kztironi Karina Zulauf Tironi

"Porém, por mais que eu odiasse aceitar isso, o câncer havia, sim, mudado minha vida; ele havia sido uma divisória de águas, virando meu mundo inteiro de cabeça para baixo. Eu era a mesmíssima pessoa, mas ao mesmo tempo não era. Por isso, era compreensível que Júlia tivesse soltado uma exclamação ao me ver ali, uma versão diferente da Maria Eugênia que ela costumava conhecer. Tipo aquelas Barbies versão veterinária, jardineira, dona de casa... Eu era a Maria Eugênia versão câncer."


Romantik Nicht für Kinder unter 13 Jahren.
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Mais Um?

Eu estou cansada dos livros e filmes sobre pessoas com câncer.

São bonitos e inspiradores, mas nunca é assim. Eles fazem parecer que se você tiver leucemia um Augustus Waters perneta vai aparecer na sua vida e viajar com você para Amsterdam, que vocês vão tomar estrelas engarrafadas e dar seu primeiro beijo na casa da Anne Frank. Os livros querem que você acredite que quem contrai uma doença recebe um presentinho de desculpas do universo, como, sei lá, um namorado bonitão ou ganhar na loteria.

Até parece né.

Sem contar que eu já tenho câncer e sou obrigada a conviver com ele todos os dias. O que eu menos preciso é ler um livro – que supostamente deveria me entreter – sobre outra pessoa na miséria como eu.

Meu nome é Maria Eugênia e eu tenho LNH. Linfoma não-Hodgkin.

Legal, né? Ah, é ótimo quando as pessoas perguntam e eu preciso explicar, porque não é tão conhecido como um câncer de mama, por exemplo.

Linfoma não-Hodgkin é um tipo de câncer que se desenvolve nos linfonodos ou gânglios – os nomes ficam cada vez melhores – e acontece quando uma célula aparentemente normal do sistema imune que é encarregado de defender o organismo de infecções fica maluca e cresce desordenadamente, ininterrupta, e espalha-se pelos linfonodos.

Existem mais de 20(!) tipos diferentes de Linfoma não-Hodgkin e alguns são indolentes, com evolução lenta, e uns são agressivos, de crescimento rápido e mais invasivos.

E o pior são as causas ridículas. Quero dizer, qual é, eu não posso ter contraído um câncer desses por causa de uma estúpida exposição a um inseticida!

Eu não aceito isso.

Descobri o câncer faz quase quatro meses agora. No dia em questão, eu estava em uma festa da faculdade, pra lá de Bagdá, e muito suada. No começo, seria de se pensar que eu estava pingando porque dançava muito, mas depois veio uma dor de cabeça seguida por um desmaio. E eu fui levada ao hospital às pressas, mesmo que eu estivesse tão bêbada quando acordei na maca da ambulância que comecei a chavecar o socorrista.

Não lembro nem se era bonitinho, mas lembro claramente de passar minha mão fria e trêmula por seu braço e dizer algo do tipo:

“Gato, você é sempre gostoso assim ou está fantasiado de lasanha? ”

E voltei a apagar.

Então, naquele mesmo dia, jogaram a bomba em meus pais que eu poderia ter câncer. Até hoje me pergunto quem foi o retardado que deu um diploma para um médico que não aplicava anestesia antes de enfiar o bisturi; ele nem preparou meus pais para a notícia. Muito menos a mim, que percebi a seriedade da situação ao vê-los voltar para o lado da cama do hospital que eu estava deitada, recebendo soro.

Seus olhos estavam vermelhos e inchados. Minha mãe mal conseguia controlar os soluços.

– Bom – lembro de ter dito, entrelaçando as mãos sobre o ventre – Faço meu testamento agora ou depois?

Eu sempre tive um senso de humor negro para a maioria das coisas. Meus pais odiavam, mas era o meu modo de lidar com a vida e foi assim que consegui aceitar e conviver com o câncer – mais ou menos, porque ainda o detesto.

Após alguns dias, recebemos o resultado da biópsia do tecido de um linfonodo e as suspeitas foram confirmadas.

Eu tinha câncer. Em estágio II.

O que não era tão ruim quanto um estágio III, mas certamente não tão bom quanto um estágio I ou mesmo estágio 0.

Eu ainda corria risco de vida.

Estou voltando da quimio de Uber e paro no supermercado antes de ir para casa. Encho o carrinho com frutas, verduras e coisas saudáveis e furo a fila na frente de algumas pessoas que esperavam pacientemente sua vez. Não olho em seus rostos enquanto passo por elas e escuto muitas começarem a se alvoroçar e a me xingar.

Viro minimamente o tronco, com ar de impaciência.

– Eu tenho câncer – digo e aponto para meu abdômen – No baço.

Elas se calam imediatamente.

Viu só?

Por que ficar em casa lamentando minha existência e a doença quando posso usufruir dela furando filas?

Gostaria de saber como me divertiria na Disney, tendo passe livre para os brinquedos por ter uma doença que pode me matar.

Seria divertido.

– Como foi lá? – Minha mãe surge assim que abro a porta da frente, carregando as três sacolas de compras.

Eu juro, às vezes parece que ela fica só espiando na janela quando eu saio de casa, esperando que eu volte a qualquer segundo. Eu sei que ela não ficaria tão preocupada se eu não insistisse tanto em ir para as sessões de quimioterapia sozinha. Mas já era bem ruim eu ter que perder uma hora da minha vida lá, meus pais também não precisariam perder.

– Tedioso. Erraram minha veia duas vezes – murmuro e aceito a ajuda quando ela se voluntaria a pegar as sacolas – O Bruno te mandou um abraço.

Observo, com divertimento, o rosto da minha mãe ir do seu usual pálido morto-vivo para um vermelho quase fluorescente.

– Eu sou casada, Maria Eugênia! – Exclama, como se fosse minha culpa que o médico que manda as enfermeiras enfiarem agulhas em meus braços e me faz perder os cabelos aos tufos fosse apaixonadinho pela minha mãe.

Me dirijo à cozinha.

– Diga isso para ele, então.

Bruno já sabia. Não que isso o impedisse de cutucar a minha mãe no Facebook.

Afinal, quem ainda usa essa rede-social, pelo amor de Deus?

Eu tinha parado de usar elas quando percebi que estava literalmente morrendo gastando meus dias contados vendo vídeos de gatinhos no Youtube e pessoas fazendo desafios ridículos, tipo o de enfiar uma camisinha com água na cabeça e ficar parecendo o Lula Molusco.

As pessoas são capazes de coisas realmente incríveis.

Já conquistamos a lua? Ótimo! Mas olha isso aqui, vamos passar cem camadas de cola na cara.

Bom, quase todas as redes sociais. Eu ainda usava o Tumblr por motivos óbvios. Todas as pessoas depressivas e rabugentas estão lá, e as com senso de humor sádico também. Totalmente o lugar para mim.

Pego uma maçã da fruteira, lavo-a na pia, e apoio meu quadril na mesa, dando uma farta mordida. O sulco da fruta escorre pelo meu queixo e o limpo com o pulso.

– Convidei a Nina para vir dormir aqui em casa – informo minha mãe, que me seguiu até a cozinha com as sacolas de compras – Vamos fazer uma noite das meninas, assistir alguns filmes de terror, dar uns berros.

Minha mãe sorri, deixando as sacolas na mesma mesa.

Eu sei quanto ela aprova minha amizade com a Carolina – uma das únicas pessoas que fui capaz de conservar a amizade, depois de toda a notícia do câncer e blá blá blá. Nina era a ponte que conectava os desejos da minha mãe e os meus. Minha mãe se sentia tranquila por ela ser uma menina ajuizada e não ter fixa policial e eu por ela encobrir nossas saídas, quando eu mentia para minha mãe que ficaríamos só de bobeira na casa dela.

Ambos os lados ficavam satisfeitos.

– Querem sair para alugar um filme, como nos velhos tempos?

Controlo o impulso de revirar os olhos.

– Mãe, a era das locadoras de filme já acabou faz tempo. A Netlfix tá aí pra isso. Além disso – dou mais uma mordida na maçã e me afasto da mesa – a Nina já deve estar chegando.

A minha amizade com Carolina não era a mais forte na época antes de todo o rolo com o câncer – na verdade, nós nem nos falávamos muito no Ensino Médio. Eu não costumava estar cercada de pessoas, por mais que quisesse ter mais amigos, não tinha paciência para manter as amizades. Bastava algum desconhecido vir falar comigo que eu ficava estressada e começava a planejar simular minha própria morte e fugir para outro país.

Basicamente eu tenho as habilidades sociais de um pedaço de pão.

Mas Nina era tão teimosa quanto eu. No dia que eu a desafiara a se afastar, como haviam feito todos os outros ao saberem da minha doença, ela simplesmente cruzou os braços sobre o peito e fechou a cara. “Me obrigue” disse.

E eu descobri que ela tinha um humor igual ao meu.

Ontem mesmo eu tinha mandado uma mensagem para ela de um post que havia visto no Tumblr.

Você atiraria na perna do seu melhor amigo por dez mil reais?

“Você atira na minha e quando eu melhorar nós compraremos uma casa fodástica e um camaro vermelho”, escrevi.

Sua mensagem veio logo em seguida.

“Ótimo! E você pode atirar na minha também, daí teremos vinte mil. ”

Nós ficamos até as duas da manhã discutindo sobre a possibilidade de atirar nas duas pernas e lucrar quarenta mil reais e, quando o sono bateu, enviei uma última mensagem para ela.

“Prepare suas pernas, Carolina Costa, pois nós seremos milionárias”.

Abro a porta para minha amiga e aviso minha mãe que vamos ficar no quarto assistindo filme. Ela se oferece para fazer pipoca caramelizada e desaparece de volta para a cozinha. Jogo o restante da maçã no lixo do banheiro a caminho do quarto.

– Eu estava pensando – sento na minha cama com as mãos entre os joelhos e Nina vai até a janela para afastar as cortinas e deixar o quarto ventilar – Se eu for morrer antes que você, apreciaria muito se fosse ao meu funeral vestida como a Morte e ficasse parada na frente do meu caixão em completo silêncio, sem falar com ninguém.

Ela se vira, levantando uma sobrancelha bem delineada.

– Espera, o que aconteceu com o plano de misturar suas cinzas com gliter dourado e espalha-las no Monte Titles na Suiça?

– É, bem... Acontece que seria um processo caro demais. Estou de acordo em ser enterrada a seis palmos da terra como os outros relés mortais. Se você for de Morte no meu funeral.

Nina vem se sentar ao meu lado e algo cintila em seus olhos. Ela pega minhas mãos e as aperta.

– Ah, Gêgê! Seria uma honra realizar seu último desejo.

Abro um sorrisão.

– Ótimo! Será o melhor funeral de todos.

– Mas você não vai morrer antes que eu – Nina parece se dar conta do que eu estava falando e balança a cabeça – Você só tem câncer, mas vai vencer ele como vence os argumentos com seus tios preconceituosos na ceia do natal.

– Isso seria um ponto legal em morrer cedo – pondero – Não ter que escutá-los com suas piadinhas homofóbicas. Mas, Nina, eu duvido muito que você vá morrer antes. Você tem cara daquelas mulheres que vivem até os noventa e seis e batem as botas dormindo numa cama quentinha e confortável, cercada de gatos.

Minha amiga solta uma gargalhada.

– Ah, por favor. Eu tenho cara de quem vai morrer engasgada com uma colher de sorvete.

Sorrio.

– É. Acho que tenho que concordar.

Ela gostava mesmo de sorvete.

– Mas, ei – ela puxa uma perna e se senta em cima dela, ainda segurando minhas mãos – você pensou sobre a minha formatura? Eu sei que estou sendo uma chata, mas gostaria realmente se você fosse. Vai ser daqui a dois meses, você sabe.

Encrespo o cenho e deito um pouco a cabeça.

– Você não vai querer uma menina de lenço estragando sua festa, Nina. Eu sei como você é – digo rapidamente quando ela abre a boca para retrucar – Você vai se sentir mega culpada em me deixar sentada na mesa com seus pais e os arranjos de flores falsas e se duvidar vai passar o resto da noite ao meu lado e não vai aproveitar sua própria formatura. Eu não quero fazer o papel da vilã, não num dia tão especial para você.

Carolina balança a cabeça.

– Isso não vai acontecer, Gegê, e sabe porquê? Porque você vai estar dançando comigo.

Sorrio tristemente.

– Você sabe que eu não consigo dançar por muito tempo.

Graças ao câncer, ao tratamento, ou ao seja lá o que fosse, meu corpo não reagia bem a muitas movimentações. Eu ficava tonta e às vezes vomitava. E eu, definitivamente, não achava atraente a possibilidade de vomitar em uma formatura de Ensino Médio sem que fosse por culpa do álcool.

Caramba, eu tinha 17 anos. Eu deveria estar passando mal e dando PT em banheiros públicos por causa de cerveja, não por um maldito tumor.

– Nem mesmo uma dança? – Nina me olha, esperançosa – Eu ainda preciso de um par para a valsa. Vou dançar a primeira com meu pai, mas preciso de mais um acompanhante, para a segunda dança.

– Como assim? Você não ia dançar com o seu primo?

– Ele quebrou a perna jogando basquete e só vai tirar em janeiro. – Ela faz um beicinho que não era típico da minha amiga – Vai, faz isso por mim. Seria só uma dança, então você poderia voltar a se sentar e admirar o arranjo ordenado de flores nas mesas e os balões neons.

Rio, sem humor.

– Eu aposto que nem deixariam uma formanda dançar valsa com uma menina. Ainda mais uma escola de freiras.

Eu conhecia bem aquela escola; tinha estudado minha vida inteira nela e só havia saído por causa do câncer. E sinceramente? Eu preferia a quimio a ter que lidar com aquelas freiras.

Nina faz uma careta.

– Pois eu estou nem aí. A formatura é minha e eles não podem me impedir. Você é a única opção que me agrada, eu não estava querendo valsar com meu primo de dois metros mesmo. Ainda bem que ele quebrou a perna.

Fico horrorizada.

– Nina!

– Estou só brincando! Claro que estou com pena dele, mas ao mesmo tempo estou feliz, porque assim tenho a chance de dançar com a minha melhor amiga. O que me diz? Vai pensar nisso, ao menos?

Suspiro, sem acreditar naquilo.

Carolina era impossível. Nunca que permitiriam uma valsa entre duas garotas. Não era assim que uma valsa supostamente funcionava.

Porém, se era o que minha amiga queria e se era tão importante para ela, eu lutaria contra todas as freiras e meu próprio câncer para dançar uma valsa com ela.

Nina percebe a mudança em minhas feições e abre um sorrisão.

– Isso é um sim?

– Somente porque você concordou em se vestir de Morte no meu funeral e eu não quero morrer em dívida com ninguém.

Lhe mostro a língua e num impulso de alegria Nina se joga em cima de mim e ambas caímos na cama, rindo com todas as forças da nossa juventude arrebatadora e insaciável.

2. Februar 2020 22:35:21 2 Bericht Einbetten 3
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Nina Virella Nina Virella
É ridículo ter apenas 1000 caracteres para fazer um comentário descente, visto que esta história merece todo o amor do mundo (pelo menos, de minha parte) e vários comentários lindinhos. Amei cada pedacinho do capítulo até agora e mal vejo a hora de continuar. Sua escrita me cativou desde o início! É leve, contínua e nem percebemos que o capítulo está chegando ao fim. Quando chega, deixa aquele gostinho de "quero mais" tão gostoso. Parabéns! ♡ ;-;
February 16, 2020, 18:41

  • Karina Zulauf Tironi Karina Zulauf Tironi
    Ahhhhh, Nina! Muito obrigada pelo seu comentário mega fofo. São comentários assim que continuam a me incentivando a escrever e publicar em plataformas gratuitas. Muito obrigada mesmo, fico feliz demais que tenha gostado e espero continuar te cativando nos próximos capítulos também! Um beijoo February 17, 2020, 00:05
~

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