Campos de Eucalipto Follow einer Story

papironauta Rodrigo Borges

O corpo de Dimas de Abreu some do cemitério de São Lopo, e tanto a polícia quanto o coveiro municipais têm opiniões divergentes sobre o ocorrido. Dona Martha revê conhecidos e se é revelado o porquê de desgostar tanto da cidadezinha. Enquanto isso, os caseiros da fazenda Campos de Eucalipto tentam descobrir o paradeiro de um caçador sumido, mas tudo que encontram são estranhos vestígios deixados, a priori, por um animal inidentificável. História disponível em outras plataformas: # Spirit # Watt Pad Atribuição à ilustração do eucalipto: https://pt.vecteezy.com/vetor-gratis/ex%C3%A9rcito">Exército Vetores por Vecteezy



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Entre chá e estatuetas.




"Torna-te besta, já que besta és em destruir e matar tua própria casa".

- Trecho de A Besta dum Homem,

Diário duma Maldição.





Há uma plantação que separa o município São Lopo do condomínio Residencial Buritis. São eucaliptos erguidos até lá em cima, tão grandes que se é preciso olhar duas vezes para captar toda sua extensão; uma vez para os troncos, outra para as copas que seguem o ritmo do vento.


Ela é velha e já teve três donos antes de chegar nas mãos de Dona Martha Campos. O primeiro deles foi um velho lascivo chamado Humberto Soares, um antigo e grande detentor de terras da região, mas que, em 1998, decidiu vender seus terrenos e se mudar para a cidade. Dimas de Abreu Campos e Dona Gertrudes Campos ouviram de primeira mão que a fazenda de Humberto seria loteada; portanto casas deveriam ser construídas e madeiras seriam necessárias. Tão logo o casal adquiriu os terrenos com a plantação de eucalipto de Humberto Soares, passando a ser o segundo e terceiro donos.


Antes, a plantação era pequena, e, à época, Humberto Soares destinava o eucalipto apenas para pequenos atos comerciais dentro do município, como para a venda de lenha, para reformas da prefeitura e cercas para os produtores rurais. O resto inútil da madeira era comercializado com os artesãos da pequena feira de São Lopo, que produziam estatuetas talhadas em imagens de animais, alguns brinquedos indígenas e utensílios para prática ou decoração, também indígenas. Humberto Soares também processava as folhas das esbeltas árvores, as compactava em sachês de chá e fornecia aos mercados locais.


Nessa época, a família Campos, que veio do interior de Pernambuco para São Lopo, em 1988, não por predileção, mas por necessidade, detinha propriedade de uma considerável extensão de terra, composta apenas por algumas cabeças de gado leiteiro, galinhas caipiras e extensas plantações de soja e milho.


Dimas de Abreu Campos, que logo passou a ser chamado de Seu Didi, não gostava do lugar e vivia reclamando; reclamava do clima e das pessoas, reclamava até mesmo dos eucaliptos de Seu Humberto que faziam sombra em boa parte do seu solo para plantio; e se ainda percebesse que não afungentara sua companhia corajosa, a convidava com imposição distraída para sentar-se ao seu lado à varanda da casa, fumar um cigarro de palha, beber um café e falar mais ainda sobre o quanto os moradores de São Lopo podiam ser tolos com sua tamanha superstição e fracos com seus resfriados frequentes, “porque, ô povinho abiscoitado, é um balaio cheio de estatuetas numa mão e noutra, o chá desse pé” e apontava para os eucaliptos com indiferença. “Caba macho de verdade toma é café puro, ôxi”.


Na verdade, não precisava aceitar escutá-lo falar de cima de sua varanda, ele dizia as mesmas palavras em decoro para qualquer um que ousasse conhecê-lo. Dizia para as pessoas da feira de domingo, para os bêbados dos botecos e sinucas, para as mães distraídas com seus filhos no parque, e, se a criançada desse muita bola para suas histórias, até para elas ele reclamaria. Dimas poderia dizer até para um poste, ele não se importava muito com quem estava escutando - nem mesmo se era um típico morador de São Lopo, ele apenas gostava de dizer; e talvez pensasse que tal atitude poderia sustentar a imagem do velho rabugento mas realizado que era, um velho que viveu quase tudo nessa vida e sobreviveu; assim sendo, tinha pleno direito de reclamar, achava.


Mas por trás dos infortúnios de suas reclamações, suas observações estavam certas. Nas praças e feiras, não se era preciso se aventurar na produção dos artesãos para notar que a cidade inteira tinha certo fascínio com suas estatuetas. Elas podiam ser vistas em balcões de estabelecimentos, nas prateleiras das casas de anfitriões, em festas culturais da região e até mesmo nos enterros - ao redor do túmulo ou nas mãos de quem chorava ao redor dele. Quanto ao chá, prescindível era conversar com Humberto Soares sobre o quanto ganhava, ou com os anciãos sobre o porquê da compulsão da cidade em bebê-lo, bastava mesmo olhar para as prateleiras dos mercados e concluir que; um, Seu Humberto ganhava um bom trocado, dois, a cidade tinha um caso sério com gripes e resfriados.


Se o contrário fizesse, primeiro Humberto Soares convidaria o curioso para seus terrenos, e. caso gostasse do estranho, lhe ofereceria bebidas caras e não só um passeio pelos seus luxuosos jardins. Ele não seria um amigo, mas um exibicionista com o papo mais cheio de ego do que as galinhas de Seu Didi tinha de cisco. Talvez você ficaria deslumbrado com a fazenda do homem ou pegaria ranço do sujeito, mas de um jeito ou de outro concluiria que eucalipto voltava um bom trocado ali em São Lopo.


Agora, caso a curiosidade fosse destinada aos anciãos, estes explicariam que, bem antes, quando São Lopo era apenas uma vila de madeireiros e caçadores, os índios, aborrecidos por terem suas árvores derrubadas e seus animais caçados, lançaram uma mandraquice ao nome de Anhangá, professando que a esses homens, por mais que musculosos, faltariam forças para completar seus trabalhos e, se insistissem, ficariam tão exaustos que transformariam-se em bestas virulentas, para descender o castigo aos seus próximos.


Seu Didi ria toda vez que escutava os velhos da cidade falar. Ele também era um velho rabugento, sabia e se orgulhava disso, mais ainda quando não era um velho rabugento de São Lopo ou um que acreditava nessas bizarrices. “Eu acredito no que vejo”, dizia, e logo levantava o copo cheio de café à boca, ou o cigarro, dependendo de qual estivesse na sua mão direita, e soltava um último sorriso, talvez o mesmo sorriso seguro de que Dona Gertrudes tinha se apaixonado. O sorriso e o jeito. Seu Didi era um homem duro com os outros e moderado com a família; às vezes inflexível, mas, diferente do restante, Dona Gertrudes enxergava coerência na ausência de envergadura. Ele dizia falar que acreditava apenas naquilo que via, e não se tratava de uma frase conveniente ao momento ou ao estado de ânimo de Seu Didi, se tratava de uma verdade servida em qualquer prato.


Foi no começo de 1997 que a família Campos e várias outras da região tiveram partes de suas plantações de milho destruídas. Muitos fazendeiros levantaram os dedos e especularam sobre o que devia ser: alguém com um trator rápido que estivesse roubando milho? animais? alienígenas? Animais; essa foi a alternativa mais votada, mas quais? Nunca nenhum dos animais da região tinham estragado plantações em tamanhas proporções como os prováveis que estavam fazendo aquilo. Apesar das perguntas, todos deram seus palpites, com exceção de Seu Didi, que apenas saiu de fininho da reunião iniciada no boteco e começou os preparativos para passar a noite vigiando o restante da sua plantação.


Javalis, esse era o problema. Era madrugada, Seu Didi tinha sua garrafa térmica cheia de café ao lado - agora pela metade - e um maço de cigarro no bolso da frente de sua camisa branca. Nas mãos, o velho rifle de guerra do papai. O tiro se foi escutado em ecos, depois explicado quando Seu Didi chamou todos os interessados para comer da carne do bicho. Ele apenas apontou para o corpo morto sobre a fogueira e disse se tratar de uma infestação de javalis, sendo a primeira vez que abria a boca sobre o assunto, mas não a última.


Dona Gertrudes dos Campos amava o seu jeito controlado e cheio de sabedoria de saber quando abrir a boca, e se divertia - às vezes se irritava - pelo seu jeito insensível e cabrunco em não saber quando fechá-la.


Também foi à partir de 1997 que Seu Didi começou a adquirir resfriados e gripes. Em 2000, a sua saúde declinou para um estado alarmante; sua tosse era afogada em catarro, as dores em seu peito eram longas e agudas, a fadiga não o permitia cuidar da fazenda, nem proteger suas plantações dos javalis. Após muita discussão, Seu Didi foi levado à força ao posto de saúde de São Lopo, onde foi diagnosticado com pneumonia, e logo internado no hospital da cidade grande, sob os cuidados do Dr. Milton, quem disse à Dona Gertrudes que tudo ficaria bem, mas que, caso tivessem demorado mais um pouco... Dona Gertrudes, claro, não deixou o médico terminar o óbvio, e interrompeu com um “ele é muito teimoso, Doutor”.


Os resfriados ou gripes não pararam, mas Seu Didi concordou tacitamente em engolir seu orgulho e começar a tomar chá de eucalipto. A filha do casal, Martha Campos, estava começando a adquirir certo gosto pelas estatuetas, não talvez por ela acreditar na superstição, mas por achar belos artefatos de decoração; motivo que a casa da família Campos agora atendia a todo o estereótipo de São Lopo: armários munidos com sachês de chá de eucalipto e prateleiras com uma ou outra estatueta.


A história sobre a cidade ter sido amaldiçoada não fazia tanta graça para Seu Didi desde que ficou acamado, em 2000, que agora a deglutia em silêncio contido. Ele não acreditava totalmente na lenda, ainda não tinha visto nada, mas tinha sentido o suficiente para não brincar abertamente sobre o assunto. Dona Gertrudes sussurrava pelos cantos e para as pessoas certas que nunca tinha visto o seu marido aprender tão rápido uma lição dada pelos outros que não sua própria experiência.


Entretanto, apesar da lição aprendida, os anos de 2007 e 2008 foram ondas de crises virais as quais Seu Didi não conseguiu suportar, tempos em que se afogou em catarros esverdeados e em dores agudas torácicas até a morte; uma morte fóbica, na cama de uma casa em um lugar que nunca quis morar. Dona Gertrudes foi-se logo em seguida, mas não por doença, e sim por amargura de um extenso estado de luto.


Martha Campos, criada com rigor pelos falecidos pais e pelo duro sertão do interior de Pernambuco, nunca tivera tempo para dar atenção aos seus sentimentos; até o dia que foi obrigada a se ver sozinha dentro daqueles muitos hectares que eram seus, só seus.


Por mais que houvesse esse vazio no peito, Martha não enxergava como alternativa o amor. Apesar da exorbitante quantidade de terras herdadas, ela havia herdado coisas muito mais fortes que o dinheiro ou a necessidade de companhia enquanto sozinha; a teimosia do seu pai ao ignorar seus sentimentos e a estranheza por São Lopo e seu povoado, por exemplo. Da sua mãe ela tinha herdado forças e cabeça para administrar toda aquela fazenda. Vez ou outra pensava em vender todos os terrenos, lotear e ir de uma vez por todas para a cidade, assim como fizera o velho Humberto Soares no passado, mas não conseguia se levar a sério; talvez também tivera herdado dos dois a paixão pelo trabalho e pelo mato.


Então ela oficializou a linha de chá de eucalipto sob o nome de Campos de Eucalipto, distribuindo a mercadoria não só para as prateleiras dos mercados de São Lopo, mas também para as dos Estados vizinhos. Nessa mesma linha, ela acrescentou os pacotes de lenha, que eram mais transportados para o sul do Brasil, Uruguai, e extremo sul da Argentina e Chile; e os pacotes de carvão vegetal, amplamente distribuídos por todo o Brasil. Os artesãos ainda conseguiam suas sobras mais que suficientes, agora de forma gratuita; é desde o tempo em que os pais de Martha estavam vivos que ela vê beleza naquelas estatuetas animalescas e brinquedos ou utensílios indígenas.


No final, Dona Martha se tornou uma solteirona agradável aos olhos, com mãos calejadas, olhar duro e bolsos expulsando rios de dinheiro; uma mulher que desgostava, assim como seu pai, de São Lopo, tanto do clima quanto das pessoas, mas esperta o suficiente, assim como sua mãe, para jogar com sua cintura e administrar todo o negócio de fora; com esporádicas visitas à fazenda.

26. Januar 2020 18:12:52 8 Bericht Einbetten 6
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B. H. Poiano B. H. Poiano
Curti bastante o capitulo! Não é muito chamativa uma historia sobre um velho e eucaliptos, mas ficou bem interessante. Gostei da maneira como você escreve, a leitura flui muito bem
February 27, 2020, 01:07

  • Rodrigo Borges Rodrigo Borges
    Poiano! Fico feliz por ter você aqui, mais ainda por ter gostado. Campos de Eucalipto faz parte do mundo de Residencial Buritis, um condomínio de lotes irregulares e dentro dos limites do município São Lopo. São contos fragmentados de terror. O velho e os eucaliptos não são o foco, mas apenas linhas que vão costurar o futuro que reservo para esse mundo. Caso tenha interesse, confira o capítulo "O familiar calango" de Residencial Buritis, lá fica um tanto explicado o caminho que quero seguir. February 27, 2020, 02:54
Jessica Siqueira Jessica Siqueira
Adorei, me senti um personagem da história, sinceramente vou praticamente devorar cada capítulo. Muito bom! :3
February 09, 2020, 13:56

  • Rodrigo Borges Rodrigo Borges
    Nooossa Jéssica, muito obrigado. É igualmente bom saber que você gostou. Os capítulos podem demorar um tanto, porque eu quero deixá-los na ordem certa e com o mínimo de erros que eu perceber, mas é certo que terá mais; seria muito bom recebê-la novamente!! February 09, 2020, 18:04
Patty Andrade Patty Andrade
Consegui ser transportada para o local da história e na minha cabeça podia ver as imagens e os personagens a interagir entre eles. Muito Obrigada por partilhar esta história ficarei à espera de mais :)
January 27, 2020, 22:07

  • Rodrigo Borges Rodrigo Borges
    Eu fico feliz por conseguir transmitir a sensação de São Lopo! Muito obrigado você pelo tempo da leitura, e logo logo terá uma continuação. January 28, 2020, 19:50
Delvan Sales Delvan Sales
Capítulo muito bom! Eu consegui sentir a energia do lugar e fiquei curioso pra saber mais sobre. Tbm, apesar do pouco escrito, me afeiçoei pelo seu Didi. Espero que haja mais sobre ele nos prox capítulos, enquanto vou descobrindo sobre essa cidade, esses eucaliptos, chás e estatuetas...
January 27, 2020, 02:35

  • Rodrigo Borges Rodrigo Borges
    Valeu pela leitura, geralmente 9 minutos de leitura espanta os leitores. Até foi intencional falar mais sobre Seu Didi; Dona Martha é quase um espelho da mãe, mas que carrega o mesmo sentimento que o pai pela cidade, e acredito que esse sentimento seja uma chave para desenvolver Dona Martha lá na frente. Explica-lo um pouco, mas não totalmente, na pessoa de Seu Didi foi bem agradável, fico feliz que tenha sido agradável também de se ler sobre ele! January 27, 2020, 12:57
~

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