needdep Eduardo de Paula

Ponto estratégico para o recolhimento da heroína que chega do oriente pelo mar, aquela pequena cidade perdida entre San Francisco e Los Angeles passa a ser palco de uma batalha espiritual por algo que está muito além da compreensão de sua sociedade decadente. O mal havia se disseminado por todos os cantos, minando aos poucos toda a noção de humanidade de uma gente que parecia ter sido isolada do resto do mundo. Era o lugar de um outono eterno, onde forças incompreensíveis aguardavam o momento certo para instalar definitivamente o inverno mais tenebroso. Faltavam umas poucas folhas a serem derrubadas e o mal já sabia onde encontrá-las.


Romantik Romantische Spannung Alles öffentlich.
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831 ABRUFE
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A Luz

A simples visão daquele pedaço da cidade inquietava Raul, a ponto de o fazer perder a noção da realidade. Passar por ali era como atravessar as portas do inferno. O cheiro pútrido do mal enchia suas narinas a ponto de quase o enlouquecer. Em sua mente podia ouvir as vozes daquele lugar, com seus gritos desesperados, gemidos lamurio­sos ou sussurros lascivos.

Aquela cidade aparentava ter vida própria e o seu destino pare­cia independer de qualquer um que passasse por ali. Era um lugar podre antes dele, continuou podre com ele e após seu afastamento nada havia mudado. Era um sorvedouro de almas, perene e inabalá­vel. Enfim, precisava fazer aquele caminho outra vez.

Resignado, acoplou seu novíssimo e recém lançado smartphone no som do carro. Diziam que aquilo tirava fotos, acessava a internet, mandava e-mails e esquentava tanto que dava até para fritar um ovo. Ele mesmo, até então, só tinha usado para falar ao telefone e ouvir músicas. Seguindo a rotina, deixou tocando ali uma coletânea com algumas canções bem tranquilas.

Aquilo abafaria os sons de sua mente e a redirecionaria para outro lugar. O problema é que até podia enganar os ouvidos, mas não tinha como ludibriar a visão. Ao menos, não enquanto dirigia. Para atrapalhar mais ainda, como sempre, o maldito semáforo o pegou. Um sinaleiro inútil que, na prática, servia apenas de ponto de assédio aos que ali trafegavam na correria do dia a dia.

Pequenos traficantes, prostitutas, mendigos, pedintes, vigaris­tas e toda a escória daquele submundo esperava apenas por uma chance de ganhar a noite em um único lance. Por sorte o dia ainda não havia findado e com luz natural aqueles seres não se propagavam com tanta intensidade.

Ainda assim, não pôde deixar de notar a criatura deslocada na calçada. Não estava vestida indecentemente e pelo ar juvenil até poderia enganar um ou outro mais desatento, mas com certeza era uma prostituta. Tampouco era iniciante. Não a havia visto antes e certamente era nova na cidade. Tentou ignorá-la, mas não pôde.

As luzes. Elas não estavam lá.

As malditas luzes que emanavam de todos os seres, quase sempre pálidas e tênues, não irradiavam daquele ser. As luzes que o atormentavam em todos os momentos de sua existência, fazendo-o sentir-se mais louco do que já era. Dela não emanava absolutamente nada. Era como se estivesse morta...ou então...era como ele via as pessoas antes de tudo mudar em sua vida.

Tentando ignorar o desenfrear de seu ritmo cardíaco, pensou estar curado das alucinações. Rapidamente buscou a confirmação de tal constatação nas outras pessoas que transitavam por ali, vendo sua fugaz alegria se desvanecer bruscamente. Indiferentes ao seu pesadelo, todos os demais permaneciam exatamente do mesmo jeito.

O súbito choque e o brusco retorno à sua realidade o deixaram hesitante. Seus olhos ainda estavam cravados naquele ser. Em outra ocasião tentaria entender aquilo tudo, mas seu mundo já estava de pernas para o ar. Não fazia sentido revirá-lo ainda mais.

Relutante, tentou tirá-la de seus pensamentos, ficando a olhar para o semáforo. Esperava impacientemente que ele lhe franqueasse logo a passagem. Observou-a mais uma vez, no exato instante em que ela lançava um sorriso, tão jovial quanto insinuante, para o motorista do carro parado à sua frente.

Aquilo a tirou de sua mente. Era só mais uma prostituta, como outras que haviam passado por sua vida. O que a diferenciava das demais, além da inexplicável ausência da luz, era o fato de ser muito jovem e bem vestida. A beleza extraordinária não poderia ser levada em consideração, pois o make que ela ostentava era coisa profissional.

Ainda absorto, assustou-se quando um acontecimento estranho o retirou da divagação. Um carro havia passado por sua esquerda e atravessado o sinal vermelho, numa velocidade imprudente demais para o local. Inexplicavelmente, logo adiante, ele freou bruscamente, chegando a fritar os pneus antes de encostar junto à calçada.

O fato de ele infringir as regras de trânsito, parando poucos metros à frente, chamou sua atenção. Aquilo, porém, não foi nada se comparado com o cheiro horrendo da morte a se instalar em sua mente. Nem precisou ver quem iria descer do veículo, pois já sabia. Sabia inclusive o que aconteceria em seguida, o que era confirmado pelo pânico contido que se instalou em todo o ser daquela jovem.

Tinha poucos segundos para tomar uma decisão. Chegou a dizer “não” para si mesmo. Em sua mente, porém, as imagens de como aquilo acabaria o fizeram reagir. Abriu a porta do passageiro de seu veículo e convidou a garota, com apenas um olhar, se maldizendo repetidamente por estar se metendo naquilo.

Fingindo serenidade, ela caminhou os poucos metros até onde ele estava, visivelmente contendo a vontade de o fazer correndo. Entrou no carro e com as mãos trêmulas fechou a porta, no mesmo instante em que os dois ocupantes do outro veículo desembarcavam, olhando em direção a ela.

Naquele momento o semáforo liberou sua passagem e o carro foi colocado em movimento. Os dois capangas do dono do crime daquele lugar ficaram se entreolhando, como se não acreditassem em sua ousadia. Pelo retrovisor viu os homens embarcando rapidamente e resolveu manter-se calmo, pois não tinha como evitar o que se segui­ria. Estava feita a merda.

Se perguntava como poderia ter sido tão estúpido a ponto de se meter em encrenca, justo em um dos momentos mais importantes de sua vida. Garotas como aquela se metiam em apuros todos os dias. Independentemente do que lhes acontecesse, sempre haveriam outras para tomar seus lugares.

Maldizia a todos os anjos que pediram sua ajuda para aquela criatura e a todos os demônios que o induziram a aceitar a missão inoportuna. A frágil trégua que havia entre ele e aquela gente estava agora por um fio. Se ao menos houvesse sido reconhecido por eles, haveria uma chance de que o confronto não ocorresse, mas tudo cons­pirou contra.

O carro trocado recentemente e os vidros escurecidos tiveram uma parcela da culpa pelo seu não reconhecimento. Por outro lado, ninguém que o conhecesse jamais esperaria vê-lo de terno e gravata. A situação delicada para sua audiência no fórum exigiu tal sobriedade e agora restava ver o que iria acontecer.

Sem nada dizer à garota, retirou sua arma do coldre por baixo do terno e a colocou encaixada entre as pernas. Dirigia em baixa velo­cidade. Não adiantava correr, pois seu modesto carro jamais iria se desvencilhar do imponente sedan esportivo dos capangas. Intuiu que o abordariam logo à frente, num semáforo tão inútil quanto o anterior.

Reduziu a velocidade. Deixou o outro carro emparelhar e ao che­gar próximo do sinaleiro, freou subitamente. Aquilo fez com que seus perseguidores ficassem um pouco à frente ao frear também. Deixou a ré engatada e esperou. Viu o passageiro do veículo ao lado gesticular agressivamente, determinando que ele baixasse o vidro do carro.

Antes de fazê-lo, ele olhou para a garota. Tentava arrumar para si mesmo algo que justificasse o que estava prestes a fazer. Nova­mente parecia a ele estar olhando para um cadáver, o que não era verdade, pois o pavor que ela parecia estar sentindo era algo quase palpável. O pedido de socorro daqueles olhos o tocaram fundo.

Conhecia bem aquele tipo de olhar. O terror absoluto.

Quando provocado por ele, aquilo não lhe dizia nada. A situação atual, porém, o remetia de volta ao filme macabro de uma década atrás. O pesadelo infinito voltava a tomar forma diante de si, na figura do rostinho inocente destruído pela maldade. Não seriam necessários outros argumentos para o convencer. Retirou da face os óculos escuros que lhe mascaravam as feições e baixou o vidro lentamente.

Ao vê-lo, a fisionomia dos capangas mudou subitamente. Por um pequeno instante eles discutiram entre si, em voz baixa. Percebeu que o passageiro do carro, o mais velho dos dois, dizia ao motorista para irem embora dali. Chegou mesmo a ter esperança de que aquilo não iria adiante, mas durou pouco.

O motorista, visivelmente mais impulsivo, não acatou a reco­mendação do parceiro e sacou de sua arma. Ao ver o perigo sendo apontado em sua direção, Raul já sabia que o homem queria atirar. Ainda assim, impassível, manteve o sangue frio. Graças à vantagem obtida pela posição favorável dos veículos, sabia que não havia ângulo de tiro para o atingir.

Resolveu esperar um pouco mais, antes de mandar os dois ao inferno, quando um desentendimento entre os futuros defuntos resol­veu o impasse. A arma do agressor estava posicionada bem diante do nariz de seu parceiro, o qual ficou visivelmente irritado com a situa­ção. Já sem paciência, o homem empurrou a mão que empunhava a bela, imponente e ineficiente Desert Eagle na direção do painel, falando entredentes ao afoito companheiro.

– Seu demente! Vai detonar essa merda na frente do meu nariz, estourar meus tímpanos, me enfiar a cápsula quente goela abaixo e encher meus olhos de gás fervendo.

– Esse filho da puta já viveu demais. Ele desdenha da nossa cara sempre que vem para cá. Isso é ruim para os negócios. Logo qual­quer vadia ou viciado de merda vai achar que pode fazer o mesmo.

– Sabe que ele tem proteção do Baba. Vamos embora.

O semáforo já estava aberto havia algum tempo e Raul apenas olhava fixamente para os homens, esperando que eles se decidissem. O pé estava na embreagem e a arma pronta para uso. Aquilo poderia terminar bem ou mal, mas deixou o status final do desfecho à cargo de seus inimigos. Com o rosto vermelho pela ira, o motorista ainda gritou na direção dele.

– Seu bosta! Você vai morrer. O Baba não vai mandar aqui para sempre. Aproveite bem os dez segundos de vida que irão te sobrar depois que ele cair.

O carro arrancou, queimando pneus, virando na primeira es­quina à direita e sumindo definitivamente. O semáforo havia fechado outra vez, mas ninguém nos veículos de trás havia buzinado para os apressar, ou sequer chegado perto. Quem transitava por aquele lugar já sabia quem era quem e jamais faria uma tolice daquelas.

Com a mesma impassividade com que desceu o vidro, Raul o subiu. Respirou fundo, pois sabia que aquilo esteve muito perto de acabar mal. Sua proteção quase não bastou para salvar sua pele daquela vez. Os capangas do Baba haviam contestado o poder do chefe abertamente, o que seria algo impensável algum tempo atrás.

O homem estava perdendo força. Recluso desde a morte do filho, comandava tudo a partir de sua mansão, a qual era tida como uma fortaleza inexpugnável. O problema é que, no submundo do crime, quando o rei não se colo­ca à frente da plebe para mostrar quem manda, é sinal de que seu reinado está próximo do fim.

Pivô daquela cena recente, a garota ainda estava muda. Os dedos estavam crispados na pequena bolsa que, se não fosse de couro legítimo, provavelmente teria sido dilacerada pela força que era trans­ferida para ela. Raul não sabia que prosseguimento dar para aquela situação e as palavras também não vinham a ele.

O trânsito recomeçou a fluir e dois quarteirões à frente ele chegou ao seu destino. Estava diante do prédio do fórum e tinha ainda quinze minutos antes da audiência. Aquele lugar o deixava tenso, pois as piores recordações de sua vida vinham exatamente dali. Tinha ainda aquela garota no banco do passageiro, tão muda quanto ele.

A situação beirava o insólito. Não podia mandar a garota descer ali, pois selaria seu mau destino. Porém, precisava ir à sessão, mesmo sabendo que seu ganho de causa havia ficado bastante improvável, chegando às raias do impossível. Estava divorciado, morava sozinho e tentava conseguir a adoção de uma garota de rua, de doze anos.

Os pais, viciados em drogas, mal sabiam da existência da filha, mesmo nos raros momentos de sobriedade. Haviam cedido a ele os direitos sobre a criança, mas algo havia mudado. Dez dias antes tinha recebido uma ordem judicial de restrição, impedindo-o de fazer contato com a garota ou seus pais. O jogo havia virado contra ele, como sempre acontecia, mas ainda assim precisava tentar.

Diante daquele cenário, comparecer perante um Juiz, que já não gostava dele, se fazendo acompanhar por uma prostituta com cara de adolescente, reduziriam suas chances ao zero absoluto. Agora estava em um dilema. A partir do momento em que ofereceu ajuda a ela, colocou-a em perigo. O fato de ela ter aceitado seu socorro piorou em muito sua situação, que já deveria ser péssima, junto as gigolôs.

A partir dali não tinha volta. Se queria ajudar aquela criatura, tinha de ser coerente em seu próximo passo. Não tendo tempo para uma conversa franca, deixou as coisas seguirem o curso que seria normal para a situação. Quebrou, enfim, o silêncio e inquiriu-a, tentando não parecer paternal demais.

– Quanto você cobra pelo programa?

A garota olhava para ele no momento em que a pergunta foi formulada. Um tênue brilho desapareceu de seus olhos, quase que imedia­tamente. Os dedos de suas mãos eram esfregados uns nos outros nervosamente. Desviou o olhar para o painel do carro, respondendo em um tom baixo. Quase um sussurro.

– Sessenta Dólares...por não mais do que uma hora.

Aquela reação não passou despercebida. Por um momento ela deveria ter pensado que teria ajuda e havia nutrido uma expectativa. A proposta sugou-a rapidamente de volta ao mundo que era o dela. O que poderia ser visto como um mau passo dado, era encarado por Raul como um bom indício.

“Onde há esperança sempre há uma chance”. Aquela era sua premissa básica para ajudar aquela gente, sempre que podia. Não bastava vê-la se afogando e estender-lhe a mão. Ela precisava querer segurá-la. Decidiu então prosseguir com a conversa no rumo em que havia se iniciado, sem alterar suas expressões ou seu tom de voz.

– Me parece pouco. Por ser tão jovem e bonita, usando roupas e acessórios de qualidade superior, acreditei que seria muito mais caro.

– Você sabe que salvou minha pele lá atrás. Só vou cobrar porque preciso do dinheiro para me safar. Com certeza percebeu que tenho que sair dessa cidade, de qualquer maneira.

– Não sairá. A pegarão assim que colocar os pés na rodoviária, sem alarde algum, pois a polícia concederá essa cortesia a eles.

– Já percebi que a polícia daqui é podre, mas nem eles podem me prender sem um motivo.

– Alguém ligará para o 911, fornecendo sua descrição exata, te acusando de algum delito tolo. Os policiais te abordam e a conduzem até a central para averiguar a denúncia. Sem motivos para te prender, te soltam logo depois, na boca do lobo. É assim que funciona.

A garota mordeu os lábios instintivamente, tentando conter um sentimento de frustração e impotência . Raul se aproveitou do mo­mento de fragilidade e fez a sua aposta. Retirou a carteira do recuo do painel e abriu-a, pegando todo o dinheiro que havia ali. Contou as no­tas rapidamente e tomou a mão delicada da garota, depositando nela todo o valor. Mantendo suas mãos sobre a dela, disse serenamente.

– Apesar de deixar claro que uma hora é seu máximo, se quiser minha ajuda para deixar a cidade, precisa ficar comigo até amanhecer o dia. Duzentos e oitenta Dólares é tudo o que tenho. Sei que não paga nem metade do que pediria pelo período, mas é o que há.

– Eu...não posso...eu...preciso...sumir daqui. Eles vão me matar.

– Suas chances de sucesso na fuga serão bem melhores comigo. Ao amanhecer, no horário de troca do plantão policial, te coloco dentro do ônibus sem que seja notada pelos olheiros dos gigolôs.

Diante de um novo titubeio da garota, ele desistiu. Não poderia mais perder tempo, pois outra vida dependia dele. Não seria justo dei­xar de salvar quem queria ser salva, para tentar fazer algo por quem não queria. Jamais saberia por qual motivo ela era a única criatura, de todo o planeta, que não emanava luz alguma diante dele. Isso porque ela estaria morta, antes mesmo de um novo dia amanhecer.

– Faça o seguinte: não precisa me responder. Estou atrasado para uma audiência muito importante para mim. O dinheiro já é seu. Não precisa estar aqui quando eu voltar. Caso queira tentar a sorte, por sua conta e risco, trave as portas do carro ao sair.

Sem reação, a garota viu quando ele pegou a arma e colocou-a no coldre sob o terno, saindo do carro. Acompanhou-o com o olhar, en­quanto ele dirigia-se ao prédio sem olhar para trás. A impassividade daquele homem a assustava. Sabia que tais tipos eram imprevisíveis e perigosos. Uma imensa confusão de temores e vontades instalou-se nela, impedindo-a de raciocinar direito.

Morria de medo de ver chegado o dia em que confrontaria o psicopata destinado a colocar um fim em sua vida, ou então que lhe fizesse algum mal do qual não pudesse se recuperar. Por outro lado, precisava aceitar aquele trabalho. Não possuía um dólar sequer, desde que teve todos os seus documentos e dinheiro tomados, quatro dias antes, pelos cafajestes que tentaram abordá-la há pouco.

Como confiar nele? – pensou. A maneira como ele usava a arma era típica de bandidos e policiais. Poderia ser também ser um gigolô, concorrente dos outros dois. De todos os tipos de homens nojentos daquele submundo, aqueles três eram os que mais abominava. Ainda tinha o fato de ele ser protegido do chefão do crime daquele lugar, conforme as palavras que ouvira de seus perseguidores.

Com uma ponta de tristeza, concluiu que aquele que havia se proposto a salvá-la deveria ser tão podre quanto qualquer um ali. Uma boa pessoa apenas estenderia a mão a ela, sem usar o pretexto de ajudá-la para poder submetê-la à sua libido durante toda aquela noite e madrugada. Olhou desolada para o punhado de notas dobradas em sua mão, sem saber direito o que pensar.

O dinheiro criava a contradição daquilo tudo, pois lhe foi dito que poderia ir embora, se quisesse. As palavras dele, dizendo que não conseguiria sair da cidade, retornaram à sua mente. Ele tinha razão. Estava refém ali. Se saísse do carro, deixando o dinheiro lá, estaria de volta ao status anterior, só que bem piorado. Sem um centavo, presa naquele lugar e com a ira dos gigolôs sobre ela.

O pânico começava a tomá-la outra vez, só de imaginar o que aconteceria se caísse novamente nas mãos deles. A haviam machu­cado muito na única vez em que conseguiram pegá-la. Foram horas intermináveis de tortura e estupro. Aquela era a forma convencional de aqueles animais obrigarem as novatas a estarem a seu serviço ou de colocar as veteranas na linha.

Abandonada, prostrada na cama por três dias inteiros, sobre seu próprio sangue, urina, vômito e excrementos, chegou a acreditar que morreria. Em seu desespero tinha forças apenas para respirar com dificuldade, enquanto tentava suportar a dor entre curtos e ator­mentados trechos de sono. Quando conseguiu se levantar da cama, decidiu que se arrumaria e iria para as ruas naquela tarde.

Seu plano era fazer um programa rápido durante o dia e sair da cidade antes de a noite cair. Vestiu-se de maneira discreta, deixando que apenas a maquiagem e suas atitudes angariassem os possíveis clientes. Aquela estratégia sempre havia dado certo para ela, mas, para sua angústia, naquele dia não funcionou. A cada minuto que passava, seu pânico aumentava.

Pensava ter ao menos uma hora para continuar tentando, quando viu o carro passar por ela em alta velocidade e parar logo à frente. Eles saberiam que ela estava tentando enganá-los e a conse­quência para aquele “crime” era bem conhecida entre as garotas de programa dali. Agora se encontrava dentro daquele carro, sem ter para onde fugir e dependente de um desconhecido, que não lhe inspi­rava a mínima confiança.

Ainda eram cinco e meia da tarde. Aquilo significava que seriam ao menos doze horas à mercê dele, o que contrariava em muito seus princípios de segurança. Estar num ambiente fechado, acompa­nhada de um desconhecido mais forte do que ela, requeria algumas medidas de cautela. A primeira era não ficar mais de uma hora com cliente algum, mesmo que ele se dispusesse a pagar bem para tal.

A segunda era não deixar tempo para seus clientes pensarem. Para atingir esse último objetivo, fazia seus programas de maneira muito intensa. Para agilizar ainda mais aquele processo, contava com um encantador rostinho de menina, corpo escultural e sabia encenar uma atuação teatral impecável.

Aquilo tudo acabava por garantir uma execução eficiente do trabalho e ao fim o freguês nem sabia o que o havia atropelado. Quando sua parte no trato estava cumprida, aquele fogo cênico desa­parecia de seu ser. Assumia de pronto um tom de impessoalidade total, a fim de deixar claro que o vínculo estava encerrado.

Era naquele momento que o medo e o nojo da presença mascu­lina se faziam mais intensos. Quanto antes pegasse o que lhe era devido e sumisse porta afora, menos mal a situação lhe causava. Pegou-se falando consigo mesma, após aquela divagação.

– Doze horas...eu não vou conseguir...eu vou surtar.

Sua situação era muito delicada e ela, de fato, já estava surtando antes mesmo de começar. De repente, olhou para o recuo do painel do carro e viu a carteira dele, além do telefone celular revolu­cionário, que era o sonho de consumo de dez em cada dez americanos. Sabia que não tinha mais dinheiro lá, mas poderia haver cartões e aquele aparelho valia quase quinhentos dólares.

Ficou a imaginar se ele era muito tolo ou então completamente descuidado. Talvez fosse os dois. Talvez, nem um nem outro. Possivel­mente seria um homem perigoso, daqueles que ninguém seria imbecil o suficiente para tentar roubar. Ela não era ladra e sua intuição lhe dizia que não era o melhor momento para começar a ser. Levou suas ideias para outra direção que não a tentasse a fazer bobagem.

Lembrou-se das feições dele e aquilo a perturbou. A aparência, extremamente jovial, contrastava fortemente com suas atitudes. Parecia a ela estar vendo um filme, onde a dublagem era feita fora de tempo e por um dublador incompatível com o personagem. Durante o breve instante em que seus olhares se encontraram, sentiu medo.

Aquele olhar parecia atravessá-la, indo buscar sua essência indefesa dentro de seus esconderijos mais secretos. Tentou imaginar que tipo de pervertido seria ele. Desistiu de pensar ao lembrar-se do longo período durante o qual teria que submeter-se a tais perversões, fossem quais fossem. Novamente foi tomada pelo medo e a repulsa. Conformou-se, pois era o que havia.

Aquele homem era, para ela, a via mais segura de saída daquele inferno. Na manhã seguinte estaria em um ônibus, rumando para sua liberdade e era só o que importava. O preço a pagar só seria pior do que das outras vezes caso lhe custasse a vida. Afora isso, estava acos­tumada com todo tipo de podridão e sordidez humana.

Deixou-se relaxar no banco do carro e estendeu a mão à porta para travá-la. Reclinou o assento até o limite máximo, pois assim não seria vista por quem passasse por ali. A música suave a reconfortava. Não sabia que idioma era aquele das canções, mas era bom.

As imagens de seu mundo feio, cercado de pessoas feias, afas­tava-se de si lentamente. Dali para o sono e para o mundo dos sonhos foi um pequeno passo. Aquela era a única parte de sua vida que real­mente valia a pena. Os sonhos. Os seus eram sempre bons. Passaria pela vida dormindo, se pudesse, pois sempre era levada de volta para os belos jardins de suas memórias, não importando o inferno pelo qual houvesse acabado de passar enquanto acordada.

Ali o mundo real e a fantasia se misturavam. Se via outra vez sentada nos degraus da entrada de casa, com sua irmãzinha entre suas pernas no degrau abaixo. Às costas da pequenina, segurava as mãos fofinhas, ensinando-a dançar, enquanto cantavam juntas músi­cas alegres de sua distante terra natal. Em seu olhar de criança, até então, aquele era o melhor lugar do mundo

Pouco depois via-se com suas luzes a correr pelos jardins. Amava-as mais do que a si mesma e daria sua existência para protegê-las, sem pensar duas vezes. O único momento de angústia de seus sonhos era a lembrança de quando se viu deixando-as. Foi algo mais forte do que ela, pois daquilo dependia sua própria sobrevivência e a paz de suas protegidas.

Como elas estariam agora? Estariam cuidando delas direitinho, como lhe foi prometido? As protegeriam tão bem como ela mesma protegia? Sempre que tais indagações vinham em sua mente sentia-se sendo lentamente sugada de volta para o inferno. Nem todas as suas forças eram capazes de impedir aquele maldito retorno e tudo recomeçava...e recomeçava...e recomeçava, infinitamente.

11. Mai 2020 12:01:46 0 Bericht Einbetten Follow einer Story
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Fortsetzung folgt… Neues Kapitel Jeden Montag.

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