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Paloma Santos
O Conto da Sereia retrata a jovem Micaila, uma sereia que vai contra todos seus ensinamentos e tradições para que suas irmãs e os humanos pudessem viver juntos. Ela logo descobrirá que isso não é tão fácil como ela achou que seria.
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#mar #oceano #aventura #romance #fantasia #inglaterra #sereias
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A Despedida do Mar

Certas vezes eu me aventurava alguns metros acima do que nos era indicado, apenas para ver a luz do sol passar sobre a água. A beleza das águas era realçada, e eu sempre fui encantada pelo meu lar. Acho que não deveria ser diferente.
Mas um certo dia eu avistei um longo e largo objeto flutuando na superfície. Nós sereias temos a visão muito apurada, podemos ver até mesmo no escuro. Aquele objeto me pareceu estranho, e eu sempre fui muito curiosa. Então eu me aproximei cada vez mais. Eu pude ouvir pessoas conversando, cantarolando, pessoas alegres... Nós sereias não éramos as criaturas mais alegres do planeta, afinal ficávamos encarceradas.
Naquele dia eu fiquei encantada em poder ouvir outras pessoas. Eu me peguei pensando em deixar que me vissem, talvez fossem boas pessoas, talvez a hora de vivermos juntos tivesse chegado... Mas eram muitos "talvez". Eu então fui até a superfície, mas fiquei atrás de algumas pedras, escondida, para que não me vissem.
Eu reconheci aquele grande objeto flutuante das escrituras que nossas antepassadas mantinham em uma grande caverna subterrânea, era um navio. Vários homens estavam no navio, estavam suados e pareciam cansados, mesmo assim estavam sorridentes. O dia estava quente e ensolarado, o céu azul parecia pintado como em uma obra de arte dos humanos. Por um momento eu me perdi olhando para as nuvens, contemplando aquela perfeição.
Foi quando eu ouvi um homem gritando: "Uma sereia, uma sereia! Peguem as redes, homens!"
Como eu pude ser tão descuidada? Eu deveria ter prestado mais atenção.
Eu não tive escolha, a não ser mergulhar rapidamente e voltar para meu lar. Então eu percebi que nada havia mudado, os humanos continuavam a ameaçar nossa existência.
Eu morava em Atlântida, e sim, ela existe. É difícil de explicar, mas vou tentar simplificar como ela é...
Nas profundezas do oceano existe Atlântida que, diferente do que todos pensam, não é submersa. Quero dizer, ela é submersa, fica sim embaixo d'água, mas não como todos pensam. A cidade fica envolta em algo parecido como uma cúpula invisível, que impede a água de adentrar as ruas da cidade, então quando entramos em Atlântida nós nos transformamos para andar, ou seja, ficamos sem as caldas.
Acho que preciso falar um pouco sobre mim agora. Sou Micaila, uma sereia. Tenho cabelos negros longos, muito longos... Nós sereias não nos desfazemos de nossos cabelos como os humanos. Eles são uma parte grande de nós. Para uma sereia, cortar os cabelos é como cortar uma parte de nossa cauda. Eu não tenho idade, nenhuma de nós tem. Não comemoramos aniversários como os humanos. Só se consegue ter uma ideia da idade de uma sereia pela cauda, que geralmente tem uma cor bem viva, como verde, rosa, turquesa ou até mesmo amarelo. Nossos olhos são da cor de nossas caudas, e com o passar das décadas eles perdem a cor, e vão se acinzentando, então partimos desse mundo.
Após ser avistada tive de voltar para Atlântida, abalada. Quando passei pela "cúpula" e me transformei, pude sentir minhas pernas tremerem. Claro, eles não poderiam me seguir até lá, mas eu estava muito assustada.
- Micaila? - Eu ouvi meu nome ecoar em meio à outras sereias que por ali estavam passando.
Eu então percebi quem me chamava. Era Lira, uma grande companheira.
- Por onde andou? Estava te procurando! - Ela me disse sorridente, enquanto colocava para trás seus longos cabelos loiros. - Micaila... O que houve? Está tudo bem? - Ela percebeu meu pavor naquele momento.
- Homens... Homens em um barco... Eles me viram.
Eu pude ver seu semblante mudar bruscamente.
- Vamos para sua casa, rápido!
Corremos pelas ruas, e rapidamente chegamos onde eu me repousava, que não ficava longe dali.
Ao entrar em minha casa Lira fechou todas as portas e janelas, para que ninguém nos ouvisse, então contei para ela todo o ocorrido.
- Você está louca? - Ela repetia, sem parar. - Se alguém descobrir que viram você, pode ter muitos problemas. Ninguém pode descobrir, ninguém! Não vamos mais falar disso!
Eu estava muito abalada naquele momento, afinal eu sabia muito pouco sobre os humanos naquela época. Não estou dizendo que agora eu seja uma especialista no assunto, mas pelo convívio que eu acabei tendo aprendi sobre os humanos consideravelmente.
- Eu não queria que eles me vissem... - Eu comentei, olhando para o chão. - Eu achei que eles pudessem ser... amigáveis talvez...
- Você está louca, Micaila? Não se lembra das histórias? De tudo que fizeram com nossas ancestrais? Eles são maus, eles não gostam de seres como nós! Não vê o que eles fazem com as baleias e com os tubarões? Eles não gostam de seres do mar!
- Sim, agora eu tenho absoluta certeza disso.
Ela suspirou, mais calma, e então me abraçou. - Eu sinto muito, eu só estou te deixando pior. Só quero o seu bem, e que fique em segurança. - Ela me soltou. - Afinal, vivemos bem aqui. Por que tanta curiosidade com os humanos? Nada de bom vem deles, nada! Quanto mais longe, melhor!
Alguns dias se passaram e eu fiquei com aquela situação passando por minha cabeça, várias e várias vezes. Relembrando meu medo, minha aflição, e meu desespero. Eu ainda não estava tão convencida sobre a fama dos humanos.
Pelo que sabíamos na época, haviam milhares de humanos nas terras próximas de nós, e eu não fui vista por todos. E se eles fossem como nós, sereias? Com suas próprias opiniões separadas? Afinal, a maioria das sereias não tinham a mesma curiosidade para com os humanos como eu, tinham opiniões diferentes das minhas. Os humanos também poderiam ser assim. Eu teria que ser vista por mais humanos, para ter um pouco mais de "certeza", se é que posso dizer assim, para esquecer nosso relacionamento com os humanos.
Eu tinha que tentar mais uma vez, e estava convicta de que ia dar certo. Então eu comecei a observar, mesmo da água, os humanos. Dessa vez eu queria me misturar à eles, para depois me mostrar em minha real forma. Eu iria fingir ser uma humana.
Parece loucura, não é? Mas eu sempre achei que aquela loucura valeria a pena. Imaginem, humanos e sereias vivendo juntos, em mar ou em terra, como iguais.
Eu descobri uma pequena praia, bem escondida. Acredito que era assim por não ser nada bonita e cheirosa.
Lá eu teria uma chance de me transformar sem que me vissem, e assim colocar meu plano em ação. - Mas sempre que eu me aproximava da praia para observar eu sentia uma sensação ruim na barriga. Eu não tinha certeza de que estava fazendo o certo, mas também era frustrante me manter somente na imensidão do mar, sem nenhuma outra motivação para a minha longa vida de sereia.
Eu decidi me transformar na praia no meio da noite, e estava disposta a fazer isso naquela mesma noite. 
June 20, 2018, 6:22 a.m. 0 Report Embed 0
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Introdução

A história que vou lhes contar aqui é dedicada à todos aqueles que admiram a minha espécie. Na época dos fatos eu não conhecia absolutamente nada do mundo humano, desconhecia objetos, vestimentas e até cores, mas vou lhes dar detalhes mais apurados graças ao meu conhecimento atual desse mundo.
O fundo do oceano não era completamento lindo e calmo como se achava. Lá embaixo é gelado, é quieto, é escuro. Não estou dizendo que lá embaixo não seja um lugar adorável, mas depois de anos e anos... Queria mais para apreciar. Eu sempre quis ter o meu próprio sol lá embaixo, para aquecer eu e minhas irmãs.
Aqui eu não vou explicar de onde as sereias surgiram, afinal, nem nós mesmas sabemos. Algumas acham que fomos simplesmente colocadas aqui por Deus, ou até mesmo pelo Diabo. Nós não somos divindades do mar, somos apenas uma parte minúscula desse planeta. Dividíamos o Oceano com baleias, tubarões, peixes, arraias... E vivíamos bem. No fundo do oceano sempre ouve respeito por parte de todas as criaturas, afinal, éramos uma grande família marinha, todos como iguais. Podemos nos comunicar com todo e qualquer animal aquático.
Não existem muitas de nós, mas nem sempre foi assim. Nosso povo vivia prosperamente no fundo do oceano, e também em terra firme. Sim, podemos nos transformar para andar em terra firme facilmente. Mas com o passar dos anos tivemos que parar de nos aventurar fora do oceano, pois surgiram outros de nós, mas que não podiam viver no oceano. Queríamos aprender sobre eles, viver junto deles, mas não nos entendiam, nos temiam. Por anos e anos fomos caçadas por eles, torturadas, mortas. Sofremos coisas que não merecíamos, fomos massacradas. Foi quando decidimos nos refugiar para sempre nas profundezas do oceano. Mas eu me cansei de viver escondida.


June 20, 2018, 5:41 a.m. 0 Report Embed 0
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