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A crise de competências em uma pandemia ou Como Bolsonaro e seu cocô dentro da pia salvou o Brasil.


Havia um filho mais velho que era o responsável por lavar a louça depois do jantar. A mãe sempre tolerou algumas louças quebradas e talheres mal lavados, afinal, o filho sempre fora assim, meio relapso.

No entanto, certo dia, a mãe foi surpreendida com um cocô boiando dentro da pia. Como sabia que o filho mais velho normalmente lavava a louça com displicência foi cobrar-lhe explicações.

O filho mais velho se eximiu da responsabilidade, disse que não era só ele que tinha acesso à pia. A mãe, mesmo sabendo que o menor não alcançaria a bunda na cuba, sabia também que eventualmente o mais velho pedia ajuda ao menor.

Percebendo que não tinha como culpar o mais velho em definitivo, a mãe, já descontente com o trabalho repetidamente mal feito, resolveu o problema da seguinte forma: trouxe um tijolinho e o colocou justaposto ao balcão-pia. Determinou que a louça, a partir daquele momento, seria de responsabilidade igualitária dos dois filhos.

Assim, imaginou, ambos se policiariam, teria sempre a louça lavada e, na eventualidade de um novo evento mal cheiroso, um deduraria o outro.

De fato, não ocorreram mais surpresas boiantes, no entanto, com o irmãozinho do lado, a lavar a louça diariamente, o irmão mais velho começou a lavar cada dia menos e, ainda, as poucas que lavava, as fazia mal.

Ante a baixa qualidade do serviço, mesmo com duas pessoas envolvidas, o pai (aparecendo finalmente em cena) cobrou explicações dos garotos.

O filho menor defendeu-se dizendo que tinha as mãos pequenas e que era a primeira vez que tinha tamanha responsabilidade. O filho mais velho, por sua vez, foi categórico: qualquer envolvimento dele com a louça já era uma vantagem para a família, afinal, desde o dia do cocô misterioso, a mãe o proibira de tocar na louça e atribuiu toda a responsabilidade ao irmão mais novo. Estava, pois, a fazer um favor.

O pai, confuso, coçou a cabeça. Olhou a louça e não sabia se era isso mesmo o determinado. Mas ainda assim, aos trancos e barrancos, percebeu que havia louça suficiente para tomar o seu café da tarde. Ao menos, concluiu, a vigilância mútua servira para o fim dos evento fecal que ouvira falar.


Participam dessa encenação, por ordem de tempo em cena:



Filho mais velho: Bolsonaro

Mãe: STF

Filho mais novo: Estados e municípios

Louça: Políticas de saúde

Cocô: eventos absurdo, como não determinar nenhuma política de enfrentamento a uma pandemia.

Pai: Sociedade Civil

Tijolinho: STF reconhecendo a competência concorrente de estados, DF, municípios e União no combate à Covid-19.

25. Januar 2021 00:45:26 0 Bericht Einbetten 0
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As vírgulas, a asma.

Longe de ser este texto um esforço gramatical e repetitivo, qual um martelo e um prego, insistentes, nas cabeças de quem porventura vier a lê-lo, escrevo uma denúncia - e aqui peço que deem à palavra todas as sirenes que lhe são de direito.

Trago-a não porque converto um crime ocorrido no subúrbio de uma capital em um papel - a ser apensado em um processo judicial-, mas porque as denúncias sempre me foram muito sedutoras. Ante um erro qualquer, a minha vontade pede a luz vermelha de um carro de polícia, um megafone, uma reportagem em algum jornal sensacionalista da bandeirantes. Há de se ter um megafone, é claro, sempre me fui afeito aos confetes.

Há uma mentira - comecemos, finalmente - que há muito tem sido contada. Uma mentira que tem destruído as redações dos asmáticos e dos sedentários; as dissertações dos alérgicos e dos gripados; os contos escritos pelos que sofrem da maldição dos brônquios inflamados; as prosas daqueles que, assim como eu, não andam tão bem dos pulmões. E há também a renite de primavera e a pneumonia, não poderia esquecê-las. Todas essas chagas em um esforço conjunto contra a literatura de qualidade!

Eu não sei de onde surgiu, mas, ao contrário do que muitos falam, as vírgulas não são marcas textuais da nossa respiração. Talvez essa observação lhe tenha parecido muito óbvia, e aí me vejo tomado por uma felicidade sem tamanho, suficiente para abafar a minha tristeza pela perda de eficácia da minha denúncia.

Ao contrário desse hipotético bom leitor, até entrar na vida adulta, havia algumas verdades absolutas que rodeavam a minha educação formal: a Terra era redonda - por mais que hoje se teime em dizer o contrário; a gravidade é inescapável e acelera a 9,8 m/s²; e as vírgulas eram marcas respiratórias. Escrevi inúmeras redação durante a minha adolescência controlando - inspira - para bem encaixar - expira - uma vírgula indecisa.

Acontece que, abraçado pela vida adulta, o suor dos concursos públicos e dos vestibulares obrigou-me a compreender as regras do uso de vírgula. Lógico que isso não me exime de derrapadas, freadas bruscas e eventuais estatelamentos contra o muro da boa escrita - e aposto que um olhar atento será o suficiente para encontrar alguns desses deslizes por aqui. No entanto, sabê-las deu-me um norte que me possibilitou desconfiar. E, muitas vezes, um "tem algo errado aqui" já é um passo confiante rumo à correição.

Pois regras são regras, adiante!

A utilização das vírgulas em um texto formal - longe de mim apontar um erro de vírgula de um embebido eu-lírico - passa pela aceitação de que elas são regras a serem cumpridas. E regras, vide regra, não permitem exceções, exceto quando o próprio texto legal as menciona. Moldar o uso das vírgulas à respiração do individuo quebra a impessoalidade da regra. Se (a) cada um respira conforme seu jeito próprio de respirar, se (b) as vírgulas são marcas respiratórias, em consequência, (c) toda e qualquer alocação de uma vírgula seria válida. Não haveria, em consequência, qualquer regra.

Como a língua portuguesa não é essa anarquia toda - utilizo a palavra aqui num sentido não político, mas no sentido bem coloquial de uma mãe que reclama da bagunça de um quarto - faz bem compreendermos algumas normas básicas, sobre as quais as demais se apoiam e se erguem.

A ideia aqui por estes escritos é fugir de uma classificação gramatical clássica, algo nesse sentido, aliás, poderia ser buscado com mais propriedade em um Bechara do que nesse humilde texto. Vamos dividir, portanto, as situações em que o uso da vírgula é obrigatória e as situações em que a sua utilização é vedada, conforme meu encadeamento lógico.

Uso obrigatório das vírgulas:

a) A vírgula obrigatória em casos de vocativo e aposto.

- Pedro, como assim você não me segue no Instagram?

- Macabéia, personagem de Clarice, teve uma epifania.

b) A vírgula obrigatória em casos de enumeração.

- Comprei um tênis, dois calçados, quatro meias e um repolho.

c) A vírgula obrigatória naqueles "textos fora do lugar".

- Toda vez que vejo você, sinto uma coisa diferente.

d) A vírgula é obrigatória nas omissões de palavras.

- Eu quero um churros, Teófilo, um carro.

Uso proibido das vírgulas:

a) A vírgula é vedada para separar sujeito e predicado.

- Diego, está voltando a escrever no Inkspired.

Pensemos nos exemplos acima como um primeiro passo, estruturas que se repetirão e que, ao serem postas em cheque na confecção de um texto, serão capazes de gerar aquela sensação de estranheza. Uma sensação que poderá ser transposta a outras estruturas oracionais, ainda que mais sofisticadas.

Embora a Língua Portuguesa e Literatura tenham sido minhas matérias prediletas durante meu anos de escola, meu raciocínio emperrava quando me deparava com as benditas orações subordinadas - essa ânsia humana de classificar tudo que for coisa! Assim, a utilização das vírgulas consoante a ocorrência das orações subordinadas - e aqui imagino que essa dificuldade é comum a outras pessoas - será tratada agora, nesse segundo momento.

Uso obrigatório das vírgulas:

a) A vírgula é obrigatória nas orações subordinadas adjetivas explicativas:

- Este texto, que é uma denúncia, deve ter mil palavras.

Uso proibido das vírgulas:

a) A vírgula é vedada para separar a oração subordinada adjetiva restritiva:

- O texto, que ele pediu está pronto.

Embora, como dito, me agrade os holofotes e as serpentinas da denúncia, achei importante ir um pouco mais adiante e trazer outros elementos. Foi a partir dos casos elencados acima que surgiu em mim a compreensão e a decorrente melhoria na utilização das vírgulas. Não tenho o objetivo de elaborar um tratado gramatical - sequer tenho condições para tanto. Há, ainda, mais restrições, mais casos dúbios e, por fim, casos facultativos para uso desses sinais. Todos esses casos não foram trazidos aqui.

Como denúncia, no entanto, creio que cumpri o meu papel perante à comunidade asmática: meus caros, não é necessário que se guiem pela respiração! Assim, espero que as regras para utilização das vírgulas lhes venham como uma dádiva. Se assim o for, não há como não se lembrar de Kant: em seguir regras, expressões típicas da racionalidade humana, ao que parece, é mesmo no que reside a verdadeira liberdade.

19. November 2020 23:35:42 0 Bericht Einbetten 0
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