Esquadrão da Revisão Follow blog

embaixadabr Inkspired Brasil Os autores estão indecisos, escondidos, com medo: a Gramática os ameaça de todas as formas. É neste cenário caótico que um esquadrão se formou: soldados competentes em busca de justiça, recrutando mercenários para lutarem ao seu lado e, juntos, combaterem o Obscurantismo. Assim, o Esquadrão da Revisão ergue-se contra a tirania da Gramatica para submetê-la aos autores. Entender como funciona a gramática normativa é a base de qualquer escritor. Passar a ideia da cabeça para o papel de forma harmônica é a maior dificuldade de muitos literatos. Nós queremos, neste blog, mostrar a vocês que a gramática não é uma tirana; ela não passa de uma ferramenta que serve para ajudá-los. Juntem-se ao nosso esquadrão para desvendar os mistérios da Gramática e de suas normas.

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Como pontuar diálogos e pensamentos?

Olá, pessoas! Tudo certo?


Para fechar com chave de ouro nossos artigos sobre pontuações, nada melhor do que deixar aqui as regrinhas sobre pontuação de diálogos e pensamentos, não é mesmo?


“Pontuação de diálogos e pensamentos, Karimy?” Sei que você deve estar se perguntando algo assim, né?


Entendo que muitas pessoas nem fazem ideia de que existem regras para esses casos — e talvez você seja uma delas e tenha vindo aqui por causa da curiosidade causada pelo título. Mas já adianto dizendo que, sim, é verdade mesmo. Existem regras preciosíssimas que devem ser seguidas durante a formulação de diálogos e pensamentos, no entanto, mesmo quando lemos histórias com uma ortografia e gramática incríveis, é realmente raro encontrar escritores que saibam usar essas regras — ou que tenham ciência sobre a existência delas.


Sem mais enrolações, vamos lá! Pegue seu cafezinho, aquele biscoitinho gostoso, sua água e bons estudos!


O diálogo é considerado uma estratégia para unir os seres de todas as dimensões e lados de um livro: autor, leitor e personagem. É através dele que começamos a imaginar com maior propriedade a existência da narrativa que estamos acompanhando. Também não é muito diferente com os pensamentos: são eles que nos fazem realmente conhecer os personagens, como ninguém jamais tem oportunidade de conhecer alguém no mundo real — eles são um prato cheio para os leitores!


Antes de realmente começarmos a falar sobre as regras de pontuação, no entanto, tenho que deixar aqui algumas clarificações a fim de que você não fique perdido durante a explicação. Para começar, vou falar sobre os tipos de discurso.


Há o discurso direto, o discurso indireto e também o discurso indireto livre.

O discurso direto, segundo Bechara, é o que “reproduzimos ou supomos reproduzir fiel e textualmente as nossas palavras e as do nosso interlocutor, em diálogo [...], com a ajuda explícita ou não de verbos como disse, respondeu, perguntou, retrucou ou sinônimos (os chamados verbos dicendi). Às vezes, usam-se outros verbos de intenção mais descritiva, como gaguejar (do nosso exemplo), balbuciar, berrar, etc. São os sentiendi, que exprimem reação psicológica do personagem. No diálogo, a sucessão da fala dos personagens é indicada por travessão (outras vezes, pelos nomes dos intervenientes):

Uma vez em que me extenuava na desgraçada tarefa percebi um murmúrio:

— Lavou as orelhas hoje?

— Lavei o rosto, gaguejei atarantado.

— Perguntei se lavou as orelhas.

— Então? Se lavei o rosto, devo ter lavado as orelhas [GrR, 114].” (Bechara, 2009, pg. 584/854)


Ainda segundo ele, no discurso direto “os verbos dicendi se inserem na oração principal de uma oração complexa tendo por subordinada as porções do enunciado que reproduzem as palavras próprias ou do nosso interlocutor. Introduzem-se pelo transpositor que, pela dubitativa se e pelos pronomes e advérbios de natureza pronominal quem, qual, onde, como, por que, quando, etc., já vistos antes:

Perguntei se lavou as orelhas.” (Bechara, 2009, pg. 584/854)


E Bechara também explica sobre o discurso indireto livre, dizendo que ele “consiste em, conservando os enunciados próprios do nosso interlocutor, não fazer-lhe referência direta. Como ensina Mattoso Câmara, mediante o estilo indireto livre reproduz-se a fala dos personagens – inclusive o narrador – sem “qualquer elo subordinativo com um verbo introdutor dicendi” [MC.4, 28]. Se tomássemos o exemplo acima de Dom Casmurro, bastaria suprimir a forma verbal dizendo e construir dois períodos independentes com as duas partes restantes:

José Dias recusou. Era justo levar a saúde à casa de sapé do pobre.” (Bechara, 2009, pg. 584/854)


Esse discurso pode manter as interrogações e exclamações da fala, no entanto ela é unida de tal forma com a narração que pode-se confundir quem falou — narrador ou personagem — se não prestar atenção.


E se você quiser entender um pouco mais sobre isso, e também desvendar alguns outros mistérios sobre os diálogos, acesse o artigo que fiz junto a Camy para o Blog do Escritor.


Agora que você já sabe sobre a diferença entre os discursos, vou também apresentar para você os diferentes tipos de verbos usados para enunciar diálogos e pensamentos. E fique de olho, porque isso também vai ser bastante importante!


Os verbos dicendi ou declarandi são aqueles que indicam quem está falando — são verbos declarativos e costumam sempre ser usados depois de citações, diálogos, pensamentos e declarações. Eles sempre serão os verbos ligados ao verbo “dizer” e muitas vezes são até sinônimos de “dizer”. Veja alguns exemplos:


“Disse”, “Falou”, “Exclamou”, “Choramingou”, “Explicou”, “Perguntou”, “Respondeu”, “Retrucou”, etc.


Obs.: nos exemplos acima os verbos estão no pretérito, no entanto eles também podem ser usados no presente quando se trata de uma história narrada no presente, assim como podem aparecer no pretérito mais-que-perfeito quando aparecem em uma digressão de uma narração no pretérito. Aqui está uma lista para futuras consultas: lista de verbos dicendi.


Já os verbos sentiendi são aqueles que expressam sentimentos, emoções, estado de espírito e até mesmo o estado psicológico de um personagem. Os exemplos de verbos sentiendi são:


“Berrar”, “Balbuciar”, “Explodir”, “Gaguejar”, “Extravasar”, “Gemer”, “Suspirar”, “Lamentar”, etc.


Agora, para iniciar sobre a pontuação em si, já devo dizer algumas coisinhas que acredito serem bastante importantes:


  1. É imprescindível se lembrar de que a fala de um mesmo personagem deve ser mantida em um parágrafo único. Você quebrar essa fala em vários parágrafos vai confundir o leitor.
  2. Sempre que houver mais de um personagem falando, cada um deles deve dialogar em um parágrafo diferente, também para não confundir o leitor.
  3. Não se assuste se comprar um livro e descobrir que ele não possui travessões no início das falas, apenas no final, porque isso é um estilo; também não se assuste caso compre um livro e descubra que ele não possui marcação alguma no início e final das falas e pensamentos (sem travessões, itálicos e aspas), porque isso também é um estilo narrativo — nesses tipos de livros, as falas costumam ser reconhecidas através dos verbos, mudanças de parágrafos, estruturas, etc.
  4. Não se preocupe caso encontre a posição dos pronomes e verbos sempre dispostos de formas diferentes se comparar de um livro para outro livro. Essa disposição diz respeito apenas à escolha do autor, então você também pode escolher qual é o melhor para o seu livro; se colocar o pronome na frente do verbo ou o verbo na frente do pronome depois de diálogo ou pensamento (ex.: ‘disse eu” ou “eu disse”).
  5. É importante lembrar que você pode, sim, usar aspas para marcação de diálogos, no entanto no Brasil o recomendado é o uso do travessão — e aqui é importante que você não o confunda jamais com meia-risca, hífen ou underline (hífen ou traço: –; meia-risca: –; travessão —).


Agora que você já sabe todas essas informações, está realmente preparado para pôr a mão na massa. E vamos começar falando sobre como pontuar um diálogo seguido de um inciso do autor com verbo dicendi ou sentiendi. E se você não sabe o que é o inciso do autor, veja aqui:


Agora está mais fácil, não é? Então, retomando, quando temos uma fala e logo em seguida um inciso do autor inserido através de um verbo dicendi ou sentiendi, o seu diálogo não deve ser pontuado com ponto final e o inciso do autor deve iniciar com letra minúscula. Você pode encerrar o diálogo com ponto de exclamação, de interrogação e de reticências sem problema algum, mas ainda assim o inciso deve vir em letra minúscula.


Veja alguns exemplos:


— André me contou o grande segredo dele ontem — sussurrou Clara.

— Mentira! — exclamou Daniela, já se aproximando mais para saber da novidade.

— Ele pediu para que eu não contasse a mais ninguém, sabe? — questionou a menina, mas abriu um sorrisinho matreiro. — Mas eu sei que posso falar tudo para você.

— Bem, se você diz... — respondeu Daniela, um pouco tímida.


Como você pode observar, mesmo quando há uma nova fala logo depois do inciso, a regra permanece. E observe que há vários exemplos úteis ali: diálogo + inciso + diálogo; diálogo com interrogação, reticências e exclamação no final, assim como o diálogo fechado, que não precisa de sinal.


Também existem casos onde o inciso do autor, introduzido por verbo dicendi ou sentiendi, interrompe a fala no meio e depois ela é terminada do outro lado, depois do inciso. Nesses casos, também não se usa ponto final na fala e o inciso do autor também deve começar com letra minúscula.


Exemplo:


— Por favor, aguarde um pouco — pediu Anna — enquanto eu verifico os arquivos para você.


Algumas vezes, a fala cortada no meio deveria terminar com uma vírgula ou dois pontos. Nesses casos, a pontuação deve ser colocada depois do travessão que vem após o inciso, antes do resto da fala. Observe:


— Eu preciso te dizer uma coisa, Catarina — suspirou Fernando —, mas não sei bem se você vai acreditar: eu amo você.


Exemplo com dois pontos:


— E eu tenho que desabafar — berrou Fernando —: você não me merece!


Agora, o probleminha começa. Por isso, preste muita, muita atenção, hein! Nós estávamos até o momento falando sobre as regras de pontuação de diálogos quando o inciso do autor é introduzido através de verbo dicendi ou sentiendi. No entanto também existem vezes em que o inciso é introduzido por verbos que conhecemos como verbos de ação, que são aqueles verbos que dizem o que um personagem fez ao dizer algo, o que um personagem fez ao ouvir algo, o que um personagem estava fazendo enquanto dizia algo, etc. E nesses casos a regra muda completamente: o diálogo deve ser terminado com ponto final (ou pode ser ponto de interrogação, exclamação ou reticências normalmente) e o inciso do autor deve começar com letra maiúscula. Veja só:


— Eu já não sei mais. — Joana se ergueu com os olhos marejados.


Exemplo com interrogação:


— O que está acontecendo aqui, meu Deus? — Ela bateu com força na mesa. — Vocês são todos loucos!


Exemplo com exclamação:


— Ah, tá! — Ela jogou os papéis para o ar. — Não vou contracenar com ele nunca.


Exemplo com reticências:


— Eu apenas queria dizer... — Os lábios dele tremeram. — Acho melhor não dizer mais nada.


Em alguns casos, por questões variadas, como ênfase no ato, o inciso do autor pode ser colocado em um novo parágrafo.


Exemplo:


— Eu vou embora daqui uma hora.

Ela virou o rosto para não ver como ele reagiria.


Existem casos onde o inciso do autor precede o diálogo e, nesses casos, o inciso deve ser terminado com dois pontos, para que o diálogo venha em seguida. Veja:


Mateus abaixou a cabeça e disse:

— A culpa não foi do Caio. Foi minha. Fui eu que roubei a pulseira dela.


Há outros casos onde o inciso é uma interpolação do autor e o mesmo deve ser feito. Exemplo:


— Eu realmente não acredito que isso está acontecendo — balbuciou Teresa, as mãos trêmulas pela situação, e disse: — eu preciso me sentar, antes que desmaie.


Há também casos onde o verbo dicendi “começou” e “continuou” podem ser usados.


Exemplo com diálogo cortado ao meio da frase por inciso:


— Ele não virá — começou Eliane, os olhos brilhando pela excitação, e continuou: — e espero que nunca mais apareça por aqui!


Exemplo com uma nova frase após o inciso:


— Eu bem que gostaria de ganhar um presente como esse — começou Tiago, um sorrisinho brincalhão e perigoso estampado no rosto, e continuou: — Mas sabe de uma coisa? Eu preferiria uma outra cor.


Agora, existem casos de diálogos com falas muito extensas e com tópicos frasais diferentes, o que exige divisão de parágrafos. Nesses casos, eles devem ser pontuados da seguinte maneira:


— Esse homem estava vindo com tudo para cima de mim e a única coisa que consegui fazer foi me jogar do cavalo. Ele saltou por cima do animal e caiu rolando no chão. Nunca tinha nem sonhado com nada daquilo. — O tom de voz aumentou: — Então ele se levantou, e eu estava sem saber o que fazer: o tempo que levei para conseguir me pôr de pé foi o tempo que ele levou para se aproximar de mim. Estou dizendo... foi surreal. Até achei que estava ficando louca. — Sasuke achava o mesmo nesse momento. — Ele tinha um rombo no peito, um buraco tão grande que caberia minha mão lá dentro. Eu podia ver os músculos do coração dele! Era assustador demais!

“Quando dei por mim, ele estava a um passo de onde eu estava, mas consegui reagir. No susto, mas reagi. Puxei a espada e a enfiei no buraco do peito dele, mas suas mãos insistiam em tentar me alcançar. Até que ele conseguiu. Ele me deu um tapa de mão aberta, e eu caí com a força dele, ainda sinto meu rosto queimar. Ele veio de novo até mim, minha espada estava no peito dele, então eu fiquei de pé o mais rápido que pude e peguei no punho da espada...

“Eu nem sei quantas vezes enterrei a lâmina no coração dele, só sei que, quando eu terminei, ele estava caído no chão. E os olhos... vocês tinham que ver os olhos dele, não parecia morto.” (Trecho retirado da minha história “A era dos Talamaurs”, cap. “Histórias”)


  • Essa regra é a mesma para quem usa travessão e aspas para demarcar diálogos; a única diferença para quem usa aspas seria a demarcação do início do diálogo, que no caso também deveria começar com aspas.
  • Independente de como os parágrafos são encerrados — se com ponto, exclamação, reticências ou interrogação —, só se usa aspas para fechar o diálogo depois que ele for completamente finalizado, ou seja, após o último parágrafo.


Existem também diálogos que são colocados dentro de outros diálogos. Isso acontece principalmente quando um personagem está repetindo a fala de outro. Veja:


— Eu disse para ele. Eu disse — respondeu Vanessa, nervosa como nunca. — E sabe o que ele me respondeu? Pois aquele cafajeste disse: “Não precisa se preocupar com isso. Eu vou dar um jeito. Vou resolver tudinho”. Resolver tudinho! Pois ele fez foi piorar a situação!


Sobre a pontuação de diálogos e pensamentos demarcados por aspas, acredito que seja importante deixar algumas considerações, como o fato de que o diálogo deve ser pontuado antes do fechamento das aspas:


“Eliane, você não imagina como adorei rever você!”


Agora, se o início do período não coincidir com a abertura das aspas, então o correto é que o ponto venha apenas depois das aspas:


Enquanto se escondiam, Sebastião tomou coragem para segurar na mão de Flávia, então ela disse: “Não se preocupe, vamos sair dessa inteiros”.


Quando há verbo dicendi ou sentiendi depois ou no meio de uma frase, a pontuação deve ser assim:


“Eu queria muito te fazer um convite”, disse Pedro com timidez.

“Então faça”, retrucou Olivia, os olhos ambiciosos brilhando. “Talvez você possa receber uma resposta favorável só por sua ousadia em vir aqui.”


Agora, quando se trata de um inciso do autor com verbo de ação, seguimos da mesma forma como quando usamos travessão:


“Eu aceito sua oferta.” Ele se ergueu num pulo, ofegante. Estava esperando por aquilo havia muito tempo.


Quando o diálogo for precedido por verbo dicendi ou sentiendi, ele também vai seguir o padrão dos diálogos com travessão, onde coloca-se dois pontos e depois o diálogo (em seguida ou em outro parágrafo):


Valentine empinou o nariz e retrucou: “Eu sempre cumpro com minha palavra!”


Normalmente quem usa travessão para demarcar diálogos tem opção de usar aspas ou itálico para demarcar pensamentos, enquanto quem usa aspas para demarcar diálogos tem a opção de usar itálico (ou apenas deixar sem marcação alguma) e, nesses casos, basta seguir com a pontuação de diálogos com aspas para qualquer um dos casos.


Bom, pessoal, eu sei que demoramos um bocado, mas enfim encerramos com essa matéria. Além disso, também podemos dar por encerrada todas as etapas necessárias para que você seja capaz de compreender de fato como funcionam as pontuações segundo regras gramaticais da nossa língua. É claro que ainda existem muitas coisas a serem aprendidas e exploradas nesse mundo, mas agora você já percorreu esse caminho até aqui e já tem uma base sólida para seguir explorando por conta própria. Continue estudando e praticando sempre!


Texto por: Karimy

Revisão por: Ivina Simplicio


Referências:

  • CUNHA, Celso; CINTRA, Lindley. Breve gramática do português contemporâneo. João Sá da Costa, 1998.
  • Bechara, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 37.a Edição. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, Editora Lucerna, 2019.
  • Kohan, Silvia Adela. Como escrever diálogos: A arte de desenvolver o diálogo no romance e no conto. 1ª edição: Gutenberg, 1 fevereiro 2011.
Dec. 13, 2021, 5:02 p.m. 2 Report Embed 2
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Dúvidas comuns sobre o uso da vírgula

Olá, pessoas! Tudo certo?


Agora que você já está bastante craque no uso das pontuações, resolvi trazer este artigo com algumas dicas sobre dúvidas comuns sobre o uso da vírgula que escritores podem ter durante a produção de um texto. O intuito é deixar algumas regrinhas e considerações sobre casos mais específicos, para que você possa utilizar esse artigo como material de consulta quando necessário.


E uma observação importantíssima: as considerações feitas aqui estão colocadas de uma forma geral, para que você tenha uma noção básica sobre como pontuar em determinados casos durante a escrita de uma história. No entanto, se você estiver em busca de especificações e explanações maiores, é importante consultar diretamente as gramáticas para compreender as diferenças quando se quiser escolher e compreender melhor as questões facultativas, principalmente se você for fazer uma prova onde a banca pede pelos padrões determinados por um gramático, que então é necessário você conferir as recomendações dele nos livros.


Então vamos começar com uma dúvida bastante corriqueira, principalmente porque alguns escritores usam bastante a palavra “enquanto” no texto: como usar a vírgula com essa palavra?

Bom, segundo Cunha e Cintra, a vírgula é usada “Para separar as orações subordinadas adverbiais, principalmente quando antepostas à principal” (pág. 663). No entanto, segundo alguns autores, como Marcos Neves, a vírgula não é tão utilizada quando as orações estão em ordem direta. Por isso, se formos pensar nessas discrepâncias de ideias de um autor para o outro, podemos concluir que a virgulação em casos de ordem direta pode ser considerada facultativa (a não ser que a banca exija um determinado gramático).


Há, ainda, a noção de que a vírgula deve ou não ser utilizada a depender do que se quer passar com a palavra “enquanto” e a ação e momento introduzidos por ela. Assim sendo, só se usa a vírgula antes de enquanto como sinônimo de “ao passo que” e não se deve usar a vírgula se a ação que “enquanto” introduz é simultânea à ação anterior e pode ser substituído por “durante o tempo em que”:

Exemplos:


As dúvidas aumentavam, enquanto seu prazo de entrega se esgotava. (Ao passo que)


Pensava na mentira que contaria enquanto caminhava de volta pra casa. (Durante o tempo em que)


Agora, quando separar por vírgula a preposição “com”?

De forma geral, não separamos o “com” por vírgulas em frases como:


Ele voltava da escola com Mariana.


No entanto, existem casos em que podemos empregar a vírgula para separar “com” em uma frase, como quando essa preposição inicia um comentário dentro da frase:


Ele enfim conseguiu publicar o livro, com todo apoio que teve.


Também podemos usar a vírgula para separar a preposição “com” a fim de impedir que haja ambiguidades no texto em frases como:


Ele deu um quadro à família de presente de despedida para ser recordado por todos, com um gesto de carinho.


Se não colocássemos a vírgula nessa frase, poderia ser entendido que ele seria recordado por todos com um gesto de carinho, em vez de que ele entregou o presente com um gesto de carinho.


Se a frase introduzida por “com” estiver funcionando como um modificador e estiver deslocada, ela deve ser isolado por vírgulas, veja só:


Ele desviou o olhar, com um pouco de vergonha, antes de dizer o que sentia.


E em frases mais longas, a vírgula pode ser usada de forma estilística, para dar destaque a algo.


Quando usar a vírgula antes de “como”?

A vírgula deve ser empregada antes de “como” se ele introduzir uma enumeração/e ou uma explicação. No entanto, se ele estiver fazendo uma comparação, a vírgula não é utilizada.

Exemplos:


Ela gosta de vários livros de romance, como Crepúsculo, A Culpa é das Estrelas, etc. (exemplo e enumeração — inclusive podemos notar que “vários” é uma introdução para a enumeração que se segue)


Ela gosta de livros de romance como Crepúsculo, A Culpa é das Estrelas, etc. (nessa frase, é fácil notar a noção de comparação que “como” introduz, fazendo um balanço do que seriam esses livros de romance que “Ela” gosta)


Quando usar vírgulas antes de “para”?

Caso se trate de uma oração adverbial final em ordem direta extensa, pode-se usar a vírgula de forma estilística, no entanto não é uma regra, apenas opcional — em casos de orações adverbiais finais curtas na ordem direta, a vírgula é dispensada.


Devo usar vírgula antes de “etc.”?

Esse é um caso facultativo, que depende bastante de como você compreende o significado intrínseco de “etc.”, inclusive. Por exemplo, se você for levar o significado dele ao pé da letra, como “entre outras coisas”, é normal que não se queira usar vírgula antes dele, no entanto você pode também usar a vírgula antes dele por vê-lo como parte da enumeração. A única coisa certa é que é sempre necessário colocar a vírgula caso se trate de mais de um “etc.”, como em: “etc., etc. e etc.”.


Quando usar vírgula antes de advérbios terminados em “mente”?

Os advérbios terminados em “mente” podem ou não ser colocados entre vírgulas, no entanto é muito importante tomar um cuidado extra ao analisar a frase para não correr o risco de colocar apenas uma vírgula antes do advérbio e acabar quebrando a frase em duas, como acontece em:


Ele viu aquela cena boquiaberto e pensou, principalmente sobre o fato de não poder fazer nada para ajudar.


A vírgula que antecede “principalmente” está atrapalhando a continuidade da frase, separando o verbo de seu complemento (pensou o quê? sobre o fato de não poder fazer nada para ajudar). Sendo assim, essa vírgula está incorreta. No entanto, a frase ficaria correta caso o advérbio “principalmente” estivesse entre vírgulas, ou se não houvesse vírgula alguma.


Corretas:

Ele viu aquela cena boquiaberto e pensou, principalmente, sobre o fato de não poder fazer nada para ajudar.


Ele viu aquela cena boquiaberto e pensou principalmente sobre o fato de não poder fazer nada para ajudar.


Também é possível usar uma vírgula antes do advérbio terminado em “mente” caso se trate de uma frase-comentário. Exemplo:


Ele sempre levava uma garrafa de vinho branco para nossas reuniões, principalmente se a Márcia estivesse lá.


No início ou final de frase, a vírgula para separar advérbio terminado em “mente” é facultativa:


Finalmente, ela estava prestes a falar a verdade. ou Finalmente ela estava prestes a falar a verdade.


Ele havia chegado atrasado, infelizmente. ou Ele havia chegado atrasado infelizmente.


Quando usar vírgulas antes de “que”?

É necessário usar vírgula antes de “que” quando ele é um pronome relativo iniciando orações explicativas:


Joana, que tem uma casa apenas para escrita, estava em retiro para iniciar o novo livro.


Como conjunção consecutiva também deve ser virgulado:


Ele escreveu tanto, que ficou com os dedos doendo.


Sempre pede vírgula como conjunção causal ou explicativa:


Não saia agora, que pode se arrepender.


Em geral, em outras situações não se deve usar vírgula antes de “que”.


Vírgula em expressões explicativas como “ou seja”, “isto é”, “a saber”, “por assim dizer”, “a propósito”, “além disso”, “digo”, “ou melhor”, “ou antes”, etc.

É aconselhado que essas expressões sejam colocadas entre vírgulas, no entanto é possível usá-las no início ou no final de frases, a depender da intensidade que se quer dar — lembrando que nesses casos elas ainda devem ser isoladas com uma vírgula da frase.

Exemplos:


Quando ela começou a escrever, começou também a sorrir, ou melhor, a viver.


O que aconteceu com o personagem me fez ficar nervosa, isto sim.


Ela estava pensando em fazer um enredo antes de começar a história. Ou seja, escrever um esboço sobre cada capítulo.


Vírgula e as locuções “bem como” e “assim como” (também “como” quando com o sentido de adição):

Por darem uma noção de adicionarem uma informação à frase, “bem como”, “assim como” (e conjunção “como” com valor aditivo) se comportam da mesma maneira que a conjunção aditiva “e”, o que significa que não há necessidade de pontuação:


Raiane bem como Joana estão lendo a série Divergente.


Há também a possibilidade de isolar por completo a frase introduzida por “bem como”:


Os livros da biblioteca pública, bem como todo o bem que há nela, pertencem à população em geral.


Caso haja formação de sujeito composto, essas locuções devem vir entre vírgulas quando o intuito for destacar ao primeiro sujeito, com quem o verbo costuma concordar:


Domingos Martins, como Venda Nova do Imigrante, é uma cidade um pouco mais fria


Uso da vírgula e “nem... nem”:

No geral, não há necessidade de usar vírgula quando existe o emprego duplo de “nem”, no entanto ela pode ser usada antes do segundo “nem” caso a intenção seja dar maior ênfase à frase.


“E” isolado por vírgulas e vírgula antes de “e”:

Sabemos que a regra geral é não usar vírgula para separar conjunção aditiva “e” de frases — e também já vimos que há algumas exceções. Agora, falaremos sobre um caso específico onde surge uma vírgula antes de “e”.


Em determinadas frases, existem orações e/ou frases deslocadas posicionadas antes da conjunção “e”. Como já vimos nas aulas anteriores, os deslocamentos e intercalações devem estar sempre entre vírgulas, para que fique claro a movimentação dessas frases e orações. Sendo assim, é natural que em algum momento você se depare com a necessidade de colocar vírgula antes de conjunção “e” para fechar uma frase deslocada, como em:


O autor daquela fanfic de Crepúsculo, através do Inkspired, e a autora daquela fanfic antiga de Naruto vão começar uma nova parceria.


Ao observar a frase fica bem fácil de perceber que a vírgula antes do “e” nada tem a ver com a conjunção aditiva, mas sim com a frase "através do Inkspired”, que está intercalada. E elementos explicativos também podem estar no meio da frase e fazer com que o mesmo ocorra.


Apesar de mais raro, há também a possibilidade de nos depararmos com a conjunção “e” isolada por vírgulas. E mais uma vez não se trata de um caso onde as vírgulas são usadas em função do “e”, mas sim em função de frases deslocadas e elementos explicativos:


Vai ser muito interessante ver um escritor de romances eróticos, de um lado, e, de outro, uma escritora de fantasia medieval unindo forças.


Observando com cuidado, percebemos com bastante propriedade que o “e” isolado por vírgulas está dessa forma por causa dos elementos que o cercam e não por ele próprio.


Uso de travessão no lugar de vírgula:

É bastante comum e correto a utilização do travessão no lugar da vírgula, normalmente usado em frases onde já há um número significativo de vírgulas ou para fazer comentários do autor ou ainda para dar uma maior ênfase visual ao que se quer destacar. O importante é sempre usar a pontuação correta, pois é muito comum que se use o underline (_), o hífen ( - ) e a meia-risca ( – ) no lugar do travessão ( — ). Para que não haja confusão, é sempre importante lembrar que o travessão é o maior deles e fica no meio da página (diferente do underline, que fica na linha).


O travessão pode ser usado para separar uma oração da outra, um termo de mesmo valor, um deslocamento, etc. E também há a possibilidade de haver uma frase entre travessões e uma vírgula depois do último travessão, e isso pode acontecer porque a funcionalidade dele é muito semelhante à dos parênteses (se você eliminar a frase que está dentro dos travessões e perceber que a frase restante necessita de vírgula, então a vírgula deve, sim, existir, e por isso há casos onde se tem vírgula depois de um segundo travessão). Veja um exemplo desse último caso:


Ela estava usando uma blusa branca — bastante transparente e apertadinha —, uma saia jeans e uma bolsa lateral.


Se eliminarmos a frase entre os travessões, teremos: “Ela estava usando uma blusa branca, uma saia jeans e uma bolsa lateral”. Observando dessa forma, fica mais claro que a vírgula depois do segundo travessão está correta e é necessária, por isso é importante ficar atento a esses tipos de construções.


Bom, gente, por hoje é só. E gostaria de pedir que, se você tiver mais casos interessantes de dúvidas sobre uso de vírgula, deixe aqui nos comentários, dessa forma poderemos formular novos textinhos como este!


Um abraço e até o próximo artigo.


Texto por: @Karimy

Nov. 30, 2021, 1:03 p.m. 0 Report Embed 0
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A pontuação entre as orações reduzidas de gerúndio, particípio e infinitivo

Olá, pessoas! Tudo certo?


Para finalizarmos essa parte dos nossos estudos sobre pontuações entre as orações, neste artigo você vai encontrar umas regrinhas bem simples, que facilitarão bastante o nosso ensino-aprendizado. Espero que já esteja pronto para começar, com sua águinha, papel e caneta preparados!


A pontuação entre as orações reduzidas é bem simples e segue a seguinte regra: quando as orações reduzidas de gerúndio, particípio e infinitivo estão deslocadas — vêm antes da oração principal —, são virguladas.


Sabendo disso, ele fechou o livro. = Quando soube disso, ele fechou o livro.


Terminada a exposição, ela foi embora. = Quando (ou “Depois que”) terminou a exposição, ela foi embora.


As orações reduzidas de gerúndio são pontuadas quando vêm antes da oração principal e também quando colocadas depois da oração principal caso se trate de uma oração coordenada iniciada por “e” ou “e isso” reduzida:


Elizabete estudou como nunca, tornando-se uma das maiores pesquisadoras da universidade. = Elizabete estudou como nunca e se tornou uma das maiores pesquisadoras da universidade.


A competição entre escritores é sempre emocionante, aumentando a empolgação dos escritores e dos leitores. = A competição entre escritores é sempre emocionante e isso aumenta a empolgação dos escritores e dos leitores.


Uma construção não muito recomendável, porém ainda usada, é o uso da reduzida por gerúndio com função de oração adjetiva, e que deve ser virgulada:


O ator famoso da nova novela das sete, vivendo em São Paulo para as gravações, encontrou a ex-namorada em um bar no final de semana.


*E atenção, hein: não se usa gerúndio em orações reduzidas de gerúndio (ou gerúndio no geral) quando denota meio, modo ou instrumento e quando tem função de oração adjetiva restritiva:


A noiva subiu as escadarias correndo.


Vi a moça tomando suco de abacaxi.


O CEO foi acusado de assédio sexual envolvendo a secretária.


Se a reduzida de gerúndio estiver na ordem direta e representar uma oração adverbial final, também não é virgulada:


Sempre escreve ao ex pedindo para ser perdoado.


E é importante falar que também podemos considerar como oração reduzida certos apostos ou predicativos se antecipados. Veja um exemplo:


Exausto, ele deixou o assunto de lado. = Por estar exausto, ele deixou o assunto de lado


Bom, gente, sei que o texto de hoje está bastante curtinho, mas são apenas essas as considerações deste artigo mesmo. No entanto, espero que você não se acomode, hein! Aproveite que os estudos de hoje foram tranquilos para revisar os artigos anteriores. Lembre-se que saber é poder! E se tiver alguma dúvida, deixe nos comentários. Até mais!


Texto por: Karimy


Referências:

  • CUNHA, Celso; CINTRA, Lindley. Breve gramática do português contemporâneo. João Sá da Costa, 1998
  • Bechara, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 37.a Edição. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, Editora Lucerna, 2019.

Piacentini, Maria Tereza de Queiroz. Manual da Boa Escrita Vírgula, crase, palavras compostas. 2.a Edição. Rio de Janeiro: Lexikon Editora Digital Ltda, 2015.

Nov. 23, 2021, midnight 0 Report Embed 1
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A pontuação entre as orações subordinadas

Olá, pessoas! Tudo certo?


Neste artigo damos continuidade às nossas aulinhas sobre pontuação entre orações. Na aula anterior falamos sobre as coordenadas e nesta falamos sobre as subordinadas, e você já sabe, não é mesmo: se não se lembra quais são as orações subordinadas (e conjunções subordinadas também, que é de muita ajuda nessa hora), aconselho que volte nos artigos onde falamos sobre elas, para que não se sinta perdido durante as explicações.


Isso dito, pegue seu lanchinho, sua água e se prepare, porque vamos começar!


Segundo Bechara, pág. 398/854, “[...] o transpositor ou conjunção subordinativa transpõe oração degradada ou subordinada ao nível de equivalência de um substantivo capaz de exercer na oração complexa uma das funções sintáticas que têm por núcleo o substantivo.” e “Oração complexa é aquela que tem um ou mais dos seus termos sintáticos sob forma de uma oração subordinada.”


A oração subordinada é uma oração com função de substantivo, adjetivo ou advérbio. Por isso é dito sempre que elas funcionam como termos essenciais, integrantes ou acessórios de uma outra oração.


As orações subordinadas substantivas normalmente são introduzidas por “que” e às vezes por “se”. Essas orações englobam as orações subjetivas, objetivas diretas, objetivas indiretas, completivas nominais, predicativas, agentes da passiva e apositivas. Agora, como pontuá-las?


Vamos começar pela exceção à regra, que é a oração apositiva. Segundo Cunha e Cintra, “Apositivas [...] exercem função de aposto”. E nós sabemos como o aposto funciona, não é mesmo? Sabemos que há a necessidade do uso da vírgula — ou dois pontos — para demarcar os apostos. A regra não muda quando falamos sobre orações apositivas: é necessário usarmos vírgula ou dois pontos para marcá-las.

Veja só:


Tenho apenas um pedido: que você volte cedo e me traga um livro.


Agora que você já sabe pontuar as orações subordinadas substantivas apositivas, vou te explicar como pontuar as demais orações subordinadas substantivas: basta não pontuar!

Ah, peguei você, né! Mas é isso mesmo. Veja só alguns exemplos:


Era importante que você participasse ativamente da reunião.


Espero que você cresça como escritor.


Vamos então entender como funciona a pontuação nas orações subordinadas adverbiais, que funcionam como adjunto adverbial de suas orações principais. Elas podem ser causais, comparativas, concessivas, condicionais, conformativas, consecutivas, finais, temporais e proporcionais. E quando devemos pontuar essas orações?


É recomendado o não uso da vírgula quando essas orações estão no sentido direto. No entanto, quando as orações subordinadas adverbiais estão colocadas antes das orações principais, a vírgula deve ser usada para marcar isso. E se você não está conseguindo lembrar aí quais são as orações principais, basta lembrar que são aquelas que não são introduzidas por conjunções.

Veja um exemplo:


Quando a reunião acabou, todos foram embora.


A oração iniciada pela conjunção “quando” é a oração subordinada adverbial. Nesse exemplo, ela está deslocada para frente, por isso devemos colocar a vírgula no final dela e no início da próxima oração. Se mudarmos as duas de lugar, a vírgula se faz desnecessária:


Todos foram embora quando a reunião acabou.


Outros exemplos:


Se você me contasse um segredo, eu o guardaria a sete chaves.


Eu jamais falaria com você se não fosse realmente necessário.


À medida que ela se aproximava, meu coração batia com mais força.


Ainda que você diga isso mil vezes, eu ainda vou duvidar da sua palavra.


Talvez você esteja aí pensando sobre o fato de já ter visto orações adverbiais deslocadas, porém sem vírgulas. Mas isso pode acontecer porque a vírgula para demarcar a oração adverbial deslocada não faz diferença no sentido da frase quando se trata do verbo “ser”, principalmente. Observe o exemplo:


Quando eu passo muito tempo lendo no celular / é normal que depois eu sinta dor de cabeça.


No dia que eu estiver com o livro em mãos / será possível dizer que meu esforço valeu a pena.


Sendo assim, podemos dizer que, nesses casos, é facultativo o uso ou não da vírgula para separar as orações. Mas tenha sempre o cuidado de conferir se a frase não ficará estranha, ambígua ou algo do gênero — na dúvida, melhor pontuar.


Quando a oração principal está no lugar dela de direito, que é à frente da oração adverbial, é muito difícil que haja o uso de vírgula, principalmente quando a oração principal é curta. E como a oração adverbial expressa circunstância, ela pode vir intercalada e, nesses casos, é importante isolá-la com vírgulas para demarcar essa intercalação. Por exemplo:


E, quando isso acontece, eu fecho os olhos e respiro fundo.


Há também as orações subordinadas adverbiais proporcionais, que seguem a mesma regrinha de serem virguladas quando estiverem deslocadas, no entanto isso não é bem verdade para as seguintes: “tanto mais… quanto mais”, “quanto mais, melhor”, “quanto mais, mais”, “quanto mais, menos”, etc., que pedem por vírgula sempre. Veja um exemplo:


Quanto mais ele chorava e implorava, menor era a vontade dela de perdoá-lo.


Agora que você já sabe dessas regrinhas, vamos descobrir como pontuar as orações subordinadas adjetivas, que são aquelas que funcionam como adjunto adnominal ou pronome antecedente.


Elas podem ser explicativas, que obrigatoriamente são precedidas por vírgula ou entre vírgulas se intercaladas.


Comprei aquele livro de que falei, que se tornou o primeiro best seller da minha autora favorita.


O documentário sobre o holocausto, do qual ouvi falar pela primeira vez naquele fórum que você me indicou, foi muito bem recebido pelos alunos.


Queria visitar a França, onde ele nasceu.


Gosto de José Saramago, cuja escrita sempre me surpreende.


Agora é preciso tomar muito cuidado na hora de pontuar essas orações porque é bastante comum encontrá-las com o pronome relativo e o verbo auxiliar ocultos. Veja só:


O filho dela, escritor de romances, está para lançar um novo livro. = O filho dela, que é escritor de romances, está para lançar um novo livro.


Também existe a possibilidade de haver uma intercalação no meio de uma oração explicativa. Em casos como esses são usados mais duas vírgulas ou então elas são deixadas de lado, dependendo do tipo e do tamanho da intercalação. Veja só um exemplo retirado do livro “Manual da Boa Escrita”, pág. 47:


“O Declínio do Império Americano evoca uma superprodução estrelada por Charlton Heston, que, tendo-se perdido no tempo e no espaço, desembarca em 1986 no Canadá.”


A frase “tendo-se perdido no tempo e no espaço” está bem no meio da oração explicativa, que no caso é “que desembarca em 1986 no Canadá”. Alguns escritores poderiam eliminar a vírgula presente depois de “que”, que marca a intercalação, no entanto o mais recomendado é usá-la.


Diferente da oração subordinada adjetiva explicativa, a oração adverbial adjetiva restritiva não pede por vírgulas. E isso acontece porque ela é indispensável por particularizar, definir ou identificar um substantivo ou pronome expresso anteriormente.

Exemplos:


Guarde os livros, principalmente aqueles que você espalhou pela sala.


Os leitores que rabiscam os livros merecem ser punidos.


Como você pode notar, as orações restritivas também são introduzidas por pronomes relativos e normalmente aparecem intercaladas, porém ainda assim não são virguladas.


*Agora uma observação que se faz bastante importante e que tem a ver tanto com as orações coordenadas explicativas, mostradas no artigo anterior, quanto com as orações subordinadas causais: as orações introduzidas por “pois” e “porque”, que podem ser coordenadas ou subordinadas — e que, segundo Bechara, poderia ser abolida a diferenciação das duas e por isso deixei para explicar sobre elas aqui —, são pontuadas a depender do tamanho que possuem e da ênfase que você quer dar a elas. Sendo assim, a pontuação delas fica a critério do escritor e do que se quer passar. Agora é importante entender que, quando realmente se está tratando de uma causa, a vírgula antes de “porque” não deve ser usada.

Veja um exemplo desse último caso:


Ficaram em destaque não porque merecessem, mas porque não havia outra opção.


Por hoje é só isso mesmo, gente, mas continue ligadinho e estudando de forma ativa, porque logo voltaremos com um pouco mais sobre as pontuações entre as orações. Um abraço e até lá!


Texto por: Karimy


Referências:

  • CUNHA, Celso; CINTRA, Lindley. Breve gramática do português contemporâneo. João Sá da Costa, 1998
  • Bechara, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 37.a Edição. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, Editora Lucerna, 2019.

Piacentini, Maria Tereza de Queiroz. Manual da Boa Escrita Vírgula, crase, palavras compostas. 2.a Edição. Rio de Janeiro: Lexikon Editora Digital Ltda, 2015.

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