai e mal ousava olhar para ele, quanto mais falar. Acho que ele não ouviu minha voz mais do que o pastor da igreja em que costumávamos frequentar.

Não lembro muita coisa de momentos realmente felizes na infância, ao menos não quando eu estava em casa, mas claramente lembro de todas as situações em que ele usou a mão, o pé ou o joelho para acertar minha mãe, do modo em que ele a segurava quando estávamos em público, com uma mão em sua nuca, firme, no controle, e como, depois de um tempo, começou a fazer o mesmo em mim. Lembro de todas as idas à igreja, quando eu ficava sentada entre os dois; meu pai rezando a Ave Maria em voz alta e minha mãe chorando baixinho do meu outro lado.

Até hoje, anos depois, sinto as manchas que deixou em mim quando começo a conhecer alguém e quando estou perto de me apaixonar, algo sempre me puxa de volta, algo me impede de criar uma conexão real com o outro; uma maldição. Há uma voz cruel em minha cabeça, disparando golpes de martelo, e ela ri, porque sabe que está no controle. Nada nunca vai mudar.

Quando eles começam a se esgueirar fundo demais, eu fecho a porta e tranco a fechadura. Dependendo, até posso ousar me mudar de casa.

Um deles uma vez me disse: “Você está tão machucada que, quando recebe carinho, fica esperando pela dor.” Eu respondi que eu não acreditava em contos de fadas, que, na minha história, o príncipe encantado sempre fora o Lobo Mau.

Alguns tentaram me salvar, subindo pela torre ou me acordando com um beijo. O que eles falhavam em entender é que eu não estava em um sono profundo, mas enterrada à sete palmos do chão.

Nos meus piores pesadelos, escuto minha mãe me pedindo para correr e não olhar para trás. Em alguns desses pesadelos eu corro e, enquanto o faço, sinto algo se mexer debaixo de mim, raízes negras tentando se enrolar em meus calcanhares e me derrubar. Eu corro o mais rápido que posso, deixando minha mãe para ser engolida pela escuridão. Um mártir que não teve outra escolha além de se sacrificar.

Como é triste se lembrar da sua mãe desse jeito, uma casca de árvore retorcida até se perder em si mesma. Um grito silenciado por mãos calejadas e um sorriso de escárnio. Ninguém nunca acreditou nela, mesmo.

Em outros pesadelos, quando ela me pede para correr, eu me recuso, a abraço bem forte e ambas queimamos na fogueira. Algumas noites acordo chorando, em outras, ardendo em febre. Decidi que prefiro esses pesadelos, no qual me recuso a deixa-la. Mas, no fundo, sei que não foi bem isso que fiz.

Eu não posso aceitar esse risco, de viver tudo novamente. Os gritos, as surras e os hematomas. Dessa vez eu tenho a escolha de fugir, de me esconder onde não serei encontrada. Posso ficar invisível, ninguém nunca vai me machucar.

Talvez seja covardia, talvez seja medo. Talvez seja coragem.

Ainda hoje, quando escuto os sinos da igreja, eu me encolho. Nada é tão sagrado que não possa ser corrompido.

May 24, 2020, 4:03 p.m. 0 Report Embed 2
The End

Meet the author

Karina Zulauf Tironi Como escrever sobre mim, quando me torno tantas outras pessoas enquanto estou escrevendo? Só uma menina tentando transformar seus monstros em histórias que possam entreter.

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