simeon Henrique Simeon

O dia era para ser o melhor do ano para Thiago Campos de Vento, recheado das oportunidades de impressionar a pessoa que mais admirava no mundo — seu pai. Mas nada é tão fácil quanto se espera. Após várias tentativas de ter sua atenção e mostrando um lado sombrio de sua personalidade no processo, Thiago enfrenta um dilema que custará a integridade de duas crianças inocentes. Essa é uma história de fantasia mergulhada em drama familiar retratando a chance de um garoto egoísta de rever seu código moral. Seja para melhor ou para pior. Isso dependerá de qual dos seus valores ele deixará no interior da Floresta Silenciosa. • Série em Andamento •


Abenteuer Nicht für Kinder unter 13 Jahren.

#egoismo #moral #fraternidade #ciúmes #ação #família #fantasia
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O Primeiro Dia da Estação

Thiago Campos de Vento estava atado ao pescoço de seu pai como uma gravata.

O vento lhe escorria pelas laterais do corpo e assobiava melodiosamente aos ouvidos. Seu coração batia forte enquanto Estevão Campos de Vento conduzia o vôo, deslizando pelo ar como se tivesse asas.

O garoto não conseguia imaginar nenhuma outra pessoa que voasse tão bem quanto ele. Ninguém era tão preciso e, ao mesmo tempo, tão suave enquanto se movimentava no céu.

Estar às suas costas era de tirar o fôlego.

— Ah! O primeiro dia da estação — disse Estevão, sua voz foi levada pelo vento até os ouvidos de Thiago. — É como se a natureza estivesse nascendo de novo. Consegue sentir o perfume das flores no ar, Torthi?

Thiago deu algumas fungadas, mas o ar era como lâmina roçando as paredes dentro de seu nariz. Esfregou o rosto no cachecol de seu pai na tentativa de aliviar o ardor que sentia.

— Não tô sentindo cheiro de nada, papai.

Estevão deu uma risadinha.

— De vez em quando é bom exercitar o lado sensível. É bom que você saiba, filho, que quando se é um Levitador pequenas coisas podem sumir em segundo plano.

— Mas o senhor não gosta de ser um Levitador? — perguntou Thiago, curioso.

— Eu amo ser Levitador — disse o pai, convicto.— É uma das coisas que dá propósito a minha vida, apesar de exaustivo. O que quero dizer é que existe muitas responsabilidades sendo um. E é fácil ficar obstinado com certos assuntos. Nós podemos acabar nos esquecendo de todo o resto.

— Talvez o resto não seja tão importante.

Estevão inclinou o corpo para baixo.

Suavemente, iam perdendo altitude rumo a um amplo terreno montanhoso feito de algodão que se espichava conforme passavam. Seus cumes reluzentes e perolados iam até onde a vista podia alcançar. Um longo tapete para as grandes ilhas que flutuavam, discretamente, nas grandes altitudes. Vento Prateado de um lado, Ventevozes de outro e Proteção, a mais magistral, no ponto mais alto do céu sendo deixada para trás.

— Por que acha isso, filho? — perguntou Estevão, sua voz carregava um certo quê de interesse.

Thiago pensou por um instante.

— Hã… Por que se importar com esse tipo de coisa se tem outras mais importantes para dar atenção? Tipo, o jeito incrível como o senhor voa. Não é todo dia que se tem a chance de voar com o líder dos Levitadores. Nem se o ar estivesse cheirando a fossa eu ia perder a oportunidade de aproveitar o momento com o melhor. Não mesmo.

E era verdade.

Estevão estava sempre muito ocupado. Era difícil terem um tempo livre para fazer coisas de pai e filho. O resto do mundo não se comparava com um momento raro como aquele. Se não pudesse ser algo experienciado pelos dois, como uma coisa exclusiva de ambos, não tinha importância.

O que realmente importava era o que o pai e ele poderiam fazer juntos. E Thiago acreditava que poderiam fazer qualquer coisa se quisessem.

Abaixo deles as nuvens vinham se aproximando cada vez mais.

Thiago encarava por cima do ombro de Estevão, na espera do momento em que as atravessariam. Pois sim, iria acontecer a qualquer instante. E ele mal conseguia se aguentar.

Podia sentir uma excitação líquida aquecendo seu corpo a cada segundo que passava. Era como se o céu acima de sua cabeça — azul e imenso como era — estivesse sendo despejado em uma torrente dentro de seu peito.

— O Festival da Provisão desse ano vai ser o melhor de todos — ele sussurrou para si mesmo, como se seus lábios não pudessem conter as palavras de expectativa.

— Você está bem ansioso, não é, Thorti? Então é melhor se segurar firme. Vamos atravessar.

Estevão deu uma guinada para baixo.

Thiago sentiu a barriga ser empurrada para as costas. Apertou o abraço em torno do pescoço do pai e afundou o queixo em seu ombro, as pernas colaram nos lados do corpo do Levitador. Tentou se manter o mais próximo possível.

Então foram engolidos pelas nuvens.

O mundo foi mergulhado em uma espécie de lã cinzenta e intangível.

Thiago só conseguia enxergar os longos cabelos castanhos de seu pai chicoteando o ar ao seu redor. Inclinou um pouco a cabeça para ver seu rosto. O ângulo não era bom, mas ele podia ver claramente uma de suas faces. Via o perfil do nariz reto, pontudo, mas delicado, os olhos verdes incisivos como os de uma ave, a boca fina e arqueada que parecia sempre sorrir.

Para dizer a verdade, Thiago não ligava muito para o Festival da Provisão. A festa em si não tinha de muito atrativo para ele. O que realmente estava lhe deixando entusiasmado daquele jeito era a presença dele, do pai.

Aquela seria uma oportunidade para passarem um tempo juntos, pai e filho, livres de qualquer responsabilidade. Um dia inteiro sem que Estevão precisasse se preocupar com os assuntos de seu ofício. Naquele dia, ele seria apenas seu pai e não o líder dos Levitadores.

Eles alcançaram o outro lado das nuvens e a paisagem se descortinou.

— Aí está Silento — disse Estevão.

A ilha dominou a visão, achatada, cálida e erma como um simples pedaço de terra a deriva nas águas celestes. Suspensa sobre o pilar de vento que subia do solo, espiralando em correntes verde-azuladas até que se perdesse em sua base rochosa e anuviada.

Abaixo dela, lá no solo, como uma cicatriz na planície verdejante, estava Windoon. A cidade dos humanos.

Estevão voava rápido em direção a Silento, mas começou a desacelerar conforme se aproximavam. Manobrou no ar para que pudesse realizar uma curva ampla em torno da ilha.

Embora ainda estivessem distantes, agora Thiago podia vê-la nitidamente de cima. Seu pai emparelhou com a margem e desceu suavemente enquanto as campinas nuas corriam por baixo deles. O vento não passava de um sussurro na nova atmosfera.

O interior de Silento era dominado por uma floresta densa e alta.

Thiago sentia uma ansiedade latente ao encarar aquelas árvores gigantescas. Não era um tipo de sentimento que ele conseguia entender. Era apenas uma sensação esquisita, como se estivesse sendo observado.

— O senhor não acha essa floresta estranha? — comentou.

— A Floresta Silenciosa? É intrigante, não é? Lembro que ela me deixava bem nervoso quando era mais novo. As pessoas gostam de inventar histórias sobre ela — disse Estevão. Seus olhos não se desviaram por um segundo do trajeto.

— O senhor já entrou nela? Sabe o que tem lá dentro?

— Só até certo ponto — disse. — Sabe? Chega uma hora que as coisas ficam bem esquisitas quanto mais fundo você chega. Não conheço ninguém que tenha ido muito mais longe do que já fui. Ninguém gosta da floresta.

Thiago olhou mais uma vez para a floresta. Encarou-a como uma coisa vil. Aquela névoa que se formava dentre as árvores e se debruçava para fora, por cima das copas em forma de lança, como o hálito de alguma criatura letárgica de intenções secretas.

— Já me disseram que existem monstros lá dentro.

— Acho pouco provável, filho. Com certeza deve ter criaturas lá dentro para se ter cuidado, mas monstros... Não acredito que existam.

— Por que o senhor acha que não? — perguntou Thiago.

O garoto inclinou-se para frente como se tentasse ver o rosto inteiro de seu pai. Queria ver cada expressão que fizesse. Afinal, se tinha alguém que pudesse lhe dar a informação mais confiável desse ou de qualquer outro lugar, sem sombra de dúvidas, seria Estevão.

— Quando você pensa em algo como um monstro, você imagina uma criatura que atrai as pessoas para poder atacá-las em seu território, não acha? A Floresta Silenciosa parece ser um lugar que repele as pessoas. Pelo menos não conheço ninguém que tenha se sentido impelido a descobrir seus segredos. Se tem alguma coisa lá dentro, provavelmente não quer ser perturbada.

Era realmente intrigante, mas seu pai tinha razão.

A floresta sempre esteve ali, como um patrimônio de Silento, intocável e imperturbável. Thiago ouvia várias histórias quando falavam da ilha, a floresta sempre tinha algum papel a desempenhar nelas. Às vezes se ouvia falar dos tais monstros que habitavam-na, mas na maior parte do tempo as histórias eram somente sobre uma floresta que cresceu demais e dominou o território.

Mesmo assim ninguém falava do que havia em Silento antes da floresta tomar aquelas proporções. Era estranho a Thiago que uma ilha com tanto espaço para as pessoas viverem fosse habitada apenas por um pequeno vilarejo na margem, o qual, a propósito, eles estavam a caminho.

— Papai... — começou Thiago e hesitou.

Ele queria fazer mais uma pergunta, mas não sabia bem se deveria.

Pensava em Windoon. Pensava em sua família, os Campos de Vento. Pensava em Silento e em todo aquele espaço inexplorado.

Por um momento não achou que ficar insistindo naquele assunto fosse agradar seu pai. Por alguma razão estava sentindo uma certa tensão vinda dele. Um incômodo que começou junto com aquela conversa.

— Sim, Torthi? — disse Estevão, com uma voz estranhamente neutra.

Não. A pergunta que ele queria fazer não compensaria ameaçar toda a promessa que aquele dia havia feito para os dois. Era melhor guardá-la ou livrar-se dela. Nem era mesmo importante. Não passava de uma curiosidade boba.

— Nada não — disse, por fim.

Estevão se manteve em silêncio por um tempo.

Agora já estavam mais próximos do chão de Silento.

— Se prepare, Torthi. Já vamos pousar.

O patamar de pouso surgiu logo adiante cercado por um campo de flores azul-gelo.

Pétalas flutuavam no ar como uma chuva congelada.

As árvores da Floresta Silenciosa pareciam cinquenta vezes mais altas que eles.

Thiago tentou não pensar nelas. Nem na floresta, tampouco no que podia ter lá dentro. Não era da sua conta. E ele também tinha coisas mais interessantes pelas quais doar sua atenção.

Thiago abraçou o pai com mais força.

Sentia-se como se tudo o que pudesse querer estivesse ao alcance. Era uma força que ele só sentia junto dele, de Estevão.

Agora que estavam chegando ao festival, se pegou pensando que nem ao menos sabia o que exatamente fariam durante as festas. Talvez nem importasse. Contanto que estivessem juntos, como naquela hora, tudo estaria bem.

Com esse pensamento, os dois pousaram em Silento.

15. Dezember 2019 02:07:03 2 Bericht Einbetten Follow einer Story
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Amanda Luna De Carvalho Amanda Luna De Carvalho
Olá, tudo bem? Faço parte do Sistema de Verificação e venho lhe parabenizar pela Verificação da sua história. Sinceramente, sua história é excelente e senti as emoções que o personagem central estava passando num primeiro momento. A ação desencadeada me fez sentir como se estivesse dentro da cena e fosse um filme de cinema. Eu mesma adoraria voar de avião dessa maneira impactante. A coerência está apropriada. A estrutura está ótima e pude compreender tudo que os capítulos queriam dizer à mim. É como se os sentimentos estivessem vivos e notei isso em tudo que li nas entrelinhas. Os personagens possuem uma riqueza de detalhes incríveis e seus anseios estão bem entremeados entre si. Tanto a cena em que pai e filho estão dentro do avião, tanto a cena em que a floresta lá embaixo mexia com ambos, é deveras interessante. Acho que isso causa um frio na espinha de modo duplo. A gramática está boa, mas notei alguns deslizes e sugiro umas alterações. "Pois, sim, iria acontecer a qualquer instante" — Seria mais indicado retirar a vírgula depois de "pois" e manter depois de "sim", para dar mais clareamento à frase, já que nesse caso não é necessário. "Nada, não" — Seria mais indicado retirar a vírgula e manter assim, para a frase ficar mais coerente, já que nesse caso não é necessário. "Talvez nem importasse.Contanto que estivessem juntos" — Seria mais indicado separar o ponto final antes de "Contanto". Esses são meus apontamentos e espero ter sido útil ao comentar isso. Sua história é apurada e gostei do que li em todos os capítulos. As sensações sentidas por todos os personagens, consegui perceber perfeitamente. Todos nós passamos por algumas coisas assim em determinados momentos da vida. Espero que continue escrevendo seus livros e tenha muito sucesso com seus escritos. Até mais!
June 01, 2020, 01:25

  • Henrique Simeon Henrique Simeon
    Oi, Amanda! Fico muito feliz com seu comentário. É de encher o coração saber que a história te agradou em tantos aspectos. E vou me atentar a todos os feedbacks que você me passou, em especial os sobre gramática que mais me pega na hora de escrever. Queria só aproveitar para esclarecer que eles não utilizam avião para voar. Esse tipo de invenção é estranha na cultura deles. Na minha concepção tinha ficado claro no primeiro capítulo, mas pode ser que não. Vou dar uma revisada nisso também. Imagino que vocês da verificação tenham que ler várias histórias em um curto período de tempo por dia. Mesmo assim, muito obrigado! De coração. June 01, 2020, 17:09
~

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