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truthbullet Mono Butter Por mais que você tente puxá-lo para fora, o sentimento não a abandona — transborda, escorre, explode para dentro, mas nenhum fragmento dele some. E na esperança de aprender a conviver com ele, você escreve.
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Talvez, o Centésimo Relato?


Antes de começar a digitar, você se depara com o título.


É. Você não gosta de deixar seus documentos sem ele, porque isso geralmente significa que não estão salvos — e, após tantas péssimas experiências com computadores ordinários e programas que param de funcionar sem motivo, já aprendeu que salvar a cada cinco minutos é o melhor jeito de evitar uma tragédia.


Porém, assim como o Google Docs — seu atual amante para projetos futuros —, esse novo site conta com a mágica revolucionária do autosave. Mesmo que fosse incapaz de pensar num título de imediato, poderia adicioná-lo mais tarde.


Ainda assim, parece que você vai fugir do assunto se não escolher algum.


Pensou em colocar "O Primeiro Relato", e assim as entradas seguintes fariam sentido. Segundo, Terceiro, Quarto, Quinto Relato, até onde sua dor se estendesse. Nada muito elaborado, nada feito com a cautela amorosa que costuma ter com outros tipos de texto; assim como a escrita, que sai direto do seu coração e não passa por nenhum mínimo filtro.


O que afasta essa ideia quase de imediato é a noção de que não, não é O Primeiro Relato. Deve ser o centésimo. Não é a primeira vez que utiliza de palavras e sites de fanfiction para expôr sua angústia ao mundo, então seria sem nexo de sua parte tratar esse capítulo como O Primogênito.


Talvez, o Centésimo Relato? lhe soa bom. Parece exibir com perfeição sua incerteza quanto a isso (e a todos os outros fatores de sua vida). 


A imagem de capa não é tão trabalhosa. Aqueles que compartilham do mesmo sentimento que você parecem ter definições parecidas, porém simplificadas, do que sente. Uma única palavra, e consegue encontrar ao menos três imagens adequadas para algo assim. Escolhe a que mais combina com o título, joga no PhotoScape, coloca qualquer filtro de moldura, junto a seu nome e o nome de sua história — é claro, utilizando suas cores e fontes favoritas, na esperança de ao menos fazer uma criação que una o agradável ao simplista. 


Fez upload. E deu, tá pronto o sorvetinho.


Agora, chegou a hora de fazer o primeiro capítulo. 


Você respira fundo. Bem fundo. Finalmente chegou a parte que você mais queria fazer.


O fato de ter que passar por todo o processo anterior é o principal motivo por ter começado a escrever esse tipo de coisa no Archive of Our Own. Quando se gasta tempo procurando uma imagem de capa, pesquisando a respeito do tamanho padrão do site e a editando, parece que há uma conexão maior do que o que você queria entre si mesma e a história. 


No outro site, entretanto, o visual simples, sem imagens em geral, dava o tom de impessoalidade que sites coloridos como Inkspired e Nyah! Fanfiction não possuíam. Em ambos, criam-se capas e ícones para seus contos e perfis, enquanto no AO3, uma única imagem de perfil era suficiente. Pouco podia se deduzir a respeito do autor dessa maneira, e você gostava disso. 


Àqueles que conhecem a personagem de seu ícone, essa história fará bastante sentido, talvez. Quem não conhece, deve imaginar outro tipo de ficção habitando seu perfil. 


Enfim, foco. 


A ideia da vez é fugir das descrições de sempre, mas torna-se inevitável não querer impôr alguma explicação. Fazem quase dois anos que você está escorrendo para fora de qualquer coisa, se tornando um líquido cada vez mais espesso e difícil de filtrar. Por mais que seus motivos estejam em constante transição, a sensação sempre foi muito semelhante à essa; fluindo, vertendo pelas paredes, queimando em contato com a luz. Cada vez mais, a sensação toma controle de seu corpo, corroendo e transformando todo e qualquer pedaço visível numa gosma escura e inofensiva, que se espalha pelo chão sem ser notada e acaba pisoteada por seres inteiros.


A razão da vez é que muitas coisas não fazem sentido


Não que você sempre tenha feito sentido, é claro. Suas ideias atuais não condizem com as ações passadas, que agora parecem asquerosas e incrivelmente humanas. Fugindo da hipocrisia que tanto a agonia, ajustou seus meios de desabafo e deixou que uma aura de cansaço a circulasse o tempo inteiro, mostrando o quanto conflitos a enjoam a quem vier buscar um. Algumas más-expressões acidentais ainda acontecem, e por alguma felicitação do destino, você as resolve — e o problema principal  disso é, ter alguma energia para agir. 


Demorou-lhe dois anos para perceber que esse tipo de coisa a incomodava num nível tão profundo e enraizado. Tenta resumir o que sente a "pessoas são estranhas", só que não é bem essa a ideia...


Pessoas não fazem sentido lhe parece mais adequado.


Dizer que essa ideia parte do princípio de que há uma hipocrisia internalizada em quase todo mundo soa arrogante até dentro de sua cabeça. Porém, você falha em encontrar uma definição melhor que essa, então a mantém assim.


A construção do ser humano sempre lhe interessou bastante. Talvez por ter crescido se enturmando com personagens e ter uma facilidade imensa para criar qualquer universo. Não é nem um pouco difícil olhar para alguém de quem se sabe pouco e conectar os pontos do que trouxe aquela pessoa a agir de tal forma. 


O que é difícil de verdade, é chegar à conclusão de que bem, esse indivíduo é [característica negativa aqui] e se recusa a tentar evoluir como pessoa. Você sempre foi incapaz de cortar vínculos com quem lhe faz mal de imediato; por um tempo, cada palavra ainda dói. E a culpa é sempre sua, mas esse sentimento fica para o capítulo seguinte.


O que é mais difícil ainda é assistir enquanto ninguém liga para esse conceito. Essa maneira de pensar a faz imaginar mil motivos e situações, sendo que a maior parte delas também não faz sentido. A que repercute como mais realista é a ligada ao egoísmo ou autopreservação — se fulano não me machuca, não preciso interferir em suas ações, por mais que machuquem outros com quem me importo menos ou igualmente.  


Você tem dois exemplos vivos disso. Dois exemplos opostos, cuja gravidade das ações foi semelhante e com resultados completamente diferentes. Isso parece suficiente para sustentar uma tese a respeito.


E além deles, muitos outros dos quais não é necessariamente próxima. Muito no automático, muito acostumados a pensarem rápido e deixar tudo passar como se não fosse nada, os indivíduos vão deixando a empatia de lado a ponto de ou mantê-la reservada a poucas pessoas, ou não ter por ninguém além de si mesmo. Então, pouco os importa as ações de qualquer um; os outros que lidem com os resultados delas, não é sua obrigação mostrar apoio ou se intrometer. 


Saber que existem pessoas assim em massa e você vai ser obrigada a conviver com elas por tanto tempo, tira toda e qualquer força para lutar que ainda existe aí. Ninguém vai mudar por nada, e continuar tentando abrir mentes e achar soluções pacíficas é inútil. Ninguém vai ouvir além do que é conveniente. Ninguém vai deixar de tratar pessoas não tão importantes assim da forma que lhes convém, por mais que esteja ciente de seus problemas.


Você podia fazer um estudo a fundo, se quisesse, tivesse alguma vontade de qualquer coisa dentro de seu ser ou encaixasse na temática do que escreve. Entretanto, essa história se baseia em reflexões, em sentimentos seus, sendo assim extremamente particular, o que tornaria a utilização de fontes e citações de frases afim de reforçar seu ponto desnecessária. A ideia aqui não é criar uma discussão, porque você nunca vai ser algo pelo qual há a necessidade de debater, então decide manter a explicação longa e pessoal.


Não sabendo mais o que escrever sem iniciar uma nova reflexão, você decide que as 1245 palavras que digitou até aqui são suficientes. Estrala os dedos, passando os olhos por cima de todo o texto, sem o mínimo desejo para revisar em busca de erros ou redundâncias.


E aperta o botão de salvar. 

Feb. 27, 2018, 12:47 p.m. 0 Report Embed 1
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