S03#16 - QUANDO OS MORTOS NÃO PODEM SE CALAR Follow einer Story

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Três histórias de fantasmas contada pelo ‘mestre do bizarro’ Fox Mulder e ouvidas pelo mestre do terror Stephen King. Aqui há três fases na vida dos nossos agentes: Os dois juntos, os dois ainda malucos um pelo outro e o início nos Arquivo X.


Fan-Fiction Series/Doramas/Soap Operas Nur für über 18-Jährige.

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S03#16 - QUANDO OS MORTOS NÃO PODEM SE CALAR

INTRODUÇÃO AO EPISÓDIO:

Arquivos X - 1:01 P.M.

Mulder sentado em sua cadeira. Fisionomia de felicidade. À sua frente, sentado do outro lado da escrivaninha, Stephen King!

MULDER: - Fico tão feliz em poder ajudar o maior escritor de contos de terror. Senhor King, acho que sou seu maior fã. Tenho todos os seus livros.

KING: - Agradeço por compartilhar o mesmo gosto pelo sobrenatural. Mas não acha que já convive com terror demais todos os dias? Ainda opta por terror nas horas de lazer?

MULDER: - Não se preocupe, eu sobrevivo.

KING: - O que pode me contar sobre fantasmas, agente Mulder?

MULDER: - (INCRÉDULO) Fantasmas? Um escritor como você quer saber o que eu sei de fantasmas?

KING: - Quero escrever um livro sobre casos reais. Talvez, futuramente, façamos um thriller para o cinema... Quero um policial investigando casos assombrosos, de cunho verídico. Algo que envolva a ajuda ‘do outro mundo’. Não quero nada com fantasmas maus. Quero fantasmas bons, que tenham alguma mensagem a ser dita... Algo do gênero.

MULDER: - Se quer casos reais, veio ao lugar certo.

Mulder dá um sorrisinho. King está sério.

MULDER: - Tenho algumas histórias interessantes. Qual será o título do livro?

KING: - Algo como ‘Quando os mortos não podem se calar’.

MULDER: - Senhor King, realmente veio ao lugar certo.

Stephen King o observa, por debaixo dos óculos de lentes grossas. Mulder cruza os dedos, com ar de especialista no assunto. Reclina-se na cadeira.

VINHETA DE ABERTURA:



BLOCO 1:

I. CRYING

Residência dos Windsor - Phoenix – Arizona

9:19 P.M.

O vento soprava forte, fazendo as árvores balançarem. Podia-se ouvir uivos a cada vez que o vento circulava pelos corredores de concreto que dividiam as casas daquele residencial. A geada fazia enfeites de gelo nos galhos das árvores e folhas rolavam pela calçada, atravessando a rua, depositando-se dentro de bueiros e nos paralelepípedos.

Um carro estaciona na frente do número 35. Paul desce, vestindo um grosso sobretudo e carregando sua pesada pasta de trabalho. Ajeita o cachecol e liga o alarme do carro. Caminha em direção a casa. Tira as chaves do bolso, abrindo a porta e entrando rapidamente, numa luta contra a porta e o vento. Tranca a porta, tira o sobretudo. O coloca dentro do armário. O cheiro do jantar penetra por suas narinas e ele caminha até a cozinha. Cindy está na cozinha, abrindo caixas de papel e retirando louças. Na casa, há poucos móveis e coisas fora do lugar, revelando que o jovem casal se mudara há poucas horas.

Paul aproxima-se por trás da esposa e a abraça pela cintura. Beija-a no rosto.

CINDY: - Nossa! Você está tão gelado que parece estar morto!

PAUL: - Como está indo?

Ele aproxima-se do fogão, levantando a tampa da panela e aspirando o perfume da comida.

CINDY: - Acredito que em um mês estará tudo em seu devido lugar.

PAUL: - (RINDO) Um mês? Gostaria de receber meus amigos amanhã à noite. Mas tudo bem, se vai levar um mês inteiro...

Paul tampa a panela. Desliga o fogão. Aproxima-se de Cindy e tira um prato da mão dela. A puxa contra seu corpo.

PAUL: - Pode esperar mais uma noite.

CINDY: - Paul... Não quer jantar?

PAUL: - Deixa o jantar pra depois. Estamos na nossa primeira casa, é nossa primeira noite aqui... Quero ficar com você, debaixo daquele edredom quentinho... Tomar um bom vinho tinto...

CINDY: - (SUSPIRA) Estou tão feliz, nem consigo acreditar que conseguimos ter nossa própria casa.

PAUL: - Então? Podemos deixar isso pra amanhã?

CINDY: - Mas e seus pais? Eles virão...

PAUL: - Nada de pais. Disse que estamos em lua de mel, tentando organizar nossa casa, tentando começar nossa vida como um feliz casal...

CINDY: - (SORRINDO) ... Acho que a casa pode esperar mais um pouquinho.

Os dois se abraçam, trocando um beijo.


11:23 P.M.

Câmera de aproximação pelo quarto. Roupas no chão, copos, uma garrafa vazia de vinho. Paul e Cindy estão na cama, debaixo do edredom, entre carinhos. Ele por cima dela.

[Som de choro de bebê.]

Paul ergue a cabeça.

PAUL: - Cindy? Escutou um choro de criança?

CINDY: - Não.

PAUL: - Ah, deixa pra lá. Acho que o casamento e a empolgação de ter uma família tá começando a me deixar nervoso.

CINDY: - Apressadinho! Já tá pensando em ter um bebê tão cedo?

PAUL: - Não, claro que não. Ainda temos a hipoteca da casa pra pagar.

Os dois trocam um beijo.

[Som do choro. Desta vez é Cindy quem escuta.]

CINDY: - Paul, você ouviu isso?

PAUL: - O quê?

CINDY: - Eu ouvi uma criança chorar.

PAUL: - Talvez os vizinhos ao lado tenham um bebê pequeno. As casas são tão próximas... Ah, deixa o bebê e vem aqui.

Os dois se enfiam pra baixo do edredom.


2:46 A.M.

[Choro de bebê].

Cindy acorda-se. Senta-se na cama. Esfrega os olhos. Cutuca Paul.

CINDY: - Paul...

PAUL: - Zzzz...

CINDY: - Paul, acorda!

PAUL: - (SONOLENTO) O que foi?

CINDY: - Meu Deus, Paul! Essa criança deve estar doente. Não pára nunca de chorar!

PAUL: - Quer oferecer ajuda? Entende alguma coisa de maternidade?

CINDY: - Paul, é sério! Estou preocupada.

PAUL: - Ah, deixa os vizinhos em paz e vai dormir!

Cindy levanta-se. Veste um robe. Acende as luzes do corredor e desce as escadas na penumbra. Ainda escuta o choro da criança. Ela aproxima-se da janela. Observa a casa ao lado, em completa escuridão. Os galhos de uma árvore batem no vidro de sua janela, fazendo um grotesco barulho de unhas arranhando uma superfície. Cindy fixa os olhos na casa ao lado, esperando que alguém acorde para acalmar a criança. Mas as luzes continuam apagadas. Cindy senta-se no sofá. Não consegue dormir por causa do choro da criança.

Corte.

Cenas do cotidiano do casal, enquanto se escuta a voz de Mulder narrando a história.

MULDER (OFF): - Os dias se seguiram, sempre com aquele choro no meio da noite. O casal já estava preocupado. Não podiam mais dormir.

KING (OFF): - A criança chorava muito?

MULDER (OFF): - Em intervalos, como um bebê novo, que sente cólicas à noite... Mas era um choro de desespero. Era como se a criança estivesse sendo torturada. Então, uma semana depois, eles resolveram bater na casa ao lado.

Paul e Cindy entram no pátio do vizinho. Batem à porta. Paul treme de frio, com as mãos nos bolsos frontais da calça jeans. A casa está toda fechada. Há um sino de vento na varanda, com algumas bruxas montadas numa vassoura. O sino balança, fazendo muito barulho. O vento ainda é forte.

PAUL: - Gente esquisita. Geralmente os vizinhos costumam bater na porta dos recém chegados e dar as boas vindas. Aqui não vi nada disso.

CINDY: - (APERTANDO A CAMPAINHA)

PAUL: - Vai reclamar mesmo?

CINDY: - Claro! Não consigo mais dormir! Parece que maltratam a criança.

PAUL: - Eu já teria chamado o juizado de menores. E se estão maltratando o pobre bebê realmente?

Voz de Mulder, enquanto se observa o casal esperando que alguém atenda.

MULDER (OFF): - Ninguém atendeu a porta. Durante dois dias, o casal ficou observando a casa, sem movimento aparente.

KING (OFF): - E a criança?

MULDER (OFF): - Continuava chorando durante a noite. Então eles resolveram chamar a polícia.


9:13 A.M.

Paul e Cindy conversam com o delegado, no quintal do vizinho. Um dos policiais arromba a porta.

Cenas dos policiais verificando o interior e o quintal da casa, enquanto Mulder fala.

MULDER (OFF): - Eles vasculharam a casa e não encontraram nada. Não havia sinais de que algum bebê morasse ali, nem roupas, nem berço ou brinquedos. Na verdade, havia indícios de que alguma pessoa idosa morasse por ali, certamente uma mulher, pela organização da casa. Passou-se mais uma semana, quando a dona da casa chegou de viagem, num sábado pela manhã. Claro que ela não gostou muito da invasão... No entanto, a criança ainda chorava durante a noite.


11:33 A.M.

Paul está cortando a grama do jardim. Cindy sai da casa, vestindo luvas.

CINDY: - E então, como está a vida de marido?

PAUL: - Confesso que pensei que seria mais fácil. Achei que casar significasse ficar na cama com você o dia todo.

Ela sorri.

CINDY: - Mas pode tornar isso mais fácil se pegar o carro e ir até uma floricultura buscar algumas mudas de rosas. Essas aqui estão tão feias!

PAUL: - Já começou a cobrança. Eu sabia que nada seria fácil... Vai plantar rosas no inverno?

CINDY: - Rosas ou sei lá o quê! Precisamos dar um jeito nesse jardim. Essas roseiras estragam a aparência da casa.

Os dois trocam um beijo.

Corta para a casa ao lado. Uma senhora de uns 60 anos sai da casa. Parece-se com uma bruxa. Vê o casal. Aproxima-se.

PAMELA: - Bom dia!

Paul e Cindy viram-se rapidamente, surpresos. Ela vem sorrindo.

PAMELA: - Por acaso sabem por que a polícia entrou na minha casa?

Paul e Cindy se entreolham em silêncio.

PAMELA: - Ah, me desculpem... Sou Pamela Simon, vizinha de vocês.

Eles cumprimentam-se.

CINDY: - Muito prazer, senhora Simon.

PAMELA: - Senhorita... Recebi um comunicado da polícia, eu estava viajando... Bom, deixa isso pra lá. Se mudaram há pouco tempo?

PAUL: - Estamos aqui há duas semanas...

PAMELA: - Sejam bem vindos! Espero que gostem do bairro.

PAUL: - Ah, é muito sossegado e agradável.

PAMELA: - São recém-casados?

CINDY: - Como sabe?

PAMELA: - Bem, não conheço ninguém com mais de um ano de casado por aqui que se beije na frente do portão.

Eles riem.

PAMELA: - Bem, se precisarem de alguma coisa, estou o dia todo em casa. (SORRI) Quando não preciso ficar alguns dias fora... Trabalho com livros, sou revisora. E vocês, o que fazem?

CINDY: - Bem, o Paul trabalha com vendas de computadores e eu sou professora de ginástica.

PAUL: - (CURIOSO) Senhorita Simon... Desculpe a indiscrição, mas... mora mais alguém em sua casa? O bebê, seu neto... está doente?

PAMELA: - Bebê? Que bebê? Eu moro sozinha.

PAUL: - É que toda a noite nós ouvimos o choro e... ficamos preocupados. Precisa de alguma ajuda?

PAMELA: - Então vocês ouviram também?

Paul e Cyndi se entreolham.

PAMELA: - Quando eu digo que escuto uma criança chorar todas as noites, as pessoas acham que estou maluca! Pelo menos não sou a única maluca por aqui.

CINDY: - Como assim?

PAMELA: - Há meses, desde que o casal Nielsen foi embora da casa em que vocês estão, que escuto o choro de um bebê.


Corta para Mulder conversando com King nos Arquivos X. King toma notas, observando Mulder.

MULDER: - A velha, que mais parecia uma bruxa, acabou por dar certeza à eles. Foi então que o casal pediu ajuda à polícia. Não resolveram nada. Então recorreram ao FBI. Mandaram dois agentes que nada resolveram também. Dois meses se passaram e a desconsideração com o casal de ‘loucos’, terminou num caso arquivado. Claro que na letra X. Então a pasta desceu aqui pra baixo e caiu em minhas mãos.

KING: - Os outros vizinhos ouviam a criança também?

MULDER: - Não. Apenas a senhora Simon e o casal Windsor. Então, eu e minha parceira fomos até a casa deles. Minha parceira tinha uma teoria: O casal sofria de distúrbios emocionais devido a pouca idade que tinham para terem responsabilidade numa relação que envolvia casamento... E que a senhora Simon poderia estar ouvindo coisas por causa da idade avançada, propícia para isso.

King está prestando atenção, compenetrado.

MULDER: - Minha teoria era de que havia um fantasma naquela casa.

KING: - E havia?

Mulder olha pra Stephen King.

MULDER: - Aparentemente havia. Eles chegaram a percorrer a vizinhança, em busca de uma explicação plausível. Mas parecia que apenas eles e a senhorita Simon escutavam. Não haviam crianças por perto. A única criança tinha 10 anos e morava três casas depois.

KING: - Intrigante...

MULDER: - Exatamente. Então, minha parceira e eu fomos até a casa dos Windsor. Falamos com o casal, fizemos perguntas de rotina. Depois de uma avaliação ‘pacífica’, eu e Scully, concordamos que eles eram pessoas saudáveis, nada propícias a alucinações.

Corte.


Mulder e Scully saem da casa dos Windsor. Os dois de sobretudo. Mulder tremendo de frio, esfregando as mãos, uma na outra. Scully furiosa, colocando luvas grossas e ajeitando o cachecol.

SCULLY: - (IRRITADA) Eu não acredito! Mulder, como pôde incentivar aquela gente a crer que o espírito de criança anda perturbando a paz da casa deles porque quer alguma coisa? Isso é ridículo!

MULDER: - Mas, Scully...

SCULLY: - Sem mas, Mulder! Você está incitando aquela gente a achar uma resposta no improvável!

Mulder pára. Ela pára e olha pra ele.

MULDER: - Então me explica o que tá acontecendo por aqui, já que você sabe de tudo mesmo.

SCULLY: - Não percebe? São dois jovens, recém-casados, assustados com a responsabilidade do casamento! Os dois têm apenas 18 anos! E a senhorita Simon é um mulher idosa, propícia a esse tipo de alucinação e...

MULDER: - (SUSPIRA) ‘Pela mãe de Deus!’ Vou ter que usar essa expressão, porque não tem outro termo pra dizer isso.

SCULLY: - (IRRITADA) ...

MULDER: - (INCRÉDULO) Scully, por favor! Se há um casal por aqui que não consegue lidar com as responsabilidades e com o peso de um relacionamento, esse casal somos nós! Se isso é loucura, somos eu e você quem precisa de tratamento urgente!

SCULLY: - Não desvie o assunto, Mulder! Não somos nós que estamos em cheque por aqui.

MULDER: - (PROVOCANDO) Aposto que vai ficar velha e solteirona, ouvindo coisas como a senhora Simon!

Scully acerta um tapa no braço dele, irritada. Ele faz uma falsa cara de dor, com um beiço, feito criança boba.

MULDER: - Au!

Mulder esfrega o braço, ainda fingindo dor. Ela aproxima-se do carro e abre a porta. Ele vai atrás dela.

SCULLY: - Não fale comigo!

MULDER: - O que eu fiz?

SCULLY: - Já disse pra não falar comigo!

MULDER: - Tá bom. Não falo ‘comigo’. Posso falar então ‘com você’?

SCULLY: - Cala a boca, Mulder!

MULDER: - Tá, eu calo a boca. Mas pense. Eles me parecem pessoas normais. Não têm hábitos que possam sugerir algum distúrbio psicológico.

Mulder dá a volta no carro. Abre a porta. Mas desvia a atenção pro canteiro de rosas. As roseiras estão murchas.

SCULLY: - O que foi?

MULDER: - Se minha mãe visse isso, enfartaria. Pra ela era um pecado mortal que as pessoas não cuidassem de roseiras.

Os dois entram no carro. Scully coloca o cinto. Mulder também.

SCULLY: - Onde vamos?

MULDER: - Ei, não havia dito que não era pra eu falar com você?

SCULLY: - Mulder, impressão minha ou quer outro tapa? Nunca pensei que você tivesse tara por masoquismo!

MULDER: - Nem sonha com as taras que eu tenho... Ficaria apavorada!

SCULLY: - Propaganda demais a gente desconfia. Produtos ruins têm campanhas muito alarmistas.

MULDER: - Vou ignorar você... Acho que podemos começar pela prefeitura. Eu verifico jornais antigos e você descobre a lista de todas as pessoas que já moraram nessa casa.

SCULLY: - Pra quê?

MULDER: - Scully, casos assim envolvem fantasmas, espíritos que querem descansar. Vamos descobrir o que esse espírito quer.

SCULLY: - Espíritos... Mulder, por favor! Mal resolvemos um caso de poltergeist e você já arranjou outro? Vai atirar meus sapatos por sobre minha cabeça de novo? Ou vai cavoucar o chão da cozinha dos Windsor feito uma toupeira?

MULDER: - Não há poltergeist por aqui, Scully. Apenas uma alma perdida.

Vê-se os dois saindo no carro, enquanto escuta-se Mulder falando com King.

MULDER (OFF): - Bem, eu resolvi começar pelo passado da casa e pela vida dos antigos moradores. Mas não havia nada que sugerisse um poltergeist realmente. Era um espírito isolado.

KING (OFF): - E por que estava assombrando o casal?

MULDER (OFF): - Minha parceira descobriu a ficha médica de Lucinda Nielsen, a moradora anterior aos Windsor. Ela havia tido um filho. Fomos atrás do casal, e a mulher nos disse que a criança havia morrido. Nos deu até o endereço do túmulo.

KING (OFF): - E o que fez?

MULDER (OFF): - Adivinhe!


BLOCO 2:

Cemitério Municipal – 11:21 P.M.

Mulder com as mãos no bolso do sobretudo e uma manta enrolada no pescoço. O frio é enorme e o vento também. Scully, encasacada, esfregando as mãos. O coveiro abre a sepultura.

SCULLY: - Não acredito no que estamos fazendo.

MULDER: - Se a criança morreu, deve estar aí.

SCULLY: - (IRRITANTE) Mulder, não percebe que isso é uma loucura? Vai incomodar a alma desse pobre inocente? Não basta incomodar os vivos agora resolveu incomodar os mortos também? Mulder, você nasceu pra incomodar os outros?

Mulder come sementes de girassol, olhando atravessado pra ela.

MULDER: - Nem vou te dar respostas. Já disse que vou te ignorar.

SCULLY: - A criança morreu de pneumonia, contraiu um vírus no hospital. Sabe que se pode pegar infecção hospitalar e...

MULDER: - (DEBOCHADO) Não sei de nada, sou um burro. Por que fica falando isso, se eu sou um ignorante que nunca sabe de nada? Infec o quê? Que é isso? Pneumonia tem algo a ver com pneu de carro? Uma empresa que detém a hegemonia de pneus?

SCULLY: - Mulder, sua mãe nunca te avisou pra ser menos debochado e irritante com as pessoas?

MULDER: - Minha mãe nunca me avisou nada. Mas deveria ter me avisado pra ficar bem longe de baixinhas invocadas.

Ela arma um beiço. Ele olha pra ela debochado.

MULDER: - Faz beicinho, faz... Você fica tão sexy com esse beicinho... Gosto tanto de ver esse beicinho quilométrico que me dá vontade de te beijar agora mesmo.

SCULLY: - (IRRITADA) Aproxime-se de mim e será mais um fantasma assombrando por aí!

MULDER: - Vou te assombrar a noite toda, revirando aquela cama, gritando de prazer e te molestando sexualmente.

SCULLY: - Cala a boca, Mulder! Você tem o dom de me irritar!


Corta para os Arquivos X. Mulder olha pra King.

MULDER: - Desenterramos o caixão, mas não havia um corpo. Depois de horas de interrogatório, o casal admitiu que matou o filho.

KING: - Como mataram a criança?

MULDER: - Com golpes na cabeça.

KING: - E qual o motivo?

MULDER: - ... ‘Não estávamos preparados para essa responsabilidade’.

KING: - Então o choro que o casal Windsor ouvia, era do filho dos Nielsen?

MULDER: - Exatamente. Na verdade, o casal nunca confessou onde a criança estava enterrada. Mas eu desconfiava que estava em algum lugar da casa. Ou do jardim, já que a vizinha ouvia o choro também. Cavamos o porão, o jardim, mas nada. Até que Cindy nos chamou novamente. O choro da criança continuava. Eles não suportavam mais aquilo, estava afetando até o relacionamento deles. Então, eu e minha parceira voltamos. Lembro que desci do carro e caminhei até a casa. Cindy nos recebeu chorando. Pra deixá-la menos nervosa, fiz uma piada sobre as rosas murchas do jardim. Ela me disse que tudo que plantava naquele canteiro, morria.

KING: - A criança!

MULDER: - Exatamente. Cavamos fundo e descobrimos uma pequena ossada, enterrada, debaixo das roseiras secas.

KING: - ...

MULDER: - Ela e o marido Paul resolveram comprar uma sepultura para a criança e fizeram um enterro com orações. As rosas do jardim dos Windsor nunca mais murcharam. Sobre a sepultura do bebê Nielsen, nasceu um pé de rosas brancas rajadas de vermelho.

KING: - ...

MULDER: - O casal Nielsen está no corredor da morte... Sabe o mais aterrador disso? Na noite seguinte ao enterro, Paul e Cindy estavam na cama. Mas desta vez não ouviram um choro. Ouviram a risada feliz do bebê, como um agradecimento pela justiça feita.

II . TRUCK DRIVER

Noite. Chuva forte. Tempestade. Mulder dirige o carro pela estrada escura. Pouca visibilidade. Scully, de cabelos longos, sentada ao lado dele, olhando a chuva pela janela. Escuta-se a voz de Mulder e King.

MULDER (OFF): - Era inverno. Muito, mas muito frio. Chovia sem parar. Scully estava há dois meses trabalhando comigo, nós pouco sabíamos um do outro. Ela era uma novata e naquele tempo, ela contestava até minha respiração.

KING (OFF): - Não contesta mais?

MULDER (OFF): - Moderadamente... Estávamos voltando de uma investigação em Cleveland. Estava difícil para dirigir, havia pouca visibilidade na estrada. Eu estava com sono, mas confesso, nunca entregaria o volante nas mãos dela. Por nos conhecermos tão pouco, não havia assunto ente nós e isso me deixava com mais sono ainda.

Mulder está fechando os olhos. Scully continua olhando pela janela. Um caminhão enorme atrás deles dá um sinal de luz. Mulder está quase dormindo perto de uma curva fechada. O caminhão buzina, fazendo com que ele se acorde. Mulder faz a curva. Observa a estrada à frente. Não vê nenhum movimento. Dá sinal de luz e passagem para o caminhão. O caminhoneiro passa buzinando em agradecimento. Mulder buzina também.

MULDER: - Vidinha danada, não acha? O que será que ele está carregando?

SCULLY: - É um container... Produtos químicos? Talvez combustível.

Scully volta a olhar pra fora. Mulder olha pra ela.

MULDER: - Não sei o que te disseram sobre mim na Academia, mas eu não mordo.

Ela sorri. Mulder tenta puxar assunto. Ela não olha pra ele, olha pra estrada.

MULDER: - Sei que esse tipo de pergunta é pessoal demais e implica falta de educação em fazê-la, mas... Como não temos muito assunto... tem alguém na sua vida, Scully?

SCULLY: - Não.

MULDER: - (CURIOSO) Opção?

SCULLY: - (SÉRIA) Falta de bom partido.

Mulder olha pra ela e sorri.

MULDER: - É... Estamos num tempo onde não podemos confiar nas pessoas cegamente. É um período muito solitário da humanidade.

SCULLY: - (OLHA PRA ELE) Por que diz isso?

MULDER: - Egoísmo, desamor, AIDS...

SCULLY: - (PENSATIVA) AIDS... Acho que de todas as doenças, essa contagia até quem não a tem.

MULDER: - Fala do fato de que qualquer pessoa pode ser portador do HIV, mesmo sem saber?

SCULLY: - Não só isso, Mulder. Por exemplo, você nunca poderá confiar na pessoa com quem estiver. E mesmo que essa pessoa te seja fiel, o que é remotamente implausível, você sempre vai ficar com medo. A AIDS é um fantasma. Você pode não ter o vírus no organismo, mas tem ele na mente. Pra sempre. Porque implica morte.

MULDER: - Concordo com você. Nossos pais casavam na esperança de reduzir a promiscuidade. Se analisar nos dias de hoje, as pessoas nem casando se libertam do perigo. Foi o que eu disse: desamor, egoísmo...

SCULLY: - Não acho isso. Acho que as pessoas queriam se libertar. Talvez a promiscuidade em demasia fez com que a AIDS surgisse.

MULDER: - (RINDO) Tá brincando! Vai dizer que é um castigo divino para punir os mortais pecadores que só querem dar ‘umazinha’?

SCULLY: - (SÉRIA) Não estou dizendo isso. Estou dizendo que as pessoas nunca sabem onde parar, elas não se impõem limites, não têm uma valorização de si e do seu corpo. Elas buscam um prazer desmedido.

MULDER: - Não acha que prazer é bom?

SCULLY: - Acho que amor é melhor. Respeito também. Prazer é conseqüência. Nem prostitutas beijam na boca, porque isso é mais íntimo do que sexo. Você pode fazer sexo mecanicamente, mas beijar nunca. Beijar exige entrega.

MULDER: - Tenho uma teoria.

SCULLY: - Hum... Não vai dizer que a AIDS é uma doença alienígena!

MULDER: - Não pensei nisso... Na verdade, eu acredito que criaram a AIDS em laboratório.

SCULLY: - O governo?

MULDER: - Quem mais?

SCULLY: - Pra quê?

MULDER: - Ora, não acha que o planeta têm um alto índice de natalidade? Acha que eles querem tanta gente num mundo que cada dia perde mais recursos por falta de respeito a natureza? As pessoas se procriam muito rápido, infestam o planeta como uma peste. Nada melhor que atacar diretamente sobre a procriação.

SCULLY: - (ASSUSTADA) Deus! Mulder, olhe o que está dizendo! Você é quem tem idéias genocidas! Pra um judeu, você deveria ter vergonha de pensar assim!

MULDER: - Como sabe que tenho raízes judias?

SCULLY: - (NERVOSA) Bem... e-eu... li sua ficha antes de trabalhar com você. Você também leu a minha.

MULDER: - Pra dizer a verdade, defendo a teoria dos dinossauros. Se houvessem dinossauros na Terra, não haveria tanta gente por aí, tropeçando umas nas outras. É gente demais, Scully. E gente imprestável ainda por cima. O mundo não precisa de gente imprestável. De assassinos, de políticos corruptos, de homens que enganam, matam... De governos que incitam caus e miséria. Fora com essa gente!

SCULLY: - (INDIGNADA) Guerras são genocidas, Mulder. Não acredito que o governo tenha criado a AIDS para o genocídio.

MULDER: - E eu não acredito que eles não saibam a cura.

SCULLY: - Se soubessem, Mulder, já a teriam dado.

MULDER: - Você confia demais no governo, não? Scully, pense comigo: Acha que eles venderiam um remédio que curasse as pessoas? Os laboratórios não ganham com isso! Ganhariam mais vendendo pilhas de remédios por anos e ainda assim, você morreria. Lucro dobrado. É como os xaropes para tosse. Você toma xaropes, come pastilhas e eles só aliviam mas não curam. Você toma vitaminas porque elas melhoram sua condição física e complementam sua alimentação. Antigamente ninguém precisava de complementação de vitaminas. Você substitui gordura animal por alimentos diets pra evitar o colesterol, come um bando de porcarias fabricadas porque tem medo de comer um bife. Isso é neurose, Scully! Margarina é vegetal, e é mais prejudicial do que a boa e velha manteiga. Colesterol é desculpa pra vender produtos novos no mercado. É a chamada criação de consumo. Capitalismo, Scully. Nosso país é uma máquina capitalista, geradora de consumo compulsivo.

O silêncio se estabelece por segundos. Scully vira-se pra ele.

SCULLY: - (CURIOSA) Tem namorada, Mulder?

MULDER: - Acha que tenho tempo pra isso?

Ela ergue as sobrancelhas, numa atitude de surpresa.

SCULLY: - Sério? Você não tem namorada?

MULDER: - Por que o espanto?

SCULLY: - Não, por nada... É que você é um homem bonito, acho difícil que não tenha ninguém.

MULDER: - ...

SCULLY: - ...

MULDER: - E você? Por que não tem alguém?

SCULLY: - Tinha. Terminei há alguns dias.

MULDER: - Quem provocou a briga?

SCULLY: - Ele. Não tínhamos nada em comum.

MULDER: - (RINDO) Scully, você não é daquelas garotas que procuram um príncipe encantado, não é?

SCULLY: - (GAGUEJANDO) E-eu... bem... (CÍNICA) Não. Não acredito em príncipes encantados... E você? Por que não tem uma namorada?

MULDER: - Sem tempo pra namoradas. Mulheres atrapalham sua carreira. Mulheres ficam fazendo cobranças demais, fiscalizam você 24 horas por dia e exigem que desista de seus amigos e de sua vida pra ficar com elas.

SCULLY: - Acha isso mesmo? Mulder, está enganado. Não pode generalizar.

MULDER: - Não estou generalizando. A maioria delas é assim. Não vi a exceção ainda.

SCULLY: - Procurou pelo menos? Talvez esteja procurando nos lugares errados.

Mulder fica triste. Se dá conta do quanto é solitário. Tem uma reação de autodefesa, mentindo pra si mesmo.

MULDER: - Não estou procurando. Nem quero procurar. Uma noite é o máximo que posso suportar de uma mulher! Mas a minha deusa perfeita vai aparecer um dia. Quando eu tiver tempo pra procurá-la.

SCULLY: - ... (ABAIXA A CABEÇA)

MULDER: - Scully, acho melhor mudar de assunto, tá? Vamos fazer um acordo entre nós dois. Já que vamos trabalhar juntos, nada de interferências pessoais. Fique com sua vida e eu fico com a minha. Nosso relacionamento é profissional.

SCULLY: - ... Tá.

MULDER: - Não gosto de me apegar as pessoas, entende? Por isso é melhor assim. Podemos acabar como amigos e a experiência me diz que quanto menos a gente se apega, menos sofre quando perde a outra pessoa. Nada de intrometimentos na vida pessoal do outro. Eu não acredito nas pessoas. Não confio em você e peço que não confie em mim. Não quero ter mais preocupações na minha vida, gosto de liberdade e não quero ficar preso a amizades, ter alguém pra me preocupar.

SCULLY: - ... Certo.

Scully vira o rosto para a janela. Fisionomia de ‘que sujeitinho mais grosso!’


2:33 A.M.

Mulder continua dirigindo. Scully o observa com o rabo dos olhos, irritada, mas atraída. Mulder continua olhando pra estrada. Scully ajeita os longos cabelos pra trás das orelhas.

SCULLY: - ... Quero chegar logo em casa. Estou cansada.

MULDER: - Bem, já é sábado, vai poder descansar bastante.

SCULLY: - Quero ir ao teatro. Quero me divertir... O que faz pra se divertir, Mulder?

MULDER: - Vejo TV.

SCULLY: - ... Não quer ir ao teatro comigo? Tem uma peça legal do...

MULDER: - (CORTANTE) Não.

SCULLY: - ...

MULDER: - ...

SCULLY: - (INSISTINDO) Se não gosta de teatro, podemos ir a outro lugar. Também não tenho companhia.

MULDER: - Não. Não gosto de lugares públicos.

SCULLY: - ...

MULDER: - (DEBOCHADO) Scully, você não tá me cantando, não é? Quer um encontro comigo, é isso?

Ela fica embaraçada.

SCULLY: - (NERVOSA) Claro que não. Estou tentando estabelecer uma aproximação, já que vamos trabalhar juntos.

MULDER: - (ESTÚPIDO) Falou bem, trabalhar. Meus finais de semana são só meus. E depois, você não faz o meu tipo.

SCULLY: - (MAGOADA) Desculpe se te agredi sendo um pouco humana.

Mulder olha pra ela. Percebe que a ofendeu.

MULDER: - Me desculpe, Scully. Mas não sou um cara que convive bem com as pessoas. Tô mais pra Mogly do que pra relações públicas. E eu já te disse que não quero me apegar. Não confio em ninguém. Tenho uma vida completamente maluca o suficiente pra ser motivo de deboche dos outros. E eu sei como as coisas funcionam. Você se apega, acaba contando coisas suas e depois o seu amigo acaba usando o que você disse contra você mesmo.

SCULLY: - ... Sinto que pense assim.

MULDER: - ...

SCULLY: - Quer que eu dirija um pouco?

MULDER: - Não.

Barulho. Mulder entra no acostamento. A estrada está deserta, escuridão total. Mulder desliga o carro. Esmurra o volante. Scully olha pra ele, assustada.

MULDER: - Não quero acreditar que o pneu furou de novo.

Mulder desce. A chuva cai forte. Olha pro pneu.

MULDER: - Droga! Droga! Droga!

Mulder chuta o pneu. Scully fica olhando pra ele, como gata assustada. Mulder abre a porta e olha pra ela. Ela recua.

MULDER: - Scully, tenta ligar pra informações e... O que foi?

SCULLY: - (ASSUSTADA COM ELE) Na-nada.

MULDER: - Tenta descobrir uma borracharia. Estamos sem estepe.

SCULLY: - ... E sem celular. O meu não tá funcionando.

Mulder pega seu celular. Tenta.

MULDER: - Droga! Pra que tecnologia se não serve quando precisamos?

Mulder atira o celular no banco de trás, com raiva. Ela arregala os olhos. Mulder entra no carro, todo molhado.

MULDER: - ...

SCULLY: - E agora?

MULDER: - Melhor você dormir. Vou esperar alguém passar e pedir uma carona.

SCULLY: - Acha que vou conseguir dormir?

MULDER: - (DEBOCHADO) Não vou te violentar, não se preocupe. Sei que olha pra mim com um medo enorme, mas eu não sou um doente mental. Com o tempo, vai se acostumar comigo.

SCULLY: - Não é isso. Estou nervosa, estamos no meio de uma chuva, numa estrada escura. Qualquer um pode nos assaltar!

MULDER: - Credo, relaxa! Somos agentes federais, estamos armados. Quer matar o tempo jogando palitinhos?

SCULLY: - Não.

O silêncio se estabelece.


BLOCO 3:

Mulder liga o rádio. Batuca no volante. Scully está séria.

MULDER: - O que foi?

SCULLY: - (SÉRIA) Nada.

MULDER: - É sempre tão séria assim? Relaxa. Imprevistos acontecem.

SCULLY: - Não gosto de imprevistos. Minha vida não funciona com imprevistos.

MULDER: - Tem tudo sempre calculado?

SCULLY: - Exatamente.

MULDER: - Nossa, que tédio!

Scully olha irritada pra ele.

SCULLY: - Você consegue ser irritante, sabia, Mulder? Por que não pode respeitar o ponto de vista dos outros?

Scully cruza os braços e vira-se pra janela. Mulder desliga o rádio. Recosta-se no banco. Olha pras pernas dela. Scully não percebe. Mulder balança a cabeça afirmativamente, debochado.

MULDER: - É, nada mal.

SCULLY: - O quê?

MULDER: - ... (DISFARÇA) A situação.

SCULLY: - ...

MULDER: - (DEBOCHADO) Conheço uma maneira boa de passar o tempo, mas precisamos ir pro banco de trás.

Scully olha pra ele. Dispara sua raiva.

SCULLY: - (IRRITADA/ LEVANDO A PIADA A SÉRIO) Já que estamos estabelecendo nossa relação como parceiros, agora eu vou dizer minhas condições: Não sou o tipo de mulher que você está acostumado a encontrar por aí nas suas ‘andanças’ pelo mundo através da verdade.

Mulder recua assustado, olhos arregalados, erguendo as sobrancelhas.

SCULLY: - Portanto, agente Mulder, como você mesmo disse, atenha-se ao nosso relacionamento profissional, porque eu não costumo me envolver com colegas de serviço, muito menos com malucos doentios como você.

MULDER: - ... Scully, eu...

SCULLY: - Se é esse o juízo que faz de mim, Mulder, está muito enganado a meu respeito. Estou nesse carro por dever, não porque quero. Preferia estar na minha casa, com pessoas mais agradáveis do que você!

MULDER: - ... (EMBARAÇADO) Scully, desculpe. Foi só uma brincadeira, não achei que levaria a sério.

SCULLY: - ... Não faço parte do seu cardápio. Não pertenço a lista dos pratos principais.

MULDER: - Tá, desculpe, eu não vou mais brincar com você.


Corta para Mulder e King.

MULDER: - Confesso, eu era um pouco grosso naquela época e ela ainda não entendia as minhas piadas. Ficamos ali por minutos, em silêncio. Chato pra burro! Ela tinha medo de mim e eu agora, tinha medo dela. O clima ficou pesado. Então as luzes de um farol surgiram. Um caminhão parou atrás do carro. O motorista, um sujeito gordo, de uns 40 e poucos, desceu e veio sorrindo simpaticamente...


Corta para a estrada. O caminhoneiro se aproxima, com um boné na cabeça. Mulder abaixa o vidro.

FRANK: - Problemas, amigo?

MULDER: - O pneu furou.

FRANK: - Tá sem estepe?

MULDER: - Estou. Já havia trocado o pneu no meio do caminho. Sabe se encontro algum lugar por aqui onde eu consiga um estepe?

FRANK: - Nessas imediações não vai encontrar nada. Se quiser, deixo vocês no próximo posto. Fica a uns 3 quilômetros daqui. Não é legal ficar parado nesse ponto da estrada. É muito escura. Algum maluco pode bater em seu carro e te empurrar para o precipício.

Mulder olha pra Scully. Ela desce do carro. Mulder desce também. Abre o porta malas e tira o outro pneu. Os três caminham até o caminhão.

MULDER (OFF): - Então pegamos carona com o sujeito. Chamava-se Frank Ragley. Nos disse que quase todo mundo conhecia ele pela estrada. Minha parceira ficou calada durante todo o trajeto. Eu conversava com Frank. Um bom homem. Disse que não podia ficar longe da estrada. A vida de caminhoneiro sempre o fascinara desde pequeno.

Corte.

Scully olha pela janela do caminhão, segurando sua bolsa sobre as pernas. Mulder conversa com Frank.

MULDER: - Pensei ter visto você antes. Não te dei passagem há alguns quilômetros atrás?

FRANK: - Sim. Precisei parar de novo, bater nos pneus. Em dia de chuva, sabe como são essas coisas. Não dá pra brincar com uma carreta dessas. Ela não freia de repente. E essa rodovia não tem iluminação, é cheia de curvas. Já vi muito acidente feio por aqui, amigo.

MULDER: - O que está carregando?

FRANK: - Gasolina. Mas não tenho pressa de chegar. Não tem prazo de entrega.

O caminhão pára num posto. Mulder e Scully descem. A chuva parou. Mulder tira o pneu de dentro do caminhão.

MULDER: - Obrigado, Frank!

FRANK: - Não me agradeça, amigo. Quem vive na estrada tem que se ajudar. Até estranhei um carro dando lugar pra uma carreta. Geralmente os motoristas de carro não facilitam a vida pra nós.

Scully sai andando na frente, irritada. Frank olha pra Mulder.

FRANK: - Acho que sua namorada tá zangada.

MULDER: - (RINDO) Não, ela não é minha namorada. Nós trabalhamos juntos.

FRANK: - Talvez nos encontremos por aí um dia. Boa sorte!

MULDER: - Pra você também.

O caminhão parte. Mulder vai caminhando e empurrando o pneu. Scully entra no bar. Mulder vai pra borracharia. Um mecânico aproxima-se, limpando a graxa das mãos num pedaço de pano.

MULDER: - Pode consertar isso ou tem um novo por aí?

MECÂNICO: - De carro? Tá brincando! O borracheiro não está, mas eu posso consertar isso. Vai ter tempo pra um café.

MULDER: - Será que consigo uma carona por aqui? O carro ficou há uns 3 quilômetros.

MECÂNICO: - Te levo lá, sem problemas. Por 20 pratas, é claro.

Mulder olha pro mecânico debochado. Dá as costas e vai pro bar. Entra. Scully está sentada ao balcão, tomando um café. Séria, triste. Mulder senta-se ao lado dela. Pede outro café.

MULDER: - Me desculpe se fui grosso, debochado e sarcástico. Mas eu sou assim.

SCULLY: - Esqueci que estou trabalhando com o ‘Estranho Mulder’. Agora sei que é o ‘Estúpido Mulder’ também.

MULDER: - ...

SCULLY: - Tudo bem, Mulder. Concordo com você. Sou uma novata no FBI e tenho pouca experiência em empregos. Tinha a concepção errônea de que pessoas que trabalham juntas podem ser amigas, mas tudo bem. Não fiquei magoada com isso.

MULDER: - Ficou. Scully, não te conheço muito bem, mas esse seu beiço me diz que não tá gostando de trabalhar comigo. Se quer transferência, eu vou entender. Precisa se sentir bem no que faz e com as pessoas com quem trabalha.

SCULLY: - Mulder, você tem sua personalidade e eu tenho a minha. E depois, você tem razão. Talvez eu não fique muito tempo como sua parceira, então é melhor não fazer amizade mesmo.

MULDER: - Scully, eu sou um cara muito, mas muito desconfiado. Eu dava conta do serviço e de repente aparece você. Sinto ser sincero, mas vou admitir que não confio em você, não sei quem te colocou ali e não sei se você não está tentado ser minha amiga pra atrapalhar o meu serviço.

Scully olha pra ele.

SCULLY: - Tenho pena de você, Mulder. Você sempre será sozinho, louco e nenhum pouco feliz. Você não é humano.

Mulder perde o olhar ao longe, triste. Scully abre a bolsa. Mulder olha pra ela, enquanto pega a carteira.

MULDER: - Eu pago.

SCULLY: - Não, eu pago.

MULDER: - Me deixa agir como ‘humano’ uma vez, pode ser?

SCULLY: - ...

Mulder coloca o dinheiro sobre o balcão. Os dois saem do bar. O mecânico os espera, com uma picape e a mão estendida. Mulder entrega o dinheiro na mão dele.

MULDER (OFF): - O menos humano do que eu e capitalista, nos levou até o carro. Ajudou a trocar o pneu, disse que seria mais 5 dólares. Tudo bem, o cheiro de bebida nele era tão forte, que eu pagaria até pra ele dar o fora dali.

Corte. Os três já estão na estrada, ao lado do carro. O mecânico limpa as mãos num pano. Chuta o pneu.

MECÂNICO: - Acho que aguenta até Washington. Quer dar uma olhada no motor?

MULDER: - (DEBOCHADO) Não, eu faço isso de graça.

O mecânico aproxima-se da picape. Volta. Olha pra Mulder e Scully.

MECÂNICO: - (CURIOSO) Como conseguiram chegar no posto, numa madrugada como esta?

MULDER: - Um caminhoneiro nos deu carona.

MECÂNICO: - Caminhoneiro? Não vi caminhão nenhum.

MULDER: - Uma carreta de combustível. Scully, qual era o nome do sujeito mesmo?

SCULLY: - Frank. Frank Ragley.

O mecânico ri.

MECÂNICO: - Acho que vocês dois andaram bebendo mais do que eu. Frank Ragley? Frank está morto há 20 anos!

Scully e Mulder se entreolham, assustados.

MECÂNICO: - Morreu nessa estrada. Pobre Frank. Era uma madrugada de chuva. Tinha um carro na frente dele. Ele estava com problemas e pediu passagem com os faróis. O motorista não deu. Depois da curva, o motorista devia estar irritado e deu sinal pra Frank. Ele foi passar, mas havia outro carro vindo de frente. Frank teve de desviar e como a carreta não segura uma freada brusca, virou naquela curva, tombou e arrastou quase até o precipício. O combustível começou a vazar. Ele estava preso nas ferragens, gritava por ajuda, mas ninguém parou... Um outro caminhão não viu e bateu no caminhão dele, empurrando-o pro precipício.

O mecânico tira o boné, colocando-o sobre o peito.

MECÂNICO: - Pobre Frank. Uma boa alma. Nunca se recusou a ajudar ninguém na estrada. Mas quando precisou de ajuda, ninguém lhe deu. Que Deus o tenha!

O mecânico entra na picape e vai embora. Mulder olha pra Scully, com um sorriso.

MULDER: - Você o viu, não viu?

SCULLY: - Estão confundindo as pessoas. Deve ser outro Frank. Mortos não andam em caminhões fantasmas ajudando pessoas pela estrada. E esse sujeito bebeu mais do que possa contar.

MULDER: - Ah, esquece!

Os dois entram no carro. Mulder dá a partida. Entra na estrada.


Corta para os Arquivos X. King olha pra Mulder.

KING: - Mas afinal, era ou não um fantasma?

MULDER: - O dia estava quase amanhecendo quando eu percebi os faróis do caminhão atrás de mim. Como faço sempre, depois de uma curva, verifiquei a estrada e dei lugar. O caminhão passou buzinando e percebi que era o caminhão de Frank. Buzinei também. Fiquei olhando para o caminhão, até que ele desapareceu no nada, no meio da estrada.

KING: - E sua parceira? Como reagiu?

MULDER: - Roncando. Ela não viu nada. Estava dormindo.

III. GIRLFRIEND

Mulder levanta-se. Caminha pela sala. King está de cabeça baixa.

MULDER: - Isso aconteceu há uns dois anos... espera aí... é, há mais de dois anos. Scully e eu já estávamos mais amigos.

King dá um sorriso.

MULDER: - Não tanto quanto você imaginou... Bom, a família Hudson notificou as autoridades do desaparecimento de seu filho. Como todo o procedimento, a polícia esperou 48 horas. Uma semana e o FBI foi acionado. Os desocupados do porão, foram designados pra tal tarefa.

Corte.


Mulder e Scully nos Arquivos X. Mulder sentado, ela em pé. Mulder mostra a foto do rapaz.

MULDER: - Nicholas Hudson, 18 anos, branco, caucasiano. Foi a uma festa com os amigos e... desapareceu.

SCULLY: - Alguma garota na história?

MULDER: - (DEBOCHADO) Nem eu com meus 18 anos, conseguiria ficar uma semana na cama com uma garota.

SCULLY: - ...

MULDER: - Os amigos o viram sair com uma menina. Mas não sabem pra onde ele foi.

SCULLY: - Estava de carro?

MULDER: - Sei o que está pensando, Scully. As polícias estaduais estão atentas, mas não viram o carro do garoto.

SCULLY: - Algum pedido de resgate?

MULDER: - Nada.

SCULLY: - ...

MULDER: - ...

SCULLY: - Ok, Mulder. Já imagino: O garoto foi abduzido por extraterrestres e está em Marte, numa daquelas festinhas de arromba.

MULDER: - Uau, Scully! Faz tempo que não sei o que é uma festinha de arromba. Que tal se fizéssemos uma no meu apartamento?

SCULLY: - Prefiro ser amarrada e torturada. Seria mais excitante.

MULDER: - Posso te amarrar e te torturar. Tenho um chicote atrás da porta que você ficaria maluquinha...

Ela sai, batendo a porta.

MULDER: - (DEBOCHADO) Ainda te pego. Ah, eu ainda te pego. Um dia você vai levar a sério as minhas cantadas...


Motel Moonlight – 7:39 P.M.

Mulder vai narrando enquanto se vê a cena.

MULDER (OFF): - Estacionamos na frente de um motel. Um pulgueiro, mas era o único na cidade.

KING (OFF): - E...?

MULDER (OFF): - Quer a história verdadeira?

KING (OFF): - De preferência. Não omita fatos. Eu omito os nomes.

MULDER (OFF): - Ficamos no mesmo quarto.

KING (OFF): - ...

MULDER (OFF): - Havia apenas um quarto vago.

KING (OFF): - Sei...

MULDER (OFF): - (CÍNICO) Pra dizer a verdade, trabalhar com essas coisas assustadoras te deixam com medo de dormir sozinho.

KING (OFF): - (MAIS CÍNICO AINDA) Entendo...

MULDER (OFF): - Tá certo. Eu disse pra ela que só havia um quarto, mas eu estava mentindo. Aliás, essa eu nunca contei pra ela... Então entramos naquela espelunca. Pra dizer a verdade, tranquei a porta com uma cadeira, porque tinha medo da vizinhança dali.

KING (OFF): - ...

MULDER (OFF): - A noite toda ouvimos barulho de coisas se quebrando, gritos... Mas não era poltergeist. Era briga de encarnados mesmo.

Mulder coloca a cadeira escorando a fechadura da porta. Scully olha incrédula pro quarto.

SCULLY: - Acho que seu apartamento é luxo perto disso.

MULDER: - Como você sente prazer em me rebaixar, não é, Scully?

SCULLY: - (SÉRIA) Estamos com um problema por aqui. Há apenas uma cama.

MULDER: - Não vai me deixar dormir no chão. Está frio.

SCULLY: - Eu é que não vou dormir no chão. Seja cavalheiro.

MULDER: - ... (OLHA INCRÉDULO PRA ELA) Scully...

SCULLY: - (EMBARAÇADA) Mulder, não interprete mal, mas somos colegas, isso não vai pegar bem. Vai contra a política do FBI. Não quero encrencas com o FBI.

MULDER: - Mas que culpa temos se só há um hotel com um quarto vago nessa cidade? E o FBI tá aqui? Com exceção de nós dois, ninguém vai saber.

Scully olha pra cama, olha pra ele, olha pra cama, feito garota assustada.

SCULLY: - (NERVOSA) É que...

Mulder começa a rir.

SCULLY: - (IRRITADA) Do que está rindo?

MULDER: - Da situação. Ah, Scully, me poupe disso! Não me venha com besteiras! Por favor!

Scully entra no banheiro. Mulder liga a TV. Deita-se na cama. Ela volta pro quarto e procura roupas na mala.

SCULLY: - Ei, tire os pés sujos da minha cama.

MULDER: - Até você ir dormir essa cama é minha. Quero olhar TV.

SCULLY: - Se sujar os lençóis, Mulder, eu juro que atiro você por aquela porta.

Ele faz cara pânico. Scully entra no banheiro.

MULDER: - Chata!


BLOCO 4:

Sala dos Arquivos X.

MULDER: - Fiquei mudando de canal. Então ouvi um grito. Ainda olhei bem pra TV pra ver se era no filme, mas o grito novamente surgiu e eu me levantei da cama. Peguei a arma.

KING: - Quem gritou?

MULDER: - Scully. Então bati na porta do banheiro e ela gritou de novo. Entrei. Você não acreditaria no que meus olhos viram... (FAZENDO SUSPENSE) Fiquei parado! Não podia acreditar! Aquilo era de outro mundo!

KING: - Um fantasma?

MULDER: - Não. O corpo dela molhado... As pernas dela! As coxas dela... Eram as pernas mais lindas que eu já tinha visto, perfeitas, bem torneadas e ela estava segurando a toalha na frente do corpo e apontava pro canto do banheiro.

KING: - (CURIOSO) E então?

MULDER: - Vi escrito na parede de azulejos: Nicholas e Ashley.

KING: - Não, eu quero saber mais das pernas dela. Gosto de terror mas não pense que é meu único gênero. Boas histórias de terror contém sensualidade.

Corte.


Mulder aproxima-se da parede. Percebe que a frase foi escrita com sangue. Scully continua segurando a toalha contra o corpo.

SCULLY: - (NERVOSA) Mulder, isso não estava aí quando eu entrei!!!

MULDER: - Tem certeza?

SCULLY: - Absoluta.

Mulder olha pra janela do banheiro, muito pequena.

MULDER: - Ninguém entrou aqui, Scully. A janela é pequena demais... Isso é sangue.

SCULLY: - Mulder, por favor! Isso não é racional!

Mulder vira-se pra ela. O olhar dos dois se cruzam, e ele percebe que ela pressente o olhar dele pra seu corpo.

Vê-se a cena, enquanto Mulder narra pra King.

MULDER (OFF): - Era um olhar de desejo e eu sei que ela sabia disso. Mas era aquele olhar de curiosidade, sabe? De querer descobrir o impossível, o intocado... Tive vergonha de mim mesmo. De sentir que ela percebeu a minha atitude curiosa. Fiquei constrangido. Me virei pra parede.

KING (OFF): - ... Que mal pergunte, quanto tempo ficaram nisso?

MULDER (OFF): - No olhar?

KING (OFF): - Não. Nesse chove e não molha.

MULDER (OFF): - Sete anos.

KING (OFF): - Pode me dar a receita do que tomava pra segurar um tesão por sete anos? Gostaria de saber como fazia isso.

MULDER (OFF): - Banho gelado, pensar na última vitória dos Knicks... Na comemoração da vitória, não no jogo. Se visse mentalmente cada bola que entrava na cesta, ia ter um ataque cardíaco... elaborar mentalmente a lista de coisas a serem feitas no outro dia, tipo ir na lavanderia, comprar leite e... Muito autocontrole... Então me virei pra ela novamente. Acho que ela estava nervosa.... Pensando bem, agora até acredito que fez de propósito. Ela estava tão nervosa que deixou a toalha cair. Rapidamente me virei pra não constrangê-la e saí do banheiro. Tudo bem que eu morria de desejo por ela, mas desejo é uma coisa, canalhice é outra. Voltei pro quarto, tirei meu paletó e a gravata. Fui até a recepção do motel. Descobri que Nicholas esteve ali na mesma noite em que desapareceu, na companhia de uma garota, que agora eu sabia o nome: Ashley.

KING (OFF): - Trabalhava com que hipótese?

MULDER (OFF): - De que ela assassinara o garoto. Poderia ser uma prostituta, sei lá. Então voltei pro quarto e me deitei na cama. Continuei assistindo TV. Dormi.

KING (OFF): - Dormiu na cama?

MULDER (OFF): - Juro que dormi, estava cansado. Não foi intencional.

Scully sai do banheiro, vestida num pijama. Olha pra Mulder dormindo. Camisa semi-aberta, de calças, sem sapatos, por cima do edredom, segurando o controle remoto.

SCULLY: - Eu não acredito! ... Mulder!

MULDER: - Zzzz...

SCULLY: - ... Droga. (GRITA) Mulder!!!

MULDER: - Ahn?

SCULLY: - Mulder, como vou dormir do teu lado? Não podemos dormir na mesma cama.

Mulder olha pra ela, incrédulo.

MULDER: - Tá frio e vai me deixar dormir no chão? Scully, por favor! Estamos trabalhando juntos há tanto tempo! Pensei que fosse minha amiga e confiasse em mim. Sou eu, não é um estranho que está aqui!

SCULLY: - ... É que...

MULDER: - (IRRITADO) Ah, Scully, por favor. Somos dois adultos. Mas se te incomoda eu durmo no chão. Tanto faz.

SCULLY: - (ENVERGONHADA) Não, tudo bem. Pode ficar aí.

Mulder levanta-se. Entra pra baixo do edredom. Vira-se de costas pra ela. Scully deita-se, cobrindo-se com o edredom. Coloca um travesseiro no meio da cama. Vira-se de costas pra ele.

MULDER: - Boa noite, Scully.

SCULLY: - Boa noite, Mulder.

Scully apaga a luz. O quarto fica na penumbra. Os dois virados de costas um pro outro, com os olhos abertos, sem conseguir dormir.


Corta para os Arquivos X.

MULDER: - Então, no outro dia...

KING: - E antes do outro dia?

MULDER: - ... Não dormi a noite toda, se é o que quer saber. Aliás, por que quer saber?

KING: - Porque acho muito interessante a história de vocês e acredito que daria um ótimo enredo paralelo ao livro.

MULDER: - Se omitir nomes e lugar de trabalho... Eu sentia o perfume dela e a presença dela ali. Dava pra dormir? Não dava. Mas ela era minha amiga, eu não ia queimar meu filme com ela. Mesmo que ela topasse alguma coisa, com que cara eu ia olhar pra ela depois? Se nada desse certo, o que na época era o mais provável, visto que eu e ela tínhamos tantas diferenças, eu ia perder a única pessoa que se importava comigo por causa de sexo? Não, definitivamente não. Ela era mais pra mim, muito mais do que uma noite. Muito mais do que um ano. Não via esperanças de um relacionamento entre nós dois durar por muito tempo. Pouco sabíamos, naquele tempo, que tínhamos mais em comum na vida pessoal do que no trabalho. Só nos conhecíamos como colegas, não na intimidade da vida pessoal de cada um. Ela achava que eu era um tarado. Eu achava que ela era puritana.

KING: - E agora?

MULDER: - Inverta os papéis.

KING: - Ah!

MULDER: - Consegui tirar um cochilo, mas acordei com aquele calor do lado do meu corpo. (RI) Juro que fiquei cego e me virei empolgado.

KING: - Era ela se encostando em você?

MULDER: - Que esperança! Era o maldito travesseiro. Então vi que ela tava acordada também e me virei de costas pra ela de novo. Pensava que ela estava com medo de mim. Nunca poderia imaginar que estava tão doida pra invadir meu território quanto eu estava pra invadir o dela. Se naquela época eu soubesse que era recíproco, tinha atirado aquele travesseiro no chão e... acabado ali com tantos anos de tortura. Aposto que não teríamos resolvido a investigação e ficaríamos ali por dias tirando o atraso.

King dá um sorriso.

MULDER: - Bom, na manhã seguinte, nos dirigimos à casa dos pais de Nicholas. Era uma casa distante, no meio do mato, e o nevoeiro cobria tudo. Havia um pequeno cemitério da família ao lado da casa...

Corte.


Mulder e Scully descem do carro. A neblina cobre o lugar, revelando apenas a silhueta da casa e as lápides dos túmulos ao lado. Mulder e Scully caminham, com cara de sono, até a porta da casa.

SCULLY: - Lugar sinistro.

MULDER: - Gosto daqui. Se a casa estiver a venda, posso pensar em comprar.

SCULLY: - Bizarro, Mulder! Só você pra querer morar ao lado de um cemitério.

MULDER: - Tem medo dos mortos, Scully? Uhhhh!!!

SCULLY: - Não é questão de medo. Cemitérios são lugares sujos, é questão de higiene. Há doenças, a terra fica contaminada...

MULDER: - Se saiu bem nessa, Scully. Quase que acreditei.

Scully faz uma careta. Bate à porta da casa. A porta abre-se, rangendo. Uma mulher os atende.

MULDER (OFF): - Entramos. Conversamos com a mãe do garoto. Ela disse que Nicholas nunca faria alguma coisa assim. O garoto não mentia pra eles e não teria motivos pra fugir de casa. Nem por uma mulher.


Corta para os Arquivos X.

MULDER: - Juro que naquele momento me lembrei da minha mãe. Eu também ‘nunca’ teria motivos pra morar sozinho, porque ela ‘aceitava’ minhas namoradas e minha vida... Então, eu e Scully voltamos pro motel. Estávamos de mãos vazias. Não havia pistas, testemunhos, nada. Apenas aquela frase na parede do banheiro. Scully verificou se alguém na cidade conhecia essa garota chamada Ashley. Mas ninguém conhecia.

KING: - O que eliminava a probabilidade dela ser da cidade.

MULDER: - Exatamente. Então verificamos o aeroporto, companhias de passagens, a rodoviária, locadoras de automóveis. Mas nada. A garota não existia. Então, só havia uma possibilidade: Ela havia entrado na cidade num carro próprio ou de carona. Tudo se complicava mais. Sabíamos que ela e Nicholas haviam estado no motel depois da festa. Mas pra onde foram, era um mistério. Voltamos pra Washington. O caso estava encerrado por falta de provas.

KING: - ...

MULDER: - Então, uma semana depois, a polícia encontrou o garoto. Estava morando sozinho, em outra cidade. Havia fugido de casa... Foi o que eu disse, as mães sempre sabem tudo dos filhos... Então voltamos pra interrogar o rapaz.

Corte.


Mulder anda de um lado pra outro, na sala de interrogatório. Nicholas o observa, assustado. Scully está sentada.

MULDER: - Então passaram a noite juntos, depois que saíram da festa.

NICHOLAS: - Sim, senhor.

SCULLY: - E depois?

NICHOLAS: - Depois eu larguei ela há uma quadra de sua casa. Ela me pediu pra não ir até lá, porque seu pai ficaria furioso se a visse chegar de manhã na companhia de um rapaz.

SCULLY: - E nunca mais a viu?

NICHOLAS: - Não. Fiquei apaixonado, voltei, tentei descobrir onde ela morava, mas nada. Tinha a jaqueta.

MULDER: - Que jaqueta?

NICHOLAS: - Estava frio e eu emprestei minha jaqueta pra ela. (SORRI) Pensava que assim eu poderia vê-la de novo, alegar que a procurei pra pegar a jaqueta.

Mulder sorri. Scully está séria.

MULDER: - Pode nos levar até o lugar onde a deixou?

SCULLY: - Pra quê, Mulder? Se a menina estivesse desaparecida, os pais já teriam dado queixa. É sinal de que ela está bem.

MULDER: - Sei, mas precisamos do testemunho dela, Scully. Ela precisa confirmar a versão. Os dois são menores perante a lei.

Mulder pisca pro garoto. O garoto sorri.

NICHOLAS: - Eu levo vocês lá. Se descobrirem onde ela mora, eu fico até agradecido.

Mulder sorri pro garoto.

MULDER: - Vamos lá, Nicholas. Vamos descobrir onde Ashley mora.

Scully sai da sala. Mulder olha pra Nicholas.

MULDER: - Me deve uma.

Nicholas sorri.

Corte.

Mulder dirige o carro. Scully ao lado dele. Nicholas no banco de trás.

MULDER (OFF): - O garoto nos levou até um bairro operário da cidade. Nos indicou onde havia deixado a menina. Então, eu e Scully, corremos de porta em porta, pra saber onde morava Ashley. O garoto estava empolgado. Dava pra ver que ficara doido pela menina mesmo.

KING (OFF): - E a encontraram?

MULDER (OFF): - Batemos no número 136. Um velhinho nos atendeu. Mostrei minha credencial e ele ficou muito assustado.

O velho olha pra Mulder e Scully.

VELHO: - FBI? Fiz alguma coisa de errado?

MULDER: - (SORRI) Não, senhor. Só estamos querendo informações a respeito de uma garota chamada Ashley.

VELHO: - Sabem o sobrenome?

MULDER: - Infelizmente não. Conhece alguma garota chamada Ashley pela vizinhança?

NICHOLAS: - (INTERROMPE) Ela é alta, magra, tem cabelos castanhos até os ombros e os olhos azuis.

VELHO: - ...

NICHOLAS: - Tem uma pintinha no rosto.

VELHO: - ... Que brincadeira é essa?

O velho fica nervoso. Volta pra dentro de casa. Traz uma foto.

VELHO: - E essa Ashley que procuram?

O rapaz pega a foto e observa.

NICHOLAS: - (SORRINDO DE FELICIDADE) Sim, é ela.

VELHO: - Impossível. Ashley era minha filha. Morreu há mais de 30 anos.

O velho fecha a porta na cara deles. Os três se olham apavorados.


Corta para os Arquivos X.

MULDER: - Descobrimos que Ashley Piermont tinha 16 anos quando morreu ao sair de uma festa, no mesmo clube que o rapaz a encontrou anos depois. Usava a mesma roupa.

KING: - ... O que um espírito faz quando se apega a matéria!

MULDER: - Na verdade, o rapaz nunca mais conseguiu ser o mesmo. Ele ficou meio fora da realidade, não conseguia entender como aquilo aconteceu. ‘Ela era tão real’, foi o que nos disse. Eu e Scully fomos verificar a sepultura da garota. Scully queria verificar se ela estava morta mesmo. Apesar de que eu disse: Scully, mas mesmo que estivesse viva, ela não teria 16 anos ainda! O rapaz não iria se enganar.

KING: - Abriram?

MULDER: - Abrimos. Vimos Ashley, o corpo já estava decomposto, existindo apenas os ossos. E o esqueleto vestia a jaqueta que o rapaz lhe emprestara naquela noite, depois que a deixou perto de casa.

King fecha o bloco de anotações. Recosta-se na cadeira.

KING: - Escrevo sobre ficção. Conheço a realidade mórbida que habita a mente humana.

MULDER: - ...

KING: - Somos loucos. Vemos o que as pessoas temem e brincamos com o inconsciente delas. Tento levá-las do que acham improvável ao fato de que possa ser provável, possa ser real.

MULDER: - Sabe qual das suas histórias me fascina? A Tempestade do Século. Sabe que é muito próxima da realidade? Acredito que algo assim possa acontecer.

KING: - Com um espírito maligno?

MULDER: - Não. Envolvendo alienígenas.

KING: - Interessante... Não havia pensado em alienígenas...

MULDER: - As pessoas em fila, se atirando ao mar, com suas crianças... Aquilo me deu medo. Muito medo. Porque está próximo da realidade do caus que está por vir.

KING: - Acha que os alienígenas roubarão nossas crianças?

MULDER: - Acho que os alienígenas tirarão nossa certeza de sermos os donos do universo e a única vida inteligente nele. Eles não roubarão nossas crianças. Nós, os homens, é quem fizemos isso. Roubamos nossas crianças todos os dias, quando lhe entregamos um mundo onde não há justiça, amor esperança, trabalho, confiança mútua. Um mundo sujo, uma gigantesca lata de lixo. Roubamos sua inocência, quando as despejamos ao erotismo bem antes da maturidade. Roubamos o seu direito de ser criança, porque todos os dias, em algum lugar do mundo, várias delas são vítimas de violência. E nós, não nos importamos. Nós roubamos o nosso futuro. Porque as crianças são o nosso futuro.

King levanta-se. Aperta a mão de Mulder.

KING: - Foi um prazer conhecê-lo, Fox Mulder. Mandarei o primeiro exemplar autografado.

MULDER: - E como vai seu livro pela Internet?

KING: - Andando.

MULDER: - Saiba que eu contribuí. Quero ver o final.

KING: - Nunca queira saber o final de nada, Mulder. O final é ilusório. Tudo na vida é uma engrenagem. O que nos parece o fim, é apenas o início da tempestade.

MULDER: - ...

KING: - O ideal é nunca dormir, nunca fechar os olhos. Porque se um dia você abrir seus olhos e conseguir ver todas as dimensões que nos cercam, o terror seria ironia. O muito seria nada. A vida seria morte. Se estamos pensando que estamos acordados, é porque isto tudo não passa de um pesadelo. Estamos dormindo. Só acordamos quando morremos. Só acordamos quando vemos o bizarro. Porque o bizarro e a loucura, são anjos negros que habitam na vastidão dos mistérios de nosso subconsciente. E isto, é o real. A fantasia é a vida comum e perfeita. Nossa ilusão do bonito, do belo. O terror é a realidade.

MULDER: - Não tenho medo ao saber que os mortos não podem se calar. O que tenho medo é do silêncio dos vivos.

King caminha até a porta. Vira-se pra Mulder.

KING: - Só mais uma pergunta.

MULDER: - Claro.

KING: - Como termina o final disso tudo? De vocês dois?

MULDER: - ... Nunca queira saber o final das coisas. Elas não terminam. A tempestade vem e a engrenagem não pára. O pesadelo parece se encerrar, mas na verdade, ele cresce, se alimentando da maldade e do medo e insistindo em bater na sua porta pela madrugada. O medo exaure a esperança. A felicidade é apenas um aviso de que as desgraças vem dobrando a esquina. Quer saber se eu me atiraria no mar? Não. Que o mar venha me pegar se realmente me quer.


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08/06/2000


5. August 2019 01:01:12 0 Bericht Einbetten 0
Das Ende

Über den Autor

Lara One As fanfics da One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X. https://www.facebook.com/laraone1

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