SOBRE AMORES E MALDIÇÕES DE PAPEL Follow einer Story

dissecando Edison Oliveira

Thais e júnior são melhores amigos. Ambos compartilham da mesma doença, assim como guardam um grande segredo: Thais é a única capaz de ler as cartas que os mortos jogam do céu, enviadas através de uma estranha nuvem.


Horror Teen horror Nicht für Kinder unter 13 Jahren.
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SOBRE AMORES E MALDIÇÕES DE PAPEL




Durante as tardes, Thais e eu ficávamos sempre juntos. Nossos pais eram praticamente vizinhos, e eles pensavam que a nossa convivência era bastante boa. Sempre desconfiei que isso acontecia muito mais pelo fato de partilharmos a mesma deficiência, mas com o tempo, percebi que realmente sentíamos alguma coisa um pelo outro. Vou dizer que essa “alguma coisa” deveria ser amor, mas talvez eu esteja exagerando um pouquinho. Se estiver, peço desculpas desde já. É que não sou muito bom em falar sobre muitas coisas, já que minha cabeça não costuma colaborar em diversas ocasiões. Ainda assim, sei que Thais e eu sempre nos amamos. Digo isso porque gosto de fazer comparações; e quando comparo as minhas atitudes com as do meu pai, percebo que ele costuma agir igual quando está perto da minha mãe.
Os olhos de minha mãe são bastante claros, e eles ficam ainda mais brilhantes quando encontram os de meu pai, assim como os olhinhos esverdeados de Thais ficam quando ela me vê entrando em sua casa.
Costumamos passar as tardes no quintal dos fundos, enquanto a senhora Flora, a mãe de Thais, e a minha, Marcella ficam conversando sobre as novelas sentadas na sala de estar. Naquela tarde, estava um pouco frio, e Thais e eu estávamos falando sobre as cartas que caíam do céu. Lembro de olhar para ela por mais de uma vez, e notar que em algumas oportunidades a cabeça dela estava apontada para cima. Certamente, esperando mais uma carta. Aguardando que a pequena nuvem surgisse e lhe entregasse sua mais nova correspondência.
Algum tempo depois, isso aconteceu. Vi quando a nuvem se aproximou, circulou pelo ar, desceu mais um pouco e finalmente parou alguns metros acima de nós. Ela ficou ali, flutuando, com a gente olhando boquiabertos para ela, até que uma folha de papel caiu ali de dentro.

Daquela vez, não foi a carta de uma idosa. Alguns dias atrás, Thais recebera um papel como aquele vindo do céu, e ela me dissera que havia sido enviado por uma velhinha que tinha falecido alguns anos atrás. Na carta dizia que ela sentia muitas saudades de toda a sua família, principalmente de seu neto do qual não me recordo o nome, mas que deveria ter uns oito anos. No bilhete, havia muito mais do que isso escrito; a frente e o verso da folha estavam ocupados, embora eu não fosse capaz de enxergar letra alguma. Segundo Thais me contou, aquilo era perfeitamente normal, já que as cartas vinham para ela e não para mim.
Naquele dia, o papel desceu pelo ar devagar, em ondas que chegavam a hipnotizar e deixar qualquer um que olhasse com a boca aberta e o coração pulsando muito mais rápido. Mesmo acostumado a ver aquilo (já era minha quarta vez) eu sempre sentia como se meu estômago encolhesse.
A carta estava descendo lentamente, e antes que pudesse avançar um pouco mais, Thais a interceptou com um bote de mão esquerda. Imediatamente começou a ler, e assim como das outras vezes, seus olhos não conseguiam nem ao menos piscar. Fiquei a meio metro de distância, esfregando as mãos diante da cintura e olhando preocupado em volta. Meu medo era que em algum momento nossas mães percebessem aquela cena e corressem na nossa direção, sem dizer nada que ajudasse e inconscientemente nos achassem incapazes de viver sem a ajuda de algum remédio. Por sorte, isso nunca aconteceu. Aguardei mais alguns minutos, esperei que Thais lesse mais algumas linhas, e então falei:
— O que diz aí?
Ela não respondeu. Apenas continuou sua leitura, segurando a folha de papel com às duas mãos e mantendo o rosto quase colado na carta. A visão dela não era das melhores, e por ordens médicas ela fora obrigada a usar uns óculos com lentes de um grau muito forte.
Após ler um pouco mais, Thais olhou para mim e fez um beicinho, e por um instante pensei que ela fosse começar a chorar.
— É algo ruim?
— É de uma garota, — ela disse, tornando a se sentar na mureta que cercava as plantas do jardim. — Ela disse que sente medo, pois não sabe onde está. Também que gostaria de ver os pais.
— Poxa! Ela é do bairro?
Thais deu de ombros.
— Não disse. Eles nunca dizem. Apenas conversam, mesmo sem saber se alguém está escutando. — Ela tornou a olhar para a carta, pareceu reler algumas linhas e então completou: — Ela só tinha catorze anos, júnior. Nossa idade.
Me aproximei e lhe dei um abraço. Senti o cheirinho doce de seu perfume e não quis que aquele momento acabasse.
— Mas ela deve estar bem, — falei, sem ter certeza do que estava dizendo. — Logo ela vai se acostumar lá no céu.
— Espero que sim. Ela foi morta pelo próprio namorado. Cortou a garganta dela. Por isso que nunca vou namorar ninguém.
Meu peito doeu quando escutei aquilo, e a primeira coisa que quis dizer foi que nem todos os namorados são iguais, que alguns eram doces e gentis, mas acabei falando que ela tinha razão e dei um sorrisinho na sequência.
Logo depois, olhei para cima procurando pela nuvem, mas não a encontrei.
— Se foi, — falei.
Thais mostrou as mãos vazias e, assim como das vezes anteriores, repetiu.
— A carta também.

Durante muito tempo, a nuvem nos acompanhou em diversas ocasiões. Na verdade, ela acompanhava Thais. Às vezes, quando íamos até o mercado Rocha e Silva no carro de minha mãe, sentados no banco traseiro e trocando poucas palavras, olhava pela janela e via uma nuvem mais baixa do que as outras. Deixava o olhar sobre ela por tempo suficiente para ter certeza, e só então cutucava o antebraço de Thais e apontava com a cabeça na direção do céu.
Ela olhava e parecia ser absorvida, levada para o alto de alguma maneira. Confesso que aquilo me assustava um pouco, e quase sem perceber estava mais uma vez cutucando o seu antebraço até que seus olhos me encarassem de novo.
Em uma dessas ocasiões, minha mãe enxergou esta cena olhando pelo retrovisor. Quando ela perguntou o que estava acontecendo, respondi para seus olhos no quadrinho do espelho.
— Nada, não.
— Ah! Vai ver eles querem dar uma voltinha no shopping — falou a mãe de Thais, piscando o olho para a minha.
Sem que pudéssemos responder, notei que o carro já virava à esquerda, e dois minutos depois já estávamos estacionados. Quase vinte minutos se passaram, e então escutei uma gritaria, depois pessoas sorrindo e nós quatro sentados em uma mesa na área de alimentação. Maionese escorria pelo canto da minha boca, e Thais devorava um sanduíche bem na minha frente. Às vezes, nossos olhares se cruzavam, e daí eu tinha certeza que aquilo não deveria ser outra coisa senão amor.
Minha mãe falava alguma coisa sobre um homem que traía a esposa na novela, enquanto a mãe de Thais concordava com a cabeça e dava risadinhas abafadas.
Eu estava com metade do meu sanduíche dentro da boca quando momentaneamente olhei para o lado de fora do shopping através da ampla janela. Vi o sol brilhando quando tocava na lataria dos carros, e alguns pássaros passarem voando e berrando. Também vi a nuvem se esgueirando pelo estacionamento, flutuando sem pressa alguma, procurando por Thais. Ela não era espaçosa, era quase translúcida, mas ainda assim com aparência fofa e agradável. Penso que Thais também era capaz de senti-la. Ela já estava olhando para o lado de fora antes mesmo que eu pudesse avisá-la. Nossas mães nem perceberam, pois, estavam ocupadas demais falando sobre traições e outras besteiras de novelas.
Acompanhamos com muita atenção a nuvem flutuar, subir um pouco mais e depois descer até quase tocar na janela do shopping. Ela fez o mesmo movimento por mais umas duas vezes, e só então foi que olhei para Thais e vi que seu nariz estava sangrando.

O fim de semana havia chegado, e Thais e eu ficamos sem nos ver durante três dias. O pai dela, o senhor Michel, trabalhava de segunda a sexta em um pavilhão imenso que ficava no centro, fazendo alguma coisa que não sei ao certo o que seja, mas que o deixava sempre com uma aparência de cansado. Normalmente, eles não viajavam para muito longe. Os avós de Thais são do interior, e ela me dizia que no mínimo uma vez ao mês eles iam até lá para visitá-los, e Thais adorava porque na fazenda haviam cavalos, pôneis e vacas que mugiam quando eles chegavam. Naquele final de semana, a vez do mês em que tinham de viajar havia chegado, e tudo que fui capaz de fazer foi abanar para ela da janela do meu quarto quando o carro passou.
Fiquei preocupado com a questão do sangramento em seu nariz; na hora, dei um pulo da cadeira e chutei o seu pé por debaixo da mesa. Thais me olhou de modo estranho, quase como se estivesse despertando logo pela manhã, e me perguntou o que estava acontecendo sem dizer absolutamente nada, apenas mexendo com a cabeça. Fiz um sinal para ela passando a ponta do polegar abaixo do meu próprio nariz, e ela prontamente entendeu. Creio que tenha pensado que eu a estava pedindo para limpar a maionese de seu rosto, de modo que levou um susto quando viu a ponta de seu dedo suja de sangue. Ela utilizou um guardanapo para se limpar, e nossas mães nos levaram embora meia hora depois sem terem desconfiado de nada. Durante os três dias seguintes, minha vida foi sair do quarto até a sala, da sala para o quintal e do quintal para o quarto outra vez.
Meus pais não faziam o tipo que gostavam de viajar (nós nem possuímos parentes distantes, tampouco) e preferimos ficar em casa mesmo quando o dia está bonito e convidativo. Meu passatempo favorito foi ficar em meu quarto, olhando pela janela diretamente para a casa de Thais. Era estranho não ver ela do outro lado. Sempre me sentia assim mesmo sabendo que ela iria voltar, com seu sorriso e sua fala tranquila. Acho que já mencionei que isso só poderia ser amor, mas não me importo. Naquele fim de semana, não houve sorrisos e longas estadias no jardim da casa da frente. Não houve nuvem e muito menos cartas.
Às duas últimas não me fizeram falta alguma.

Na segunda-feira a tarde, atravessamos a rua e fomos até a casa de Thais. Entramos praticamente sem pedir, e minha mãe me disse para ir até o quintal dos fundos para encontrar a minha amiga.
Faria isso mesmo que ela não pedisse. No caminho, pude ver que o rosto da senhorita Flora parecia diferente; meu rosto ficava igual quando eu chorava demais.
Andei pela casa inteira até sair pela porta dos fundos e encontrar com Thais sentada na mesma mureta de costume. Uma de suas pernas estava um pouco erguida, e balançava lentamente para frente e para trás. Sua cabeça apontava para cima, e eu também subi um pouco olhar, mas acabei não enxergando nuvem alguma. Pelo contrário, o céu estava de um azul infinito.
Assim que me aproximei, a chamei pelo nome. O corpo dela estremeceu (despertou de um sono profundo) e seu rosto se virou para mim.
— Como vai? — perguntei, me sentando a seu lado.
— Bem. Um pouco assustada, mas bem.
— Do que está com medo?
— É que às vezes a nuvem se zanga e é ruim.
Olhei espantado para ela.
— Como assim?
— Na casa dos meus avós, a nuvem me encontrou, — começou a dizer ela, olhando para o chão. — Só que ela estava escura, igual quando chove. Então as cartas que caíram, foram ruins. Em uma delas, senti minhas pernas ficarem moles. Dizia todo tipo de maldade, júnior. No final, dizia que tinha sido assinada pelo Diabo.
Neste instante, senti que meus braços se arrepiaram. Eu não costumo ter medo de muita coisa, pois minha cabeça tem a mania de ignorar alguns avisos básicos. Já tinha escutado aquele nome antes, em um filme ou algo assim, mas não tinha certeza do que ele significava. Só sabia que não deveria ser bom. Meu arrepio tratou de deixar isso bem claro. Com isso em mente, tentei dizer a única palavra que pensei que representaria o meu sentimento:
— Credo!
— Depois disso não lembro de mais nada. Sinto meu corpo leve e acordo na minha cama, com meus pais sentados em minha volta. Escutei minha mãe falar para a minha avó que eu havia sofrido um… uma coisa que não sei dizer o nome.
Também não saberia dizer, nem o que ele significa, mas sei que não é nada bom para Thais. Sei disso porque estava com ela quando aconteceu mais uma vez, uma semana depois em uma apresentação na praça da cidade.

Havia muita gente naquela tarde que era um feriado, sendo que boa parte daquelas pessoas eram parentes dos adolescentes que formavam a primeira banda instrumental da cidade formada unicamente por integrantes com algum tipo de deficiência. A maioria de nós possuía Down, mas havia uma ou outra exceção; nosso violinista não tinha uma das pernas, enquanto uma garotinha que tocava flauta era completamente cega.
A apresentação deveria durar apenas vinte minutos, e o palco fora montado exclusivamente para nós no centro da praça, diante de um belo chafariz. Havia uma boa quantidade de cadeiras diante da gente, e dava para contar nos dedos os lugares que ainda restavam. Thais e eu permanecemos um ao lado do outro até a nossa professora, a senhora Tânia, chamar a todos para que subissem no palco. Subimos, sem jeito, cheios de alegria por causa dos aplausos e orgulhosos por fazer parte daquele momento. De canto de olho, vi nossos pais aplaudindo, abanando e filmando com o celular. Quando fomos autorizados a tocar, o som alto se espalhou por toda a praça, e às vezes Thais e eu olhávamos um para o outro, como se disséssemos mentalmente que nos gostávamos. Ela estava tocando trompete e eu, violino. Foi em uma de minhas jogadas com o ombro que olhei para cima e vi a nuvem, um pouco escura, um pouco mais baixa, dando rasantes. Ela estava procurando por Thais, e consequentemente já não fui mais capaz de escutar o trompete. Ela havia largado o instrumento, e seus olhos estavam completamente brancos. Sua cabeça apontava para cima, e uma baba espumosa escorria pelo seu queixo. Poucos segundos depois, Thais desabou. Seu corpo se debateu como um peixe fora d'água, e os outros integrantes do grupo se assustaram e pararam imediatamente de tocar. As pessoas começaram a correr, e os pais dela se aproximaram e a pegaram no colo. A nuvem sobrevoou por mais um instante, depois largou uma folha de papel e foi embora pelo lado oposto.
Ninguém reparou em nada disso. Quanto a mim, tudo que posso dizer é que fiquei encolhido em um canto, cobrindo os ouvidos e sacudindo meu corpo.

Depois deste dia, Thais sofreu mais outros ataques, que a mãe dela chamava de epiléticos. Eu não presenciei mais nenhum, mas soube como e aonde eles foram; dois a caminho de uma clínica, dentro do carro da mãe. Outro no meio da noite, onde ela me contou que a nuvem quase entrou em seu quarto para entregar uma carta. Depois, os ataques cessaram, e a nuvem passou a surgir branca e fofa como antes. Então as cartas não eram exatamente ruins, mesmo sabendo de onde e por quem elas eram escritas. Até que a nuvem de chuva voltou, e os ataques recomeçaram.

Um quando saíam do mercado Rocha e Silva.

Outro no mês seguinte, no final de semana na casa dos avós.

Um terceiro no ano passado, enquanto ajudava a mãe a estender as roupas no varal. Este, acabou em sua morte.

Desde então, pouco tenho falado. Quase não interajo, e toda imagem que vem em minha cabeça é a do rostinho de Thais dentro daquele caixão. Fui capaz de contar todas essas coisas, com muita dificuldade, mas quem as escreveu foi minha mãe, todos os dias após lavar as roupas e cozinhar. Ela me prometeu que não iria alterar uma palavra sequer, apenas aquelas que não tive capacidade de expressar.
Minha rotina tem sido aquela que já mencionei (quarto, sala, quintal, quarto) com uma leve tendência a permanecer muito mais no meu quarto.
De qualquer modo, minha tristeza tem sumido aos poucos. Tenho sido capaz de enfrentar algumas coisas, mas nada que minha cabeça force demais. Tenho sofrido com muitas dores, e cada vez que lembro do corpo de Thais se debatendo no piso do palco improvisado, com os olhos brancos e a baba lhe escorrendo do canto da boca, minha primeira atitude é repetir o que já havia feito naquela ocasião; me encolho, e sou encontrado por minha mãe em algum canto tapando os ouvidos.
Tem sido tempos difíceis, mas como falei, estou recuperando minhas forças aos poucos.
Costumo me sentar na cama em meu quarto, olhando pela janela. Espero ansiosamente pela chuva. Porque a chuva tem me feito bem, mesmo que ninguém entenda o que está acontecendo. É que tem chovido folhas de papel. Apenas eu posso ler o que meu amor tem escrito para mim.

3. Dezember 2019 19:30:15 0 Bericht Einbetten 0
Das Ende

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