krishnagrandi Krishna Grandi

Enquanto decide seu almoço, Eva vai até a feira comprar limões. No meio do caminho, seus pensamentos sobre namorar Milena ou Felipe reaparecem e uma decisão precisa ser tomada. Publicado na Revista Paranhana Literário. Ed. Novembro. p. 67. 2021.


Kurzgeschichten Nicht für Kinder unter 13 Jahren.

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Kurzgeschichte
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A ESCOLHA DE EVA

Eva quis quebrar o espelho pela manhã, mas decidiu comprar limões para o almoço. Colocou um vestido listrado, rosa e azul, naqueles tons doces que estavam na moda. Limpou os pés antes de calçar a sapatilha florida e saiu pela porta de trás de sua casa. Enquanto descia a ladeira de Tristão Monteiro, admirou o quintal da Dona Rosa, com um pé de jabuticaba deliciosos que lhe deram água na boca. “Milena gostaria de comer jabuticabas hoje à tarde, acho que vou comprar jabuticabas para ela. O que ficaria bem com jabuticabas? Posso comprar também pipocas, aproveitar que o mercado ainda está aberto… Será que está aberto? Não lembro de ter visto as horas… Ah sim, preciso avisar Felipe que não estarei disponível para o jantar. Eu gosto quando Milena ajeita o meu cabelo rebelde, só que àquelas unhas dela… Às vezes machuca. E por que ela disse que não aguenta mais meus filmes do Almodóvar? Felipe assistiu a todos eles comigo e reclamou quando chegamos ao fim. Felipe… Não suporto seu bafo matinal. Parece que dei uma comida estragada para ele que apodreceu em seu estômago durante à noite. Vive reclamando dos meus temperos. Nossa! A Odete pintou a casa de novo. Essa cor cáqui combina mais com as grades brancas da sua casa. Por que reforma tanto essa casa? Será que eu vou envelhecer assim também? Paranóica com minha casa? Isso não faz sentido. Eu gostaria de ser uma senhorinha elegante. Dessas que andam com uma sacolinha de tricot, pronta para oferecer uma echarpe a um ombro destapado. Eu gosto dos ombros de Milena. Posso sentir o cheiro do protetor solar em seu pescoço. O granulado da areia em suas costas morenas. Milena e Felipe seriam um ótimo casal. Pena que Felipe é muito tapado. E eu fico me metendo, além disso. Não sei se sou boa com conselhos. Milena não olharia para mim com o mesmo olhar que admira Felipe. Aquele olhar de gata preguiçosa deitada ao sol. Ela tem um sorriso felino, com as bochechas coradas abrindo-se e mostrando os dentes amarelados e afiados. Seu nome é quase um miado também, será que eu consigo pronunciar Milena como um miado? Quanta besteira”. -Oii, Eva! Aqui!

-Ah, oii, tia! Não te vi aí na janela… Como foram os exames da Gabi?

-Vou ser avó! Estou tão feliz! Tá indo pra onde agora?

-Mercado… ou fruteira, na verdade...

-O mercado já fechou, já passa do meio-dia. Se der sorte a fruteira ainda está aberta.

-Preciso correr, então! Obrigada, tia! Aliás, suas roseiras estão lindas.

-Te dou uma muda depois. - “Avó! Não acredito que até a Gabi engravidou. E como a tia estava feliz com isso. Será que eu gostaria de ser avó? Uma senhorinha elegante com um netinho nos braços? Bom, acho que para isso eu precisaria transformar minha mãe em avó primeiro. Mas e eu? Seria uma boa mãe? Se nem como filha agrado… Que raiva da minha mãe. Aquele tom debochado insinuando que eu sou um caso perdido por ter sido demitida mais uma vez. Ainda mais agora que até a Gabi engravidou! Já não bastavam as comparações com ela na infância, vou ter que ouvir agora adulta? Mas se eu fosse mãe… Seria com Milena ou Felipe? Que cheiro delicioso de melão. Mas acho que os morangos já azedaram. Felipe sabe fazer um suco de melão com hortelã refrescante, quase receita de mãe. Não sei se aceito o seu pedido de namoro. Acho que se ficássemos juntos, daria mais orgulho para a minha mãe, que poderia sonhar em ser avó. E também ficaria feliz. Onde estão os limões? Como tudo está tão caro. Quando é que o preço das coisas vai diminuir? Se eu visitasse a Dona Rosa, será que ela me daria algumas jabuticabas para um suco? Ou para eu comer eles olhando o pôr-do-sol com Milena. Aliás, ela definitivamente não seria uma boa mãe. Não com aquelas unhas. Iria arranhar todo o bebê. Só que ela seria uma ótima parceira. Será que eu me declaro para ela hoje à tarde? Eu não sei como ela iria reagir." -Com licença, moço. Onde ficam os limões?

-Por ali, perto das mangas. - “Adoraria me casar com mangas bufantes. Um vestido romântico e longo. Rendado e único. Eu só não consigo enxergar um altar. Nem quem estaria ali. Será que vou ser uma solteirona como a Odete? E por isso vou viver reformando a casa? Se bem que a casa dela sempre tem visitas... Eu gostaria de ter amigos na velhice. Ou alguém para envelhecer junto. Achei os limões! Isso é mofo? Acho que os limões passaram um pouco. Como podem vender isso? Esbranquiçados desse jeito… Bom, mas acho que as mangas não estão tão boas também… Vai ter que ser melão mesmo. Hortelã eu tenho em casa. Felipe… Poderia chamar ele para almoçar comigo. Entretanto ele pode interpretar isso como um “sim” ao seu pedido. E ainda teria a janta mais tarde e eu não queria jantar com ele… É íntimo demais. Bom, mas eu preciso ligar para ele de qualquer jeito e desmarcar o encontro.” - Seu troco, moça!

-Obrigada. - “E assim eu deixaria claro que é um “não”. Só tenho medo de magoá-lo. Acho que eu poderia alertá-lo sobre os sentimentos de Milena. Porque se eu aceitasse o pedido dele, ela ficaria magoada. E se eu falasse a ela meus sentimentos, ela ficaria confusa. E ninguém sairia ganhando. Acho que finalmente uma coisa fez sentido no dia de hoje. Pena que não tinha bons limões. Eu gostaria de tomar uma limonada. E mais tarde uma caipirinha. Está tão quente. Estou cansada desses dois, na verdade. Não sei como me meti nessa. Meus pés estão suados. Essa sapatilha não é muito boa, vai dar chulé. Vou ter que deixar no sol depois. As roseiras da tia são realmente muito bonitas. Ela deve estar lá pra dentro agora. Que bom que está feliz. Eu não consigo me imaginar grávida agora. Não desempregada… Será que eu vou encontrar algo que me faça feliz? A sacola está suando na mão. Minhas pernas estão doendo, é mais fácil descer a ladeira do que subir. E nessa cidade não tem nenhum vento. Só queria uma brisinha." -Eva!

-Sim? Ah, oi, Odete!

-Sua mãe me falou que estava por aqui novamente. Não deu certo lá, né?

-Não muito… Quer dizer…

-Não precisa se explicar, acontece mesmo. Toma, fiz biscoitos. Come alguns e leva esses tomates para a sua mãe. Boa sorte.

-Obrigada. -”Acho que a casa dela ficou horrível. Agora, olhando mais de perto. Sinceramente, o que ela quis dizer com “boa sorte”? Desagradável. Eu não gosto de biscoitos. Acho que ela nem sabia direito onde eu estava. E não precisava me lembrar que eu voltei. Eu não queria ter voltado. Por que eu fui cometer um erro tão idiota que resultou na demissão? Estou cansada dessas pessoas. Eu nem ligo tanto para a gravidez da Gabi também. Garota estúpida. E mesmo sendo assim, ainda foi capaz de trazer alegria pra tia. E eu? Sou a que deu errado. Não sei de quem eu gosto. Não sei com o que quero trabalhar. Não sei nem para onde ir. Só sei que aqui não é o meu lugar. Nesse bairro antigo. Nessa cidade quente. Que cheiro é esse? Nossa, esse cheiro delicioso de feijão da Dona Rosa. Eu preciso almoçar."

-Dona Rosa!

-Eva, querida! Há quanto tempo!

-Queria saber se pode me dar algumas jabuticabas para fazer um suco.

-Eu mesma fiz um suco agora, vamos almoçar. Entre, querida!

-Não vou atrapalhar?

-Jamais, estava com muitas saudades! Entre, vamos. Quero saber das suas aventuras por Santa Catarina.

-Na verdade, queria apenas as jabuticabas.

-Estão bonitas mesmo, vou pegar um pote para você. - “Dona Rosa sempre foi mais atenta ao que minha mãe falava. Eu gosto da casa dela. E esse cheiro de feijão, parece que sinto o gosto na boca. A casa dela era confortável, não era uma mulher de chamar atenção, mas era muito querida na vizinhança. Acho que gostaria de ser um pouco como ela. Dona Rosa tinha mãos habilidosas." -Aqui, querida!

-Obrigada… Posso te fazer uma pergunta?

-Bom, se eu souber como responder, acho que posso te ajudar.

-Como eu sei se eu dei certo na vida?

-Andou pensando demais, pelo visto… Olha, querida… Você não vai saber. Nem eu mesma sei o que é dar certo ou não. Hoje eu acertei no feijão, cuidei bem do pé de jabuticaba, mas quebrei um copo lavando a louça. Minhas mãos estão ficando velhas, sabe? São pequenos sinais… Veja os seus. E não se importe muito com a vida dos outros. Coloquei aí no pote alguns limões que sobraram aqui, mas ainda estão bons. Vá fazer o seu suco de jabuticaba, tá? Até mais, querida. - “Meu suco de jabuticaba? Posso colocar hortelã nele? Eu deveria tentar mesmo. Eu nem queria melão… Não sei porque eu comprei, se eu queria limões. Que sorte ter conversado com a Dona Rosa. É uma boa amiga para a minha mãe. E ainda vou poder fazer a minha limonada. E depois uma caipirinha. Não sei porque quero chorar. Preciso ligar para o Felipe."

Eva entrou pela porta da frente de sua casa. Tirou as sapatilhas e andou pelo piso frio, deixando as marcas de seus pés suados. Colocou as sacolas em cima da mesa e pegou o telefone. Entre lágrimas ligou para a Milena:

-O Felipe não te ama. Eu é que te amo!

12. Januar 2022 17:46:38 2 Bericht Einbetten Follow einer Story
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Das Ende

Über den Autor

Krishna Grandi Sou escritora, atriz e publicitária. Gosto de escrever sobre tudo um pouco, mas tenho focado em escrita erótica, contos de terror/horror e comédia. São os meus favoritos. Quero fazer amigos, contatos e parcerias. Um beijo.

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Hillary La Roque Hillary La Roque
Olá! Faço parte da Embaixada brasileira do Inkspired e estou aqui para lhe parabenizar pela Verificação da sua história. Acho que foram poucas as vezes em que li algo tão gostosinho. Sua escrita é maravilhosa, fluída, e nos faz viajar na vibe da história com tanta facilidade. Foi realmente ótimo acompanhar um dia na vida de Eva, com seus autos e baixos, enquanto refletia sobre as próprias questões, ao passo que reparava no mundo à sua volta. A forma como cada linha de pensamento foi narrada e detalhada, — assim como as descrições dos outros personagens que surgiam, as situações e ambiente, — que trouxe um ar muito realista ao conto. É como se eu estivesse lendo os pensamentos de uma pessoa real, enquanto eles ocorrem; com suas mudanças repentinas influenciadas pelas interações e pelo cenário, ainda assim voltando para o ponto inicial; o problema principal que martela em sua mente. É incrível como conseguiu retratar com tanta fidelidade a constância e inconstância da mente, os acessos de raiva, satisfação, entre outros sentimentos. É quase impossível não se identificar com a personagem. No fim das contas, após tanta reflexão, — tantos pensamentos conflituosos, — ela acaba tomando uma atitude em um momento de emoção, após uma breve conversa com Dona Rosa, uma senhora super simpática. Gostei de ela ter arriscado, contando seus verdadeiros sentimentos, e também revelando outro fato importante. Tirou um peso dos ombros e abriu os olhos de alguém. Agora eu gostaria de fazer alguns pequenos apontamentos, apenas para ajudar seu conto a ficar ainda mais gostoso de se ler. Logo no primeiro parágrafo, você escreve “colocou o vestido” e “colocar a sapatilha”, substituir “colocar” por “calçar a sapatilha” deixaria esse relato mais interessante, o mesmo vale para outras palavras e frases, que podem ser expressas de diferentes formas, todavia com o mesmo sentido. Aumentar o leque de palavras torna o texto mais rico e prazeroso de se ler. Em segundo, temos: “Milena gostaria de comer jabuticabas hoje à tarde, acho que vou comprar jabuticabas para Milena, o que ficaria bem com jabuticabas?” aqui, o que eu sugiro é trocar o último “Milena” por “ela”, já que, como já foi deixado claro que aquela afirmação se referia à moça, então não há a necessidade de repetir o nome dela nesse mesmo relato, ainda mais em um intervalo tão curto; outro ponto é substituir a última vírgula por um ponto, indicando a finalização de determinado raciocínio, enquanto inicia o próximo com relação direta ao anterior. No fim das contas, o resultado seria este: “Milena gostaria de comer jabuticabas hoje à tarde, acho que vou comprar jabuticabas para ela. O que ficaria bem com Jabuticabas?”. Para mais dicas, recomendo que visite o nosso blog do Esquadrão da Revisão, aqui mesmo no Inkspired, e conferir as novidades e tópicos que certamente lhe ajudarão a se aprimorar cada vez mais. Ademais, quero apenas elogiar seu lindo talento, e o belo trabalho que fez nesse conto. Fiquei até com vontade de tomar os sucos que a Eva tanto descrevia, pareciam deliciosos – risos. Sua escrita é realmente muito bonita. Você tem um potencial e tanto. Por aqui eu me despeço. Lhe desejo sucesso com este projeto e com os próximos; e que prossiga se refinando e enriquecendo dia após dia, e que continue compartilhando mais do seu potencial conosco. Até a próxima! Abraços.
January 21, 2022, 02:13

  • Krishna Grandi Krishna Grandi
    Oiie!! Obrigada pelo seu comentário! Vou considerar alguns apontamentos seus e ajustar no texto. Sinta-se à vontade para ler outros textos meus por aqui! Se cuidaa, bjbjbj January 24, 2022, 16:21
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