Kurzgeschichte
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Capítulo Único

Natal e Trincheira


Nada havia de novo no Front Ocidental.

O jovem Wilhelm, abrigado junto com seus companheiros de armas na vasta trincheira, protegia-se como podia do frio do inverno. A neve caía em pequenos flocos aquela noite, mas a sensação gelada que cada uma daquelas míseras partículas causava sobre a pele do soldado equivalia a uma bomba. Vestia uniforme agasalhado, ainda que não tanto quanto queria. O sopro congelante trazido pelo vento, porém, somado ao capacete de metal em sua cabeça com uma ponta em seu topo parecendo uma lança, e o fato de estarem num buraco cavado no meio da terra, não favoreciam muito a luta contra a baixa temperatura. Embate que, por mais incrível que parecesse, vinha se mostrando mais penoso do que a guerra contra os ingleses: em relação a eles, mantinham um impasse de dias nas trincheiras sem que um lado disparasse contra o outro. Já a neve, por sua vez, não dava qualquer trégua.

Atordoado pelo nervosismo constante da frente de batalha, Wilhelm havia se esquecido por completo de que dia era – e apenas se lembrou quando viu, de relance, um grupo de colegas montando uma árvore de Natal a alguns metros à sua direita, em plena trincheira. Acendiam nela velas e, a julgar pelas chamas bruxuleantes que surgiram, na forma de diminutos pontos luminosos, ao longo de toda a linha de frente, era de se concluir que a celebração da data era feita por boa parte da tropa germânica.

É, era Natal. E o infeliz Wilhelm estava metido num maldito fosso belga, pronto para disparar contra os "Tommy" que ousassem dar o ar de sua graça na trincheira logo adiante, enquanto sua família estava comemorando na casa bem aquecida que tinha em Frankfurt, bebendo uma boa cerveja. Os combatentes mais animados começaram a cantar músicas características da ocasião, louvando o nascimento do Deus Menino:

Alle Jahre wieder kommt das Christuskind…

Wilhelm admirava a força de vontade daqueles homens, capazes ainda de comemorar mesmo numa situação tão adversa. Perguntou-se, também, se não seria de se lamentar sua burrice. Em plena guerra, celebravam o Natal como se estivessem em suas salas de estar na terra de origem, esquecendo-se completamente da proximidade do inimigo e de que ele poderia atacar a qualquer momento – ainda mais tomando conhecimento da crescente distração em que se envolviam. A cantoria aumentou, as luzes se espalhavam. E o recruta sentiu um frio na espinha, ainda maior que o proporcionado pela neve, quando ouviu seus companheiros começarem a gritar para a linha inglesa a metros de distância:

- Merry Christmas, Tommy!

"Droga!", pensou Wilhelm consigo, dando conta de que os integrantes do batalhão que sabiam inglês, ao invés de usarem tal conhecimento contra o inimigo, utilizavam-no para que este se certificasse de que a trincheira alemã entregara-se mesmo à festa, largando as armas. Trêmulo tanto de frio quanto agora de temor, o jovem soldado apoiou seu rifle sobre a borda do fosso, agarrando-o firmemente e tentando em vão sentir-se mais seguro. Os britânicos atacariam a qualquer momento agora que os compatriotas de Wilhelm haviam dado claro sinal de que não reagiriam. Sua real vontade, no mais íntimo de seu ser, era celebrar com eles, mas o instinto de sobrevivência falava mais alto. Enquanto eles se perdiam em melodias e cumprimentos, caberia a ele atirar contra a primeira cabeça de Tommy que se erguesse da trincheira.

E ela logo subiu; a face de um rapaz da mesma idade que Wilhelm, inclusive também loiro, surgindo com a boca aberta numa expressão de incredulidade – olhos fixos na frente germânica. O primeiro a notar os devaneios dos inimigos. Algo, no entanto, impediu que o vigia alemão disparasse: ou seu dedo fora congelado junto ao gatilho, ou seu ímpeto de defesa não era assim tão firme quanto pensara. Praguejou baixinho em sua língua natural, vendo o rosto do oponente abaixar-se e sumir... enquanto mais ao longe, atrás do observador que se surpreendera com a confraternização dos alemães, alguns outros soldados ingleses aparentavam cochichar agitados entre si, provavelmente comentando o que ocorria.

Wilhelm começava a se desesperar. Logo seriam inimigos demais para abater com sua arma de limitadas munição e mira. Bem distantes, clarões de projéteis de artilharia eram vistos, emitindo estrondos. O pesado impacto dos obuses aparentava prenunciar o que logo teria palco junto àquelas trincheiras...

A cabeça do primeiro Tommy reapareceu, junto com a de outros dois, quatro, seis... Logo, mais de dez britânicos haviam erguido as testas para cima do buraco, fitando fixamente os germânicos. Era possível sentir o medo que antes tinham em relação ao inimigo aos poucos se esvair – apesar de seus olhos arregalados ainda evidenciarem espanto.

Aqueles alemães estavam perdidos.

Mantendo o rifle apontado, Wilhelm, todavia, continuava vendo-se incapaz de reagir – fosse por temor ou por uma inexplicável incerteza. Era como se algo, no mais profundo de sua mente, insistisse para que aguardasse. Sua ansiedade explodiu quando os ingleses se levantaram do fosso, transpondo sua beirada e avançando de pé pela "terra de ninguém", por certo tão seguros de sua vantagem que nem mesmo se preocupavam em evitar as balas inimigas abaixando-se. Nessa altura, as mãos do jovem de Frankfurt já tremiam como nunca junto à arma, incapazes de manejá-la. Não havia o que fazer. Fechando os olhos, Wilhelm fechou os olhos, caindo sentado no meio da trincheira enquanto aguardava os primeiros disparos por parte dos ingleses...

Foi quando ouviu, misturados aos passos daqueles que se aproximavam pela neve, inesperados gritos vindos do lado britânico:

- Merry Christmas, Fritz!

Abriu os olhos, confuso. Erguendo-os, encontrou os Tommy já junto à beirada da trincheira alemã, fitando sorridentes os membros do exército adversário – ainda que alguns dos recém-chegados demonstrassem tanta insegurança quanto Wilhelm. Aquele que parecia liderá-los, um tenente de espesso bigode, trazia uma garrafa de vinho embaixo do braço. Comandados acompanhavam-no de perto com velas, comida e até mesmo uma bola de futebol.

- Com licença... – o dito oficial falou, arranhando um alemão cheio de sotaque. – Não pudemos deixar de notar que vocês estão comemorando o Natal... Será que poderíamos fazer uma trégua por esta noite e participar?

Os combatentes alemães, por sua vez, acolheram os inimigos com alegria. E Wilhelm, finalmente calmo, recebeu um soldadinho de chumbo de presente do jovem britânico loiro que tanto se parecia consigo...

23. Juni 2020 02:14:29 0 Bericht Einbetten Follow einer Story
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Das Ende

Über den Autor

Luiz Fabrício Mendes Goldfield, alcunha daquele em cuja lápide figura o nome "Luiz Fabrício de Oliveira Mendes", vaga desde 1988. Nasceu e reside em Casa Branca - SP, local que se diz ter sido alvo da maldição de um padre. Por esse motivo, talvez, goste tanto do que é sobrenatural. Atualmente é professor de História, mas nas horas vagas, além de zumbi, se transforma em agente de contra-espionagem, caçador de vampiros, guerreiro medieval, viajante do espaço ou o que quer que sua mente lhe permita escrever.

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