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Alex Lorenzo


A princesa Raven é a prometida do cavaleiro Luvith, favorito e sobrinho do rei. Num baile do castelo, o cavaleiro revela sua verdadeira face. O chacal é um conto de trama medieval que mostra o quanto é possível se enganar com as pessoas.


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Kurzgeschichte
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Raven e Luvith

No vale Drumphi, próximo ao castelo Garandir, existiam chacais. Peregrinos e grupamentos de soldados evitavam atravessá-lo. Muitos acreditavam que os chacais eram criaturas amaldiçoadas, pois são ladinos, astutos e certeiros. Então, quando a prometida de um homem o rejeitava, dizia-se que o ódio da rejeição o transformava em um chacal, e um dia, um dia, ele voltaria...


***


As comemorações do início da primavera eram inauguradas com um grande baile, com toda a nobreza presente. Todos participavam desse evento de classe, no entanto, as comemorações extrapolavam. No decorrer do baile, os jovens tornavam-se mais barulhentos, depois que os convidados mais velhos e as crianças saíam. A bebedeira aumentava. As brincadeiras envolviam beijos ousados e as danças ficavam estonteantes. Com a chegada da madrugada, casais fugiam para lugares ermos do castelo, galerias ou lugares fora do alcance das luzes das lamparinas.

Em certo momento, Luvith e Raven, ao passarem dançando por um corredor longo, depararam-se com um casal abraçadinho, de modo tão íntimo, que Raven apressadamente desviou seu olhar, porém Luvith levou-a para uma das galerias.

— Raven, você já me está prometida. Puxou-a para seus braços, apertando-a de encontro ao seu corpo. — Sabe o que desejo de você minha prometida esposa? — A boca do rapaz comprimiu a da moça. Quando ela se virou para respirar, retrucou baixinho:

— Não, Luvith, não e não.

Ele pôde perceber o pânico crescendo através das expressões do belo e simétrico rosto. Tentando manter-se calma acrescentou:

— Conformei-me com esse casamento, Luvith. Honrarei a vontade de meu pai, prometo-lhe. Mas não agora, não nesse lugar!

Luvith sentiu-se rejeitado, magoado. Nenhuma mulher o houvera recusado de modo tão veemente, pelo contrário, ardiam de desejo por ele. Ele já havia possuído muitas criadas, filhas de nobres conterrâneos e de esposas de estrangeiros que se hospedavam no castelo. Além disso, era o cavaleiro favorito do rei e agora a própria filha do monarca o rejeitava?

— Dê-me um tempo. Esta noite não. Não estou preparada.

— Você é minha prometida esposa, por que foges de mim como se eu pretendesse violá-la?

— Sempre me disseste que jamais me machucaria ou magoaria, mas isto só é válido quando concordo com tudo aquilo que pretende de mim?

— Quero antecipar nosso casamento.

— Não, de forma alguma. Preciso estar preparada e durante este período vou conseguir.

— E se seu pai mudar de ideia? Seu irmão pode envenenar a mente dele contra mim e o rei pode mudar de opinião e entregar-te para o favorito de seu irmão. Arzur nutre paixão doentia por ti, bem sabes disso.

— Como ousas dizer algo assim de meu irmão! O príncipe Justin, e seu protegido Arzur jamais tramariam contra mim? — A ruiva de olhos verdes indagou furiosa, percebendo que o último nome que pronunciou ativou as reservas de raiva do moreno de olhos castanhos.

— Veja só como se preocupas com a dignidade dele, daquele falso e covarde!

— Não se refiras dessa maneira ao gentil cavaleiro de Garandir! A polidez e a inteligência dele sempre te incomodou! Seu ciúme é incabível! — Protestou com veemência.

— Falarei como bem entender e não será uma mulher que me proibirá de fazê-lo!

— Luvith, você está bêbado. Quem fala é o vinho. Por favor, retire-se.

— Não pode falar assim comigo!Sou o sobrinho do rei, cavaleiro condecorado, futuro general de seus exércitos.

Um breve silêncio seguiu-se, parecia que Luvith recobrava sua compostura, mas seus pensamentos o entorpeciam: “Como ousa ela recusar-me?” Não seria rejeitado como fora pela sua mãe ao nascer, aliás, mulher nenhuma o ignoraria. Ele não cederia aos caprichos de uma jovem que fora mimada por toda a vida. Luvith a teria nem que fosse à força. Num movimento brusco, arrastou a delicada e esbelta princesa para uma galeria mais isolada e iluminada por poucas lamparinas. Novamente, comprimiu seus lábios com o dela, ignorando sua luta. Uma mistura de raiva e desejo dominava cada parte de seu corpo. Ela debatia-se em seus braços, num pânico crescente, excitando-o cada vez mais.

— Luvith, não... Oh, por favor, por favor...

O moreno a manteve presa espremendo-a de encontro à parede, sabendo que a força que exercia em seus pulsos dominados a estava machucando.

— Então, vamos para o meu quarto! Não me obrigues a forçá-la!

Ele queria que ela o desejasse ardentemente do mesmo modo que ele a almejava, porém a princesa estava ali, brigando e debatendo-se. Já que ela não cooperava, ele começou a rasgar seu vestido de gala sob os gritos da princesa.

Uma mão pousou sobre o ombro do rapaz e afastou-se em seguida.

— Luvith, você está embriagado, completamente fora de si. — Arzur fitou-o consternado.

— Vá para o inferno, seu tolo!

— Fui criado com Raven desde os oito anos e não admito que faças isso com ela, sequer tem seus direitos como marido, pois ainda não estão casados. Não permitirei que ela seja violada.

— Pensas que não sei sobre você e meu primo? O que acha do rei saber que seu filhinho Justin não dará a ele um herdeiro legítimo por não se importar com as mulheres. Ao contrário dele, me importo muito, minha virilidade é conhecida em todo o reino. Eu deveria ser filho do rei George, não aquele fraco!

— Suas palavras refletem loucura. Pensei que todos nós fôssemos unidos pelos laços do amor fraterno, mas pelo jeito, enganei-me ao seu respeito. A bebida é às vezes reveladora...

— Vá para o inferno! — Luvith atirou-se com violência contra Arzur de punhos fechados, derrubando-o e sentado em seu tórax, socava-o no rosto.

Atraído pela gritaria da irmã, o príncipe Justin localizou-os e agarrou o agressor por trás, fazendo um movimento para cima.

— Não, você não fará isto, Luvith! — Ele conseguiu imobilizar, por instantes, o agressor.

— Ela é minha prometida esposa... não tem o direito de me rejeitar. Acho até que ela estava gostando, antes de vocês chegarem e atrapalhar nosso romance. — Luvith riu, bêbado e fora de si, instigado pelos seus impulsos mais primitivos.

Justin não conseguiu mantê-lo imobilizado e acabou liberando-o, mas falou com toda força: — Seu bastardo desgraçado!Tentando conseguir pela força aquilo que não consegue com sedução e consentimento!

Luvith enfureceu-se ao ouvir ser chamado de bastardo. A verdade é que seu falecido pai, irmão do rei, teve um caso de paixão com uma criada e Luvith foi fruto dessa aventura. Nada o fazia sentir-se mais humilhado do que ser chamado de bastardo, principalmente quando a palavra saía da boca de seu primo Justin. Luvith arrancou o punhal da bainha.

— Você, seu sodomita maldito, não se atreva a proferir essa palavra.

— Não! — Arzur,que se recobrava dos socos que levou no rosto, agarrou o pulso de Luvith. — Estás ficando louco? Desembainhando um punhal diante do príncipe e ameaçando-o? Perdeu completamente o juízo!

— Solte-me, seu nojento, amante de rapazes! Vão se arrepender! — Luvith arremeteu um golpe em Arzur que conseguiu esquivar-se e atracou-se com ele. Ambos caíram no chão, rolando; o moreno tentou feri-lo, enquanto o jovem ruivo esforçou-se para imobilizá-lo. Arzur deu um golpe, procurando jogar o punhal para o lado, na intenção de meter o joelho entre ele e a lâmina da arma de Luvith que já descia. O protegido do príncipe apostou toda sua força contra a mão que segurava o punhal e conseguiu rasgar a carne do braço de Luvith. Aproveitando a direção do próprio golpe, o protegido do rei pode redirecionar o punhal até cravar fundo na coxa de Arzur, bem próximo à virilha. Ele gritou de modo estridente, sentindo a perna amortecida. O príncipe Justin, que inicialmente teve forças para imobilizar Luvith, sentiu-se impossibilitado e temeroso de confrontar-se com ele depois que viu o punhal.

Diante do estardalhaço, doze guardas do rei chegaram e separaram os confrontantes. O olhar da donzela não era só de pavor, mas também de nojo. Raven tinha reservas quanto ao seu primo, a verdade é que Luvith tratava as mulheres com certo desprezo, escárnio e superioridade, embora fosse considerado por elas o rapaz mais atraente do reino. Os guardas imobilizaram Luvith que foi trancafiado em seus aposentos até que o evento chegasse aos ouvidos do rei e ele julgasse o desastroso ocorrido.

Poucos dias se passaram, uma decisão urgente deveria ser tomada dada a repercussão do malfadado baile. O dia chegou em que ele estava no salão principal diante do monarca.

— Muito bem, Luvith Von Dharrimel, o que tens a dizer em sua defesa? — Perguntou o rei George com uma expressão de decepção e indignação.

— Meu rei e senhor, Vossa Majestade me promoveu no exército como oficial superior pelas minhas qualidades como soldado. Lutei ao seu lado e o livrei de uma possível morte quando coloquei meu corpo entre uma flecha encomendada para o senhor. Trago em meu corpo a cicatriz dessa façanha depois de agonizar por meses, ardendo em febre, entre a vida e a morte.

O rei George abaixou a cabeça. A verdade é que seu sobrinho era capaz de dar a própria vida pela do rei. O tio o educara como a um filho.

— Jamais agrediria meu primo e herdeiro do trono e o protegido dele se não estivesse sob o efeito do vinho forte.

— Estás mentindo. Sempre quis tomar meu lugar. Suas palavras foram claras, o vinho a revelou. — Interrompeu o príncipe Justin.

— Diga-me! Retirou seu punhal em direção ao meu filho?

— Sim, meu senhor, eu o fiz movido pelo ímpeto.

— Então, Arzur interveio.

— Sim, meu rei. Nós nos atracamos e eu o feri.

Com um gesto o rei mandou trazer o cavaleiro.

— Veja, Luvith.

Arzur entrava amparado por um cajado prateado.

Fez-se um grande silêncio no salão principal.

— Eis, a consequência de sua bebedeira. Além de tentar violar minha filha. O jovem cavaleiro a sua frente jamais poderá andar novamente sem amparo. Sua perna está dura como pedra.

Luvith ainda não sabia disso e ficou penalizado com a situação daquele em que outrora chamava de amigo e com quem cresceu junto.

— Lamento. Sinceramente lamento. — Luvith evitou encarar Arzur.

— Ter salvo minha vida — o rei começou a pronunciar a sentença — não lhe dá o direito de querer possuir minha filha à força.

— Ela é minha prometida. Não tinha o direito de recusar deitar-se comigo.

— Ela era sua prometida, não é mais.

— Como rei, sabes que não podes voltar atrás em sua promessa, empenhou a sua palavra tem que cumpri-la.

— Basta! Sua presunção me impressiona! Ajoelhe-se para ouvir minhas razões e minha sentença!

Luvith ajoelhou-se diante do rei.

— Um noivado não é um casamento e por isso não podes obrigá-la a deitar-se com a noiva. Sua atitude foi de transgressão ao querer forçá-la, ao ameaçar o príncipe herdeiro e lesar definitivamente um honrado cavaleiro do reino. Então, eu o sentencio ao exílio por sete anos. Viverás de sua espada. Como o chacal, a solidão será sua companheira. Viverás escondido durante o dia e à noite terá que buscar alimentos fora das terras desse reino.

— A sentença é pesada demais! Isto é injusto, meu senhor! — Luvith sentiu-se ultrajado, esperava perder sua posição na corte, mas ser banido e ser comparado a viver como chacal para as pessoas daquele reino, soava como uma maldição.

— Se você tem idade suficiente para se comportar como homem e, acrescente-se, homem depravado; pode muito bem suportar a sentença. Estimei-lhe como filho e quando cresces vejo que não passa de um chacal mordendo meus calcanhares! Dou-lhe três dias para partir para o exílio e se for visto vagando em nossas terras, terás a sentença de morte!

O silêncio absoluto do salão parecia palpável. Luvith ergueu-se com o rosto ardendo de raiva.

— Não me verás nem daqui sete anos, ou sete vezes sete! Que os deuses nos permitam que nos encontremos frente a frente numa batalha quando estiver protegido por apenas esse seu filho fraco!

Luvith olhou pela última vez para Raven que desviou o olhar. Jamais imaginaria ser rejeitado daquela forma. Seu orgulho fora completamente destroçado e em seu coração nasceu o ódio.

— Partirei, pois não tenho alternativa. O senhor comparou-me ao chacal, pois então serei um. Durante todos os dias, no decorrer de sete anos, esse castelo sempre ouvirá o uivo do chacal, um grito longo e estridente como se fosse de um homem que sente uma dor inimaginável. Então, os olhos de Luvith procuraram os de Raven que sentiu um tremor por todo o corpo — voltarei e a terei, quer ela queira ou não.

Girou sobre os calcanhares, abandonou o salão e as portas fecharam-se atrás dele.


***


Durante as noites de primavera, no castelo Garandir, por todo vale de Drumphi, ouvia-se o som abismal de um coro de chacais. Para as crianças, nos aposentos ou em volta das fogueiras, era contada a história do sobrinho do rei que se transformou num chacal e que um dia retornaria para assenhorar-se da princesa Raven...

20. Mai 2020 23:40:13 0 Bericht Einbetten Follow einer Story
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Das Ende

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